CONTOS DE ALDERRIOM - LIVRO I - CAPÍTULO III

26 de Agosto de 2011 Raragão Contos 1149

CONTOS DE ALDERRIOM
LIVRO I: O IMPERADOR NEGRO, O REINO DA LUA E O CAVALEIRO DOS MARES GÉLIDOS.

CAPÍTULO III

***

A noite corria, seu céu estrelado cintilava muito, mas a lua encobria-se por detrás de nuvens acinzentadas que manchavam a negritude.

- Vossa Alteza Carciem Elandore Magnollium! – A voz do emplumado ecoou o mais alto que pôde. Todos no Grande Salão levantaram-se e viram a mulher passar pelas portas de entrada. Sua tez clara mostrava-se mais lisa do que jamais viram. As maçãs de seu rosto estavam com um tom levemente róseo, provavelmente causado pelas leves tapinhas que dera nas próprias maçãs, como sua ama ensinara-a, para parecer mais bela. Seus lábios estavam mais rubros do que nunca, provavelmente por causa do sangue que fizera escorrer do próprio dedo para passar nos lábios, apenas para embelezar a aparência, outro dos truques da velha senhora, que estava de pé, ao longe, próxima às entradas da cozinha, rejubilando-se com a beleza de Carciem, “Minha obra-prima, arte de beleza incomparável.”, como gostava de dizer. Seu vestido que arrastava a cauda no chão do Salão, era branco com detalhes prateados, cobria praticamente todo o seu corpo, deixando a mostra apenas seus pescoço e colo. Neste um grande pingente de pedra branca translúcida estava irradiando luz e beleza, bem no meio de onde deveria haver um decote que o vestido não tinha, dependendo da luz que o atingia, ele soltava feixes de cores diferentes, de tons arco-íreos. Sua coroa, também branca, com detalhes em prata e em bronze, também possuía o mesmo tipo de pedras de seu colar, mas em tamanhos menores, mas ainda com faíscas arco-íris de luz. Seus olhos prateados não encaravam ninguém, “Mostre-se desinteressada em qualquer pessoa, isso lhe faz parecer mais elegante, mais desejada, quando não lhe damos atenção eles começam a tentar capturá-la, sem saber que foram eles que foram capturados na sua armadilha.” como dissera sua ‘mestra’.

O Grande Salão estava lotado. Todos os seus setecentos lugares estavam ocupados, por quase mil pessoas, a corte crescia a cada ano. O número de bancos? Não tanto. A criadagem trazia pratos e mais pratos da cozinha central. A maioria dos convidados eram homens, apenas algumas poucas dezenas de mulheres, da alta nobreza, puderam comparecer, apenas para fazer companhia à Carciem, uma vez que não poderia ser a única mulher no jantar. As demais não compareceram, não por estarem proibidas de comparecer, mas porque a maioria dos homens não aceitava que suas mulheres fossem alvo dos olhares e das mãos de senhores bêbados, pois caso este fosse um senhor poderoso, o esposo ou pai, de nobreza inferior, não poderia fazer nada contra este senhor mais importante, a não ser reclamar para o rei, que puniria o desrespeitoso; porém a vingança deste chegaria. Então eles apenas consentiam os abusos e tentavam deixar suas esposas e filhas o mais longe possível do público superior. Mas as mulheres mais abastadas, nenhum homem tentava por as mãos nelas, contentavam-se em olhá-las, a não ser que já estivessem bêbados demais, nesse momento partiriam para as brigas.

Corteus estava sentado à mesa central, na maior cadeira, mas não na ponta, no meio, exatamente no meio. Ao seu lado direito estava Menádipos, o filho mais velho, ao lado deste estavam Mênacron e Táilon. A cadeira à esquerda de Corteus estava vazia, à espera de Carciem, que ia a seu encontro, ao lado da cadeira vazia estavam Carceus e Craust, que haviam mudado de posição para que este pudesse conversar facilmente com Alden, que estava sentado ao seu lado.

