CONTOS DE ALDERRIOM - LIVRO I - CAPÍTULO II

24 de Agosto de 2011 Raragão Contos 1014

CONTOS DE ALDERRIOM
LIVRO I: O IMPERADOR NEGRO, O REINO DA LUA E O CAVALEIRO DOS MARES GÉLIDOS


CAPÍTULO II

***

Já era merídio e Olderim ainda não acordara. Depois que retornara, no ritual, o homem que recebera a nova alma desfaleceu, mas continuou respirando. Como o instruído, os escamados não se aproximaram do altar, se o sacrifício fosse bem sucedido ele acordaria dentro de pouco tempo, caso contrário seu corpo logo se desmancharia, e eles teriam que esperar mais um grande ciclo para tentar trazê-lo novamente, se ainda restasse algum corpo compatível. Mas se não ocorresse como o planejado essa provavelmente seria a última tentativa, a raça dos homens-cobra já não vigorava muito depois do Grande Massacre, os rumores indicavam menos de uma centena de indivíduos da espécie, e apenas um da espécie vivia dentro das fronteiras de Alderriom.

A areia das dunas corria rápida, sendo levada pelo forte vento que sibilava canções aterradoras, mesmo na metade do dia. A enorme tenda já começava a encher-se de areia, os seres verdes falavam em sua língua, oravam para que Olderim acordasse ou simplesmente conversavam. Foulsxiem estava próximo à entrada da tenda, olhava pela única abertura de pano que havia, que também era a única entrada. O céu não possuía uma única nuvem, todas eram carregadas pelo poderoso vento. Ao longe, seus olhos amarelos puderam observar uma pequena sombra surgindo nas dunas.

- Slaszassar!... Yangris aszc’iz’branunst! *(Slaszassar!... Yangris está de volta!)* - O escamado de olhos verdes aproximou-se de Foulsxiem e olhou para o horizonte ondulado e arenoso, onde a imagem negra começava tomar a forma de um humano. Os dois répteis encararam-se, sem entender a situação, saíram alguns passos da tenda e continuaram a fitar o horizonte à espera de outra sombra, mas nada aparecia, enquanto o homem aproximava-se.

O ser chegou ofegante, Foulsxiem e Slaszassar esperaram-no do lado de fora da tenda, com os capuzes abaixados. Sua pele era morena, arabesca; suas vestes brancas eram bastante pesadas para protegê-lo do sol; nariz afilado; olhos escuros; cabelos escuros e curtos; sobrancelhas grossas; barba hirsuta e desalinhada que cobria as laterais do rosto e a parte inferior, subia pelas laterais da boca, mas acabava antes de formar qualquer bigode; seus lábios estavam rachados, pelo calor do sol.

- Aonde eszstás Yangris?

- Ele... ele... – O homem arfava demais para falar. Slaszassar deu ordem para que alguém trouxesse água para o pardo. O homem bebeu água desesperadamente, a água que saía da bolsa de couro mais escorria por sua barba do que pela sua garganta. Ao recuperar o fôlego ele tornou a falar, bastante apreensivo com a reação do escamado. – Calineses mataram-no... Descobriram-o, num vilarejo perto de Filjor, o clã o capturou e o matou... eu consegui fugir... Ninguém me seguiu... Mas... Eles estão vindo para cá... Chegarão no máximo na próxima alvorada.

- O quê?... Eleszs eszstão vindo para cá! – O escamado de olhos verdes começou a preocupar-se. Por debaixo de sua manta, surgiu uma cauda verde e escamosa, que abraçou o pescoço do barbado, apertando-o fortemente e erguendo-o. O homem apertou a cauda, tentando afrouxá-la, mas não era forte o suficiente. – Como eleszs szsabiam que eszstávamoszs aqui?

- Ê.. eu... não s.. sei. – A voz do homem saía asfixiada.

- Alguém tem que ter contado para eleszs. E achxo que foi voscê!

- Não... ê... eu juro que não falei nada... el... eles têm xamãs de Cabeliron... devem t... ter usado eles para tirar a verd... a verdade de Yangris.

- Szsabes dizszer zse Yangris dezscobriu a localiszasção? – A cauda apertou com mais força.

