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07 de Agosto de 2014 crazy Cartas 996

E então você decidiu que está na hora. Ninguém em casa é o momento
perfeito. Tem uma faca, a mais afiada que voce encontrou, diante dos
seus olhos. Agora ela está em suas mãos. Antes de terminar com tudo você
pega uma folha. Procura uma caneta. Começa a escrever palavras e mais
palavras. Tenta se explicar. Pede desculpa, diz que sente muito. As
lágrimas escorrem pelo seu rosto sem parar. Caem sobre a folha e borram
algumas palavras. Seu coração se aperta, pois não quer dar adeus a tudo
aquilo que você mais ama. Você obriga a si mesmo a se desgarrar desses
pensamentos. Está na hora de ir. A carta está terminada. Você a lê e
chora ainda mais. Deixa a folha de papel sobre sua cama. Senta-se no
chão. Ele está frio. Assim como você também está congelando. Lágrimas
ainda caem pelo seu rosto, e dessa vez você não consegue controlá-las.
Agora sua mente está voltada em decidir aonde vai ser. Duas escolhas
ficam em sua mente. Mas você se decidiu pelo mais comum, pelo mais
fácil. Ergue a blusa e vê sua veia pulsando. Sorri, tão ironicamente,
mas sorri. Nesse momento milhares de coisas passam pela sua mente. Menos
a ideia de desistir. Porque você não vai. A lâmina esta na sua mão
outra vez. A coragem que muitas vezes havia sumido aparece. A veia ainda
pulsa, e é como se lhe convidasse a perfurá-la. Mais alguns segundos de
tensão, mais alguns minutos de quase-vida e você quer logo dar um
basta. Pega o objeto cortante que tem em mãos e o passa sobre seu pulso,
com toda a sua força. No principio nada. Mas então uma dor latejante
toma conta de todo seu corpo. Sangue. Numa quantidade que você nunca
tinha visto. Não para de escorrer. Então você sabe que dessa vez deu
certo. Que era o fim. Sente a morte se aproximando, e não tem um pingo
de medo. Aquilo era o esperado. Despede-se de todos. E mesmo com toda
aquela dor flamejante, sorri. Sorri porque sabe que é o fim de toda a
sua dor, de todo seu sofrimento. Acabou. Agora era hora de ser feliz.
Mesmo que fosse bem longe de onde ele sonhara ser. Seus olhos se fecham
lentamente. Sua alma se desprende. E dentro de ti sobre apenas um vazio.
O sangue para de escorrer. Mas essa historia não acaba por ai. Sua mãe
chega em casa. Grita pelo seu nome. Não obtém resposta é claro. Então
vai te procurar. Vai direto ao seu quarto. Abre a porta e grita. Aquela
cena jamais sairia da mente dela. O corpo da sua filha caído no chão. O
pulso cortado. Sangue espalhado pelo chão. Então ela chora,
desesperadamente. Se joga no chão e começa a sacudir seu corpo. Implora
pra que ainda esteja viva, mas você não está. Com lágrimas nos olhos ela
diz que você está morta. Ela sai correndo. Para onde nem ela sabe,
apenas corre. Sai de casa e vai pra longe, chorar. No dia seguinte a
noticia já se espalhou. No seu velório apareceram inúmeras pessoas. A
maioria foi apenas para dizer que sentiam muito. Uma grande parte eram
de curiosos. E mesmo que essa fosse pequena, havia uma quantidade de
pessoas que realmente estavam ali por realmente se importarem. Sua
melhor amiga entra e vê seu corpo num caixão. Gritos e mais gritos. É um
choro sem fim. O seu melhor amigo a ampara, mas nem ele mesmo consegue
ser forte. A pose de durão dele sumiu. Sua mãe está lá a base de
calmantes. Seu pai apareceu, mas não conseguiu ficar. Seu enterro
aconteceu. Mas as pessoas não iriam esquecer tão fácil assim. Um mês se
passa. Sua mãe entrou em depressão. Toma milhares de remédios, mas nada
faz com que aquele vazio se preencha. Ela tenta se manter forte, pois
ela tem que ser, mesmo que muitas vezes ela desmorone e chore pelos
cantos. A família não é a mesma sem você. E pensar que você achava que
não faria diferença. Sabe aquele professor que pegava no seu pé? Que só
implicava contigo nas aulas? Se despediu. Não aguentou ficar no serviço
nem uma semana a mais. Ele também se culpa. Aquelas meninas que te
zoavam na escola, que te chamavam de feia, de vadia e tudo mais, elas
choram todos os dias. Se sentem culpadas até o ultimo fio de cabelo.
Aquele garoto que você gostava está internado numa clinica para
viciados. A culpa foi tão grande que não aguentou e se iniciou no mundo
das drogas. Ele gostava de você, mas não quis ficar contigo por
vergonha. Sua melhor amiga aquela que chorou e gritou no seu velório,
ela se corta todas as noites. Seu melhor amigo perdeu o sono e tem que
tomar remédios fortes para conseguir dormir apenas três horas por noite.
Os dois se sentem imensamente culpados por não terem conseguido te
ajudar. Se sentem inúteis. O seu quarto ainda está lá. A carta ainda em
cima da cama. Sua mãe não teve coragem de lê-la. E mesmo com todas as
recordações que isto pode causar, depois desse um mês passado, ela
resolve entrar no seu quarto. O sangue ainda está no chão. Ela ainda
consegue ver você estirada ali, sem vida. Passa pela poça e vai até sua
cama, se senta e chora. Pega seu travesseiro e sente seu cheiro. Chora
ainda mais. Então ela pega a carta, agora meio velha, devido ao tempo
que ficou presa naquele quarto. Ela vê as letras borradas e deduz que
são por causa de lágrimas, e nisso está certa. Toma coragem, e lê suas
ultimas palavras. Mais lágrimas caem sobre o papel. Ela tenta te
entender. Mas não consegue. Ela nota que todos erraram com relação a
você. Principalmente ela, que não percebeu tudo que estava acontecendo
com sua própria filha. Termina, joga o papel na cama. Sai e pega um
balde com água. Joga no quarto e limpa seu sangue. Ela não consegue
parar de chorar. Mas faz o que você pediu na carta. Segue em frente. Um
ano se passou, e as coisas não mudaram muito. A depressão de sua mãe se
foi. Sua melhor amiga não pega em uma lamina ha meses. Seu melhor amigo
dorme bem agora. A cidade ainda não se esqueceu do seu suicídio, mas
ninguém mais comenta. As coisas parecem bem agora. Apenas parecem. Na
mente daqueles que se importavam tudo isso ainda não parece real. É um
ano sem você. É um ano de tristeza. Um ano de lágrimas. Visitam seu
tumulo e deixam flores. Eles sentem sua falta. E sempre vão sentir.
Jamais se esquecerão de você. Infelizmente você partiu ao invés de
esperar as mudanças acontecerem. Eles tiveram que te perder pra dar
valor. Enquanto você sofria em silencio, eles fingiam não se importar
com nada, mesmo se importando muito. Erro seu, sim. Mas erro deles
também.


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