Elandore fez as reverencias formais e sentou-se. O banquete teve inicio. O fermentado de agrimono deixava os homens cada vez mais bêbados, mais até do que o vinho, que era deixado um pouco de lado, por ser bastante comum na região. Javalis banhados a mel, ou a vinho, frango ao molho vertjus, codornas com especiarias do Vale das Almas, mas os pratos mais devorados eram a carne de alce e a carne de boi, que apenas as famílias mais abastadas podiam criar ou caçar, os pães eram trazidos aos montes e duravam pouquíssimo tempo, eram devorados juntos ao mingau de aveia ou de trigo e com as sopas. Os quitutes eram doces feitos de algumas frutas locais.

A maioria dos convidados já estava imunda. Totalmente sujos de comida, que, com exceção das sopas e mingaus que precisavam do auxílio de colheres, era devorada com o auxílio das mãos. Apenas as mulheres, que estavam em uma mesa separada, conseguiam não sujar-se e um convidado especial do rei. Um homem alto, forte, de pele clara, olhos castanhos e barba castanho-avermelhada. Um fino aro de aço vermelho circundava sua cabeça trazendo a silhueta de um dragão vermelho, que parecia morder a própria cauda bem na testa do convidado. Ele chegara exatamente neste anoitecer, não teve tempo nem para retirar a armadura vermelha que vestia, retirou apenas o elmo, trocado pela corola, e a capa branca, para não sujá-la. Tornara-se o principal assunto na mesa das damas, e seus soldados o principal motivo de conversa entre os soldados do rei que jantavam juntos nas salas externas, próprias para os soldados.

Trovadores cantavam belas músicas sobre a beleza dela ou sobre histórias de heróis do Reino da Lua. Histórias sobre Oberon Dexfol, que fazia parte do exército de Carcsult Magnollium, pai de Corteus, Oberon foi o herói que decapitou a cabeça de Szcalizs o Rei Víbora.

Craust retirou-se da mesa, para falar com sua esposa Karim. Lalbor continuou a beber sua cerveja de agrimono. Sem que ele percebesse, Carciem sentara-se ao seu lado, no lugar de Craust.

- Então... O que estás achando desta noite? – O homem não respondeu à princesa. Que após notar o descaso voltou a falar. – Lalbor?... Decidiras fazer votos de silêncio agora? – O tom de Elandore demonstrava impaciência. – Já não bastasse insultar-me hoje mais cedo. Agora tens o despeito de ignorar minhas conversas?

O olhar ébrio do homem penetrou os olhos prateados da mulher. - Prefiro não falar nada... Se for zangar-se e alterar as palavras que profiro.

- Diz-me caluniadora! – Os olhos do homem reviraram-se e sua boca soltou um leve bafo quente, com um azedo gosto de álcool. Como se não acreditasse que ela começara com a discussão novamente. – Como pode ofender-me de tal manei... – O salgado indicador do homem tocou suavemente os lábios da moça, fazendo sua boca parar de falar.

- Não comeces a brigar agora... Estás linda demais para estragar esta festa. – Com um leve movimento, o mesmo indicador retirou uma mecha de cabelo que caia sobre a face da moça, levando-a para trás de sua orelha. Teria sido um movimento muito sedutor caso ele não errasse três vezes antes de segurar a mecha e outras duas tentando acertá-la atrás da orelha. Apesar da mecha, a moça corou, ficando envergonhada com o elogio, mas, ainda assim ela soltou um simpático sorriso de agradecimento. Entre arrotos e goles de cerveja o homem continuou a falar – Estas vendo?... Muito melhor... Seu sorriso é uma das coisas mais belas que já vi... Perde apenas para você... Inteira. - Lalbor era seu amigo de infância, conhecia-o desde seus dez solares. Desde seus quinze solares apaixonara-se pelo ‘garoto do Gelo’, como assim o chamava. Nunca se imaginara com outro homem que não fosse Alden. E dentro de todos estes anos aquela fora a primeira vez que o homem elogiou a sua beleza, sempre elogiava suas habilidades e sua inteligência, mas nunca sua beleza. Ele estava bastante bêbado, mas não importava, aquelas palavras atingiram-na de forma extasiante. Seu coração acelerou bastante, fazendo-a corar ainda mais. Num tom bastante bêbado o homem tornou a falar. – Quase... quase... que me esqueço... Eu tenho... tenho algo para você.

