Falhei em tudo na minha vida. Mas
principalmente falhei comigo mesma. Veja a que ponto eu cheguei. Estou
desistindo de tudo. Estou aqui escrevendo uma espécie de despedida, pelo fato
de que não posso dizer a todos que eu desisti. Talvez alguém tentaria impedir,
e eu não quero. E eu rezo pra que ninguém sinta culpa, pra que ninguém sofra
por mim. Eu não mereço nenhuma lágrima. A culpa é minha. Eu fiz isso comigo. Eu
que deixei as coisas chegarem a esse nível. Eu que me caminhei até a beira de
um abismo, e eu, sozinha, decidi que é melhor pular. Eu já estava cansada de
tudo. Cansada de fingir tudo sempre. De carregar tanta dor. Cansada de me
maltratar. Como eu já disse, eu falhei comigo mesma. Eu acabei me importando
demais com os outros e esqueci de mim mesma. Eu fui tentando ser melhor pros
outros e esqueci de me sentir bem. Fui querendo ser boa o bastante pra todos, e
acabei não sendo nada pra mim mesma. E quando eu percebi já era tarde. Eu me
perdi. Eu deixei meu antigo eu desaparecer. E comecei a odiar o que havia me
tornado. Só Deus sabe o quanto eu me odiava. Não gostava de nada em mim. Tinha
nojo de quem eu era agora. E essa raiva foi virando dor. E, mesmo depois de eu
ter feito tudo por elas, as pessoas que disseram que estariam sempre ali
comigo, de repente sumiram. Eu estava sozinha. E estava me odiando. Comecei a
descontar toda a raiva e a dor em mim mesma. Eu excedi os limites. Agora minhas
únicas companheiras eram as lâminas, mas mesmo assim eu temia das marcas, não
queria chamar atenção de ninguém. As lágrimas foram substituídas por gotas de
sangue. Mas eu não me importava. Escondi de todos. Ninguém precisava ficar
sabendo. O tempo foi passando, e as coisas foram piorando. Estava difícil não
me importar com o que estava havendo. Eu não consegui controlar. Passei as
madrugadas molhando o travesseiro com lágrimas, mas ninguém via. Cada vez mais
sozinha, me sentindo pior e me odiando cada dia mais por ser tão fraca, tão
estúpida. Conheci pessoas novas, mas fui machucada novamente. Me tornei fria.
No final só sobraram duas pessoas que realmente se importavam. Meus verdadeiros
amigos. Meus anjos. Eles tentaram me ajudar. Mesmo distantes. Mas eu via que
isso estava acabando com eles. A cada corte que eu fazia sabia que também
estava ferindo a eles. Tentei parar. Mas eu fui fraca. Não consegui suportar a
vontade de sentir o sangue escorrer. E lá estava eu me maltratando novamente.
Fui me afastando. Era melhor pra eles ficarem sem mim. Só que eles não
entendiam isso. Eu não queria mais magoá-los. Então percebi que desistir era a
melhor solução. Tudo ia morrer comigo. E aqueles que se importavam logo iriam
esquecer. Eu iria me tornar só mais uma lembrança, as vezes boas, outras vezes
ruins. Desistir não foi uma decisão fácil. Mas foi a que me pareceu ser melhor
pra eles, e principalmente pra mim.