Berçário de brinquedos: aprendendo com a ludicidad

25 de Dezembro de 2013 Gabriela Faval Artigos 3181

BERÇARIO
DE BRINQUEDOS: APRENDENDO COM LUDICIDADE







Gabriela Costa Faval



Maria Cândida Lima de Sousa


Resumo


O presente artigo é produto da experiência pedagógica das
alunas do 8º semestre do curso de Pedagogia da Universidade Estadual d Pará -
UEPA, com crianças da Creche “Lar Cordeirinhos de Deus”, especificamente as do
Berçário 1,  onde foi desenvolvido o
projeto-ação “Berçário de Brinquedos – Aprendendo a brincar”, com enfoque no ensino
por meio da ludicidade, perpassando pelo cognitivo e interação social. As
metodologias utilizadas, a partir da diagnose local, foram norteadas por
pressupostos filosóficos de Paulo Freire, como a dialogicidade e reflexão-ação;
pelo amplo conhecimento de Vera Lúcia Bertoni dos Santos acerca do brincar
enquanto instrumento pedagógico; dentre outros autores que colaboraram à
construção e efetivação deste trabalho. O resultado, obtido na relação com o
outro e o meio, foi a percepção e o reconhecimento dos valores e seus
significados para a interação entre as crianças, que refletem a convivência
familiar nesta troca. Neste sentido, a experiência na creche forneceu para além
de uma aprendizagem científica, na medida em que nos provocou a repensar nossa
ação educativa em meio aos desafios lançados, dos quais requer estratégias
criativas e o reconhecimento do outro com suas especificidades.


Palavras-chave: Brincar; Dialogicidade; Educação
Infantil; Berçário.


Introdução


Nossas escolas se abrirão
para fora. Das portas abertas nascerá o convívio com a cidade, a sala de aula
se ampliando, subvertendo limites: UMA SALA DE AULA DO TAMANHO DO MUNDO.
[Regina de Assis].


O primeiro estágio da infância, que vai do nascimento aos 24 meses de
idade, segundo Weston (2000), é o “período fundamental, no qual muitos padrões
de comportamento, atitudes e padrões de expressão emocional vão sendo
estabelecidos”. A autora também se refere a essa faixa etária como a “idade do
brincar”, por ser o período de maior interesse em jogos e brinquedos, marcado
pela exploração, pelas descobertas, pela criatividade, pelo pensamento mágico,
pela luta por independência e pela aquisição de capacidades sociais (WESTON,
2000, p.140).



O jogo é o meio
mais eficiente de ensinar uma criança. Diferente de outros métodos de ensino, o
jogo envolve inteiramente a criança na lição ao envolver todos os seus
sentidos. As crianças constroem o conhecimento interpretando suas experiências
e formando opiniões. Elas apresentam um apetite natural por informações que se
evidencia nas incontáveis tentativas que fazem para satisfazer sua curiosidade.
Se considerarmos a curiosidade como a semente do aprendizado, segue-se que ela
deve ser alimentada para que cresça.



O processo de
aprendizagem inicia-se com a entrada de informações que devem ser testadas. O
conhecimento é forjado pela instrução e pela observação e afiado pela
experiência. De igual forma o primeiro contato da criança com a escola inicia o
processo de socialização e o ambiente escolar deve servir para promover o
convívio dela com outras crianças, com as regras sociais e a compreender a si
mesma.



Para Faria & Palhares (2003) a Educação Infantil está envolvida pelo
Ensino Fundamental, o que “seria um equívoco engessá-la nos moldes do
fundamental, que lhe sucede, em uma perspectiva preparatória e propedêutica”,
já que a criança desenvolve-se em interação com a realidade social, cultural e
natural, devendo ser-lhe permitido vivê-lo, proporcionando-lhe experiências
ricas e diversificadas (FARIA&PALHARES, 2003, p.56).



A organização do espaço físico das instituições de educação infantil deve
levar em consideração todas as dimensões humanas potencializadas nas crianças:
o imaginário, o lúdico, o artístico, o afetivo, o cognitivo, etc. Portanto, o
espaço físico precisa contemplar o convívio/confronto de crianças de várias
idades e vários tipos de adultos. Devem ser espaços flexíveis e versáteis,
diferentes da casa ou de qualquer outro espaço conhecido pela criança. Que
possibilitem novidades a serem criadas e que estejam, como a infância, em
constante construção. Devem permitir, também,



O fortalecimento da
independência, a realização de atividades individuais, em pequenos e grandes
grupos, com e sem adultos; atividades de concentração, de folia, de fantasia;
atividades para movimento de todo tipo (...) destacando, principalmente, o
direito ao não-trabalho, o direito à brincadeira, enfim, o direito à infância.
(FARIA&PALHARES, 2003, p.78)


Tanto os espaços físicos quanto os profissionais destinados ao
atendimento da criança na Educação Infantil devem estar preparados para
auxiliar sua curiosidade e sua descoberta de mundo. Se a escola é uma
continuidade da família e do lar ela, no entanto, não pode refletir esses
outros espaços. A criança encontrará, no convívio com outras crianças e com
educadores, semelhanças com seu lar e sua família (costumes, atitudes,
organização, etc.), mas não porque o espaço escolar seja extensão do que ela
vivencia em sua casa, e sim porque, dentro desse convívio, o confronto entre o
igual e o diferente se realize, fazendo com que ela reflita sobre sua realidade
e as realidades observadas por ela.