- S.. sim!... M... mas ele ñ... não me contou... S... sei ape... apenas que é em algum lugar de Ald... Alderriom. – A cauda de Slaszassar soltou o pescoço do homem, que caiu sentado no chão, de onde ficou encarando os olhos verdes do réptil, como um cachorro medroso que espera as ordens de seu dono para não apanhar. O escamado entrou na tenda.

Foulsxiem ajudou o pardo a levantar-se. Retirou do manto uma pequena bolsa de couro, com água, entregou-a ao homem e falou em tom baixo. – Jaspen... Fuja.

O moreno não compreendeu o porquê da ordem. – Senhor por quê queres que eu... – A fala do arabesco foi cortada pela cauda de Foulxiem, que se enrolou no pescoço do homem e o ergueu, trazendo-o para bem próximo da face do réptil.

- Szse querezs viver fuja. Agora! – O pardo foi lançado contra a areia, levantou-se rapidamente e começou a correr para as entranhas do deserto, seguindo para detrás de uma duna, fugindo da visão da tenda na primeira oportunidade que pôde. Suas pegadas logo foram apagadas pelos fortes ventos.

Slaszassar voltou. – *(Aonde ele foi?)*

- *(Fugiu.)*

-*(Por quê não o impediu?)*

-*(Por quê deveria?)*

- *(Acho que teremos de comer carne de cavalo novamente esta noite.)*

Um silêncio instalou-se entre os dois, Slaszassar olhava para a areia, tentando achar os rastros do arabesco. O lagarto de olhos amarelos rompeu o silêncio com sua voz rouca e serpentiosa. - *(O quê pretendes fazer a respeito dos Calineses?)*

-*(Não sei... Não pudemos nem saber se estão em grande número. Já que Jaspen fugiu... Mas ele não durará muito... Não tinha uma gota de água, deve durar no máximo até a próxima lua...)* - O escamado olhou profundamente nos olhos de Foulsxiem. – *(Poder-me-ia dar um pouco de sua água, estou sem meu cantil aqui.)*

O manto de Foulsxiem começou a criar volume, por causa de sua cauda que se revirava por baixo do pano, num movimento rápido a cauda mostrou-se, jogando uma bolsa de couro na direção de Slaszassar, que a segurou por reflexo. -*( Beba à sua vontade.)* - A voz do réptil saiu num tom calmo, mas do tipo que não gosta de que levantem suspeitas contra sua imagem.

-*(Minha sede passou.)* - Sem dar nenhum gole, o outro réptil joga o cantil para cima, a cauda de Foulsxiem segura-o e guarda-o novamente. Antes de retornar para o interior da tenda o ser de olhos verdes torna a falar. - *(Não fale para os outros que Jaspen esteve aqui, não devemos espantá-los... Não agora.)*

-*(Poderei agüentar até o ocaso, depois disso não os deixarei despreparados, se Olderim não despertar contá-los-ei, para que decidam se querem lutar ou fugir. Somos poucos demais para sacrificarmo-nos por um corpo inerte... Além disso podemos carregá-lo, ele não parece ser tão pesado.)*

O outro lagarto começou a soltar risadas baixas. - *(Carregá-lo... Claro... Por quê não pensamos nisto antes?... Adoraria vê-lo tentar levantar o corpo.)*

- *(Por quê?... É tão pesado assim?)*

- *(Tente e verá...)* - Um sorriso macabro surgiu no rosto do réptil, que passou completamente pela abertura de entrada da tenda. Foulsxiem continuou a olhar o horizonte, o vento forte fazia os panos de seus manto e capuz esvoaçarem, a areia quente em seus pés era bastante agradável, assim como o fortíssimo calor do sol. Mas ele não estava calmo, a qualquer momento, do horizonte, poderia surgir a morte, vestida como um indefinido grupo de Calineses. Não que cada um desses homens fosse muito forte ou bom guerreiro, mas se fossem mais de trinta já dariam algum problema para um grupo de apenas oito lauvorianos. Mas o maior problema é que Calineses normalmente andam como um exército de cem homens no mínimo. Mas o motivo de sua preocupação não era os Calineses, era Slaszassar, que estava arriscando muita coisa não querendo fugir. “O ritual não funcionara nas outras dezesseis vezes. Por qual motivo funcionaria desta vez.”

