O dia termina e vagarosamente os pontos de ônibus vão se tornando meros espectadores da grande cidade.
O vai e vem cessa, quem vive pela rua vai se ajeitando como pode em buracos de rato a céu aberto debaixo das marquises, são bandos de sem teto que procuram uma forma de se proteger.
O andarilho se junta ao bando de sem tetos, pois entre aqueles seres invisíveis aos olhos da sociedade o aprendizado e dividido como pão aos famintos, um velho banguelo lhe oferece parte do seu cobertor ao ser que vaga.
A fogueira e acesa e logo surgem pessoas do nada com um prato de sopa, parece que os lugares que abrigam tais indigentes e monitorado por quem tem remorso de ter muito ou tem o desejo de fazer caridade gratuita.
As conversas seguem animadas, os assuntos são variados e o velho faz piada de tudo, todos riem nem parecem moradores de rua, mas chega a hora em que ate os caridosos somem.
E as histórias de vida vão se multiplicando, um bêbado olha para o velho e pede para contar a história do seu velório, todos já ouviram varias vezes, mas não se cansam, talvez ouçam por caridade ou por falta de opção de uma TV um radio ou redes sociais.
E o velho segue animado pela plateia, o andarilho se acomoda, pois para ele e a primeira vez que vai escutar.
O desdentado segue com seu sorriso murcho, seus gestos são hilários e dão vida as palavras.
O velho se lembra do dia em que deu uma crise de catalepsia, chamaram um médico que o diagnosticou como morto, e ele podia ouvir a todos em seu leito de morte.
De inicio a choradeira foi geral, ate ele se comoveu consigo mesmo, se sentiu importante, amado e estimado por todos.
A movimentação para o velório envolveu todos os vizinhos, todo mundo queria ajudar, parentes distantes vieram, e alguns diziam, ele era tão jovem, nunca teve problemas de saúde e por ai a fora iam surgindo todo tipo de comentários.
Tinham alguns que tentavam adivinhar a doença fatídica, ah deve ter sido coração, ou derrame cerebral, hum acho que foi câncer, acho que tomou veneno de rato, ultimamente parecia ter desistido da vida.
O defunto já estava de saco cheio de tanta besteira, mas não podia se manifestar mesmo que tentasse, e a tudo observava em um silencio de morte.
O mendigo se divertia muito com a própria história, mas o andarilho ficava por entender como um drama ou um filme de terror como aquele pudesse ter se tornado uma comedia, e assim o locutor do próprio destino seguia comicamente a própria história.
O velho continuou.
A noite foi longa ouvi de tudo, por um lado foi bom eu ter a oportunidade de ouvir a todos sendo visto como um morto.
Meus filhos se preocupavam agora com quem ia pagar as contas, o empurra empurra já tinha começado antes de eu ter sido enterrado. Minha mulher não tirava o celular do ouvido e nem tinha vindo me ver ate alta madrugada.
Meus irmãos se aproximaram e começaram a conversar bem baixinho sobre as joias da minha falecida mãe que eu nem sabia que existia sobre as terras do meu falecido pai que não tinham documentação, e, portanto nunca entraram no inventario.
Os safados dividiam o que era meu bem na minha presença, eu já estava ficando furioso, porem inerte como uma pedra, as cunhadas se aproximaram com as contas feitas, tudo combinado por aquelas víboras ambiciosas, e os bananas dos meus irmãos ouviam a tudo inertes como eu.
Como a conversa se deu em torno do caixão ouvi coisas improprias de serem ditas a mais cruel das criaturas, nunca imaginei que eles fossem aquilo que eu estava tendo o desprazer de presenciar.
E noite que se segue, as surpresas não paravam nunca, ouvi praticamente de tudo, a revolta havia tomado conta do meu ser, não saberia como encarar todas aquelas pessoas novamente, percebi que vivia em um mundo de ilusões e que tudo era parte de um jogo, onde as pessoas só querem ouvir o que lhes e favorável.
O andarilho a tudo ouve, percebe que o locutor vivia da opinião dos outros e não das suas próprias ideias, pois só nos decepcionamos com o que nos e desfavorável.
O andarilho olha em direção ao mendigo e lhes diz.
Meu caro você estava se conectando pela mente ou pelo seu cérebro, pois o cérebro e preso ao seu corpo enquanto sua mente e livre, pois consciência e para se comunicar com o todo enquanto que o cérebro e limitado e só comunica com o mundo que esta ao seu redor.
O mendigo da uma de cético e continua sua história.
Como tudo passa a noite ia chegando ao fim, o corpo ficou sozinho no local do velório, eu recobrei meus sentidos me levantei do caixão, coloquei a tampa novamente e sai para dar uma volta.
Enquanto eu andava percebi que todos passaram a noite bebendo nas redondezas do cemitério, ninguém parecia se preocupar comigo, vi meus filhos vi minha esposa chegando dentro de um carro de um antigo amigo da família aos beijos.
Já havia visto e ouvido o suficiente, voltei para meu próprio velório e por ali fiquei, aos poucos todos foram voltando, o enterro era às dez da manhã, quando foi se aproximando a hora um funcionário do local veio e abriu o caixão.
Para surpresa geral o caixão estava vazio, neste momento eu aproveitei a deixa e entrei em cena, todos ficaram estáticos, eu ensandecido comecei a falar, ninguém parecia acreditar nos acontecimentos que eles mesmos vivenciavam.
