A menina da casa em frente

Nas últimas três semanas daquele novembro, ela não fora à escola. Meus amigos comentavam sobre uma doença estranha. Disseram apenas que a pobrezinha da minha vizinha, moradora da casa em frente, poderia até morrer.

Como assim morrer? Aos dez anos de idade? Meu coração de menino apaixonado sofria. Afinal, em pleno despertar do romantismo de meus onze anos, soubera que minha namorada poderia morrer.
É bem verdade que ela não sabia que era a minha namorada. Mas eu sabia, e isso importava.
Em minha casa, os adultos mantinham um silêncio amedrontador. Não se falava nada sobre a menina.
O que se ouvia das conversas dos outros vizinhos em nada ajudava. Eram só expressões vagas: “A febre baixou”, “Hoje comeu uma sopinha”. Um dia, ouvi meu pai segredando à minha mãe:

– É paralisia infantil. Se viver, vai ficar paralítica ou deformada.
Deformada? Aquela deusa de pele alva? Não, Deus não permitiria isso.

Aquele rostinho claro, aqueles olhinhos amendoados verde-mel, os cabelos loiros brincando de rolar em abundantes cachos. Não, deformada não.
Várias vezes, tentei falar com minha mãe sobre o assunto.

Habilmente ela se esquivava. Procurei a professora de religião. Irmã Tereza, pacientemente, explicou-me como a doença agia, as possíveis seqüelas e as esperanças de recuperação.

Sugeriu que eu poderia ajudar, rezando diariamente. O santinho com a oração de santa Rita de Cássia passou a dormir e a acordar comigo.
– Fé, meu filho. Fé e oração.

Faltavam seis dias para o Natal. Eu estava na janela da sala, o olhar fixo no vidro fechado da janela da casa exatamente em frente à nossa. Concentrei minha atenção para, mesmo do outro lado da rua, tentar perceber algum movimento. Então eu a vi.
Uma silhueta magra e muito diferente da garota exuberante que eu conhecia. Mas era ela. Os vidros fechados e a cortina de crochê a cobrir boa parte da visão não me impediram de perceber um sorriso.
Acho até que ela abanou. Santa Rita ouvira minhas preces. Rezaria em dobro nos cinco dias que faltavam para o Natal.
Vinte e quatro de dezembro. Os sinos da Matriz esparramavam sobre a cidade seus sons mais solenes. As pessoas, carregadas de pacotes, andavam excitadas de um lado para outro da rua do Comércio.

Eu, como sempre, com o olhar fixo na casa do outro lado da rua. Levei um susto quando a janela foi aberta. Apenas a linda cabecinha apareceu acima do peitoril. Com esforço, a menina espichou-se o que pôde na cadeira de rodas para mostrar-se radiante, linda. Em meio a um doce sorriso, gritou a plenos pulmões:
– Feliz Natal, amigo!

– Feliz Natal, – mal pude sussurrar em resposta. A janela já se fechara. Minha mãe chamava para a ceia. Tomei um gole de champanhe pela primeira vez.
Afinal, tinha o que comemorar.
Soube, uma semana mais tarde, que a família da casa em frente se mudara para Porto Alegre.
Seria melhor para a saúde da jovem, diziam.

Gostaria que a doce namorada dos meus onze anos soubesse, esteja onde estiver, ter sido aquele, um dos mais lindos natais de minha vida.


fim


José Índio Alves
São.Leopoldo/RS .(Narrativas
de Natal. Ed. Oikos, 2007.Orgs.: Ernani Mügge e Juracy Assmann Saraiva, p. 67