BERÇARIO DE BRINQUEDOS: expressando valores no brincar


O projeto-ação realizado com crianças atendidas pela Creche “Lar
Cordeirinho de Deus”. Tais crianças são oriundas de família de baixa renda que
não apresentam condições financeiras suficientes para arcar com o custeio de
uma creche, tendo em vista que, em sua maioria os pais trabalham durante o dia
para manterem seus filhos e neste período necessitam que seus filhos recebam
atenção no que tange a alimentação, higienização e educação dos mesmos.



A creche apresenta uma dinâmica diversificada, tendo em vista que atende,
além das crianças da educação infantil, crianças encaminhadas pelo conselho
tutelar, em situação de risco, que ficam abrigadas no anexo em frente à creche,
e as provenientes do interior que se encontram em tratamento nos hospitais da
cidade de Belém do Pará. Funciona sob o respaldo legal Conselho Municipal do
Direito da Criança e do Adolescente - COMDAC e Conselho Municipal de
Assistência Social - CMAS, sob o regime de creche e abrigo.



No berçário 1, lócus da realização do estágio supervisionado, temos
crianças do sexo masculino e feminino, com idades entre 1 e 2 anos, algumas com
histórico familiar de separação dos pais e que apresentam comportamentos
diversificados, indo desde uma agressividade resultante de dificuldades de
convivência até carência afetiva evidente ou retraimento absoluto. Demandam o
ensinamento de valores e regras inerentes ao convívio em sociedade, ainda que
sejam contrapostas pela educação domestica.



O espaço ocupado pelas crianças restringe-se a uma sala retangular
contendo uma TV com DVD, seis jogos de encaixe (mesas), 24 puffes em forma de
livros, uma prateleira de parede com brinquedos e um escaninho utilizado para
guardar os pertences dos alunos (mochilas e sapatos). Ressaltamos aqui que os
brinquedos da prateleira são considerados perigosos para as crianças por
desmontarem-se em peças pequenas. Chamou nossa atenção, também, o fato de só
ser passado durante a semana um mesmo DVD infantil musical, não ocorrendo a
diversidade cultural e educacional indicadas para essa faixa etária e nível
escolar.



Através das leituras e do teatro de fantoche, foi construído um ambiente
acolhedor e propicio a construção de significados das palavras e expressões
utilizadas pelas crianças, que se encontram na fase de reprodução linguística,
considerando sua conjuntura socioeconômica. Neste sentido, estimulamos a
apreensão de valores favoráveis ao desenvolvimento biopsicossocial saudável e
incentivaremos a imaginação infantil, fazendo com que as crianças deem
continuidade à história iniciada e intervenham na contação.



Durante o projeto-ação a relação educativa foi desenvolvida com as
crianças de maneira horizontal, norteada por uma abordagem que considera os
sujeitos, co-participes, enquanto fio condutor de conhecimento; intermediado pelo
dialogo enquanto processo de troca de aprendizagem intrínseco às relações
sociais, onde o individuo expressa seu modo de pensar e agir na relação com o
meio e o outro. Nesta direção Freire (apud Souza, 2001):


[...] Ser dialógico é não
invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na
transformação constante da realidade. Esta é a razão pela qual, sendo o dialogo
o conteúdo da forma de ser própria à existência humana, está excluído de toda
relação na qual alguns homens sejam transformados em “seres para outro” por
homens que são falsos “seres para si”. É que o dialogo não pode travar-se numa
relação antagônica.



O dialogo é o encontro
amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o
transformam, e, transformando-o o humanizam para a humanização de todos. (p.
286-287)


No que diz respeito à ludicidade, suporte pedagógico ao ensino (proporcionando
o aprender a aprender de forma prazerosa), constitui-se numa ferramenta valiosa
ao crescimento do educador e do educando, ao passo que identifica os problemas
apresentados (nas situações de conflitos entre as crianças e as cuidadoras),
mediante o recurso didático e, intervindo, provoca melhoria interpessoal. Por
meio de jogos educativos as crianças: aceitam regras, esperam sua vez (ainda
que impacientes) e desenvolvem a autoconfiança, experimentando a descoberta e
inventando estratégias para passar os obstáculos impostos em cada jogada.



Enquanto atividade Lúdica, o teatro de fantoche, utilizado para a troca
de aprendizagem na creche, assumirá um papel educativo intervindo na realidade
das crianças, tendo em vista que em sua maioria apresentara comportamentos
agressivos como resposta ao tocar ou puxar de o colega (com tapas ou empurrões
seguidos de quedas). Desta forma, conforme ressalta Santos (2002): o trabalho pedagógico se constituirá na
possibilidade de oposição aos estereótipos, às soluções “pré-fabricadas” e à
mediocridade dos padrões impostos pela cultura dominante
, através da
linguagem teatral, embutida pelos elementos coletados durante a diagnose.