E enquanto eu falava todos se entreolhavam, era chumbo para todo lado, as mascaras caíram, virou guerra de todos contra todos, todos perceberam o que eu havia ouvido.
Chegou um ponto que não suportei mais aquilo tudo, sai sem que ninguém percebesse, pois eles estavam tão envolvidos com seus problemas pessoais que nem notaram minha fuga.
Sai sem nada apenas com a roupa do corpo, me passei por um desequilibrado mental vagando de um lugar a outro, e dai em diante o mundo virou minha casa e assim será pelo resto da minha vida.
O andarilho vê sofrimento no olhar daquele ser, sabe o que uma grande decepção pode fazer na vida de quem se dedicou a família e aos amigos abdicando da própria vida.
Imagina o choque que aquele homem levou ao ouvir o que as pessoas imaginavam dele de verdade, e na realidade isso não e um caso isolado acontece com frequência em todos os meios sociais e classes.
Após a história chegar ao fim o homem perde o sorriso e sobre ele paira a nuvem da tristeza e da decepção, o andarilho se vira e tenta dizer algo que possa minimizar o sofrimento do homem.
Seja forte companheiro a vida nos oferece estes momentos para que possamos refletir sobre nos mesmos, volte para sua vida, retome-a reescreva tudo que ainda tiver tempo, nas ruas sua saúde ira debilitar, o frio a fome acabarão por te consumir não e necessário que tu voltes ao convívio como era antes apenas retome o que e seu por construção do teu trabalho.
O homem se volta ao andarilho e diz.
Eu tentei alguns dias depois do ocorrido eu me disfarcei e passei a observa-los de longe, nada havia mudado, os casais que se separaram voltaram, para todos eles parecia que nada havia acontecido.
As festas na minha casa continuaram, os churrascos de finais de semana parecem ter tomado mais força, pois minhas cunhadas que não frequentavam minha casa com constância passaram a vir com frequência.
Todos pareciam mais felizes agora que eu havia partido, me senti um peso, meus filhos começaram a trabalhar, um velho amigo meu já estava a consolar a viúva do cataléptico, o morto vivo era eu, minha vida era só corpórea, minhas emoções se foram.
O meu eu deixou de existir, ao menos nas ruas alguém me ouve, muitos dos meus convivas se encontraram comigo pelas ruas inclusive os filhos, mas ninguém me reconheceu.
Antes do ocorrido eu andava como uma vitrine de loja, um outdoor, somente roupas de marca, fazia questão de mostrar a etiqueta a grife, nunca havia passado um ano sem trocar de automóvel, andava cheiroso banhado por perfumes caros, fazia questão de ser o mais bem arrumado, nem o cinto nem o chaveiro eram desprezados e eu me sentia bem com tudo aquilo.
Eu era amado, bajulado sempre dando presentes caros e fora de época, tinha uma vida invejável, e continuaria nela ate o fim dos meus dias se não tivesse tido a crise de catalepsia.
Ah meu caro andarilho, no dia da minha morte descobri que eu tinha vida, de inicio nas ruas não foi fácil, passava noites inteiras chorando, me lamentando por tudo, fiquei tão magro quase que irreconhecível, nem a morte me quis.
Mas eu segui, tomei as rédeas do meu eu, passei a perambular de cidade em cidade, conheci muitos como eu que acabaram nas ruas por opção, acabei por aprender o quão difícil e não ter lar, em não ter um lugar para voltar ao final do dia.
Mas apendi a agradecer sempre por mais um dia, aprendi que temos mais do que merecemos, o banho passou a ser um luxo, a comida passou a ser necessidade, sempre escrevo sobre o dia a dia nas ruas e envio a jornais sobre um pseudônimo que outros acabam por assumir o que escrevo.
Mas fico feliz em saber que tudo agora faz sentido, poderia retomar meu verdadeiro eu a qualquer momento, inclusive já tive oportunidade, e talvez um dia eu me canse de vagar.
Mas sei que ainda não e hora, pois tenho muito que aprender, acabei por me redescobrir e assim o quero, percebi o quanto a vida pode ser fútil para aqueles que fingem ser o que não e, essa experiência foi uma dadiva e não um castigo, acredito que tudo que aconteceu teve um por que.
Hoje me sinto feliz e em um mundo real, sei que o desprezo dos outros e para manter aqueles que vivem no anonimato e por defesa própria, para não se contaminar.
E assim vou seguindo o meu caminho, não sei do amanha, não planejo o futuro apenas deixo me levar pelos acontecimentos, sou lucido tenho verdadeira noção do que faço.
Já e alta madrugada todos dormem, e vagarosamente o sono toma conta daqueles dois seres, a conversa se sucumbe pelo tempo, agora todos dormem, o sono e profundo.
O dia amanhece ainda tem brasas da fogueira que serviu de cobertor, o andarilho acorda e se move lentamente por entre os mendigos, não acorda ninguém e por entre os becos vai seguindo seu caminho.
Conversando consigo mesmo, a vida se segue em todas as direções, os pensamentos parecem ainda estar adormecidos, mas ele segue, não sabe o porquê das coisas acontecerem como acontece, ele vai se distanciando lentamente daquela paisagem ate sumir de vez imerso em si mesmo.


O livro contos reflexivos do andarilho do pluriverso se encontra pronto, aguardando editora para publicação.


Paulo César de Castro Gomes.
Escritor, Graduado em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós-graduado em docência universitária pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós graduado em Criminologia e Segurança Pública pela Universidade Federal de Goiás. (E-mail. paulo44g@hotmail.com)