Tormentas de Amor

09 de Agosto de 2014 Carol Linda Contos 697

Clara olhou o céu, já passava das vinte e duas horas e ela ainda não havia conseguido chegar onde queria.  Estava preocupada com o seu escasso tempo, pois teria que entregar o material muito cedo e ainda nem estava na metade. Olhou mais uma vez as estrelas no céu azul da praia e voltou para o computador. Escolheu aquele lugar para ser seu santuário, seu centro de equilíbrio... seu lugar de reflexão.  Mas, nas últimas semanas, havia se transformado em seu escritório.  Precisava se afastar da agitação da cidade para conseguir concluir seu livro, que já estava muito atrasado, deixando seu editor de cabelos brancos.  Estava sem inspiração para escrever sobre verbos, pronomes e predicados. Ela queria era estar em casa, abraçada ao seu filho, cuidando dele e mimando-o mais do que nunca. O deixara com o pai, mas sabia que ele, provavelmente, estava sentindo muito a sua falta. Respirou angustiada e resolveu que não tinha condições de concluir coisa alguma. Fechou o notebook e entrou na pequena casa de praia que lhe pertencia mais por sorte do que por merecimento. O clima estava quente, apesar da brisa pesada que vinha do mar. Foi até a cozinha e encheu uma xícara com café quente, deixando a fumaça limpar suas idéias. Estava tão distraída, que mal notara quando a porta da frente foi levemente arrastada.  Diego pisava manso, o que lhe possibilitava entrar em qualquer lugar sem ser notado. Tirou o tênis e foi caminhando para a pequena sala bem devagar. Clara se assustou com um ruído, deixou a xícara na pia e foi até a sala. Diego ficou estático ao ouvir os passos vindos direto em sua direção. Procurou um lugar para se esconder, mas sua altura impossibilitava o intento. Resolveu abandonar a surpresa e optar pelo susto. Clara parou assustada na entrada da sala e quase gritou. Diego estava ali, segurando os sapatos e com um sorriso amarelo no rosto.

- O que...- Interrompendo-se.- Diego, o que diabos faz aqui?

-Queria fazer uma surpresa...

-Me matando de susto?

-Não, o objetivo não era esse.- Ele colocou os sapatos no chão e se sentou no sofá. – Queria conversar com você em um lugar discreto, resolvi vim para cá.

-E deixou o Gabriel sozinho? - Clara alterou levemente a voz com um medo enorme da resposta.

-Não, claro que não! Acha que sou tão irresponsável, Clara? 

-Não sei, diante dos acontecimentos dos últimos anos, não posso dizer que te conheço bem, Diego.

-O deixei com uma babá...

-E o que você quer? Não estou com tempo para diálogos ou...

-Tudo bem, serei direto.- Se endireitando no sofá, ele tentava encontrar as palavras para começar aquela conversa. Sabia que convencer Clara de algo seria mais difícil que investir no mercado de ações. Alisou as coxas com as mãos tentando conter seu desconforto e limpou a garganta.- Quero falar sobre...

-O que, Diego?

-Posso falar?

-Fique a vontade. - Clara se sentou em uma cadeira próxima. Sua cabeça estava trabalhando a mil, tentando imaginar o que poderia ter levado Diego àquele lugar e àquela hora.

-Sobre nós, Clara...

-Nós? Pensei que tudo que tínhamos a dizer sobre nós tivesse sido dito... 

-Não, você sabe que não foi...

-Diego, que idéias são essas? Estamos separados há cinco anos, não temos mais que pensar nisso. 

-Para mim não é tão fácil...

-Deveria, afinal a culpa de tudo foi sua, querido.- Clara já estava de pé, sua inquietação não lhe permitia ouvir tudo aquilo olhando nos olhos dele.

-Clara... eu sei que cometi erros, mas você também não foi fácil.

-Vai querer me culpar por você ser um galinha? 

-Não...não foi o que eu quis dizer, foi...- Diego alisou os cabelos impacientemente. Já não estava mais medindo as palavras, pois já não conseguia pensá-las.

-Olha, eu tenho trabalho a fazer e não posso ficar aqui conversando com você. Se não se importa, gostaria de ficar sozinha e escrever.

-Não acredito que prefira a solidão a minha companhia, Clara.- Agora ele encontrara o caminho. Conversar com Clara não seria o meio mais inteligente de aproximá-la, precisava ser mais brusco, mais decisivo e, quem sabe, até mais violento. Não iria obrigá-la, mas se fosse preciso... 

-Sua pretensão é impressionante, sabia? – Ela sorrira e desviou-se das intenções evidentes de Diego. 

-Não fuja de mim, não vai adiantar.... 

-Diego, não quero ter que ser grossa com você... – Clara estava ciente que aquela história de conversar estava muito distante do real motivo da presença dele ali, mas não estava disposta a ceder aos seus instintos, muito menos aos dele. -  É melhor você ir, a estrada fica perigosa a essa hora.

-Pretendia dormir aqui, se você não se importar.

-Não acho que seja uma boa ideia. 

-Não se preocupe, não vou passar dos limites.- Apesar das palavras parecerem sinceras, seus olhos verdes desmentiam tudo.

-Diego...

-Clara, por favor, não somos mais adolescentes, podemos conter nossos instintos, não é mesmo? Estou cansado, não seria prudente dirigir agora.

-Tenho a impressão de que você planejou tudo isso.

-Não tudo...- Sorrindo, Diego tentava encontrar uma brecha para entrar novamente no assunto que lhe levou ali. Mas percebeu que o melhor era não contrariá-la.- Eu queria conversar, mas se você não pode, podemos pensar no assunto amanha.

-Você acha que o horário da conversa vai mudar a minha opinião?

-Dizem que algumas mulheres são da noite...outras não. – Diego já estava a vontade na sala pequena. Tirou o casaco grosso que usava e estava só de camisa e bermuda, realçando seu corpo magro, mas extremamente bem dividido. Clara tentou não demonstrar, mas estava bem alterada com a sua presença.

-Tudo bem, você pode dormir aqui... Mas não tente…- Ela resolveu não continuar, não queria que ele pensasse que ela desejava aquilo, ainda que negasse.

-Pode me arrumar um travesseiro?

-Vou pegar um no meu ...

-No seu quarto? Não se preocupe, eu faço isso...

-Não.- Clara o impediu com um grito leve, deixando-o ainda mais curioso para conhecer aquele santuário. – Eu pego...

-Ora, acha que se eu aprender o caminho será mais fácil te fazer uma surpresa? – As sobrancelhas levantadas o faziam parecer ainda mais charmoso. O sorriso mal intencionado o deixava com ar de cafajeste, o que ela, particularmente, adorava. 

-Eu vou buscar seu travesseiro! - Contrariada, Clara entrou no seu quarto e não ligou a luz. Já conhecia bem o cômodo, não precisava de muita luminosidade para encontrar o travesseiro na sua cama. Apesar de sempre dormir sozinha, a cama era de casal, ao estilo rústico, típico móvel de praia. Tateou um pouco e encontrou o objeto macio. Quando pensou em virar, caiu sentada e se assustou com uma sombra negra e alta. 

-Calma, não precisa gritar, não ainda...- Diego curvou-se sobre ela, fazendo-a parecer pequena diante do seu 1,80 de altura. Clara queria correr daquele homem, mas seu perfume, sua barba por fazer lhe roçando levemente a nuca, suas mãos hábeis já em lugares que ela não ousava imaginar e sua respiração percorrendo sua pele, a fizeram mudar de idéia rapidamente. 

-Diego...- Ela tentou recuperar a respiração e fazer seu cérebro funcionar novamente.- Diego...