A visão construtivista, presente em Vigotski (apud LIMA, 2006, p.07)
elucida a compreensão do saber popular e da experiência de vida dos alunos,
ainda que crianças desenvolvam hábitos frutos do convívio familiar e com
terceiros, fomentando o sentimento de pertencimento ao ambiente em que estão
inseridos e das aprendizagens adquiridas. Na corporeidade manifestamos nosso
modo de ver o mundo, o corpo de apresenta como paciente e agente do nosso
universo cultural, favorecendo as experiências físicas, psíquicas e morais.



A educação ocorre além dos muros das escolas, sendo um processo
transversal que perpassa por todas as etapas da vida humana, desde o seio
familiar até a convivência em sociedade, convidando os sujeitos históricos à
exposição de suas curiosidades e erros – importante instrumento à construção do
conhecimento – de modo a fomentar uma aprendizagem significativa entre os
protagonistas do processo educativo.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Inicialmente, para um maior aprofundamento da temática e embasamento
teórico, realizamos pesquisas bibliográficas a teóricos do tema, para uma mediação
mais próxima do concreto. Assim, planejamos e executamos nossas atividades, interelacionando-as
com as singularidades locais - público alvo/faixa etária e meio socioeconômico/cultural
- visando uma ação critica, compartilhando responsabilidades e reconhecendo
nossas limitações (não no sentido de enfraquecimento de nossa criatividade, mas
tendo-as como desafio que requer o exercício de nosso olhar holístico sobre o
real).



Diante do exposto, foi possível denotar as carências, no que diz respeito
a relação família e educação, através da troca de experiências e aprendizagens,
que permitiu conhecermos a realidade socioeconômica e cultural das crianças e
cuidadoras – mulheres, com todo o cansaço cotidiano, importantes para os
cuidados e ensinamento de valores às crianças durante sua estadia, responsáveis
pelo preenchimento afetivo, tendo em vista, que durante a semana as mães
trabalham e somente ao final da tarde restabelecem o contato com seus filhos, sendo
este acompanhado por uma sobrecarga contraída no decorrer do dia.



O papel da pedagogia é fundamental no cotidiano da creche, ainda de
maneira paliativa nesta, ao passo que colabore para o fortalecimento das
habilidades das crianças, que expressam em sua corporeidade, comportamentos e
palavras, sua visão perante do vivido.



Auxiliar o desenvolvimento de atividades psicomotoras, através da
musicalidade e do visual, nos permitiu a apreensão de valores e normas de
socialização adquiridos pelos integrantes do Berçário 1, uma vez que, trabalhar
a interação entre as crianças proporcionou a percepção do significado de suas
ações para o outro e o meio em que estão inseridas.



Este processo foi um momento enriquecedor à nossa formação humana e,
principalmente, profissional, posto que, ainda que retratem a academia como
algo a parte da prática, intervindo pedagogicamente demonstramos quanto é
fundamental apreendermos as teorias (psicológicas, sociais, dentre outras),
para que na ação-reflexão possamos exercitá-las sob o foco da realidade
exposta, buscando recursos facilitadores ao agir profissional e fomentando a
consciência de sujeito de direito (a começar pela nossa!).


Referencias Bibliográficas


 ARANAO, Ivana Valeria Denófrio. A
matemática através de brincadeiras e jogos
. Campinas- SP: Papirus, 1996.
(Séries Atividades)


FARIA, Ana Lúcia Goulart de & PALHARES, Mariana Silveira
(orgs.). Educação Infantil Pós LDB: resumos e desafios. 4ª ed. rev. e ampl.
Campinas: Autores Associados – FE/Unicamp; São Carlos, SP: Editora da UFSCar;
Florianópolis, SC: Editora da UFSC, 2003 (Coleção polêmicas do nosso tempo; 62)


FREIRE, Paulo. Vida e obra/ organizado por Ana Inês
Souza, Giselle Moura Schnorr, Sônia Fátima Schwendler, Marilene A. Amaral
Bertolini, Targélia de Souza Albuquerque, Maria Aparecida Zanetti. São Paulo:
Expressão Popular, 2001.


LIMA, Priscila Augusta e VIEIRA,
Therezinha. Educação inclusiva e igualdade social. - São Paulo (SP):
AVERCAMP, 2006.


SANTOS, Vera Lúcia Bertoni dos. Brincadeira e conhecimento: do
faz-de-conta à representação teatral. Porto Alegre: Mediação, 2002.


SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho cientifico. 23ª
ed. São Paulo: Cortez, 2007.


WESTON, Denise Chapman & WESTON, Marck S. Aprender
Brincando: atividades divertidas para construir o caráter, a consciência e a
inteligência emocional das crianças. São Paulo: Paulinas, 2000.


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