O sonho de Eva
(de William Adriano)

Aquela primitiva mulher sentia fome. Ela vivia em seu grupo nômade e tinha saído pra coletar alimentos. Do outro lado do rio, no alto de uma montanha, ela avistou um maravilhoso arvoredo, com um verde extraordinário e com cores que ela nunca tinha visto antes. Seu instinto lhe indicava que neste tipo de vegetação, era possível encontrar algumas frutas ou raízes. Porém era muito longe, e seu grupo já estava de partida. Em situações como esta era natural retornar ao grupo, mas neste caso, ela estava sentido algo diferente. Um sonho tinha lhe assaltado.

Partiu rumo ao seu sonho. Algo que transitava entre a contemplação da beleza e a fome que lhe atormentava. Ela tinha em sua mente a fixação da imagem daquelas frondosas árvores. Agora seu desafio era atravessar o rio. Demorou mas encontrou uma passagem estreita pelas pedras. E também ao longo do caminho perigoso, encontrou frutas comuns que eram típicas daquela região. Instintivamente matou sua fome.

Já saciada, sentou-se sobre uma pedra, e mesmo com seus rústicos processos cognitivos de pensamento, pensou sobre si mesma. Foi incrível para ela, pois nunca tinha refletido sobre si mesma daquela forma. Olhou para o outro lado do rio, de onde partiu, e avistou a fumaça de seu grupo. A fogueira tinha se apagado e eles já tinham partido. O que fazer? Pensar assim era algo novo para ela.

Olhou para as flores que estavam perto de serem alcançadas, percebeu que já havia saciado sua fome, e mesmo sabendo do risco de perder-se de seu grupo, e se ver indefesa aos predadores, teve a maior decisão já tomada em sua vida. Sentiu um frio na barriga, como se estivesse na frente de um tigre. Ela percebeu que agora já não podia mais voltar. Seu sonho era muito maior que qualquer coisa que já havia experimentado. Na sua época ninguém era capaz de sonhar como ela sonhara. Ela era um salto no seu tempo. Seu desejo sonhador era inovador e revolucionário.

Então o aroma lhe conduziu a caminho de seu sonho. A relva da manhã lhe recebia ao pé do arvoredo florido. Era mais lindo do que ela tinha imaginado. Mesmo longe dos seus, sentia uma paz profunda, pois seu sonho estava diante de seus olhos. Não sentia mais medo, e ao olhar para o horizonte, estando no alto da montanha, avistou seu grupo que ao longe se afastava. Percebeu que ainda podia alcançá-los. Retornaria sim, mas não se importava com isso.

Pôs em seus lábios aquela fruta exótica e suculenta, e coletou algumas para levar para seu companheiro. Desceu a trilha com uma serena calma, pois agora era uma nova mulher.


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