A curiosidade da moça fora despertada, os agrados foram todos entregues pela tarde, ela viu todos, o de Lorde Olenor havia sido um colar belíssimo, cravejado com as mais diversas pedras.

O homem levantou-se, retirou de um dos bolsos internos da sua veste de couro; uma veste simples para um nobre usar em tal ocasião, a maioria usava seda e várias outras peças de peles, mas o homem sentia muito calor no Reino da Lua para usar roupas pesadas; uma pequena bolsa feita do couro de algum animal, enrolado em uma fita carmim de seda. Ele entregou à mão da mulher.

- Poderia saber do que se trata?

- Creio que saberás quando... quando abrir.

A moça desenrolou a fita, de dentro do embrulho, saiu um pingente, de uma pedra branca e translúcida e como se dentro dela houvesse outra pedra menor, mas dessa vez negra e opaca. A pedra caberia dentro da palma da mão da moça. Um cordão de prata, ouro e bronze seguia o pingente.

O presente em si era bonito, mas não tanto como o que ele deu-lhe naquela tarde. Mas a moça adorou-o, mas do que ao outro. E ficou ainda mais curiosa com aquela pedra negra e branca, de brilho incomum. – Que pedra é essa?

- Não creio que seja a verdade, mandei comprarem-na em outro mundo, depois do mar Acôndreo. Lá dizem que a pedra da qual retiraram essa jóia veio da Lua. – Os olhos prateados da moça encantaram-se com as palavras do homem. “Será possível uma rocha da lua? Como alguém poderia saber se ninguém sabe como é ou quê seria ela. Mas seu brilho realmente parece com o da lua. Uma princesa do Reino da Lua precisa de uma pedra da lua, seja ela falsa ou verdadeiramente de lá, como ninguém esteve lá, ninguém pode provar que ela não seja de lá”.

A moça aproximou-se do rosto do homem e deu-lhe um beijo na bochecha esquerda. Muitos olhares voltaram-se para os dois, mas o rei não pareceu importar-se com o fato. A moça pôs o cordão nas mãos de Lalbor e virou-se de costas. Suas mãos, num movimento suave, colocaram seus cabelos loiros todo para o lado direito de seu ombro, deixando a mostra o seu pescoço, um forte perfume subiu até o nariz do bêbado, agradando-o. Depois as mesmas mãos abriram o feixe do cordão que ela usava, retirando-o.

- Poderia colocar o cordão, Lorde Olenor?

- Creio que seu pai pensará que estou cortejando-lhe? – A voz do homem saiu surpresa, duvidosa.

- E não estás? – A moça virou levemente a cabeça, fazendo com que o homem pudesse ver um de seus olhos. Sua voz ecoava num tom sério, duvidoso, mas com um fundo esperançoso.

- Creio que não. – A voz do homem ecoou séria e ríspida. Ao ouvir estas palavras, um sorriso tímido de certeza surgiu no rosto da moça, mas o ébrio não pôde vê-lo. Os braços do homem contornaram os ombros de Carciem, suas mãos, que seguravam uma ponta do cordão cada uma, envolveram o objeto no pescoço da princesa. Após algumas tentativas frustradas pela visão tripla que a bebida causava-lhe, o homem consegue unir os dois lados do feixe do cordão.

