UM OLHAR DIZ TUDO

16 de Agosto de 2011 Abreu Contos 1087

Não existe nada pior que a solidão. Tirando doença, claro! E não importa a idade. Não falo de isolamento e retração, quando a mágoa é tanta que não queremos saber de ninguém nem de nada. E não digo desse período de transição que todos conhecemos, quando estamos na busca frenética por um novo amor, a exigir qualidade e mais qualidade, diferente de tudo aquilo que já é passado. Falo daquele momento em que o limite expandiu-se por completo e as exigências vão-se reduzindo de tal maneira que uma loira já pode ser morena e em último caso já ficamos a olhar com aquele olhar de desejo até uma cabo-verde. E nenhum preconceito com as mulatas ou negras. Falo de minha preferência pessoal. Tem beleza estonteante que passa batida. Os amigos babando e eu na minha. A mulher que eu buscava era uma mulher normal em todos os sentidos. Que até passasse despercebida para os presentes e até amigos. Importante que o coração acelerasse quando os olhos estivessem a escaneá-la. Claro que estando bem vestida e disposta naquele ambiente onde todos estamos a nos testar e o interesse no limiar do limite, já era uma indução. E foi justamente ali que a conheci. Depois de muitas apresentações, o que já ocorria há mais de quatro meses, quando os amigos mais próximos iam incluindo na roda a amiga da amiga, a formar casais e parceiros para curtir em conjunto os bons momentos, que o olhar se reacendeu. E foi quando já estávamos na amiga da amiga da amiga de muitas outras amigas que os nossos olhares, enfim, se encontraram naquele interesse mútuo. E rezei para que não tivesse passado escabroso, gênio impossível e trouxesse no bojo um mínimo de cultura, além de nenhum filho alheio a atrapalhar o futuro.

Soraya era para mim um espetáculo. Uma médica beirando os trinta anos, linda, charmosa e de uma meiguice ímpar. Já no terceiro encontro poderíamos dizer que nos preenchíamos em interesse e que não importava onde era o barzinho, o show, a festa ou a praia que nada nos incomodava. E mesmo tendo aparecido pessoas interessantes dos dois sexos nessa roda sempre renovada, nada se alterou em nossos interesses. Sabe aquela coisa de não avançarmos muito a não quebrarmos um elo ainda em formação? Era o nosso caso. E mais de mês depois, ocorrera somente uma troca de carinho mais ousado, as perguntas básicas já respondidas e acatadas, a intimidade a nos levar para uma individualidade prazerosa, onde o cinema, o sorvete e o cappuccino na livraria do shopping já ampliavam os encontros, sem o incômodo e a algazarra dos amigos festeiros e indiscretos. Um dia, enfim, ela discorreu sobre sua especialidade.

– Você é o quê? – Indaguei, olhando-a bem de perto a sentir o seu frescor, aqueles olhos amendoados cor de mel interrogando abertamente os meus, como a buscar entendê-los. – Iridóloga? – Ela afirmou com a cabeça, sorrindo deliciosamente, ainda a me encarar com um olhar triunfante.

– Cada pessoa tem uma personalidade própria e cada qual tem fascínio por alguma coisa, compreende? – Pergunta-me em voz melosa e alvo sorriso franco, tocando carinhosamente minhas mãos, mal o sol se pôs na baía, o Barravento em brisa harmoniosa. – O que mais me atrai em uma pessoa é seu olhar. Não para enveredar pelos labirintos do sentir, a tentar descobrir até onde vai o seu pensar. Mas a entender de qual forma posso ajudá-lo para ter uma vida mais saudável.

– E existe essa especialidade? – Pergunto-lhe, ainda incrédulo, achando que já sabia tudo sobre ela e que nenhum mistério iria atrapalhar nossos corações, a se unirem a cada dia em franca satisfação.

– Da mesma forma que os chineses mapeiam os pés e com toques sutis descobrem problemas em qualquer órgão interno, podemos fazer o mesmo. A configuração de nossa íris é um mapa que nos mostra tanto aspectos físicos quanto emocionais e este estudo pode se constituir num importante aliado nos processos de tratamento de sintomas e doenças e, especialmente, de autoconhecimento.

– Entendo. Como a ayurveda, executada pelos indianos ou ainda a xamântica pelos indígenas. É isso? – Pergunto-lhe como a mostrar interesse e dar-lhe a entender que tenho um pouco de conhecimento sobre o assunto, a não deixá-la se superar e fugir do meu controle.