***

O sol finalmente estava morrendo, os últimos pincéis de sua luz podiam ser vistos dourando o alaranjado céu poente. As estrelas começavam a surgir no céu azul-enegrecido. Os ventos já estavam congelantes, a tenda começava a se enterrar na areia. Slaszassar começava a perder a paciência.

- *(Senhor... )* - O escamado ficou sem responder - *(Senhor... Temos que ir... Se eles chegarem não teremos chances... Está na hora de sairmos daqui.)*

- *(Nós não daremos nenhum passo!... Entendeu Foulsxiem!... Nenhum!)* - A voz do lagarto esta apreensiva, medonha. A tenda encheu-se de homens-cobra, que escutaram os gritos, sete dos oito estavam presentes lá agora.

-*(Por quê ainda insistes tanto?... Ele não acordará!... Como sempre acontece!...)*

Os olhos verdes de Slaszassar demonstraram uma enorme raiva. Sua cauda surgiu rapidamente abraçando o pescoço de Foulsxiem, que colocou as mãos, tentando impedir que o lagarto o asfixiasse.

- *(Real... Realmente ach... achas que... vale nos sacrific... sacrificar?)* - A voz rouca de Foulsxiem saía quase muda. Os outros lagartos não entendiam o porquê das palavras do réptil.

Slazsassar colocava cada vez mais força em sua cauda, o esforço do réptil de olhos amarelos chegava ao limite, quando a ação dos dois foi interrompida por outro homem-cobra que entra desesperado na tenda.

-*(Eles nos encontraram...Calineses... Não sei como, mas eles nos encontraram... Estão muito próximos... Logo os batedores nos encontrarão... Precisamos fugir agora! )*

Slaszassar soltou o pescoço de Foulsxiem, fazendo-o cair de joelhos e mãos contra o chão, onde ficou puxando o máximo de ar que pôde.

- *(Cale a boca Zutszel!... Não iremos a lugar nenhum!)* - A voz do lagarto mostrava toda a autoridade que podia. Mas seu tom já demonstrava muita insanidade.

-*(Você está fora de controle! Nós temos que sair daqui agora! Ele não irá despertar! E não teremos como trazê-lo se estivermos mortos!)*

Os outros homens-cobra começaram a entrar em desespero, começaram a arrumar o máximo de tralhas, livros e poções que podiam e os colocar nas cestas de carga dos camelos. Zutszel voltou para seu posto de vigia. Os últimos raios de crepúsculo estavam desaparecendo no horizonte, trazendo a noite. Pequenas tochas foram acesas pelos lagartos que arrumavam, mas nada muito evidente ou forte, para não serem vistas pelos batedores do exército de Calineses.

- *(Tens certeza de que queres ficar e lutar sozinho?)* - A voz de Foulsxiem tentava consolar o ser de olhos esverdeados.

- *(Desculpa irmão... Eu sinto muito... Eu não devia tê-lo ameaçado... Eu não devia tê-los posto em perigo)* - Os olhos de Slaszassar mostravam-se vagos, fitando o infinito, com um enorme remorso, uma imensa dor, causados pela desesperança.

- *(Não te preocupas irmão... Vamos... Temos de fugir agora.)*

-*(Fugir?... Estou cansado de fugir... Estou cansado de viver sempre a espreita... Eu prefiro morrer... Ele nos abandonou... Ele não voltará mais... Não tenho mais motivos)* - O homem-cobra caiu de joelhos contra o chão e pôs as mãos na areia, fechando-as, tentando segurar a areia. Uma lágrima escorreu de seu olhar verde, percorrendo os caminhos que as escamas desenhavam em seu rosto, despregando-se e caindo na areia. Para um lauvoriano a lágrima era rara, era o maior símbolo da vergonha, da perda, da fraqueza, muitos preferiam a morte, que seria honrosa, mas aquele ser não estava mais se importando com isso.