O novo colar deslumbrou em seu colo. Brilhando como jamais outra jóia havia brilhado. Lalbor não conseguia conter o fascínio que o rosto de Elandore o proporcionava. Os olhares dos dois estavam fixos encarando-se. Ficaram assim por alguns momentos.

- Carciem... – A voz de Corteus ecoou levemente pelo Salão, quase ninguém escutou. Apenas os dois que estavam se encarando. – Tenho alguém para apresentar-lhe... Poderia vir aqui?

A moça levantou-se e aproximou-se do pai, que logo notou a nova jóia em seu pescoço. O rei fez um gesto com as mãos como se pedisse para que alguém se aproximasse, o cavaleiro de vermelho aproximou-se dos dois. Esta era a visão de Lalbor. Uma profunda tristeza surgiu em seu ébrio coração, fazendo-o deixar a bebida de lado e uma lágrima brotar de sua alma e cair dentro do copo com o fermentado de agrimono. “Não sejas fraco idiota! Como ousas chorar por nada. Nunca sentira nada, não é hoje que precisará sentir. Sabes bem que isto nunca poderia ser real. Maldito álcool”. O homem levantou-se da mesa e seguiu para a porta do Salão, subiu as escadas e seguiu para seus aposentos.

Carciem conversava com o pai e com homem de vermelho, quando reparou que Lalbor não estava mais sentado no lugar onde o abandonara, um frio de ansiedade surgiu em sua barriga. Mal prestava atenção na conversa dos dois, seu olhar metálico vasculhava todo o Salão, procurando Alden.

***

A brisa trazia o som das folhas que eram balançadas pelo vento. As canções dos grilos e das cigarras agitavam-se com o passar da noite. Um lobo começara a cantar uma canção solitária para a lua, que perdera a timidez e finalmente surgira por detrás das nuvens. O reluzir da lua era belíssimo nas águas que contornavam a fortaleza mais belicamente protegida em toda Alderriom. Nos pátios do castelo podia-se ver a movimentação dos soldados, que festejavam nos pátios próximos à cozinha. Por causa dos soldados do cavaleiro vermelho que agora estavam juntos aos do palácio, o barulho estava maior. As canções que surgiam lá embaixo eram as de temas ilustríssimos como os de encontrar o amor nos braços de uma puta, matar outro homem para ficar com a viúva, uma nova que falava sobre um tal “Príncipe Molhado” ou outros temas neste nível. Alguns relinchos de cavalo podiam ser escutados, vindo dos estábulos, parecia que os garanhões não gostavam dos barulhos que os vizinhos faziam nesta noite. Os outros pátios estavam bastante escuros, algumas velas estavam acesas perto da fonte do pátio do templo de Algmor, o templo estava sempre aberto, na maioria das vezes as pessoas visitavam-no a noite, mas não num dia de festejos.

O templo de Algmor era o único que se encontrava dentro da fortaleza do castelo, antes havia outros, mas com o surgimento dos burgos e de vilas ao redor da lagoa do castelo, os toscos, que antes viviam sob a proteção real, preferiram ir morar nas redondezas, onde podiam expandir melhor seus ofícios, entrando mais facilmente em contato com os viajantes, que eram comuns, mas que acabavam não podendo entrar na fortaleza. Aos passar dos Ampterdios as vilas foram fundindo-se, unindo-se cada vez mais até se tornassem uma grande cidade, chamada Prouz. O castelo tornara-se apenas de uso real, onde ficaram vivendo apenas a corte real; os soldados diretos do rei e dos generais que fizessem parte da corte; a plebe que trabalhava a serviço do rei dentro da fortaleza; e os prisioneiros que se julgados culpados eram levados para os calabouços, nos subterrâneos escuros da fortificação.

