Preparou o almoço de domingo especialmente para o marido.Já
sabia que aquela seria sua última refeição,fez tudo com muito capricho.Seria a
última vez que ela iria ver aquele homem barrigudo,cheirando a cachaça dizendo
coisas inúteis e sem sentido.Ora a comida estava fria,ora quente demais.Tudo
era um pretexto para viver resmungando,não falava,emitia grunhidos feito um
porco.Serviu o almoço,um belo e apetitoso assado sobre a mesa.Em seguida José
começou a ladainha.Graça,como era chamada a dona Maria das Graças,ironicamente
viveu muito tempo em sua vida uma verdadeira desgraça com aquele homem.Sorriu e
disse para José que ia por comida em seu prato.Tirou do bolso do avental
surrado um pacotinho com veneno,fazia meses que havia comprado,mas ainda não
tivera coragem.Só resolveu colocar em prática quando chegou do trabalho e
encontrou Zé com calça aberta e o pinto de fora abusando de sua filha de nove
anos.Sentiu ódio,nojo,não sabia o que fazer.Fingiu que não viu nada,e resolveu
agir,mas seria num dia de domingo,que para ela era o dia mais terrível da
semana.Dia em que o marido estava em casa e ela era obrigada a aturá-lo.Serviu
o almoço com capricho,misturando tudo para ele não desconfiar.Mas a esta altura
já estava bêbado e não saberia distinguir se o prato servido era peru ou porco.Porco
feito ele.Graça serviu e ficou ao redor,esperando as reações.Colocou uma
quantidade que teria certeza que seria letal.As crianças não estavam em
casa,ela não queria que presenciassem a cena,planejou tudo.Ouvia-se apenas o
barulho dos talheres no prato.Graça esperava atentamente,observando cada reação
de José.E logo após se empanturrar,José cai com a cabeça sobre a mesa.Graça
serve seu almoço e come com satisfação e apetite.Levanta da mesa,lava seu prato
calmamente,na tentativa de não deixar vestígio.Sai pela rua e começa
teatralmente a chorar e pedir socorro:



-Alguém me ajuda!O José está passando mal!Chamem um médico!