- *(Não blasfemes dessa maneira... Somos poucos ademais para deixarmo-nos a morte nos levar assim de forma tão fácil)* - Foulsxiem, com a sua cauda, reergue a cabaça do lagarto, empurrando seu queixo levemente para cima. - *(Levante-se!... Não precisamos de ninguém para reconquistarmos o que é nosso!... Podemos fazer por nós mesmos... Levante-se e chega de lamúrias. )* - O réptil de olhos amarelos estendeu a mão para o outro, que, lentamente segurou-a. Pela abertura da tenda pôde-se ver o último fio de luz perecer no horizonte.

Foulsxiem estava levantando Slaszassar, quando seus olhos viraram para a direção do altar. Sua mão perdeu as forças, deixando o lagarto cair. - *(Estais maluco!... Por quê derrubara-me desta maneira!)* - O réptil não respondeu, seus olhos amarelos estavam vidrados, espantados, hipnotizados. Slaszassar não entendia o porquê, resolveu olhar para trás, para onde os olhos do irmão fitavam.

Slaszassar não acreditou no que viu, o lado direito de sua barriga começou a vibrar com mais força, por causa das batidas de seu coração, que não parava de acelerar. Uma enorme força de vontade fê-lo levantar.

Os dedos das mãos de Olderim começavam a ter espasmos, como se quisessem fechar, podia-se ver movimentos involuntários por debaixo das pálpebras do homem, sua respiração tornava-se mais profunda, leves espasmos começaram a surgir nos dedos de seus pés. Todos os homens-cobra que entravam paravam, estáticos, sem acreditar no que viam, nunca, em nenhum dos rituais anteriores o corpo mexera-se.

Como se acabasse de acordar de um pesadelo, o homem despertou, puxando todo o ar que seus pulmões podiam sorver, sentando-se sobre o altar. Seu corpo nu estava completamente sujo de sangue, já seco, que faziam seus pêlos parecerem fazer parte da sujeira. Seus olhos de centro branco brilhavam fortemente. Todos os homens-cobra ajoelharam-se.

- *(Bem-vindo mestre.)* - A voz de Slaszassar mostrava-se bastante confiante, revigorada.

Olderim ficou parado, sentado no altar ensangüentado. Seus olhos brancos observavam as próprias mãos, que se fechavam e abriam-se vagarosamente, como se tentassem sentir-se. Parecendo não ter certeza de que realmente existiam. O homem levou o polegar sujo de sangue à boca, chupando-o de forma assustadora, fechou os olhos. Puderam ser ouvidos os sons que ecoavam de sua boca, sons molhados que indicavam que ele tentava sentir o gosto do sangue.

As sobrancelhas grossas do homem curvaram-se dando-lhe uma aparência de raiva. - *(Este não é o meu corpo)* - Sua voz soou calma, mas arrogante.

- *(Sinto muito senhor, não conseguimos recuperar seu corpo a tempo)*

-*(Mas sabes onde está?)*

- *(Tudo o quê sabemos é que está em Alderriom)*

- *(E aonde nós estamos?)*

- *(Nos Callfígeos)*

-*(Temos de ir para Alderriom)*

-*(Mas somos poucos e é muito perigoso...)* - Salutz interrompeu a conversa dos dois. - *(...Temos de reunir forças antes de nos pormos a risco... E precisamos primeiro restaurar nosso poder em Sgrizalz... Precisamos de um exército antes Senhor.)* - Olderim olhou para o lagarto.

- *(Seu nome qual seria?)*

- *(Salutz senhor... Salutz)*

-*(Salutz eu quero que você aproxime-se de mim.)* - O lagarto levantou-se, estava a vinte passos do altar. Deu cinco passos e parou. - *(Dê mais um passo)*. – Salutz obedeceu. Assim que deu um passo, o corpo do lagarto tombou de joelhos, como se fraquejasse. Suas pupilas dilataram, sua respiração fraquejou.

- (*Por favor senhor... Perdoe-me... Poupe-me senhor.)* - Olderim aproximou-se do lagarto.

- *(Eu lhe perdôo criança... Mas não posso salvá-lo)*

A respiração do lagarto tornava-se ofegante, seu coração batia mais forte, espalhando uma dor terrível. Todos os seus músculos começaram a contrair, ocasionando-lhe uma dor terrível, seus berros ecoavam de forma assustadora, não só por debaixo da lona, mas pelo deserto. O s outros seres afastavam-se à medida que o homem aproximava-se.