-Clara? – Diego parou de beijá-la e olhou seu rosto sombreado pelo escuro.

-Não podemos fazer isso...

-Por que não? Somos adultos, e queremos isso.

-Mas sabemos que...

-Esqueça...- Diego voltou a beijá-la e dessa vez ela não o impediu. 

Na manhã seguinte, Diego preparava café na cozinha. Os ovos frigiam na panela e o café cheirava na cafeteira. Usando apenas a bermuda que vestia na noite em que chegou, ele estava de cabelos molhados e descalço, parecia muito a vontade.  Clara ainda dormia, estava exausta. Colocando dois pratos na mesa e duas xícaras cheias de café sobre os pires, Diego arrumava tudo com carinho, esperando que Clara acordasse e ficasse feliz pela sua atenção. Como conhecia os seus horários, sabia que ela acordaria a qualquer momento. Foi o que aconteceu, por volta das 8:00 horas o relógio despertador da cômoda fez um barulho estridente que fez Clara quase assustar-se, pois estava tão profundamente enfiada em sonhos e num sono tão tranqüilo, que não imaginava acordar tão bruscamente. Procurou os chinelos em baixo da cama e os calçou enquanto se espreguiçava. Ainda bocejando, foi para a cozinha e estancou levemente...

-Bom dia, meu bem! – Diego estava de avental e segurava a frigideira nas mãos.- Tomei a liberdade de preparar alguma coisa para comer. Como não tinha muitas opções, fiz ovos mexidos com queijo e café.

-Huum, obrigada! – Clara esticou uma cadeira e sentou-se automaticamente, sem nem mesmo olhar Diego. 

- Como dormiu? 

-Normal! – Se servindo de café, ela tentava fingir normalidade diante dele, o que era difícil. 

-Ótimo! Vamos comer! Depois posso te levar para casa...

-Não, não é necessário...

-Você pretende ficar mais por aqui?

-Não...

-Então por quê...

-Vamos tomar café, Diego...- Clara começou a comer mecanicamente. Diego tentava compreender o porquê da sua frieza. Ela parecia tão feliz e tão entregue na noite anterior, porque estava fugindo dele agora?

-Clara...

-Sim?

- Podemos conversar agora?

-Diego, não temos nada para conversar... 

-Depois de ontem, acho que temos sim.

- O que você quer? Quer que eu diga que a noite foi ótima e que estou loucamente apaixonada por você? Ora, Diego, nos poupe disso. – Clara empurrou o prato para o meio da mesa, perdera completamente a fome. – Não podemos tratar isso como um sinal verde, pois não foi. Foi sexo, Diego, apenas sexo. Tente ver como... uma noite com uma de suas muitas namoradas, talvez seja melhor de digerir.

-Você não é uma das minhas muitas namoradas.- Diego não alterou a voz, sabia que iniciar uma discussão só iria piorar as coisas e essa não era a sua intenção. 

-Diego, por favor, você não quer isso... para que nos machucar? Não temos o direito de fazer isso conosco, e nem com o nosso filho. Ele sofrerá muito mais no meio dessa história e não quero fazê-lo sofrer, não mais.

-Clara...- Segurando a sua mão, ele a olhava nos olhos. Os seus verdes de encontro aos castanhos dela, uma sintonia, que outrora, era perfeita. Mas tudo parecia tão distante agora, tão longe deles. – Para mim não foi só sexo... e nem para você.

-Agora sua pretensão realmente passou dos limites. – Clara levou as xícaras vazias para a pia e as lavava, na verdade, tentava fugir de Diego. Claro que não havia sido só sexo, mas ela não queria que ele soubesse. Para que? Seria o de sempre, como sempre. Diego não tinha jeito. Se ela lhe desse uma chance, obviamente ele desperdiçaria como fez tantas vezes. 

-Olha, podemos deixar a conversa para quando você estiver mais calma...

-Eu estou calma, mais do que imagina. E estou segura do que digo, bem segura. Vamos terminar o nosso assunto aqui, vamos terminar de forma digna, Diego. Nós temos um filho, isso já é o bastante. 

-Deveria pensar mais nele...

-É por pensar nele que eu não quero continuar com isso.

-Clara...- Diego a puxou para si, talvez um beijo a fizesse mudar de idéia. Alisando seus cabelos castanhos, ele a beijou com muita ternura, mas ela o afastou imediatamente. 

-Vá embora, por favor! Leve o Gabriel para casa, eu ligarei quando chegar...

-Vai mesmo terminar isso assim?

-É a melhor forma...

CASA DE CLARA

No caminho para casa, Clara tentava entender o que havia acontecido. Diego caiu de para quedas, lhe passará uma cantada barata e ela, boba ou idiota, simplesmente cedeu. Não foi muito difícil, Diego sabia como seduzi-la com uma classe assustadora. A parte mais difícil foi fingir que não sentiu nada, pois ela sentiu e muito. Não se lembrava o quanto ele era bom de cama. Ficou desejosa por abraçá-lo e dizer que o queria para sempre, mas conteve seu lado louco e deu espaço para a racionalidade. Diego era um crianção, um menino de 30 anos, que não tinha nenhuma responsabilidade, que não sabia o quanto doía uma traição, pois era sempre ele a trair. Clara sofreu tanto com a separação, que só não morreu por causa do filho, o pequeno Gabriel, a única coisa boa que Diego lhe deixara. O menino, apesar de tão pequeno, apesar de não entender, lhe deu todo apoio necessário para que ela superasse e seguisse em frente.  Olhou o relógio e lembrou que pedira para Diego deixá-lo em casa, apressou os passos e chegou à casa de andar, no fim da rua. Estacionou o carro e subiu as escadas correndo, estava morrendo de saudade do menino. 

-Gabriel? Mamãe já está em casa, filho. – A babá veio do quarto do menino e fez um gesto indicando que ele estava dormindo.

-Mas já são quase nove horas, ele tem que ir para a escola.

-Ele dormiu muito tarde ontem, senhora.

-E posso saber por quê? 

-Ele passou a noite perguntando pela senhora, disse que queria vê-la. A senhora sabe como ele é apegado à senhora e o doutor não estava em casa, ele ficou muito agitado. 

-Vou vê-lo. – Clara deixou a babá na sala e entrou no quarto do pequenino. Gabriel estava dormindo tranquilamente. Os cabelos lisos caindo-lhe nos olhos e as mãozinhas pendidas para os cantos da cama. Como estava de pijama, Clara imaginou que Diego o tirara da cama. Com as pontas dos dedos, ela alisou o rostinho rosado e puxou a coberta para aconchegá-lo melhor. Não seria prudente acordá-lo, ele não estaria disposto para ir à escola. E já eram quase nove horas, não adiantaria muita coisa. Saiu do quarto e deu ordens a babá para ir embora, ela ficaria com ele o resto do dia. Como não precisava ir ao colégio naquele dia, aproveitaria para mimar um pouco o seu menino. Já sozinha, ela resolveu ligar para Diego e avisar que ela já havia chegado, assim como havia prometido. Discou os números um pouco hesitante, mas finalmente ligou. O telefone tocou e tocou, mas acabou caindo na caixa. Ela não tentou mais, talvez ele não quisesse falar com ela, por isso desligou o telefone. Era melhor assim, pois ela não queria lhe dá nenhuma esperança, nenhuma.  Gabriel acordou e veio para a sala. 

-Filho, vem aqui!

-Oi mamãe, quando chegou? – Gabriel aceitou os braços da mãe e se agarrou ao seu pescoço. 

-Cheguei a pouco, mas você estava dormindo tão tranqüilo, que nem me viu.- Clara beijou a ponta do nariz do menino. – Que história é essa de não dormir direito, mocinho? 

