Última Vez (trecho de um romance em andamento)

05 de Novembro de 2013 mario_mundi Acrósticos 787

Um único sopro pode, definitivamente, fechar todas as portas. O que há depois, constituído ou não, está depois, porta afora. Ele ficava imaginando essa frase nas mais variadas situações e a via como um axioma, matemático ou não. Depois que se fecha, que se levanta a mão, que se apertam as mesmas, que se chocam, tudo o mais é decorrência, continuação, caminho sobre o ponto-porta, irredutível em sua natureza maciça. Por isso, quando saíram daquele supermercado, nervosos diante da constante atualização do passado - palavra já sem sentido - escolheram encará-lo, um cheio de medo, e outro, cheio de negação. Não acredito que não se acredite no amor, nem acredito sequer que já deixei um dia de ser crédulo do amor, que já não tive olhos de vaca mansa tamanho é o meu deus, iludido e infalível! repetia para si enquanto roçavam seus braços pelo caminho. Verdade é que interromper a mudança paralisa outros afetos, manter-se com os pés firmes na areia, enquanto a arrebentação os vai afundando, enquanto a arrebentação nos vai afundando. Colecionar os momentos, deixando de viver outros, ou vários no mesmo; porque não nos valermos das fotos para isso, objetos tão noticiosos? Se a linguagem é construída, se o mundo, tal como cremos existir, é apenas constante junção e divórcio de sentidos, sensações e constatações, todos provisórios, porque essa gana de manter-se, durante toda uma vida, colecionador de valores mesmos, de repetições distraídas, de respostas prontas. Tão fácil pensar isso, e também tão penoso. Sua cabeça  enviava sinais de repulsão e fragilidade, colocava-lhe para sangrar as feridas, para estancá-las com sal grosso e vinagre; ele sabia que conquanto estejamos confortáveis no mundo, nada nos assole ou desgaste... mantemo-nos calmamente os mesmos. Apenas quando nos damos conta, cabeça fora d’água, é que pessoas, lugares, móveis, caminhos e portas começam a se descolar, a emitir luzes ao redor de si, a tornarem-se únicos, novos, sem nome, convites. Foi assim com o primeiro homem, surpreso com o fim de seu mutismo sibilante, será assim com o último, diante da chacina envelhecida. Nos passos que os levavam do supermercado de volta ao apartamento, afundavam seus pés o mais que podiam sobre suas imagens a fim de tentar reter aquela esperança frágil pousada sobre suas cabeças. No mais, calma é preocupante. Sinal de bonança, por mais que a ansiemos, sabemos de seu toque de utopia. Se não, nem falaríamos, as palavras seriam inúteis diante da inexorável paz.

Quando penso, pela lateral da afirmação anterior, que posso falar um mundo novo, sinto-me próximo dos psicóticos, crente de meu total controle. Afinal, se tão fácil se constituísse a criação de nova lavra do mundo, já o teriam feito, já eu mesmo o teria feito. Insertar tais palavras no mundo, por intermédio místico de meu corpo, essa talvez seja a verdadeira jornada. O rompimento brutal da continuação, da tradição, das famílias e estados. Das individualidades. É o momento em que distorço, sem esforço, o olhar que o outro me lança, é o instante de minha misericórdia sobre o outro. Para, enfim, dar lugar às descontinuidades flúidas, às tradições microexistenciais, às cyber-famílias à arquitetura orgânica de estados compostos por afinidade, por amor.

Fora do supermercado era outro mundo, todas as seguranças, novamente, haviam caído, estilhaçadas diante da exibicionista violência do mundo. Um eu recém crido, uma fé tão tenra e frágil não poderia escapar de semelhante massacre egótico. O que antes se encontrava no topo de uma árvore, ninho seguro para um pássaro ainda imberbe de penas, viu-se à mercê do imenso céu azul e vazio a encarar-lhe o mínimo bico. Mas se se fez pequeno é porque acreditava nos óbvios predadores naturais, na sua existência. Ser o objeto, manipulável, descritível, parcializado, se lhe apresentava como uma forma de vida nunca antes experimentada, nem por isso boa; o quanto afundou em sua própria saliva para trazer a parte essencial de volta à praia em que acreditava estar, mesmo parecendo um heroísmo, assumiu como missão, como um graal pós-atômico. Neste parágrafo, o despeito que a liberdade de sua parte essencial lhe causava engendrava como que a repetição necessária de um exercício de pássaro novo. A dispensar comentários sobre o merecimento, optou pelo silêncio da boca pra fora - por dentro, os mais de três mil gritos de um genocício a lhe cortarem, fundindo lágrimas, dele, e risos, alheios, jogados a sua consciência feito pedra afiada.

___Quando não estávamos juntos e eu com aquela nova e velha pessoa em frente ao teatro e eles a nos verem, a caminharem em nossa direção e a entabularem conversa sem te mencionarem, senti certo alívio pela discrição alheia. Agora, os mesmos a nos verem juntos novamente e a caminharem em nossa direção e a entabularem conversa sem mencionar a nova velha pessoa que comigo esteve provocaram em mim um mal estar de invadido, de sentir-me feio aos olhos deles.

Ou quaisquer outras palavras que me tivessem dito o mesmo; ali estava ele, com sua roupa de pássaro sem penas, crendo-se bonito para alguém, a ser achincalhado por querer um gosto simples. O mais que caminhasse, afundava num lodo escuro e pegajoso – ou era sangue, meu sangue? O gosto na garganta era de sangue, o que agora, me parece certo, já que minhas palavras tornaram-se seu corpo. O trágico sim, nunca mais o drama. Se viver era-lhe outra coisa, devia a dor ser outra do viver. Quem era ele naquela cena de romance convencional? A fiel mulher traída? Ou Lóri, aprendendo a dizer amor? Fosse quem fosse, os circuitos cerebrais já estavam marcados, haveria de precisar de outros, novos, para vencer a si mesmo. Queria fugir daquele depois do encontro, evadir-se feito um assaltante diante da porta já fechada do supermercado, mais uma. Mas assentiu e continuaram, o casal, a caminhar, falsamente incólumes, baratas num desastre nuclear global. Quando acordaram, eram, de novo, amantes.


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