As escamas de seu corpo começaram a despregar, escorrendo com uma baba esverdeada; seu corpo começou a secar, como se sua força estivesse sendo absorvida. Sua pele aos poucos escurecia. O ser gritava de desespero, gritar era a única coisa para o qual ainda restavam forças. Seu corpo ficava cada vez mais esquelético, sua pele praticamente deixara de existir, tornado-se apenas um líquido gosmento que escorria por todos os lados, seus olhos alaranjados vertiam lágrimas de sangue azul, assim como seus ouvidos e narinas, sua boca, além de sangue e saliva, também expelia os dentes. Feridas começaram a surgir por todas as partes de seu corpo, a pele não parava de escurecer, estava necrosando. Após alguns minutos de agonia Salutz parou de gritar, seu corpo cai no chão e continua a secar e a apodrecer. No fim o réptil fica completamente irreconhecível, não passando de um cadáver seco e apodrecido, envolto de sangue azul e gosma verde.

Olderim torna o olhar para os demais lauvorianos. - *(Quando não estou em um corpo forte o suficiente, tudo aquilo que chega próximo de mim apodrece... Lembrais-vos daquela parte: traga a morte, traga ao inferno... É nisso que dá... ... Isso me impede de alimentar-me... Ou seja: posso logo logo morrer de fome... Logo toda a força deste corpo será consumida e depois a magia... Quando o pouco de magia que este ridículo corpo possui acabar eu irei morrer... Para que isso não aconteça eu devo achar um corpo forte o suficiente para agüentar a Escuridão, o único que conheço é o meu... Ou ficar trocando de corpo, o que não é tão favorável já que não existem tantas pessoas compatíveis, como vós notastes... Então creio que devamos ir para Alderriom. )*

-*(Concordo piamente!)* - Utresiez falou em um engraçado tom de reflexo.

- *(Preparem-se o mais rápido possível. Temos de nos apressar)*

Os seis lagartos que estavam na tenda começaram a guardar tudo o que consideravam ser importante. Olderim começou a falar, dirigindo-se a Slaszassar. - *(Quantas vezes vocês já tentaram me trazer.)*

- *(Esta foi a nossa décima sétima tentativa... E creio que seria a última... Nossa espécie tentou por milhares de vezes invocar-lhe... Todas falharam)*
-*(Perdeu a fé em mim?)*

-*(Não senhor... Não completamente... Mas estávamos cansados... E estava cada vez mais difícil achar Frazizs compatíveis com o senhor... E... Poucos de nós restam... Depois do grande Massacre nosso povo apenas perde as esperanças)* - Uma lágrima escorreu novamente.

-*(Não chores criança... Não estive aqui para protegê-los no Grande Massacre... Mas prometo fazê-lo restaurar a tua espécie... Prometo-lhe vingança... Mas antes tenho de restaurar-me, esta será a única forma de conseguirmos vingança... Nós todos.)*

Gritos indefinidos puderam ser escutados passando através dos panos da lona. Foulsxiem saiu para ver o que acontecia. Zutszel chegava, correndo o mais rápido que podia.

-*(Precisamos ir agora!... Eles estão vindo... São muitos... Não poderemos contra eles... Deixem tudo para trás!... Precisamos ir agora!)* - O recém-chegado estava desesperado. O lagarto de olhar amarelo olhou para o horizonte, aos poucos começaram a surgir pontos luminosos, tochas, quando parou de contar havia oitenta, mas deveria haver quase o triplo deste número. O exército marchava lentamente, na direção da tenda. Os outros lagartos saíram para ver o exército que se aproximava.

