Querida
Filha-da-puta
Amada mãe,

Para mim é profundamente difícil e doloroso fazer isso, mas eu acho necessário – pra mim, claro. Eu não estava louco, nem, obviamente, estou. Mesmo que você não acredite eu amo você, ou nem me preocuparia em escrever isso.
Entendo que você estava desesperada, ainda assim não justifica. Espero que hoje você já tenha entendido e saiba que não tive culpa nenhuma. Mãe, não fui eu! Tudo aquilo foi armado (mas você sabe) só não quis que seu filho favorito fosse preso, ah, Mauro, o filho perfeito. Demorei para entender isso, hoje sei... você o amava mais.
Não negue.
Não finja.
Eu sei.
Nem tente argumentar que você não sabia de nada, eu te contei tudo, detalhe por detalhe e vi nos seus olhos que você entendera. Mas preferiu a mentira dele.
Mas o que foi que eu fiz para ser menos amado? Na prisão tive muito tempo pra pensar nisso e ... É o meu cabelo? Ele é loiro e eu não, é isso? Eu fiz alguma coisa absurdamente errada que deixou você tão absorta que não conseguiu mais me amar?
Não, eu não fiz nada.
Fiz alguma coisa na adolescência? Aquela erva que você encontrou não foi no meu quarto foi? Não. Foi no do Mauro ele comprou nove vezes nem sei de quem. Ok, eu também usei, mas vinha dele. Mas não foi isso... Você me deixou sem mesada, porque claro que a culpa era minha, sempre era... Era pra mim que você olhava estranho, eu ainda lembro daquele olhar.
Arrumei um emprego antes dele, lembra? Passei no vestibular e ele não! Nunca repeti de ano, já ele... Tenho que admitir, sempre me esforcei para ser melhor que ele, isso me fazia bem. Era meu objetivo. O problema era que nem quando eu conseguia ser melhor que ele em alguma coisa você me dava algum reconhecimento.
Mãe, você sempre foi uma dissimulada! Sempre soube fingir, fazia isso com maestria. Sempre que chegava alguma visita ou íamos a algum lugar você fingia me amar, me fazia carinho (e eu adorava, até achar aquilo falso demais e começar a odiar). As pessoas que não conviviam conosco acreditavam piamente na persona mãe amorosa, só que a mim você não conseguia enganar. E nem tentava.
Quero deixar ainda mais claro: NÃO FUI EU! Foi ele, Mauro fez absolutamente tudo, mesmo que você não acredite. Ele foi cruel, frio, calculista, porém você só viu o filho sofredor e apavorado que ele era, que ele fingia ser. É, fui acusado de tudo injustamente.
Um dos piores momentos da minha vida foi entrar naquele camburão vendo você abraçando-o sem nem sequer olhar para mim – não digo que foi o pior porque o mundo da prisão é... Eu chorei o caminho todo, cheguei à delegacia com os olhos em brasa, o delegado nem conseguiu me perguntar nada. Ele me levou a uma sala com cheiro de mofo até eu parar de chorar, às 3h da manhã.
Não vou contar o que houve na prisão. Depois que vi você dizendo ao juiz: “[...] ele sempre foi meio anormal” naquele tribunal tudo foi escuro na minha vida e não quero dividir isso com você, tu não mereces tanto detalhe.
Enfim.
Anos se passaram sem nenhuma visita sua e agora eu estou livre. Escrevendo esta carta num bar decrépito só para tentar entender o motivo de tudo isso. Sabe mãe, cheguei a pensar que a causa da minha “sorte” era o meu rosto, eu pareço muito com o meu pai, todo mundo diz, talvez esse tenha sido o grande problema, eu sei que ele foi um grande filho-da-puta e você devia lembrar dele quando me via. Talvez Freud explique. Mas eu não tenho culpa nenhuma.
Como você não quis saber antes, eis um relato muito superficial do que aconteceu aquela noite:
Eu cheguei em casa, Mauro e Ângela estavam brigando aos gritos. Eu estava com muita fome, então fui a cozinha. Eles desceram e chegaram a cozinha ainda brigando. Eu queria sair dali mas estava realmente faminto e o microondas ainda ia demorar 3 minutos. A briga deles chegou ao ponto de Ângela começar a empurrá-lo, eu interferi, tentei afastá-los. Mauro estava usando aquelas luvas de cozinha, sabe? Ele pegou o facão de cima do balcão, ele estava completamente descontrolado, com os olhos cheios de fúria. Eu tentei impedir, lutei contra ele, mas ele conseguiu me passar e chegar a ela que ainda gritava. Eu o vi enfiando aquele facão nela três vezes com lágrimas nos olhos. Puxei o braço dele, me sujei de sangue. Mauro jogou o facão para mim e eu segurei por reflexo, me cortei e larguei no chão.
Dois minutos depois ele chegou e fez toda a cena.
Entendeu?
Mas você sempre soube, só não queria ver o filhinho Mauro como um assassino.
Fiquei sabendo que hoje ele é rico, eu sou ex-presidiário, pobre e sem ter para onde ir. Cheguei nesse bar e estou aqui há duas horas e não sei como vou pagar o uísque. Mas tudo bem, eu aprendi muito na prisão.
Também soube que você tem câncer e vai morrer logo. Até o fatídico dia do episódio na cozinha, no fundo, sempre te achei incrível, sempre esperei o dia que você lembraria eu sou seu filho e me daria um abraço espontâneo. Hoje já não espero e nem quero mais isso.
Você deve estar num hospital cara, amplo, limpo, não é? Eu passei aí pela frente e até vi a tia Lúcia entrando, devia estar indo visitá-la, tudo isso só para morrer bem. Eu passei anos num chiqueiro e eu estava bem vivo. Não precisa se preocupar, mãe, eu não vou te visitar, sei que o tempo é muito cruel com a beleza feminina e eu não quero ter uma imagem sua caquética, desidratada e semimorta. Minha mente já a ilustra o suficiente.
Será que consegui te convencer da minha inocência? Tomara que sim pois quero que você se sinta profundamente culpada, a verdade é essa. Perdi minha juventude, envelheci uns 40 anos naquela cela e os amigos que fiz nunca mais verei. Agora veja como você foi filha-da-puta na minha vida.
(Desculpe-me, mas no começo da carta disse que a amava. Pura mentira. Eu odeio você, mãe, O-DE-IO! Só não queria assustar tanto logo no começo para fazer você continuar porque, agora, acho quase impossível que você desista da carta a essa altura, do jeito que você é curiosa...)
Disse que aprendi muita coisa na prisão e é verdade, agora sei matar e posso dizer que sou frio, cruel, calculista, tenho tudo para ser um assassino e serei. Sei onde seu filhinho mora e estou indo para lá (já dei um jeito no bar). Pena que quando você estiver lendo isso ele já esteja morto, mas é assim que vai ser. Não pense que vou ser preso novamente porque não vou, aprendi muito mesmo com a prisão.
Só quero deixar você viva para sofrer dia após dia com a doença e a culpa de ter fodido a vida de dois filhos.
Amorosamente,
Manu.