Mas há cinco grandes ciclos, durante as batalhas contra os homens cobra, o Rei Carcsult Suret Magnollium ordenou a construção da enorme muralha, em volta de Prouz, e de quinze torres, para impedir um ataque direto do exército de Szcalizs, o que nunca aconteceu. Para que a população não ficasse muito revoltada com a construção, que voltaria a impedir a entrada de viajantes, Carcsult deixava que quem quisesse poderia entrar e sair pelos portões da cidade quando quisesse, quando não estivessem em períodos de guerra. Mas as entradas ao castelo eram bastante restritas. Aos poucos o rei foi construindo fontes e poços por toda a cidade, arenas de duelo, praças e templos dos mais diversos deuses. O serviço de coleta de esgoto foi difícil de planejar, mas deu certo, em alguns poucos bairros, dos comerciantes mais ricos, nas outras localidades o processo ainda está em andamento, parado na verdade, mas em andamento de acordo com os projetistas reais.

A paisagem que Lalbor podia ver pela sua sacada era esta, Prouz, depois do anel cristalino de água que envolvia o castelo da Lua, o “Castelo dentro de um castelo”, assim era conhecido o Palácio Lunar. As ruas estavam mais iluminadas do que de costume, provavelmente por causa dos alimentos e das bebidas que Corteus mandara distribuir, fazendo com que os toscos festejassem ainda mais; este era um dos principais motivos para todos gostarem de Corteus e seus filhos. De longe, a Rua das Flores era a mais iluminada, todas as casas comerciais de lá recebiam nomes de flores, menos um ou dois bares que lá funcionavam, era uma das ruas mais movimentadas da noite, principalmente pelo público masculino, que sempre visitavam as damas das casas florais. As outras ruas não estavam tão movimentadas, mas muitos bares estavam lotados, os torneios e festivais que aconteciam nas datas próximas ao dia de nome de Carciem eram bastante conhecidos e atraíam muitas pessoas das outras cidades sob o domínio dos Magnollium, ou até de outros reinos de Alderriom.

O homem, ainda sobre os efeitos do álcool, estava debruçado sobre a mureta da sacada, já estava sem a veste de couro, estava apenas com as vestes mais leves, de algodão. Seu olhar perdia-se no céu estrelado, sua mente perdia-se no passado, na infância nos Mares Gélidos, há muito tempo ele não visitava o lugar, nem recebia visitas de seus conterrâneos. Ficara com uma grande tristeza esta noite, que nem mesmo a bebida pôde apagar, já pensava em voltar para suas terras a fim de esquecer mais facilmente o problema. Lalbor estava tão concentrado que não notou o ranger da porta abrindo e depois se fechando, no interior do quarto. Os passos que escutara eram facilmente reconhecidos, principalmente pelo arrastar do pano que seguia-os. Logo a voz dela penetrou docemente em seus ouvidos.

- Onde está o Lalbor festivo que conheço?... Não posso acreditar que desistira assim tão fácil das festividades da noite. – Carciem, agora, estava próxima à porta que dividia quarto e varanda, preferiu não sair e submeter-se ao frio que ela achava forte. Provavelmente ela nunca entenderia como Alden conseguia suportar tão pouco vestido, e apreciar, um frio tão forte como os das noites de outono. Por causa das palavras da mulher, Lalbor baixou levemente a cabeça e deixou escapar um leve sorriso. A moça tornou a falar. – Pensando nos Mares Gélidos?... Não sei por que ainda pergunto. Sempre que você fica assim pensativo é porque está com os pensamentos lá... Quando você me levará para conhecer as suas terras?

- Não creio que seja o teu tipo de lugar... Faz muito, muito frio... Se você não aguenta nem esse calorzinho... E o pior. Creio que você não aguentaria nem dois sóis por causa dos banhos... O banho só acontece durante os verões e primaveras... Creio que sentirá nojo de muitas pessoas. Inclusive da nobreza.