-Estava com saudades, mamãe! 

-Mas eu só fiquei três dias fora, meu amor. Você estava com o papai...

-Eu gosto do papai, mas gosto mais de você! – Gabriel abraçou a mãe mais forte, parecia não quere soltá-la de jeito nenhum. 

-Não diga isso, meu amor! 

-Mas é verdade, mamãe! 

-Tudo bem, meu amor. Já que o mocinho fugiu da escola, que tal ajudar a mamãe com o almoço?

-Oba, o que vamos fazer, mamãe?

-Primeiro, o senhor vai agora para o banho, depois vai me ajudar a fazer sua comida predileta, que acha?

-Tô indo, mamãe! – Gabriel correu para o banho e deixou a mãe na cozinha. Ouvir o filho dizer que gostava mais dela do que do pai, não era surpresa. Diego já não era o melhor dos pais, mas depois da separação a coisa piorou. Claro, ela cumpria com as suas obrigações de pai no que dizia respeito a dinheiro, mas no quesito atenção... Diego tinha dificuldades de demonstrar carinho por Gabriel, e ela não sabia porque. O menino era tão amável, tão doce, era impossível não amá-lo intensamente, mas Diego conseguia a façanha. Não que ele não amasse, mas não fazia Gabriel sentir-se querido por ele. Além disso, ela estava mais próxima dele, o que contribuía para ele criar laços mais fortes. Quando estava bastante distraída, o seu celular tocou e ela atendeu sem olhar.

-Por que não me ligou?

-Eu liguei, mas o seu celular estava desligado...

-Eu estava dirigindo... E o Gabriel?

-No banho, ele acabou de acordar. Aliás, porque não me disse que ele teve dificuldades para dormir?

-Esse menino é apegado de mais a você, isso vai acabar prejudicando ele...

-Diego, o que você quer? 

-Só saber se você tinha chegado...

-Agora já sabe, já posso desligar...

-Espere, quero marcar algo...

-Diego, tchau.- Clara colocou o celular sobre o balcão e o viu vibrar. Ele podia tentar, mas ela não atenderia. Não estava disposta a discutir. Gabriel saiu correndo do banheiro, enrolado na toalha e passou para o quarto. Estava tão animado com a idéia de fazer o almoço, que nem se lembrou de calçar os chinelos, saiu descalço, molhando todo chão. Clara riu e foi até o quarto ajudá-lo com a roupa. 

CASA DE C LARA II

Enquanto colocava a mesa do almoço, ela refletia sobre a noite. Não imaginava que conseqüências aquela pequena recaída poderia acarretar e esperava, sinceramente, que não causasse absolutamente nada. Enquanto ajudava Gabriel a decidir entre bata frita e espaguete de queijo, ela tentava tirar a imagem de Diego da cabeça. Ele continuava o mesmo, inclusive na aparência. Bonito, cavalheiro, delicado e atencioso. “Mas continua cafajeste”, gritou seu inconsciente. Ela sabia, mas ainda assim, não conseguia esquecê-lo, ainda mais depois de tudo. “Será mesmo que ele está disposto a mudar? Não, é bobagem, Diego nunca mudará”. Nessa luta entre razão e emoção, não existia um vencedor, pois ela não conseguia se decidir. Foi Gabriel que lhe tirou do devaneio.

-Mamãe, porque não posso escolher os dois?

- Ora, mocinho, não acha que será muita bobagem para um só dia?

-Não, já que eu tenho que comer verduras no resto da semana, não faz mal comer batata frita com espaguete só hoje, não é?

- Está ficando esperto demais, rapazinho! – Ela o serviu de espaguete. – Mas nada de exagero, só vamos comer um pouquinho, ta?

-Ta bom, mamãe ...- Gabriel revirou os olhos.

-Nem adianta reclamar!! – Quando acabara de servir o filho, a campainha tocou e ela foi atender. 

-Desculpe chegar na hora do almoço, mas você não quis me ouvir pelo telefone.- Diego entrou na sala e deixou Clara completamente atônita.

-O que você quer?

-Conversar!

-Não é o momento, estamos almoçando.

-Não é problema, posso almoçar com vocês.- Diego entrou na cozinha e viu o filho sentado.- Oi filho!

-Papai? - Gabriel soltou o garfo e olhou intrigado para o pai. 

-A mamãe não disse que eu viria? – Ele puxou uma cadeira e sentou a mesa, ao lado do filho, que não estava compreendendo o repentino aparecimento do pai. 

-Não, eu não disse! – Clara colocou outro prato na mesa, não queria matar Diego na frente do garoto. – Mas a surpresa foi ótima, não é filho?

-É mamãe... 

-O que temos para o almoço?

-A mamãe fez espaguete com queijo e batatas fritas e eu ajudei.

-Olha só... – Diego se serviu de espaguete.- Vamos ver se o rapazinho sabe mesmo cozinhar.

- Eu ajudei com as batatas e a mamãe fez o espaguete.- Gabriel estava empolgado e mal notou que Clara estava furiosa.

-Vamos comer, não é?

-Sim! - Os dois responderam ao mesmo tempo. Clara estava sentada a cabeceira e olhava fixamente para Diego, que, a todo instante, desviava o olhar para Gabriel. Ela sabia que o objetivo dele era impedi-la de colocá-lo dali para fora, pois era o que ela faria se Gabriel não estivesse presente. Ela conteve a respiração pesada e policiou-se para não jogar espaguete na cara dele. Depois que terminaram de almoçar, Gabriel foi para o quarto, os deixando a sós.

-O que você veio fazer aqui, Diego?

-Não concluímos a nossa conversa, Clara.

-Eu pensei que tivesse sido bem clara, mas parece que você não entendeu o recado.

-Eu não quero brigar com você, quero apenas conversar sobre o que aconteceu conosco.

-O que aconteceu conosco, Diego, foi uma simples recaída. Acontece com muitos casais que se separam. – Clara colocou os pratos na pia e estava de costas para ele. – Não entendo porque você está levando isso tão a sério.

-Porque para mim, Clara, aquilo foi sério! – Diego bateu os punhos cerrados sobre a mesa, assustando Clara.- Não foi apenas sexo, Clara. Foi amor, foi sentimento... Você pode até negar, mas eu sei exatamente o que aconteceu entre nós e não foi uma simples bobagem. 

-Diego, para com isso. Para de se fazer de vítima, porque você não é nada disso. Vai querer me convencer de que você ainda sente alguma coisa por mim? – Ela sorriu irônica e o deixou furioso.

-Quer que eu prove?

-Não, quero que você vá embora antes que comecemos a brigar. – Clara o fitou. 

-Eu não vou a lugar algum enquanto você não me ouvir. – Ela a puxou pelo braço, trazendo-a para perto dele.  Diego, apesar de magro, tinha uma força descomunal. Clara debateu-se, esmurrou o seu peito, mas ele a mantinha presa pelos pulsos, até que agarrou sua cintura com força, impedindo-a de soltar-se de uma vez. – Você vai ter que me ouvir.

-Me larga, seu desgraçado.

-Não, não até você me ouvir.- Diego a imprensou contra a parede da cozinha colocando seu peso todo sobre ela. – Não quero te machucar. 

-Me solta...- Clara gritou mais alto do que gostaria. Acabou chamando a atenção de Gabriel, que saiu correndo do quarto em direção a cozinha.

-Mamãe? - O menino estacou assustado na porta do cômodo. Ele ouvira os gritos.

-Filho.- Clara empurrou Diego, afastando-o. A pior coisa que poderia acontecer, era Gabriel pensar que ele a estava machucando de alguma maneira. 

