Mente (não tão) sã

08 de Agosto de 2014 Priscila Pereira Contos 675

- Mula!     

Ela me disse, mas eu não sabia por que ela queria o sol, já que era de noite.

 
   Mas ela não estava para negociações, queria o sol mesmo que fosse
cor de violeta claro, já que seu gato havia desaparecido. Coitadinho do
gato, todo alegre e laranja, cor do vento Mistral nas praias de Mônaco.

 
   Parecia impossível conseguir o que ela me pedia, mas eu a amava,
claro, era minha irmã caçula e eu tinha que fazer ela feliz.  Choramos o
leite que se derramou, mas o sorriso veio como um raio assim que
avistamos o elefante colorido. Era tão real que cabia na palma de minha
mão.

     Quando o chocolate quente ficou pronto eu já pensava que o
real sentido da vida eram as flores do campo. Mas acho que me enganei,
elas vivem muito pouco e logo morrem. Será que em algum lugar o meu anjo
da guarda esta perdido, tentando me encontrar? Seria verdade que a rua
de cetim era melhor do que a orquídea azul da cor do mar? Não haveria
resposta possível  para essa pergunta.

     Pouco a pouco eu fui
vendo que o melhor seria nunca mais olhar no espelho. Não sei, na hora
me pareceu uma boa ideia, pois não veria o envelhecimento que chegava
lentamente fazendo minha face parecer um papel amassado ou uma vela
derretida. Mas não sei se funcionaria me imaginar com quinze anos.
Talvez eu deva comprar um cookie.

     A ave do paraíso me avisou que
não comesse as nozes do esquilo, ele não gostava que mexessem nas
coisas dele, ele sempre me perguntava se tinha um neném aqui dentro. Eu
sempre respondia que não, mas ele queria que eu provasse. Mas eu não
podia.

    Mesmo assim o tucano vermelho gostava do som muito alto.
Acho que ele logo vai perder um pouco da audição ou do pouco juízo que
lhe resta. Mas a vida é mesmo assim. Não dá pra viver intensamente sem
ferver o sangue e esfriar a cabeça. Logo nos encontraremos novamente,
quem sabe onde? O melhor mesmo é ir vivendo e levando o gato pra passear
no disco voador.



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