ENTRE BROMÉLIAS E ORQUÍDEAS

22 de Agosto de 2011 Abreu Contos 974

Enfurnado em seu laboratório a maior parte do tempo, Neuton não via passar as horas e até os desejos almejados pela família passavam despercebidos; e apesar de o terceiro filho ter completado 13 anos, não via necessidade de mudanças. A esposa, mais de 26 anos atrás, já o conhecera cientista e por mais iniciante, já devotado para o bem e comodidade da humanidade. O laboratório, pertencente a uma multinacional de renome, era desconhecido para muitos da região. Foi construído sigilosamente há mais de 35 anos nas cercanias do Morro do Pai Inácio, em uma imensa rocha de arenito, bem no centro de um veio de quartzo, a oeste da Serra do Sincorá, na Chapada Diamantina, distando uns 65 quilômetros de Mucugê, pequena cidade histórica incrustada no coração da Bahia, onde residiam.

E aquela sexta-feira não foi diferente. Adriana mal viu o marido refestelado na rede da varanda da ampla casa, depois de ter tomado banho, jantado e se inteirado dos feitos dos meninos em toda a semana e já foi logo abordando o assunto que martelava sua cabeça há dois meses, desde que Junior completou 17 anos: a necessidade de mudar para um centro maior, onde pudesse oferecer a educação necessária para os filhos, principalmente agora que o mais velho necessitaria cursar uma faculdade. E mais uma vez foi rechaçada. O filho iria para a capital no final do ano, onde providenciaria a compra de um pequeno apartamento, mas do seu reduto não sairia. Ali, naquela caverna repleta de caríssimos equipamentos de primeiro mundo, a qual penetrava prazerosamente toda segunda, bem cedinho, a conviver com mais dezoito incansáveis companheiros, estava a sua razão de vida. E por nada a deixaria.

E juntando a chiadeira da mulher em prol do filho com a necessidade de exames mais precisos em sua saúde depois de tanto tempo e a chegada das férias de junho, que Doutor Neuton rendeu-se e enfim, quase cinco anos depois, deram-se férias. E em uma segunda-feira fria, triste e nublada, logo depois do farto almoço regado à carne do sol duplo pelo, o Honda Civic marrom ano 1996, igual ao restante da família, estava radiante. Até que enfim iria rever a estrada a qual conheceu em sentido inverso, mal nasceu. E assim, sem muitos contratempos, rodaram os poucos mais de 440 quilômetros em quase seis horas e mal anoiteceu entraram em Salvador em noite escura e chuvosa e de imediato assustaram-se com o volume de carros e a irritabilidade de motoristas impacientes, a mudarem de faixa continuamente sem qualquer aviso prévio, gerando um buzinaço ensurdecedor a cada metro vencido. Adriana abaixou a cabeça ao sentir aquele olhar pesado, a lançar o argumento mudo de defesa, mostrando-lhe o inconveniente de deixar uma vida pacata, onde eram respeitados e valorizados, a enfrentar essa selva anônima. Doutor Neuton já estava tenso e irritadiço, não vendo o momento de todo esse sacrilégio terminar. E mal sabia ele que a última criação desenvolvida pela equipe, seria a cobaia.

Com o desprazer estampado no semblante a contrastar dos demais membros da família, Doutor Neuton cumpriu todas as obrigações em exatos quatro dias: fez a bateria de exames onde foi diagnosticado fadiga e estresse; adquiriu para o primogênito, em longo financiamento, uma unidade quarto e sala no 4º andar – nascente – no condomínio de luxo Pituba Ville, próximo à praia, em prédio recém construído, onde uma empresa foi previamente contratada para a decoração total a ser concluída em no máximo quatro meses; levou a família para compras em shoppings, passeios em parques, zoológico, circo, litoral norte, projeto Tamar, praias variadas, além de visitas em diversos pontos turísticos; rebateu com certa veemência, por duas vezes, a trama urdida por todos para que trocasse o magoado Civic por um do ano e, naquela noite fria de uma sexta-feira com tímidas estrelas em céu mesclado, a família afastou de si em súplicas contínuas o cansaço e a insatisfação e o arrastaram para o rodízio no renomado Boi Preto. E entre sorrisos de satisfações de um lado e resmungos do outro, foram, todos já antevendo o domingo aproximar-se, um felicíssimo Civic a conduzirem-nos para a modorrenta cidadezinha.

Doutor Neuton não entendia como as pessoas poderiam sentir-se satisfeitas naquele burburinho. Tiveram de aguardar mais de vinte intermináveis minutos para conseguirem uma mesa. E enquanto toda a família deliciava-se com as iguarias ofertadas, ele ficava a analisar com um olhar de crítica mesa por mesa, tentando compreender onde estava o prazer em conviver naquela balbúrdia onde desconhecidos tentavam mostrar uma felicidade radiante a superar a satisfação da mesa vizinha. E foi nesse momento, já decidido a tirar a família daquele transe, mais de duas horas desprazerosas naquele ambiente fechado, abarrotado de hipocrisia, que se ouviu o forte grito:

– Todo mundo calado!