-Por que você gritou, mamãe? - O menino se deixou carregar por Clara, que estava bastante ofegante.

-Sua mãe se assustou com uma barata, só isso Gabriel. - Diego recolheu as chaves do carro que deixou sobre a mesa e as colocou no bolso. Olhou uma vez mais para Clara e saiu da cozinha, se direcionando para a sala.

-Mas porque o papai estava te abraçando, mamãe? 

-Papai estava protegendo a mamãe, meu bem! – Ela beijou a ponta do nariz do pequeno e colocou no chão novamente. Precisava colocar Diego dali para fora imediatamente. – Agora se despeça do papai, ele está indo embora.

-Mas e se a barata voltar, mamãe?

- Você me ajuda com ela, certo? 

-Tá bom! - O garoto recebeu um abraço morno do pai e voltou para o quarto. Clara respirou fundo e se direcionou a ele, tentando manter a calma.

-Que isso não volte a se repetir.

-Ainda não terminamos. Você foi salva por pouco, Clara. Eu vou voltar.

-Está me ameaçando, Diego Sandoval?

-Não me subestime, sabe muito bem do que sou capaz quando quero alguma coisa...

-Sei, sei muito bem! Agora vá embora, não quero assustar ainda mais o Gabriel. – Clara abriu a porta ainda trêmula. Não sabia bem se tremia de medo ou de desejo, só sabia que precisava tirar Diego dali. Ele a fitou com raiva, mas não com uma raiva furiosa, uma raiva velada e misturada com ternura. Ele a amava, bem verdade, mas não sabia como convencê-la disso. Deixou a casa relutante, pois queria ter conseguido dizer o que demorara tanto a pensar.  

SEMANAS DEPOIS

Clara olhou seu relógio, já passava das dez horas e ela estava morrendo de fome. Rezava mentalmente para àquela reunião acabar logo, mas as falas pareciam intermináveis. Reuniões de conselho eram sempre assim, longas e enfadonhas, mas essa estava conseguindo superar. Inquieta, a todo momento ela verificava as horas pensando que elas poderiam passar mais rápido sobre a mira de seus olhos. Quando já estava impaciente, notou que seu celular vibrara no bolso da sua saia e o olhou rapidamente. Bufou quando notou quem era o autor da chamada. Recusou rapidamente, mas o celular voltou a vibrar e ela não teve outra escolha, a não ser sair e atender.

-O que é que você quer, Diego? Eu estou ocupada, não posso falar agora.

-Você não me parece muito ocupada....

-Como você pode saber? Não está aqui para ver....

-Mas eu estou vendo, querida...- Diego sorriu e parou bem atrás de Clara, mas não chamou-a de imediato. 

-Diz logo o que você quer, não tenho tempo para brincadeiras.

-Quero te levar para almoçar, você me parece bem faminta. 

-O que? – Ao notar a respiração suave nas suas costas, Clara voltou-se bruscamente e se bateu de frente com Diego. Assustou-se, mas logo se recompôs, mirando-o com surpresa. – O que você faz aqui?

-Também estou feliz em te ver. – Guardando o celular no bolso do terno, ele ajeitou charmosamente uma mecha de cabelo que caiu em seus olhos. – Eu quero te levar para almoçar comigo, o que me diz?

-Não posso, estou em reunião. Além disso, prometi que levaria o Gabriel ao cinema mais tarde. 

-Você pode leva-lo outro dia. Quanto a reunião, você não me parece muito disposta a continuar nela.

-Não posso, sinto muito.- Clara começou a entrar na sala, mas Diego a puxou pelo braço colocando-a de frente para ele e bem perto da sua boca.

-Não me fez vir até aqui para nada, não é? 

-Não pedi que viesse....

-Mas gostou de me ver. Vamos lá, não me faça essa desfeita. 

-Tudo bem...mas você terá que esperar o fim da reunião.

-E quando será isso?

-Daqui a alguns minutos. – Olhando o relógio de pulso, notara que já passava das dez e meia. Ou o relógio estava contra ela, ou ficará mais tempo que pensara na presença de Diego. –Ou melhor, a reunião está acabando agora mesmo. 

-Ótimo, pegue suas coisas, vou te esperar aqui fora.

Clara não sabia porque sedia a Diego, mas com uma coisa ela tinha que concordar, ele sempre tinha boas ideias. Estava mesmo com fome, almoçar seria a primeira coisa que faria quando saísse da reunião. O convite dele lhe pouparia bastante tempo, além disso, ela estava mesmo curiosa para saber qual seria o tema da conversa no restaurante. Diego demorara muito para aparecer depois do incidente da cozinha, por isso era estranho que ele tivesse aparecido e estivesse tão sorridente e solícito, era óbvio que ele estava aprontando alguma coisa, ela só gostaria de saber o que. Entrou rapidamente na sala e nem se despediu dos colegas, apenas pegou a bolsa e saiu. 

-Vamos! 

-Claro! - Oferecendo-lhe o braço, Diego sorriu ao ver os olhares dos colegas de Clara, que pareciam muito admirados com a figura estranha andando de braços dados com a professora novata. Desde que entrara no colégio, a pouco mais de um ano, apenas dois colegas sabiam quem era Diego, os outros nem desconfiavam da existência de um ex na vida de Clara. Chegando no carro, ele abrira a porta do carona para ela e se dirigiu para o volante.

-Para onde quer ir?

-Para onde você quiser...

-É mesmo? - Diego arqueou uma sobrancelha e sorriu sarcasticamente. – Tenho alguns lugares em mente.

-Diego...

-Desculpe-me, não resisti. Tudo bem, podemos ir ao Petrus, que fica bem pertinho daqui. O que acha?

-Comida italiana? – Clara fez uma careta.

-Sim, qual o problema? Você adora comida italiana...

- Macarrão tem me revirado o estomago ultimamente...

-Tudo bem, podemos ir ao chinês que fica logo na esquina.

-Sushi? 

-Vai dizer que o sushi te deixa enjoada também? 

-Não, mas....

-Clara, onde quer ir?

-Pensei em comida baiana...

-Ãh? – Diego franziu o cenho, surpreso. – Comida baiana?

-Sim, estou com vontade de comer algo do tipo.

-Tudo bem, mas você não gosta de comida baiana, lembra?

-De repente me pareceu bastante atraente.

-Se está dizendo...

Diego levou Clara a um pequeno restaurante que ficava a duas quadras dali. No caminho, os dois não trocaram uma só palavra. Clara, por medo, Diego, por falta do que dizer. Depois de estacionar o carro, Diego ofereceu o braço a ela e lhe conduziu ao interior do estabelecimento.

-Bom, é um restaurante novo, espero que a comida seja boa.

-É bem charmoso...- Clara ficou encantada com a aparência agradável do local. Uma construção antiga, com paredes altas, decoradas com quadros coloridos. As mesas eram dispostas em cantos estratégicos, fazendo com que o lugar não ficasse muito cheio, conservando a aura de tranquilidade. Escolheram uma mesa no canto, perto da janela, que dava para uma bela vista da orla.  O garçom se aproximou e ofereceu os cardápios. 

-Vejamos.... O que acha de moqueca?

-Muito peixe...

-Pode ser de camarão...

-Muito fruto do mar...

-Podemos pedir algo menos marítimo- Diego enfatizou a última palavra com certa ironia. 

-Que tal feijoada baiana? 

-Tá falando sério?

-Sim, eu adoro feijão...

-Bom, mas feijoada não leva apenas feijão, querida.

-Eu sei...

-Tem certeza?

-Quero experimentar. – O garçom anotou os pedidos e se retirou.

-O que deu em você?

- O que?

-Você detesta comidas pesadas, lembra? É toda naturalista e agora me vem com essa de experimentar?