Elandore dirigiu-se ao lado do homem, provavelmente para demonstrar que aguentava o frio. - Quanto ao frio não me preocupo... Apenas levarei peles o suficiente para parecer uma ursa-das-Balestrias... Quanto ao nojo... Já me acostumei com o seu fedor. Acostumar-me-ei fácil com os de seus semelhantes... Quanto a ficar sem banho... Lembrar-me-ei de visitá-lo na primavera. – Mais um sorriso triste surgiu no rosto de Lalbor. A moça abraçou o braço de Alden e encostou a cabeça em seu ombro. Os dois ficaram olhando para o céu por alguns instantes.

Carciem podia sentir o bafo acre do homem, que estranhamente não a incomodava. O coração dela acelerou, uma vontade imensa de beijar o homem surgiu em sua mente, a mulher esticou o pescoço e beijou o rosto do homem. Lalbor virou-se para ela, não entendendo o porquê do beijo, suas sobrancelhas arquearam demonstrando dúvida. A mulher investiu novamente, mirando a boca do homem, mas quando seus lábios iam tocar-se ele afastou a cabeça e soltou os braços dela do seu.

- Está louca?... Não sabe o que seu pai pode fazer se...

- Eu não me importo! – A voa da mulher era impetuosa. – Nunca escondi o que sinto por você... Sempre me insinuei... E sei que você sempre percebera, apenas disfarçava... Cansei de esperar por você... Sabes que te amo. E acho que sentes o mesmo por mim!

- Não creio que podemos! Você vai...

- Negue que me ama que prometo jamais fazer isto novamente! – A fala da princesa interrompeu a fala do homem.

- Eu... eu não... – Elandore encarou seu olhar. A voz do bêbado ficou presa em sua garganta. Um silêncio dominou o lugar. Até que ele tornou a falar impaciente. – Não creio que o que eu... O que nós sentimos seja importante... Você está promet... – O indicador doce da alteza pressionou os lábios de Alden, que calou-se.

A moça tirou o dedo dos lábios de Lalbor e tornou a investir, o homem afastou um pouco a cabeça, mas logo desistiu. O álcool e a volúpia acabaram de consumir toda a razão que o homem podia sentir e deixaram apenas o desejo em sua pele, o desejo por Carciem. Seus lábios encontraram-se, provavelmente a princesa nunca havia beijado ninguém, sequer abriu a boca, apenas pressionou seus lábios contra os dele, tendo apenas uma sensação molhada, mas agradável. Mas, quando terminou o beijo, sentiu uma sensação indescritível. Lalbor soltou um enorme sorriso, seus olhos cintilaram muito, a inexperiência de Elanore fazia-o rir. Era comum que as mulheres não soubessem dessas coisas antes de casar, mas, não deixava de ser engraçado.

- O que foi? Fiz algo de errado?

- Não. Creio que estou bêbado, apenas isto. – Alden segurou levemente o queixo da moça, seus lábios encontraram-se novamente. Novamente a moça não abriu os lábios, Alden começou a mexer seus lábios sobre os dela, cobrindo-os, fazendo a boca de Carciem abrir levemente, mas o suficiente para que sua língua abrisse o restante do caminho, encontrando a língua da mulher, que inicialmente estava tímida, mas que aos poucos unia seus movimentos aos da língua do homem, unindo-se numa dança, tocando-se, sentindo-se. Agora os lábios e as línguas dos dois não paravam de mexer-se, dançavam incansavelmente. Ele não se incomodara com o gosto férrico de sangue que o lábio da garota mostrara, ela não se incomodou com o forte gosto de bebida da boca dele. Os dois estavam embriagando-se de amor. Quando ele finalmente terminou o beijo, ela continuou parada, de olhos fechados e lábios ainda esperando a continuação do beijo. Ele sorriu quando viu a expressão da moça.