Olderim lavava o corpo que estava sujo de sangue. Haviam deixado-lhe uma bacia, jarras com água e um pano grosso para limpar-se, também haviam deixado-lhe roupas pesadas, que pertenciam a Jaspen. Aos poucos começava a conhecer a nova forma. Seu rosto quadrado tinha uma mancha de tom escuro, da barba que estava feita. Seu nariz era afilado. Queixo levemente proeminente. Seus cabelos negros não eram muito curtos, tentavam dobrar-se em cachos, mas falhavam por ainda estarem curtos. Era encorpado, não esculpido, sua barriga ainda mostrava um excesso de gordura, ou excesso de força como ele preferia chamar, não o suficiente para deixá-lo gordo, mas esta gordura era de seu agrado já que precisaria do máximo de energia que pudesse usar. Seu tórax era vigoroso, assim como seus braços e suas pernas. Do centro de seu peito surgiam alguns pêlos, que seguiam para as regiões dos mamilos e tentavam subir, tanto para fundir-se com a pelagem das axilas como para o pescoço para fundir-se com a mancha da barba, mas não subiam o suficiente para estas uniões, sua barriga também possuía pêlos principalmente da marca umbilical para o sexo, onde, ao redor e acima deste, a quantidade aumentava massivamente. O sexo era um pouco maior do que o antigo e os testículos mais inchados, mas de nada serviria o tamanho para amar cadáveres.

Deixando a água e o pano completamente vermelhos o homem limpou-se. Pegou as vestes que lhe foram entregues. Um pano, que seria para enrolar o sexo, o substituto das calçolas. Calças pesadas. Vestes superiores de pano pesado e couro de algum animal corcunda que ele não conhecia. Os sapatos eram do mesmo couro, mas ele não quis usar. Com exceção das peças de couro, que tinham um tom marrom claro, todas as peças eram completamente brancas.

-*(Nós temos que fugir agora!)* - Olderim escutou a voz desesperada de Zutszel, vindo do exterior da lona.

-*(Não temos como fugir... Não mais... Se for para morrer que seja lutando)* - A voz de Foulsxiem também pôde ser ouvida.

Olderim saiu da tenda, os homens cobras afastaram-se, Foulsxiem afastou Zutszel, que não estava presente na morte de Salutz.

- *(Como vocês não avisaram-me que ele acordou... Sei que o clima está tenso mas... Simplesmente, quando um ritual para trazer um semi-deus que pode nos salvar funciona, costuma-se avisar aos interessados... Como avisaríamos caso descobríssemos que um de nós defeca ouro... ... Já que comentei sobre merda ... onde está Salutz?

- *(Te explico uma outra hora)* - A voz serpentiosa do ser de olhos amarelos encerrou a conversa.

- *(Todos vocês!... Voltem para a tenda...)*

-*(Mas senh...)*

- *(Voltais para a tenda agora!)*

Os répteis retornaram à tenda, de onde ficaram observando os calineses chegarem. Olderim ficou parado em frente à tenda. Um grande número de tochas aproximava. Olderim ficou apenas observando-os chegar.

Um homem, o único em uma montaria, já próximo de Olderim. Começou a falar. – Meu nome é JigLent Toflles de Arvoi, líder da patrulha da cidade de Filjor e estou sob ordens do conselho. Ordens as quais me dão o direito de procurar os Víboras em qualquer lugar dos Desertos Callfígeos... Tivemos notícias de que um grupo deles está refugiado por estes lados do deserto... Saberia me dizer se os vira em algum lugar... Ou de repente se há algum rumor sobre eles. – Estava muito escuro para que qualquer calinês pudesse ver nitidamente o rosto do homem vestido de branco.

- O que eles fizeram?

- E precisam ter feito algo? Eles são homens-cobra... Estarem vivos já é um motivo mais que suficiente para que devamos matá-los... São conspirados comedores de gente. Merecem nada mais do que a morte, a mais dolorosa possível... E então sabes onde eles estão?

- No interior da tenda.

- Muito obrigado pelo apoio... – O homem começou a gritar, dando ordens. – Homens entrem naquela tenda e matem-os. – Um grupo de soldados começou a se dirigir à lona.

- Eu não lembro de tê-lo permitido entrar.

- Se queres protegê-los morrerá com eles... Tens certeza que desejas morrer com eles.

- Não irei morrer por eles.

- Ainda bem... Pensavas que não tinha juízo... Agora saia da frente! – Os homens continuaram a andar na direção da tenda.

- Acho que compreendeu-me mal. – O brilho branco de seus olhos intensificaram, podendo ser visto por todo o exército a sua frente. Os homens que iriam começar a passar por ele tombaram. Seus gritos começaram a ser ouvidos. A agonia escapava-lhes pela boca, seus corpos começaram a secar, seus cabelos e pelos caíam, seus olhos, boca, nariz e ouvidos vertiam sangue, suas peles enegreciam e ao menor contato despregavam, como uma viscosa baba, que deixavam feridas em seus lugares. Seus corpos secaram o máximo que puderam e necrosaram bastante, era como se tivessem morrido há quase dois ciclos.

