Não é angustiante para um professor ter que se adaptar a esta nova sociedade, tão influenciada por novas tecnologias de comunicação sem ter conhecimento dessas tecnologias?

Uma escola para ser contemporânea não precisa ter nenhum computador em sala. Temos de trabalhar com o raciocínio, e não com dados.
Já temos um número de acesso à internet altíssimo, mesmo nas classes populares. Professores e alunos já fazem uso de tecnologia em casa, eles já acessam Facebook.

Não é este o problema. A revolução da tecnologia é uma revolução da memória externa. O que o professor tem que entender é que decorar é inútil.

Até então, precisávamos decorar para ter conteúdo.

Mas, hoje, se você não lembra do conteúdo, você o acessa pelo celular. A internet é um lugar tanto perigoso como maravilhoso.

Temos hoje é que priorizar na educação a figura do pesquisador. O objetivo tem que ser, desde os 6 anos de idade, formar pesquisador.

Desta maneira, estaremos dando a uma criança capacidade crítica para que ela faça os recortes corretos na rede. Se você mantém o modelo educacional em que o aluno é passivo, ele fica vítima desta rede.

Nossa memória não é mais um banco de dados. Ela é uma memória viva, presente. Professor não ensina, é o aluno que aprende. Isso muda as relações de poder dentro da escola.

A única possibilidade que temos para a educação é pensar no aluno pesquisador, capaz de desenvolver soluções para este mundo que desaba, que está em crise. Neste sentido, a crise é excepcional, pois precisamos de respostas que nos levem à transformação em uma sociedade mais justa e sustentável.

Não é demais esperar que o professor faça esta revolução em sala de aula tendo que seguir um currículo ainda ultrapassado?

Isso é um mito. Nas escolas brasileiras, na maioria dos municípios, não há currículo nem nunca houve.

O que o professor geralmente faz é seguir ementas que um professor contratado há 30 anos criou.

O professor diz que segue um currículo que, na prática, ninguém sabe o que é. Mas o fato é que o MEC, há pelos menos 20 anos, tem uma postura muito mais aberta com relação ao currículo.

É comum ouvir que é o ministério que não permite que os professores mudem, mas isso não é verdade.

Você em seu livro defende que as escolas tenham autonomia para definir o currículo. Mas, ao mesmo tempo, se as deixarmos totalmente livres para escolher o que será ensinado, poderemos negar a crianças o aprendizado de coisas básicas, que fazem parte do currículo mínimo, como ler e escrever bem, fazer contas...

O MEC hoje já tem os Parâmetros Curriculares Nacionais, que definem o mínimo a ser aplicado em todas as escolas. A autonomia não é 100%, claro.

Mas meu ponto é que é possível encontrar uma maneira própria de lidar com estes parâmetros. Fora este mínimo comum, cada escola tem que discutir com a sua comunidade o que é prioritário para ela.

Do contrário, vamos acabar trazendo não só médicos cubanos, mas também lideranças estrangeiras para assumir postos de comando no país.

O principal problema das grandes empresas hoje não é em contratar funcionários pequenos. O problema é não ter quem ocupe sua presidência.

Com esta educação que nos ensina a ser passivos, que precisa de apostilas para ensinar, não vamos formar empreendedores ou lideranças.

Ao final do ensino médio, no entanto, muitas escolas abandonam iniciativas pioneiras para preparar seus estudantes para a prova. Como fazer essa transição sem mudar o vestibular?

De fato, o vestibular é uma prova de conteúdo. Mas já temos o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que é um exame que valoriza a competência e a habilidade. O vestibular ainda se fundamenta na memória. Na USP, o aluno que passa é aquele que sabe o que ninguém sabe.

Mas a revolução tecnológica elimina o vestibular porque não será mais possível este modelo de prova, já que será inviável controlar se um candidato está fazendo a prova com uma pulseira transparente que dá acesso à internet, por exemplo.

As provas de seleção terão que admitir o uso destas tecnologias.

O Enem, criado para ser um modelo alternativo, não está virando justamente uma prova com aquilo que você tanto critica nos vestibulares?

Sim. Ele está perdendo suas características originais pelas pressões que vem sofrendo. Estão surgindo nos últimos anos questões que não correspondem ao que ele precisa.

A sociedade tem que defender o Enem original, menos conteudista e mais voltado para a avaliação de habilidades e competências.

Em vez de querer saber o que você aprendeu, o que precisamos é avaliar o que você sabe fazer com o que aprendeu.