Quando abriu os olhos ela viu o sorriso nos olhos do amado. Seus olhos prateados brilharam como nunca, encarando o olhar castanho do homem. Nunca sentira uma sensação tão boa. Parecia não acreditar que aquilo era real. Era melhor do que o seu mais belo sonho. Carciem abraçou o homem o mais forte que pôde, sua cabeça encostou-se ao peito viril do homem, seus olhos cerraram-se. Ela pôde ouvir e sentir as batidas do coração de Alden, que apenas acelerava. Depois que notou que não acordaria desse sonho a garota tornou a encarar o olhar de Alden, que fez seus beiços e línguas começarem uma nova dança, melhor do que a anterior.

***

O sol entrava pelo portal da sacada, que estava de portas abertas. Os pincéis de luz do sol acertavam lancinantemente seus olhos, que mesmo fechados sentiam a dor da claridade. Sua cabeça estava muito pesada, como se um cavalo estivesse em cima dela. O mal hálito de sua boca conseguia fazer o próprio estômago embrulhar. Ainda estava acostumando-se com a claridade do quarto quando percebeu um peso incomum sobre seu peito, que estava nu. Quando olhou para o peito viu, apoiada sobre ele, uma cabeça de cabelos loiros, que mais pareciam ouro por causa do sol que os banhava de luz. As lembranças da noite anterior começaram a surgir em sua mente. Com um reflexo o homem saltou para fora da cama.

- Mas que bost... - O espanto foi tamanho que quando saia da cama bateu a testa na madeira que servia de teto para cama, fazendo-o parar o comentário. Com a dor tremenda que atingiu-lhe a cabeça, o homem fechou os olhos e pôs as mãos na cabeça, tentando reduzir a dor. Mal colocara os pés no chão e já escorregou em algo viscoso que estava no chão, caindo. Suas costas e cabeça chocaram-se contra o chão, mas esta última atingiu uma cômoda antes de acertar o chão. O homem completamente nu ficou estatelado de costas contra o chão e quando recuperou a respiração, interrompida pela forte pancada, gemeu de dor. “Corteus vai mandar cortar o meu pênis e fazer-me comê-lo! Como pude ser tão estupido!”. Era apenas isso que lhe vinha na cabeça, como de costume os homens pensam primeiro em sua masculinidade do que em suas vidas.

O barulho que Lalbor fez acordou a moça, que logo sentou-se na cama. Quando viu o rosto da moça Alden ficou bastante confuso. – Adélia?

- Está tudo bem senhor? – A voz da moça ecoou pelos ouvidos de Lalbor.

Um enorme alívio surgiu em sua mente. A serviçal estava confusa, sem saber o que responder. O homem retornou a falar. – O quê fazes aqui?

– Ontem a noite, vossa alteza, princesa Carciem Magnollium, chamou-me para vir limpar o seu quarto, você havia vomitado no chão. Quando entrei no quarto o senhor já estava deitado, quando aproximei-me para limpar o chão o senhor segurou-me e puxou-me para cima da cama. Depois...

- Creio que já sei o que vêm no depois... Mas eu forcei-lhe a fazer algo de que não gostara?

- Não senhor... Estava bêbado demais... Se não quisesse fazer qualquer uma das coisas... – A moça soltou leves risadas - ... facilmente me livraria do senhor.

- Então... Gostara da noite?

- Exceto que meu nome não é Carciem... Não se preocupes não falarei para ninguém que desejas ela, assim como todos os homens neste castelo... Mas considerando ‘tudo’ foi ótimo, adoraria repetir a noite. – Os elogios da moça rejubilaram o homem que agora estava sentado no chão.

Lalbor foi coçar a cabeça e notou algo viscoso em sua mão, e, agora, em seus cabelos. Um forte fedor subiu e um pensamento veio a sua cabeça. – Então Adélia... Eu lhe puxei antes de você limpar meu vômito, não foi? – A loira arqueou uma das sobrancelhas e fez uma careta, com um sorriso de nojo, levantando os ombros e curvando o pescoço para um dos lados; sua expressão confirmava o temor de Alden, que pôde sentir em suas costas, suas nádegas, braços e parte de suas pernas, a sensação molhada do vômito em que acabara de escorregar.