- O quê você é?! – A voz de Jilgent soou com um tom de espanto, de medo e de raiva.

- Sua morte. – Uma chama roxo-esverdeada surgiu nas mãos de Olderim. Ele começou a caminhar na direção de Jigent, o cavalo deste começou a afastar-se com medo. Os homens que ficavam a menos de quinze passos de distância pereciam, gritando desesperadamente. O cavalo do líder recuava cada vez mais.

- Matem-no! Acabem com a raça deste demônio... Mandem-no de volta para os Fralinzs (um equilvalente a inferno, entre o povo Callfígeo) ! – A voz de Jigent demonstrava muito medo, quase pavor.

Homens e mais homens seguiram na direção de Olderim, todos apodreceram enquanto soltavam seus últimos gritos. Flechas eram lançadas em sua direção, mas a madeira apodrecia antes de tocá-lo. Até mesmo espadas foram lançadas contra o ser, que com o simples balaçar dos dedos, fazia-as desviar a direção. A cada passo que dava, por causa do calor que o homem exalava, seus pés deixavam o chão do deserto com marcas incandescentes, num líquido amarelo, parecido com mel, que logo se transformavam em pedaços de vidro. Suas vestes que queimavam vagarosamente sem a presença de fogo, soltavam cinzas incandescentes que se espalhavam com os ventos.

O cavalo amedrontou-se, erguendo as patas dianteiras, fazendo o líder cair. O cavalo trotou para detrás das dunas, saindo da visão de qualquer um.

Jilgent ficou no chão, paralisado pelo medo. As chamas nas mãos do homem deixavam que seu rosto fosse visto, nele um enorme sorriso macabro surgia, deixando Toflles ainda mais apavorado e, agora, molhado. Seus homens finalmente desistiram de atacar Olderim e puseram-se a correr.

- Aonde estão indo?... Já desistiram? – A voz de Olderim soava com desprezo, seus punhos flamejantes moveram-se, como se dançassem de uma forma violenta. Das areias do deserto surgiram inúmeros focos de fogo roxo-esverdeado, que uniam-se, a chama que bailava espalhava-se rapidamente pela areia. Quase que instantaneamente as chamas alcançaram todos os homens que decidiram fugir.

Quando tocados pela chama os homens caíam e debatiam-se de dor, seus olhos logo ficavam vermelhos e soltavam lágrimas. Sentiam as chamas em seu corpo, sentiam-na consumir sua pele, seus ossos e suas vísceras, mas a chama parecia não causar nenhum mal aos seus corpos, mas ainda assim os gritos eram entoados com um grande pavor. Piras ambulantes, era nisso que haviam se transformado. Uma leve névoa esbranquiçada começava a brotar de seus olhos, de suas narinas, de seus ouvidos e de suas bocas. Quando a névoa parava de sair o fogo apagava. Fazendo-os cair no chão, de joelhos, ou deitados; seus corpos saíam incólumes ainda respirando. Seus olhos estavam completamente dilatados. Da boca de alguns saía baba. O fogo também deixara a areia num líquido amarelo e incandescente, nos quais os corpos afundavam parcialmente, quando o líquido encontrava em contato com o couro dos corpos, queimava-o, deixando bolhas de queimadura e até faziam a pele derreter; mas os corpos não demonstravam qualquer dor. Logo o líquido endureceu, virando grandes pedaços de vidro, que logo se quebravam em pequenos cristais de vidro.

O único que não fora atingido pela chama fora Jilgent, que tremia no chão, sobre a própria urina. Seus olhos estavam marejados de medo. Ele estava completamente sem ação, sequer pensou na idéia de desembainhar a cimitarra que carregava na cintura.

