José Nilton estufou o peito, respirou fundo, colocou o laptop na pasta de pelica negra brilhando de nova, com mãos bem cuidadas ajeitou-se, elevando leve aroma da fragrância Kouros, prendeu a caneta Mont Blanc preta com detalhes em ouro no bolso da camisa Lacoste, e animado, levantou-se. Enquanto dirigia-se em passos largos para o luxuoso carro esportivo, entre cumprimentos e desejos de boa noite, pensava: “que mais quero da vida”? Quando se tem mais do que se deseja, mais felizes somos. Assim pensava. Classe média alta aos 43 anos de idade, corpo moreno ainda em forma, aparentando menos de quarenta em um rosto jovial e feliz, o bem aparado cabelo liso e sedoso a formar conjunto com um sorriso perfeito em voz rouca e sedutora, achava-se realizado. Um casal de filhos há pouco saídos da adolescência, prestes a formar-se em advocacia e medicina e uma linda esposa confiante, caridosa e carinhosa, envolvida em administrar a loja de roupas de griffe, somava esse prazer diário. Hoje precisamente era o dia da semana em que se voltava inteiramente para ela, quando saíam na noite, sempre a inventarem novidades, a terminar entre beijos e abraços, coroando com um prazeroso relax em motéis caros da cidade.

Professor Zé sabia tirar proveito da vida. Quanto mais amor oferecia à esposa, mais estava tramando algo novo e prazeroso. Lecionava nas quatro principais faculdades da capital, envolvendo os três turnos, e mal despontava o mês de abril, já tinha elegido em cada sala a novata princesa do circuito. E todo ano letivo era a mesma coisa: envolvia, iludia, cativava, auxiliava e contando sempre com a cumplicidade festiva da jovem sonhadora, dava-se sempre bem. Em horários condizentes, sempre com um álibi debaixo da manga, em local por demais seguro, se relacionava. A cada ano dava conta de três a quatro garotas, por um período médio de sete meses, onde o rompimento era sempre cordial, sem afetações. E não tinha com o que se preocupar. As jovens suspiravam por ele. Faziam fila. Poderia facilmente ampliar o leque de beldades. E antes de qualquer contato, a condição de professor renomado e muito bem casado, colocava o breve envolvimento na condição de curtição momentânea, onde todos lucravam e sempre eram bem assimiladas por ambas as partes. E assim a vida seguia.

Hoje, véspera da páscoa, Zé Nilton estava bastante excitado. Igual adolescente, olhos inquietos a brilhar enquanto falava em demasia, gesticulando de um lado a outro da sala, vez ou outra a gaguejar, ansiando que terminasse logo aquela última aula, a dar-lhe de bandeja a graciosa Taylla, loira perfeita de olhos azuis incandescentes, a faiscarem por ele continuamente. Tanto desejo sentiu por aquela perfeição, que nosso garanhão passou de sedutor a seduzido e abriu a guarda. Foi-se envolvendo de tal maneira que semanalmente a presenteava com algo de valor, geralmente o que ela insinuava desejar em encontro anterior e as brechas diuturnas destinadas a encontros diversificados, voltaram-se quase que exclusivamente para a delícia de apenas 17 anos, mal saída de pequeno interior, a perigosa e lasciva ingenuidade em flor.

Em dia frio do mês de agosto, nosso Zé estava sorumbático, olhar perdido na fina chuva que teimava em cair lá fora, a ampliar a melancolia dentro de si. A mãe tinha acabado de sucumbir a um câncer no útero e isso muito o ajudou a camuflar a intensa e labiríntica dor. Pensamentos em uma mistura de negrume pastoso afastavam previamente esposa e filhos das proximidades, a subentenderem a necessária vazão interior a uma perda que por mais esperada, nunca seria facilmente acatada. E enquanto os familiares, contritos, buscavam auxiliá-lo no que fosse necessário, Zé ficava ali, estático, continuamente a ouvir, igual lamurioso bate-estaca, o último diálogo mantido com a bela Taylla, onde não houve qualquer concordância: estava grávida de dois meses, a religião da família não permitia aborto, era menor de idade, e mais dia menos dia, o problema iria se avolumar, exigindo a imprescindível solução.

Nesse mesmo agosto a lembrar-se de dor e desgosto, um ano e alguns dias depois, a encarar a mesma chuva fina e contínua em apartamento de quarto e sala em Brotas, bairro de classe baixa, muitíssimo diferente do quatro quartos de alto padrão no Alto do Itaigara, um Zé introspectivo e desanimado ainda lutava para acatar a dura e nunca esperada transformação em sua vida. Por mais que o filho, solidário, estivesse a visitar-lhe com freqüência, sentia a ausência da filha amada e mais ainda da presença diária da doce esposa, a qual nunca lhe perdoou tamanha desfaçatez. A notícia espalhou-se lacerante, a afastar amigos de todos os âmbitos, deixando nosso renomado herói restrito a uma faculdade de segunda categoria, lecionando nas sombras da noite, onde não existia interesse ou ânimo para qualquer futura aventura. O padrão caiu a muito mais da metade, o qual se reduziu mais ainda a sustentar novo e loiríssimo rebento, o qual acompanhou ultrajada mãe para a vidinha pacata de remoto interior da Bahia.