-Ué, resolvi experimentar algo novo, não posso?

-Sim, claro que pode... – Olhando para ela, Diego franzira o cenho e cruzou uma mão na outra, demonstrando sua desconfiança. 

-Enfim, o que nos traz aqui?

-Não querer esperar pela sobremesa?

-Não, quero começar com a entrada.... 

-Já que insiste.

-Por favor...

-Eu... – Diego hesitou um instante, olhou seus olhos castanhos e sorriu. 

-Você?

-Vim lhe pedir...desculpas.

-Desculpas pelo que?

-Não se faça de boba, sabe exatamente pelo que. 

-Não me lembro...- Clara estava adorando a situação. Diego não era do tipo que se retratava, ainda mais com uma mulher. 

-Me desculpe por agarra-la daquele jeito e por ter assustado o Gabriel...

-Ahh, por isso...Tudo bem!

-Não que eu esteja arrependido, mas... - O garçom interrompeu a conversa e colocou os pratos sobre a mesa.  A feijoada estava muito atraente e o cheiro era espetacular. 

-Depois do almoço... – Clara começou a comer devagar e metodicamente. Diego lembrara o quanto adorava vê-la comer. Sempre tão delicada, tão doce.  Ficou observando-a por um longo tempo.

-Está me admirando?

-Gosto de admirar você...

-Não gosto que me observem enquanto como.

-Não pode furar os meus olhos...- Ele sorrira

-Bem que eu queria....

-Não teria coragem.

-Nunca duvide.... 

-Clara....

-Sim? – Tirando os olhos do prato, olhara nos olhos dele pela primeira vez naquela tarde. Eram tão lindos quando vistos de perto, ainda mais do que já eram. Estremecera um pouco. Lembrara-se do quanto fora apaixonada por aquele olhar.... Talvez ainda fosse, mas agora não podia ceder. 

-Sabe o que estive pensando?

-Não, você ainda não disse...

-Poderíamos fazer uma viagem, que acha? Eu, você e o Gabi. 

-Você enlouqueceu? 

-Qual o problema?

-O problema é: Eu não sou mais sua mulher, simples assim.

-E só por isso não pode viajar comigo? 

-Não quero correr o risco...

-Está com medo de não resistir?

-Não, estou com medo de cometer um crime e acabar sendo presa em um lugar desconhecido, só isso. – Diego soltara uma gargalhada. Adorava a ironia velada dela. Mais um traço peculiar do seu charme.

-Adoro seu bom humor...

-Não é bom humor, é sinceridade. Eu e você somos uma bomba relógio, querido. Juntos, podemos causar um apocalipse. Graças a Deus que nos separamos a tempo de evitar uma tragédia. 

-Discordo de você, ao menos em parte. Concordo que somos capazes de provocar um apocalipse, mas não concordo com a parte da separação. 

-Ah é? Engraçado, achei que você concordasse plenamente. – Com as sobrancelhas arqueadas. Clara colocara as garras de fora. Agora era sua vez de alfinetá-lo. – Ou mudou de ideia?

-Não... 

-Foi o que pensei.

- O que vai querer de sobremesa?

-O que você escolher...

-Tudo bem...- Diego dera instruções ao garçom e ele se afastou novamente, recolhendo os pratos do almoço.  

-Como está o Gabriel?

-Bem...

-Só isso?

-O que mais quer saber? 

-Bom, como ele vai na escola?

-Excelente...

-Puxou ao pai, com certeza. 

-Espero, sinceramente, que não! – Claro sorrira irônica e deixou Diego irritado. O garçom se aproximou com as sobremesas, o que o impediu de dar uma resposta à altura. 

-Pediu sorvete? 

-Para você... para mim eu pedi café. 

-Ótimo... – Olhando para a taça de sorvete a sua frente, Clara sentiu um leve desconforto no estômago. Talvez tivesse comido muita feijoada, mas não se lembrara de exagerar. 

-Algum problema, Clara?

-Não... Só preciso ir ao toalete...

-O sorvete vai derreter...

-Eu não demoro, não se preocupe. – Levantando-se, Clara seguiu para o banheiro feminino, que ela logo encontrara sem necessitar de orientação. Lá chegando, lavou o rosto com a água fria da pia, depois se olhou no espelho. Estava levemente pálida e até estava trêmula. – Meu Deus, só me faltava essa agora. Não posso ficar doente... – Enxugando as mãos, Clara respirou um pouco e voltou para a mesa. Diego a observara sentar-se e se preocupou com a palidez da sua face.

-Tudo bem?

-Sim...

-Tem certeza? Você está um pouco pálida...

-Nada de mais, estou bem.- Revirando o sorvete semiderretido com a colher, ela disfarçava as mãos trêmulas. 

-Se quiser ir, posso te levar para casa. 

-Se não se importar, eu gostaria sim. 

-Não vai terminar o sorvete? 

-Não... 

-Ok, eu vou pagar a conta e nós vamos, tudo bem?

-Sim...

Diego chamou o garçom e pagou a conta. Antes de sair, deu uma olhada nela e notou quão estranha ela estava. Chegara tão viva e graciosa e agora estava pálida. Não sabia o que havia ocorrido no banheiro, mas não deve ter sido bom. Mas ele não quis se alarmar, talvez ela estivesse apenas indisposta. 

-Clara, está tudo bem mesmo?

-Estou...

-Você está gelada.- Ele segurou as pontas dos dedos dela e as apertou levemente. 

-Vou agradecer se me levar de volta para o colégio, tenho muita coisa para resolver.

-Pensei que fosse para casa.

-Não dá mais tempo, preciso resolver umas coisas. 

-Tudo bem, posso te deixar lá. 

COLÉGIO

Diego estacionou o seu esportivo em frente ao portão do colégio e esperou que Clara se despedisse, o que ela não fez de imediato, pois ainda não estava inteiramente recomposta. Recostada no banco, ela tentava respirar e colocar as ideias no lugar.

-Clara?

-Sim....

-Já chegamos.

-Ahh, claro, obrigada! – Abrindo rapidamente a porta.

-Espere...- Diego saiu do carro e colocou-se diante dela. – Não vai se despedir?

-Obrigada pela carona e pelo almoço, tenha um bom dia! 

-Não assim...- Puxando-a para si, beijo-a de surpresa, o que a fez assustar-se e não reagir. Ainda trêmula, ela o olhou e entrou no colégio, resmungando. 

-Te vejo mais tarde?

-Não! – Já perto da entrada, Clara gritou para ele. Diego sorriu e arrastou o carro. 

UMA SEMANA DEPOIS

Clara detestava fazer compras, mas não tinha outra opção. Dispensara a empregada e agora era ela quem precisava abastecer a dispensa. Arrastando seu carrinho por entre as prateleiras, andava completamente distraída. Colocava algumas coisas no carro e logo olhava para o celular que, impacientemente, ela apertava nas mãos. Estava ansiosa pela ligação, mas sabia que talvez ela não acontecesse. Mas porque estava assim? “Sou mesmo uma idiota” dizia para si. Enquanto resmungava com o celular, bateu sem querer num carrinho a sua frente.

-Ei, cuidado aí, moça.

-O senhor colocou seu carrinho no meio do caminho, que culpa tenho?

-Se não estivesse distraída olhando para o celular, teria visto o carrinho bem na sua frente. – O homem, um tipo alto e forte, cabelos grisalhos e fala mansa, estava no corredor de condimentos. Clara o olhou bem. Notou que ele era bem familiar, mas não tinha ideia de onde. Talvez fosse apenas coincidência, mas ele se parecia muito com alguém. O homem também a olhou intensamente, parecia estar as voltas com os mesmos pensamentos. Foi então que Clara se lembrou de onde o conhecia.