De dentro da tenda os lagartos puderam apenas ver o brilho roxo, que atravessara o grosso pano verde da lona, e ouvir o desespero, a agonia e a excruciante dor dos gritos dos calineses. Quando o silêncio dominou o recinto eles saíram da tenda. O calor ainda impregnava o lugar, mas os ventos aos poucos conseguiam levá-lo para longe. A cena que viram era grotesca, inúmeros corpos podres, e vários corpos que estavam parcialmente cobertos por vidro, a pele onde o vidro estava cobrindo mostrava-se deformada, queimada e com enormes bolhas de sangue, alguns ainda respiravam, mas não reagiam a nada.

Olderim estava agachado, com as mãos sobre os joelhos, sem sentar-se no chão, encarando Jilgent, que estava ainda no chão a dezesseis passos de distância do primeiro, molhando-se cada vez mais. O homem levantou-se e dirigiu-se para os répteis. Suas vestes estavam com pequenos buracos, provocados pelo forte calor.

-*(Não temos mais tempo a perder... Temos que ir para Alderriom agora.)*

-*(À sua vontade mestre... Já arrumamos tudo de que precisaremos... Mas não sabemos que tipo de montaria o senhor é capaz de montar.)* - A voz de Slaszassar nunca soara com tanta admiração.

- *(Meus pés serão o suficiente.)*

-*(O quê faremos com este aqui?)* - A voz de Zutszel soava faminta. Ele segurou o homem pelo braço e ergueu-o, lambendo a lateral esquerda da face de Jilgent, que nada fez para reagir, também não conseguia entender uma palavra que saía da boca daqueles seres.

-*( Levem-no conosco... Ser-me-á útil... E não toquem nele!... E sinto-lhes informar... Mas a partir de agora não poderão mais comer carne humana... Se quisermos humanos do nosso lado devemos não comê-los.)* - Utresiez baforou de raiva quando Olderim terminou de falar. - *(Alguém tem algum problema com isso!)* - Os olhos negros de centro branco do ser demonstraram raiva, fitando o olhar de Utresiez.

-*(Problema algum... Estou sempre aberto à novas dietas... e... ainda estou um pouco gordo, é melhor eu me cuidar... É uma excelente oportunidade não achas?)* - A voz dele saía com resquícios de medo.

***

A noite tinha apenas começado. Jilgent estava amarrado e fora colocado para caminhar, sendo puxado por um dos camelos da caravana dos lagartos. Slaszassar, sobre a corcunda de um dos camelos, pôde escutar as reclamações que o estômago de Olderim fazia. De uma de suas cestas tirou uma sacola, de dentro dela retirou um fruto vermelho.

- *(Senhor... Não sei se adiantará... Creio que sejam apenas rumores, mas vale arriscar...)* - O lagarto jogou o fruto para o homem que segurou a fruta e ficou encarando-a com surpresa. A fruta não apodreceu.

-*(Aonde conseguiras isto?)* - O homem assim que terminou de falar deu uma mordida no fruto. Um líquido azulado jorrou da fruta, sujando-lhe o queixo e as vestes.

-*(É um fruto de Magnolem)*

Com a boca cheia o homem voltou a falar. - *(Pensei que esse frutos fossem negros e venenosos, não são?)*

- *(Não estes... Os frutos vermelhos só amadurecem durante a Lua vermelha, que indica os invernos de grande ciclo... Mas sabemos que a Lua de Sangue só aparece a cada dez anos e no inverno, e a época que as Magnolem florescem é no verão, logo é muito difícil encontrar esse tipo de fruto... Mas os boatos dizem que eles nunca apodrecem... Nunca )* - Um sorriso de orgulho surgiu na face do homem cobra.

Olderim deu mais uma mordida, o gosto era azedo e amargo e salgado, mas o homem não importou-se, há centenas de grandes ciclos não comia nada. Uma lágrima escorreu de seus olhos.

-*(Algum problema mestre?)*

-*(Não, estou apenas pensando como tudo conspira a nosso favor... ... ... Este anos é um ano de Lua Sangrenta?)*

-*(Sim senhor)*

-*(Então já sei o nosso principal alvo)*

-*(Queres mais frutos nas terras dos Magnollium?)*

-*(Não! ... ... O que quero é... Vingança)* - O homem continuou a lambuzar-se com a fruta. A caravana seguiu seu caminho, sendo acompanhada pelos fortes ventos que sussurravam-lhe palavras sombrias, e levavam suas palavras de justiça.

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