Forças

16 de Agosto de 2011 Jeff V. Pavanin Cartas 957

Texas, 29 de Dezembro de 1999

Pessoal,

Se vocês estão lendo essa carta, quer dizer que já falaram com meu advogado e estão sabendo do ocorrido. Todos nós sabemos que o novo milênio está por vir. Estamos há poucas horas entre a paz e o fim do Universo. Essa mudança repentina acontecerá, e os sistemas de todos os países vão sofrer uma queda absurda. Gravem bem isso que estou lhes escrevendo. Ok? Pai, nossa empresa ira perder uma enorme quantidade de capital, irá ceder e falir em menos de três dias. Por isso, saquei de nossa conta conjunta o maior valor que me foi permitido pelo banco, em resposta a esse caos gerado aí fora. No porão da casa velha está escondida a maleta com o dinheiro. Se eu estiver equivocado e o mundo não acabar, quero que o senhor, como meu sócio, espere a crise passar e aplique esse valor nas necessidades de nossa família. Por favor.

Filha, você, por ser a mais velha, irá cuidar de sua mãe para mim. Tudo bem? 50% da quantia que seu avô está guardando serão destinados exclusivamente para vocês aí em casa. Espero que consiga terminar sua faculdade com parte desse dinheiro, e também espero que a crise desencadeada pela mudança do milênio não afete suas necessidades. Seu irmão precisa terminar o ensino médio e mamãe precisa continuar com o emprego na loja. O dinheiro irá ajudá-los nesse período difícil, mas não cuidará de vocês para o resto da vida. Por isso, conversei com algumas pessoas e mexi algumas peças para poder guardar pra você uma vaga naquela clínica dos seus sonhos. Eles estão precisando de profissionais da sua área de atuação, e fiz com que eles segurassem essa vaga por mais esses meses que te faltam para completar o curso. Tenho sorte de ter amigos acadêmicos.

Eu sinto em ter de deixar-lhes. Há muita pressão sobre minhas costas, tanto por parte da realidade atual quanto por meu próprio intelecto, que me trai. Não tenho mais forças para viver e ter de assistir sentado à queda da humanidade, enquanto os deuses lá em cima riem de nós e nos torturam. Não agüento também ver a minha própria família ser despedaçada de repente e nada poder fazer para impedir. Meu corpo já carece de forças para pensar e para se movimentar. Por isso escolhi um destino covarde e preferi fugir de meu sofrimento. Sei que essa saída ultimamente está sendo escolhida por muitos no mundo, e eu sou mais um dos que aderem à covardia. Peço desculpas pela minha posição atual, pela minha fraqueza e pelos meus eventuais descuidos durante a vida. Lamento ter de fazer outros sofrerem.

Agora que vocês estão com a posse desta carta, meu destino já foi cumprido. Não estou mais neste mundo. Não verei o fim do Universo. Espero encontrar vocês felizes aqui do outro lado. Despeço-me, agora, com pesar no coração e lágrimas nos olhos. Minhas forças até me impedem de finalizar este texto com dignidade – virtude essa que já não me pertence mais.

Com amor a todos vocês,
John Morris

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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