-Samuel?

-Como sabe o meu nome?

-Ora, não está se lembrando de mim?

-Deveria?

-Eu sou a Clara, espo...quer dizer, ex esposa do Diego. 

-Clara? – Samuel abriu um largo sorriso e a abraçou calorosamente.- Meu Deus, como pude não te reconhecer?  Você está…linda.

-São seus olhos. – Agora Clara parara para analisa-lo. Ele parecia tão diferente. Um pouco mais velho, talvez. Mas ainda era charmoso. Samuel fora colega de trabalho de Diego por um longo tempo, até que Diego resolveu abrir sua própria empresa e eles nunca mais se falaram. – Mas e Júlia, como ela está?

-Nos separamos...

-Sinto muito, eu não sabia.

-E você, também se separou? Nunca imaginei que isso fosse acontecer.

-Pois é. Nem tudo é como esperamos.

-Verdade.

-Mas e o pequeno Gabriel? Deve não ser mais tão pequeno assim.

-Está com oito anos. É um menino lindo.- Agora os dois estavam caminhando lado a lado nos corredores estreitos do supermercado. 

-Nossa, já? Parece que foi ontem que ele nasceu.

-E você, não teve filhos? 

-Não. A Júlia não podia e..ainda não achei a mulher perfeita para ser mãe dos meus filhos.

-Não vai demorar a encontrar, tenho certeza. – Um silêncio se instalou entre eles. Parados na longa fila do caixa, Clara continuava olhando o celular na esperança que ele tocasse. Percebendo sua inquietação, Samuel lhe inqueriu.

-Esperando uma ligação importante?

-Não.- Ela sorriu sem graça.- Na verdade, nem sei porque estou olhando tanto para esse celular. 

-Você está de carro? – Samuel mudou rapidamente de assunto.

-Não, pegarei um taxi.

-Posso te dar uma carona?

-Não, por favor, não quero te dá trabalho.

-Não será trabalho algum.- Arrumando suas próprias compras na mala do seu carro, Samuel ajudou Clara com as dela. Ele a estava olhando de um modo estranho, agora. Parecia estar impressionado com o bom trabalho que o tempo fizera com ela. A menina boba que namorava o garoto promissor, se tornara numa linda e atraente mulher. 

-Algum problema? – Clara o tirou do transe da contemplação.

-Não, nenhum problema. – Terminando de colocar as compras no porta malas, ele a conduziu até o banco do carona.- Só que...você se esqueceu de dizer onde mora.

-Ah, claro! Na principal, número 23. 

-Olha, é bem perto da minha casa.

-Onde mora?

-Ao lado da padaria, casa 32.

-E só nos encontramos agora?

-Bom, eu me mudei faz pouco tempo. 

-Deve ser por isso, então.

Samuel estava dirigindo, mas sua concentração estava voltada para Clara. A atração foi imediata e inevitável. Sentiu que, se ficasse mais tempo com ela, acabaria se apaixonando. Além de linda, era bastante simpática e inteligente. Mas, no momento, seu maior interesse era olhar para as pernas dela. Como estava de folga, Clara vestira um short jeans curto e uma camiseta. Gostava de se sentir tranquila enquanto estava em casa, por isso ficava o mais despojada possível.  Samuel a olhou de cima a baixo e se perguntou como Diego fora capaz de desperdiçar tamanha qualidade. 

-Fica bem ali.- Despertando-o da contemplação, Clara apontou para a casa de dois andares. – Pode parar na garagem, bem ali.

- Tudo bem.

-Obrigada pela carona, Samuel. 

-Não precisa agradecer, foi um prazer.

-Você não quer subir para tomar um café?

-Só se você me deixar ajudar com as compras. – Sorrindo, ajudou-a a subir com as sacolas, que depositaram no balcão da cozinha. A casa estava silenciosa, o que agradou Samuel. 

-Que casa linda!

-Obrigada!

-Você tem bom gosto, sempre teve.

-Bom, não fui eu a decoradora, mas agradeço o elogio.- Arrumando tudo para preparar o café, Clara nem notava que estava sendo observada. – Você não quer beber qualquer outra coisa antes do café? 

-Não, obrigada! Parei de beber há algum tempo.

-Então vai ter que esperar um pouco. 

-Tudo bem! Posso ajudar em algo?

-Não, eu me viro bem aqui, obrigada!

Samuel passou os olhos em torno da casa. Percebeu que toda ela cheirava ao perfume da dona, assim como tinha a cara dela. Tudo austeramente organizado, mas com muito bom gosto. Notou alguns retratos na estante de livros na sala. Eram fotos dela com amigos e com o filho. Notou também uma foto de Diego, o que lhe pareceu um tanto estranho.

-Há quanto tempo se separou do Diego?

-Eu deveria me livrar dessa foto...- Clara notou que ele tinha a moldura nas mãos.- Faz cinco anos.

- O que houve? Quer dizer, se você quiser me contar.- Aceitando a xícara de café fresco. 

-Ele me traiu com uma…ou melhor, com várias mulheres. Mas só presenciei uma das traições. Ele tentou se justificar, mas... foi demais para mim, entende?

-Perfeitamente....

-E você, porque se separou da Júlia?

-Incompatibilidade de horários...

-Como assim? – Clara arqueou as sobrancelhas e sorriu.

-Eu estava numa fase complicada na empresa. Tinha que me dedicar inteiramente ao trabalho, mas ela não compreendia isso. Acabamos por nos separar. 

-Nossa, vocês me pareciam tão perfeitos juntos.... 

-É.. mas nos damos bem, apesar de tudo. Tentamos voltar uma vez, mas acabou não dando certo e resolvemos ficar apenas na amizade.

- Desde então não teve ninguém?

-Bom... tive alguns casos, mas nada que fosse sério o suficiente.

-Eu estou solteira desde que me separei. Me dedico inteiramente ao trabalho e ao meu filho.

-Mas isso é um desperdício...

-Como disse?

-Eu quero dizer que, uma mulher tão linda como você, não pode se privar de viver um novo relacionamento. Você é tão jovem, Clara. Não pensa em se casar novamente?

- Na verdade, não! 

-Porque não?

-Um casamento para mim já foi o suficiente.

-Não seja tão pessimista. O fato do seu primeiro casamento não ter dado certo, não quer dizer que você não pode encontrar alguém que te faça realmente feliz.

-Bom, eu não estou procurando. – Clara serviu-se de mais café e sentou-se no sofá, ao lado de Samuel.

-Talvez não precise procurar. – Samuel olhou-a sedutoramente. Percebendo o rumo que a conversa estava tomando, Clara decidiu desviar imediatamente. 

-Me fale sobre você... O que te trouxe para cá? 

-Bom, eu fui transferido para essa região e resolvi comprar uma casa que ficasse perto do trabalho. Por isso, cá estou. 

-Nossa, então nos veremos mais vezes, pelo jeito.

-Se depender de mim.... 

A campainha tocou e Clara levantou-se para atender a porta. Deu graças a Deus ao ver que se tratava da babá, que fora buscar Gabriel na escola.

-Oi, meu amor! 

-Mamãe!! Você vai ficar comigo hoje?

-Sim, a mamãe está de folga. 

-Eba! 

-Deixa a mamãe te apresentar uma pessoa. – Dirigindo-se para sala carregando Gabriel, Clara sorrira para Samuel.

-Filho, esse é o Samuel, um amigo do papai e da mamãe. 

-Olá, garotão.

-Oi. 

-Veja só como você está grande, rapaz. Sabe que eu te vi bem pequenininho? 

