UMA CARTA - IV

25 de Junho de 2013 Luciah Lopez Cartas 775

UMA CARTA - IV

Olá,

Eu preciso que me escute...


...na tarde que acabou apenas a certeza de que eu seguirei para casa ultrapassando o sol poente e a sombra tosca de cada poste deitada no asfalto negro e rachado.

Só essa brincadeira de pisar nas sombras e fugir deste olho cego que me persegue resfolegando em meus calcanhares me faz caminhar a passo rápido e certeiro, esquecendo de suas palavras, de seu sotaque e das suas brincadeiras...

Ainda tem claridade suficiente para diferenciar a fumaça que sai das chaminés e se deitam com o vento nesta leveza que divide as horas comigo. Meus sapatos estão sujos. Havia lama em algum lugar – não sei. O barro esconde a tristeza da água suja... Água de colo e pés lavados em bacias de louça pintadas...

Não sei o meu tempo. Tenho memórias que parecem não serem minhas. Nasci ontem e ninguém passeou em mim com suas mãos operárias ou dizendo coisas em meus ouvidos – coisas de mulheres! Anseios que nem sei onde começam ou se isso é somente um ruflar de asas amordaçando minha boca enquanto o porteiro cochila e a criança come os doces e balança suas tranças douradas...

Meu olhar – de silencio e quietude se perde nesta clave do sol enquanto ouço a sua melodia na mira dos meus sentidos. Pé ante pé, entro neste túnel de silencio ainda tentando achar você. Eu era uma menina, duas, três não contei – somente as vezes que eu chorei... Esse anjo de cara suja ainda sorri para mim e passa tão perto enquanto eu piso nas sombras dos postes com meus sapatos de salto altos.

Apresso-me. Você pode estar a minha espera em qualquer esquina de palavras ou numa bicicleta rompendo cercas e levando meus sonhos. Chego a casa e as portas estão abertas e um vento frio e cheio de cismas me recebe e me pergunta por que cheguei tão tarde?!

A dor de sentir essa demora, essa “tardeza” de chegar, essa ausência de calor, de abraços e beijos, essa saudade de uma paisagem que não é minha, me deixa prostrada! Agacho-me diante de mim mesma, na soleira da porta e desperto das lembranças – minhas lembranças que não serão de ninguém mais... Nem mesmo suas, pois o meu amor não é suficiente para aclamar seu coração – este lugar distante onde eu nuca estive ou nunca estarei...

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