Adélia vestiu-se e saiu do quarto, pouco tempo depois retornou com uma pequena bacia e um pano pesado, para que o homem pudesse retirar o vômito que o sujava. Depois de limpar-se o homem seguiu para a sala de banho onde tomou um longo banho, com o máximo de ervas aromáticas que pôde.

Decidiu que tomaria o desjejum no quarto, que Adélia já havia limpado. O restante do dia inteiro ficou em lugares que seria praticamente impossível encontrar Carciem, principalmente nos pátios reservados para os treinos, onde treinou suas técnicas com a espada, já que o próximo torneio seria o de duelos corpo-a-corpo, com espadas.

Quando a noite chegou não havia mais como fugir, o rei convocou toda a alta nobreza para um banquete, onde faria um anúncio importante. O anúncio que Craust já havia contado para Lalbor durante o jantar da noite anterior, e que havia acabado com os ânimos do homem.

Quando Lalbor chegou, várias pessoas já estavam na sala, incluindo Craust, Mênacrom e Tolgor, o homem que estava de armadura vermelha na noite anterior. Lalbor sentou-se próximo a Craust, como de costume. Os demais foram chegando aos poucos. Os últimos a entrarem no salão foram Corteus e Carciem, a qual não parou de sorrir para Alden um momento sequer durante a chegada, mas ele fez que não a viu, com uma enorme dor no coração.

- Antes de iniciarmos o banquete tenho um anúncio muito importante a fazer. – A voz de Corteus imperava sobre o silêncio dos demais presentes. – Venho aqui anunciar o casamento de minha filha Carciem Elandore Magnollium com o príncipe e herdeiro do Reino das Colinas Vermelhas, Lorde Tolgor Baris Algdazear, primeiro de seu nome, da casa dos Algdazear.

O homem de barba avermelhada levantou-se e curvou um pouco o tronco, reverenciando, uma forma educada de apresentar-se. Carciem ficou estática, não acreditando naquilo que acabara de ouvir. Sua primeira reação foi olhar para Alden, que ficou cabisbaixo, sem querer encará-la. Carciem levantou-se, a corte achava que ela levantar-se-ia e iria fazer reverências assim como Tolgor. Mas a moça correu para fora do Salão, seus olhos vertiam lágrimas incessantemente.

- Carciem!... Retorne aqui imediatamente! – A voz de Corteus estava bastante autoritária. Mas a princesa o ignorou e continuou a correr para fora do Salão.

A mão de Lalbor tremia de tanta força que usava para apertar um copo de aço que segurava. A mão de Craust apoiou-se no ombro do amigo e apertou-o como se tentasse acalmá-lo. Mênacrom notou a reação de Lalbor e a troca de olhares que a princesa tentava trocar com ele antes sair.

- Desculpe-me pela insolência de minha filha Lorde Tolgor, está apenas nervosa com esta situação. Mandarei servir o jantar imediatamente. - O rei falou com um emplumado que estava a espera de ordens e depois saiu do Salão, indo encontrar Carciem.

A refeição logo foi servida. Alce regado ao molho de agrimono e vinho. Por ser assado inteiro, as partes mais internas eram mais cruas e frias do que as partes mais internas. Alden mal tocou em sua comida e logo retirou-se do Salão.

Mênacrom, que assistia a cena com grande felicidade, pegou um pedaço bem ensangüentado e frio da carne do alce. Quando mordeu a carne praticamente crua, sangue carmim escorreu por sua barba loira, sujando-a. Lessandra, esposa de Menadipós, sentada ao lado de Mênacrom. Falou com certo espanto para o príncipe de barba loira.

- Mênacrom?!... Porque comes uma carne tão crua?!

- Eu prefiro comer pratos frios... – O príncipe lambeu o sangue que havia sujado seus lábios e abriu um enorme sorriso branco de vingança.


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