-Eu não me lembro de você não. 

-Nem poderia, você ainda era um bebezinho.

-Filho, vai tomar banho e se vestir, logo a mamãe vai pôr o almoço. 

-Ele vai almoçar com a gente?

-Se ele quiser...

-Bom, infelizmente, não posso aceitar o convite. Mas, se não for incomodo, posso almoçar com vocês um outro dia.

-Ele pode, mamãe?

-Claro que sim! – Clara colocou Gabriel no chão e deixou que ele fosse se aprontar para o almoço.

-Bom, adorei o café e a companhia, mas acho melhor eu ir.

-Tem certeza que não quer almoçar com a gente?

-Hoje não vai dar, tenho que estar na empresa logo, logo. Mas agradeço o convite. – Levantando-se, Samuel foi em direção a porta. – Foi um prazer te reencontrar. 

-Digo o mesmo.

-Espero poder te ver mais vezes.

-Sim, claro.

-Bom, abraços meus para o rapazinho. Aliás, tão bonito quanto a mãe. 

-Obrigada! – Despedindo-se, fechou a porta atrás de si e foi tratar do almoço. Encontrar Samuel foi algo ótimo, pois não o via a muito tempo. Sentiu-se feliz em reencontrar um velho amigo. Arrumando as compras no armário, Clara pensava no que iria preparar para Gabriel, quando sentiu uma forte tontura. Apoiando-se no balcão, ela foi imediatamente ajudada pela babá, que acabava de sair do quarto do garoto.

-Senhora, está tudo bem? 

-Sim... eu... apenas tive uma pequena tontura, nada demais.

-A senhora quer que eu chame um médico?

-Não, não precisa exagero, Maria. Foi apenas uma tontura. Já estou ótima, obrigada. – Respirando fundo, Clara voltara para a arrumação das compras, mas ainda sentira-se tonta, fazendo-a encostar novamente no balcão.

-A senhora tem certeza de que está bem? – Maria encheu um copo com água e estendeu para ela, que estava muito pálida.

-Sim... talvez seja o calor. Está muito quente, não acha?

-Um pouco. – Recolhendo o copo com água, Maria olhava desconfiada. Não era a primeira vez que Clara passava mal nas últimas semanas. Mas se ela dizia que estava bem, não seria ela que contestaria.

-Maria, você ajuda o Gabriel a se vestir enquanto cuido do almoço? Depois você pode ir, eu vou ficar com ele o resto do dia.

-Claro, senhora. 

DIA SEGUINTE

Fazia uma semana que Diego não entrava em contato com Clara, o que era bastante estranho, ao menos era o que ela pensava. Apesar de não estarem mais casados, os laços ainda eram mantidos, incluindo o laço mais forte, o pequeno Gabriel. A comunicação era algo imprescindível para que se mantivessem sempre em contato, principalmente por causa do filho. Impaciente, ela deixara alguns recados com a secretária, depois de ter ligado várias vezes para o celular e não obter resposta. A reunião no colégio do Gabriel começaria em breve, e Diego não entrara em contato para confirmar a presença. Temendo se atrasar, Clara se dirigiu para o colégio, que ficava muito próximo do seu trabalho, o que facilitava a locomoção.  Quando pusera os pés na recepção, notara a figura familiar sentada na sala de espera.

-Pensou que eu não viria? – Diego já estava esperando por ela, o que a deixou surpresa.

-Você ficou dias sem se comunicar, pensei que nem lembrava mais.

-Estava com saudades?

-De modo algum. Apenas estranhei o fato, só isso.

-Precisei fazer uma viagem com certa urgência, não deu para te avisar. Me desculpe.

-Não tem porque se desculpar, você não me deve satisfações.

-Mas faço questão de dá-las. 

-Mesmo que eu não as queira ouvir?

-Mesmo assim! – o diálogo fora interrompido pelo porteiro, que comunicou a entrada dos dois. 

-A que horas começa a reunião?

-As 14:00, porque, tem algum compromisso mais importante? - Ela não escondeu a ironia nas palavras. 

-Não, meu bem! Nenhum compromisso mais importante. Apenas queria saber se devo lhe convidar para um almoço ou um jantar. 

-Nenhum dos dois, tenho muita coisa para fazer hoje. 

-Está me dispensando?

-Não, apenas declinando o convite.

-O que, no fim das contas, dá no mesmo. 

-Cala a boca, a reunião já vai começar. – Sentados junto aos outros pais, os dois pareciam um casal perfeito. Poucas pessoas sabiam que eles não eram mais casados, o que aumentava a certeza e a inveja dos que os viam. Ambos eram bonitos, bem sucedidos e tinham um filho maravilhoso. “Se soubessem a verdade” pensava Clara observando as caras pálidas dos pais, que os admirava com contemplação. A maioria dos colegas do Gabriel, eram frutos de relacionamentos problemáticos, pais que se separaram dramaticamente, ou gerados por produção independente.  Ou seja, aos olhos da maioria, ele era o único privilegiado a ter uma família feliz e perfeita. Diego adorava a ideia de ser marido dela novamente, mesmo que fosse só por algumas poucas horas. Divertia-se com os olhares perscrutastes das mães dos colegas do filho, que não escondiam a inveja e o desejo de ter um “Marido perfeito como você, Diego” disse uma delas certa vez. A professora começou a falar da turma, a elogiar as crianças e depois a distribuir os boletins. Foi falando individualmente com cada pai, colocando-os a pá da conduta dos filhos e de todo o resto. Clara e Diego ouviam atentamente as palavras da professora, ela mais, ele menos. Depois de encerrada a reunião, os pais eram convidados a participar de um pequeno lanche. 

-Parece estar delicioso, mas nós precisamos mesmo ir. 

-Bom, agradeço a presença de vocês dois. O Gabriel é um menino maravilhoso e de muita sorte.

-Nós é que somos sortudos por tê-lo, professora. 

-Bom, tenham um bom dia.

-Obrigada! – Quando a professora se afastou, Clara tratou de recolher suas coisas e se dirigir a saída, obrigando Diego a segui-la.

-Opa, para que tanta pressa? 

- Tenho muita coisa para resolver.

-Posso, ao menos, te dar uma carona?

-Não, posso pegar um taxi.

-Não seja orgulhosa, posso te dá uma carona sem nenhum problema. 

-Se você insiste.

- Com certeza. – Enlaçando-a pela cintura ao ver um casal de pais se aproximar, Diego sorrira diante da sua reação brava. – Ora, amor. Veja como eles nos invejam.

-Não sabem quão bobos são, isso sim.

-Eles acham que somos um casal perfeito.

-O que comprova que são mais idiotas do que aparentam.

-Poderíamos ser, bastava você querer.

- Se vai ficar falando sobre isso, prefiro pegar um taxi.

-Tudo bem, sem esse assunto. Posso saber onde a senhora vai?

- Tenho que corrigir umas provas e entrega-las ainda hoje. Vou para o colégio. 

-Tudo bem. – Diego abrira a porta do carona para que ela pudesse entrar. Detendo-se, Clara apoiou-se no teto do carro, estava tonta.- Clara? – Diego a segurou.- Clara? O que é que foi, está tudo bem?

- Fiquei tonta...

-Senta aqui, eu vou buscar um copo com água.

-Não, já estou me sentindo melhor.

-Por um acaso você comeu alguma coisa hoje? – Diego postara-se diante dela, mantendo a porta do carro aberta. 

- O café da manhã não me fez muito bem, preferi dispensar o almoço. 

-O que quer dizer que você está em jejum, é isso?

-Basicamente...

- E esperava manter-se em pé? 

-Eu ia comer alguma coisa antes de começar a trabalhar.- Clara começara a suar frio, o que deixou Diego um tanto inquieto. 

