O retirante

12 de Agosto de 2014 Helena A. Contos 778

Entrei na casa ainda estava escuro.Por volta de 5 da
manhã,era um dia frio mas aquele ambiente tornava tudo ainda mais frio e
obscuro.Senti um calafrio mas não dei muita importância,estava acostumada.O
rádio ligado baixinho,tocando um canto muito bonito.Era canto gregoriano,entre
uma palavra e outra eu conseguia identificar a palavra aleluia.Na cozinha não havia muitos móveis,apenas uma geladeira
velha,um fogão antigo com algumas panelas vazias em cima.O chão era de piso
vermelho,as paredes pintadas grosseiramente em azul,nos cantos o bolor e o mofo
tomavam conta.Entrei no outro cômodo,eram apenas dois e do lado de fora um
banheiro minúsculo.No outro cômodo havia um colchão no chão e algumas caixas de
papelão com roupas dentro.No canto do quarto,estava ele.Pendurado por um fio de
extensão,preso em um caibro.Ao lado um banquinho caído e marcas de pés na parede,talvez
por ter se debatido,em seus últimos movimentos.Olhei ao redor,e em cima de uma
bíblia havia um papel dobrado.Era um bilhete.Abri e vi que havia sido escrito
por mãos trêmulas,na tentativa de justificar seu ato.Dizia o seguinte:



Querida Janice e querido
Wellington,Washington e Wendel



Tentei dar pra vocês um futuro, uma
vida boa. Mas fracassei como homem e como pai. Pra viver assim dando desgosto
pra minha família é melhor morrer. Não pensem que fui covarde, não me julguem, um
dia vocês entenderão. Amo vocês.



Ele veio do Maranhão,em busca de uma vida “melhor” para sua
família.Queria dar aos filhos aquilo que não teve.Demorou meses para juntar as
economias e comprar sua passagem para São Paulo,veio sem conforto algum,mas
veio sonhando e cheio de esperanças.Disse à mulher : mulher,nós vamos mudar de
vida,você vai ver!Ele veio sozinho até se ajeitar,homem sozinho se vira mais
fácil,disse à mulher.Ligava todos os dias para matar a saudade,mas nos últimos
dias,a mulher estranhou.Passou uma semana sem telefonar.Também pudera!Tudo o
que conseguiu foram poucos trabalhos,fazendo bicos.Mal sabia escrever seu
nome,mal sabia falar e se expressar,o que fez com que fosse enganado a troco da
ganância alheia.Já não tinha dinheiro para se alimentar,não iria roubar,apesar
de todas as dificuldades,sabia que seria muito pior se fizesse isso.Sentiu-se
humilhado e impotente diante das adversidades da vida,não havia ninguém que
pudesse ajudá-lo.A única solução que ele enxergou para acabar com o desgosto
foi aquela atitude extrema.



Ele não sabia que já tinha tudo.Tinha uma esposa,filhos,um
cachorro no quintal e um lar feliz.Não era rico,mas não passava fome.Fez tudo
aquilo por amor aos filhos,na tentativa de dar um futuro melhor.Ele não foi
covarde,talvez aquele ato foi o mais corajoso de sua vida.



Leia também
LUTA ARMADA há 16 horas

LUTA ARMADA Aqueles tidos como imprescindíveis Pelo afã de lutar toda...
ricardoc Sonetos 5


Paz Celestial há 1 dia

Paz na alma é muito mais Do que paz de mente... pois passa desta par...
kuryos Artigos 12


Poema Rosa Para um Dia de Sol há 2 dias

A Rosa Emília A Rosa que an...
a_j_cardiais Poesias 61


Poema Suado há 2 dias

Estou num deserto de inspiração... Nada passa por aqui... Nem ladrão. ...
a_j_cardiais Poesias 50


Hebreus 3 - Versículos 7 a 11 – P 3 há 2 dias

John Owen (1616-1683) Traduzido, Adaptado e Editado por Silvio Dutra ...
kuryos Artigos 20


Hebreus 3 - Versículos 7 a 11 – P 2 há 2 dias

John Owen (1616-1683) Traduzido, Adaptado e Editado por Silvio Dutra ...
kuryos Artigos 15