– Também. Como pode notar o estudo do que ocorre por dentro do corpo humano através de observações de áreas externas não é exclusividade da iridologia. – Seus olhos brilham ao sentir meu interesse sobre o assunto.

– Bem... Tratar órgãos e sistemas sem qualquer acesso direto a eles seria um tipo de medicina alternativa... É isso? – Busco ser cauteloso a não dar nenhum fora, pois pouco conheço do assunto e realmente o meu interesse por ela estava se ampliando.

– As pessoas receiam o que desconhecem. Esse o motivo que a iridologia ainda não está expandida e utilizada em profusão pela medicina moderna. – Ela suspira forte e volta o olhar para o reflexo da lua no mar, já a se acentuar, enquanto beberica seu drinque.

– Se chateie não meu amor... Sabe que brevemente os conceitos mudarão. Tiro por mim que pouco conhecia sobre a área e já estou interessadíssimo! – Exclamo com satisfação enquanto afasto uma mecha do cabelo de seu belo rosto com delicadeza a dar-lhe ânimo, enquanto aguardo com atenção novas explicações.

– Beto, os pacientes marcam a consulta, ouvem pacientemente minha explanação, se assustam quando o meu diagnóstico bate exatamente com os exames que ainda não me mostraram, ficam surpresos quando falo do risco que correm em curto e médio prazo caso não mudem seu estilo de vida e mais ainda quando cito com franqueza os problemas que já estão a se manifestar... E ao invés de indicarem os amigos e conhecidos, a valorizarem a iridologia, somem. Simplesmente não voltam mais. Pode?

– Mas isso muda. Verá. – Tento harmonizar o ambiente, ao sentir a tensão em sua voz.

– Marina, a médica amiga que me iniciou nessa área já tem mais de vinte anos de especialização e até hoje pena para ser reconhecida. A falta de cultura do brasileiro médio é chocante!

– Olhe, como sabe sou engenheiro na Deten e a cada seis meses a empresa nos obriga a fazer o exame periódico. E nunca ouvi qualquer menção sobre essa especialidade. E leio muito. Na verdade, leio tudo que se apresenta no dia a dia. E sinceramente, se não a tivesse conhecido, não estaria dando importância a iridologia. Na verdade, pouco ouvi falar. Mas sabe que hoje em dia o povo está se instruindo mais... Sim, mas diga-me... Como é o processo? – Tento contornar qualquer discussão, tão bem está a cada encontro.

– A íris é formada por um tecido de fibras nervosas que recebem as informações de todo o sistema nervoso. As terminações do nervo ótico são um prolongamento exterior do sistema nervoso autônomo, por onde se pode observar a constituição física e psíquica do indivíduo. E assim, depois de mapeado, elaboro um programa de desintoxicação e reconstrução do organismo.

– Interessante! E realmente tem a ver. Um olhar diz tudo... – Ela olha-me com ternura, vendo-me como aliado, já a relaxar, enquanto fico admirando seu jeito dócil, sua personalidade forte e decidida, satisfeita com minha presença, nada a incomodar ou nos afastar desse momento prazeroso. – Mas diga-me, como se iniciou esses estudos?

– Os registros mais antigos sobre o estudo da íris foram encontrados há bastante tempo, em cerâmicas no Egito que mostram desenhos de íris com sinais iridológicos. Mas foi com o médico húngaro Ignatz Von Peczeley no final do século XIX que se iniciaram os modernos estudos dessa importante área do conhecimento humano.

– E como é feito o diagnóstico? Você prescreve remédios?

– Na verdade, não fazemos uso de medicamento alopático. O mapeamento é uma oportunidade para se conhecer melhor cada indivíduo e se tomar as medidas preventivas para evitar que os desequilíbrios se instalem no organismo. A maior filosofia da iridologia é: não precisamos morrer doentes.

– Então façamos o seguinte: agende um horário para mim semana que vem porque realmente me interessei e quero fazer um exame completo. E então você me explica com mais detalhes tudo sobre a iridologia, certo? – O assunto vai ficando mais técnico e o momento é para namorar. Aproveito o intervalo e pego suas mãos com carinho e olhando-a nos olhos, aguardo sua resposta.

– Certo meu anjo... Vamos então falar de coisas mais amenas...

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