-Que tal ir para casa e comer alguma coisa? 

-Não, não dá tempo, não posso...

-Você pretende trabalhar nesse estado, mesmo? 

-Não tenho a sua boa vida, querido. – Já parcialmente recuperada, Clara estava se perguntando o motivo para ter uma tontura. Lembrara-se da que tivera no dia anterior e preocupou-se. 

-Porque não quer, querida. Poderia muito bem ficar em casa, mas prefere trabalhar que nem uma louca, não sei para que.

-Não quero ser sustentada pelo meu ex marido, algum problema para você?

-Todos, já que você está prestes a deixar nosso filho órfão por causa da sua negligência.

-Quer mesmo discutir isso aqui? 

-Quer saber, é melhor eu te levar para casa.

-Eu já disse que não vou para casa. Tenho que trabalhar, Diego.

-Ninguém vai morrer se você faltar um dia. – Indo em direção ao lado do motorista, não notara quando Clara abrira a porta do carona e saíra andando.

- Clara, para com isso. Entra já no carro.

-Vou pegar um taxi. 

- Tudo bem, eu não vou insistir para você ir para casa. Se você quer se matar, faça isso. Eu te levo para o colégio, entra aí.

-Não precisa...

-Entra logo, Clara.- Diego a puxou pelo braço e a colocou no banco do carona, fechando rapidamente a porta. – E nem pense em fugir daí.

-Você é mesmo um grosseirão, hein!? – Clara colocou o cinto de segurança enquanto resmungava.

-Só quando necessário. 

A TARDE

Depois de passar o resto da tarde ouvindo reclamações de Diego e corrigindo montanhas de prova, ela finalmente conseguiu chegar em casa para descansar. Gabriel estava na casa da avó, o que significava que aquela noite seria ela, o sofá, a TV e um bom filme. Estacionou o carro na garagem e estava subindo as escadas quando alguém gritou seu nome.

-Clara!

-Samuel? 

-Desculpe chegar assim, mas é que eu vi você estacionar o carro.

-Tudo bem! Eu acabei de chegar do trabalho.

-Notei. Eu estava fazendo uma caminhada e acabei passando por aqui. Quando estava prestes a ir embora, você chegou.

-Quer entrar? Posso te oferecer outro café, o que acha?

-Se não for incomodo. 

-Claro que não! Entre, por favor.

Samuel aceitou prontamente o convite e entrou. Mais uma vez, notara que o apartamento estava silencioso. Dessa vez, o cheiro era mais agradável ainda, como se tivesse sido recentemente arrumado.

-O Gabriel não está em casa?

-Não, ele foi para casa da mãe do pai. Ela gosta de leva-lo para passar dias em sua casa. Sabe como é, né? Coisa de vó coruja. – Depositando as pastas no sofá da sala, Clara se livrou dos sapatos e do casaco. 

-Ele é um garoto cativante.

-Ele é uma gracinha, eu sei. Todos são apaixonados por ele. 

-Se parece muito com você.

-Mas puxou o carisma do pai, com certeza. 

-Imagino...Clara?

-Sim?

-Você aceitaria almoçar comigo amanhã? 

-Eu...- Pega de surpresa, virou-se imediatamente para olhá-lo. Então era mesmo verdade, ele estava tentando seduzi-la. Notara logo no início, mas preferiu acreditar que era impressão sua. – Bom, Samuel, eu não sei...

-Não se preocupe, as minhas intensões são as melhores possíveis. 

-Não é isso, é que...

-Tudo bem, não precisa aceitar. Foi idiotice minha, me desculpe.

-Não, não se desculpe. Tudo bem, eu aceito.

-Mesmo?

-Claro! Basta dizer onde.

-Posso te buscar as 12:00? 

-Ainda estarei no trabalho a essa hora, mas posso te encontrar no restaurante.

-Tudo bem.... Que tal no da esquina? 

-Ótima opção, eles fazem pratos excelentes. – Clara estendeu a Xícara fumegante. – Te encontro lá as 12:30, tudo bem?

-Sim...E como foi o seu trabalho?

-Bom, um pouco cansativo. Tive que corrigir umas provas e entregar notas. 

-Sabe que eu sonhava em ser professor?

-Sério?

-Sim... cheguei a cursar alguns anos de história, mas acabei tendo que sair. As circunstâncias me obrigaram a isso.

-Nossa! Nunca conheci alguém, além de mim, que sonhava em ser professor.

-É uma linda profissão.

-Concordo. Mas é pouco valorizada.

-Sim...- Depositando a xícara sobre o balcão, Samuel segurou a mão de Clara.- Você é incrível, Clara. 

-Samuel...

-Eu sei o que vai dizer...

-Não vamos apressar as coisas, certo? 

-Sim, claro... – Para quebrar o clima, o celular tocou bem na hora, o que deixou-a bem aliviada. 

-“Clara?”

-Oi Diego, algum problema?

-“Não, na verdade...só liguei para ter certeza de que você melhorou”

-Estou ótima, obrigada por se preocupar.

-“ A mamãe disse que o Gabriel está se divertindo muito”

-Ótimo!

-“Bom... eu só queria saber de você”

-Obrigada, agora vou desligar...

-“Espera, porque tanta pressa?”

-Eu estou ocupada, Diego. 

-“Impressionante, você nunca está disponível para mim, não é?”

-Porque deveria estar?

-“Posso te convidar para jantar comigo?”

-Já disse, estou ocupada...

-“Almoçar...”

-Tenho compromisso para o almoço...

-“Compromisso?” 

-Sim, algum problema?

-“Não, de modo algum” 

-Vou desligar...

-“Eu te amo, Clara”

-Sem apelação, Diego. Isso não combina com você...

-“Não acredita, não é?” 

-Tchau! – Clara desligou o telefone e voltou para sala. Samuel estava observando algumas fotos espalhadas pelas paredes.

-Foi o Diego, ele queria me falar sobre o Gabriel...

-Tudo bem...

-Onde estávamos?

-Essas fotos...foi você quem as tirou?

-Sim, gosto de fotografar...

-São lindas...

-Obrigada! – O telefone tocou novamente.

-Seu celular...

-Deixa, não é nada de importante....

-Se quiser que eu vá embora...

-Não, não precisa ir...

-Bom, eu tenho mesmo que ir...

-Não se incomode, não é nada de importante...

-Não é nada, eu realmente preciso ir. Vou adiantar alguns relatórios e...não quero atrapalhar sua noite.

-Bom...não terei muito o que fazer a noite... O Gabriel não está, acabarei tendo que assistir um filme na TV.

-Se quiser, podemos sair um pouco...

-Ãh...acho melhor não, Samuel. Nos veremos amanhã...

-Tudo bem, boa noite então...

-Boa noite! 

-Foi um prazer te ver novamente, Clara...

-O prazer foi todo meu! – Samuel parou na porta e olhou-a intensamente. Deu-lhe um beijo na bochecha e Clara teve que desviar, ou acabaria acertando a sua boca. – Boa noite, Samuel.

-Boa noite!

Ps.: Bom, queridos leitores, esse é um pequeno esboço de um romance que comecei a escrever. Como sou do tipo que necessita de um pouco de incentivo, pensei em ouvir as opiniões de vocês em relação a essa minha aventura literária. Claro, o texto não está concluído, estou nas 30 primeiras páginas. Até aqui, achei que escrevi relativamente bem, apesar de algumas vezes eu considerar o texto uma droga, mas enfim. Por favor, não sejam gentis, quero as opiniões sinceras de vocês. Agradeço, desde já, a vossa paciência em ler. 

Att,

Carol Linda 

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