Todos se voltaram para a voz imperiosa e antes de esboçarem qualquer reação, de pronto emudeceram, ao se depararem com o segurança, suor brilhoso escorrendo por toda a testa, mãos à cabeça, seguidos por cinco adolescentes franzinos, todos pardos, três usando bermudas de marca, o mais velho empunhando um reluzente revólver preto; e com olhar ameaçador, ainda a empurrar o envergonhado e marrento segurança para o centro do salão, tornou a gritar:

– Meus amigos vão passar nas mesas... Coloquem no saco: celular, bobo, carteira e todo ouro. Não quero esperteza! As madames deixem suas bolsas. É só cumprir e ninguém sai ferido...

E assim quatro comparsas dividiram-se e seguiram rapidamente em lados opostos até o fundo do restaurante a retornarem, mesa por mesa, engordando os sacos de linhagem, quando enfim pode-se ouvir uma música orquestrada, bem suave, saída das caixas de som espalhadas no ambiente, quebrada unicamente pelo toque insistente de um celular, já instalado no fundo de um dos sacos, tal era o silêncio sepulcral no tenso ambiente. Passados pouco mais de cinco minutos, os quatro meliantes já estavam nas mesas finais a dar fim à tensa coleta. O líder do bando, sentindo que não haveria qualquer reação de nenhum dos presentes, buscando o que fazer, aproximou-se da mesa de Doutor Neuton, uma das primeiras na entrada do restaurante e num safanão, arrancou o rico colar de pérolas do pescoço de sua esposa. Em auto defesa, Adriana levantou-se em um grito de espanto, mãos circundando o pescoço dolorido dando por falta do colar de estimação, ainda sem entender tamanha violência.

– Quer morrer, Dona? – Vocifera o líder do bando, olhos vermelhos e esbugalhados, revólver apontando para a trêmula senhora, exigindo a defesa honrosa do esposo, o qual de pronto coloca-se a frente de uma espantada Adriana, buscando protegê-la, provocando de imediato a reação do meliante, o qual aciona o gatilho, o estampido ressoando pelo ambiente, acompanhado de gritos de estupefação.

Enquanto todos os olhares voltam-se para o cidadão caído num canto do salão, disso se aproveitam os marginais para saírem em desabalada carreira, seguidos pelo vistoso segurança, quando um senhor com cabelos cinza-chumbo, vestindo um terno bem talhado, aproxima-se em meio aos burburinhos, afasta educadamente a família de cima do infeliz e mais estupefato ainda, constata que o cidadão atingido está levantando-se e no orifício em sua camisa azul claro acima do peito esquerdo não há sinais de qualquer sangramento.

– Acalme-se Senhor! Sou médico... Convém não se mexer até a chegada da ambulância! – Exclama um preocupado senhor, tentando segurar Doutor Neuton, a mantê-lo deitado no chão frio, quando o mesmo, enfim, consegue ficar em pé, a fitá-lo meio sem jeito.

– Obrigado, mas estou bem... Somente uma dor forte no peito. Fui salvo pela camiseta... – Enquanto tenta explicar-se, Doutor Neuton abre os botões da camisa azul claro e mostra a um assombrado médico que na camiseta branca que usava por baixo não havia qualquer vestígio de furo, somente uma leve marca no lugar onde a bala deveria ter perfurado seu coração, causando de imediato um alvoroço nos presentes que se aproximavam, todos esquecendo-se momentaneamente das perdas sofridas, os três filhos e a esposa já abraçados a um aliviado cientista, em um choro convulsivo.

Doutor Neuton, recluso em sua vida pacata, nunca iria imaginar que passaria o dia do sábado chuvoso em plena capital, em um saguão de hotel de luxo, repleto de repórteres e jornalistas, envolvendo todas as emissoras de televisão do país, todos ávidos por saber que invenção espetacular seria aquela. E por mais que todos ficassem a ouvir continuamente que a camiseta que interceptou a tal bala era leve e flexível como qualquer outra congênere e estava em fases de testes e que o ocorrido foi uma fatalidade, ninguém se contentava a deixá-lo se ir. E ele insistia em dizer que a bendita camiseta, que coincidentemente colocara para testar se haveria algum incômodo no uso diário, foi confeccionada em fibras comuns de algodão, a qual passou por um processo químico que envolveu o boro, o terceiro material mais rígido do planeta, e fibras de carbono. E mal sabiam os atônitos presentes que esse mesmo material que originou a felizarda camiseta, que também bloqueava os raios solares ultravioletas, em pouco tempo iria revolucionar a indústria do planeta como um todo.

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