CONTOS DE ALDERRIOM
LIVRO I: O IMPERADOR NEGRO, O REINO DA LUA E O CAVALEIRO DOS MARES GÉLIDOS

CAPÍTULO VI - PARTE 2

***

Aquele sonho realmente alterara o humor do senhor das trevas. Preencheu-o com uma enorme raiva, não a ponto de fazê-lo expressá-la, mas ao ponto de fazê-lo sentir uma enorme impaciência em seu interior. Não sabia se sentia raiva de ter sido derrotado, ou de Algmor, ou de não estar em seu verdadeiro corpo, ou pela cruel morte de seus filhos, o massacre que lhes foi imposto há centenas de ciclos, ou pelo maldito calor que fazia naquele deserto. Mas uma coisa realmente o deixava com raiva, ele não só podia, como iria morrer a qualquer momento, os frutos haviam acabado, os ‘comerciantes’ que Grausfom mandou ir procurar mais frutos pelos comércios especiais ainda não haviam retornado, e provavelmente não retornariam; mas esse não era o maior problema, o maior problema era que ele sentia medo da morte, não demonstrava tal medo, mas sabia que no fundo tinha medo, muito medo de acabar por retornar a escuridão que o adormeceu durante centenas de ciclos. Saber que tinha medo da morte, esse era o principal motivo de sua raiva, saber que tinha medo, muito medo.

Sua aparência havia mudado, emagrecera bastante, ainda não era possível chamá-lo de magérrimo, mas o pouco excesso de gordura que aquele corpo tinha já havia desaparecido, e agora era apenas normal. A carência de diversos nutrientes já atacava seu corpo, que adquirira um tom levemente amarelado; duas enormes olheiras transformavam os seus olhos praticamente em duas covas. Suas unhas adquiriam um tom arroxeado, seus lábios estavam praticamente brancos, e rachados. Poderia restaurar-se gastando da pouca magia que aquele corpo acumulava, mas ainda não era momento. Não podia desperdiçar magia daquela forma, não ainda.

Olderim via a situação do acampamento. Brigas constantes, muita bebida, muita cantoria, muito jogo... A cena não era nem um pouco assustadora, mas aborrecia Olderim, como qualquer coisa o aborreceria neste dia. Slaszassar estava à esquerda de Olderim, que começava a dirigir-lhe a palavra.

- *(Precisais partir... Não creio que o caminho seja mais tão seguro para vós... Ainda não confio o suficiente nestes sujeitos... E sabeis bem que não durarei muito se não achar meu corpo... Caso morra não sei o que será de vocês... Confio completamente em Grausfom, enquanto estiver vivo sei que ele me seguirá, mas se eu morrer não creio que ele continuará ao vosso lado, e acho que a única coisa que terá de consolo caso minha morte chegue serão vocês... Sabeis bem como o veneno de vossas presas é precioso, sem falar de vosso couro... E como já disse, há uma grande chance de que eu não sobreviva muito tempo mais... Peço, portanto, que partam... Ainda hoje, mas não...)* - A fala de Olderim fora interrompida por Slaszassar.

- *(Mas mestre... Ê... eu não posso abandonar-lhe... Ê...eu...)* - A voz de Slaszassar estava temerosa, incrédula. O homem-cobra não conseguia medir sua inconformação. “Eu sabia. Era uma questão de tempo até que isso acontecesse, ele apenas nos usou... Como ele pôde... Após tudo o quê passei por ele... Por quê? ... Por quê é mais fácil que os humanos o sigam sem nós por perto? ”. O homem-lagarto chocou-se de joelhos contra o chão e curvou até encontrar a testa e os cotovelos contra o solo. -*(Eu lhe imploro Olderim... Não nos abandone... Ê... eu faço... qualquer coisa para que você não nos abandone... Eu lhe imploro... Tu és nossa última esperança mestre)*.
- *(Minha decisão já está tomada Slaszassar... Até essa noite vocês terão de partir... Mas não estou lhes abandonando... Vocês partirão em pequenos grupos... Você irá com Jilgent para...)* - Mais uma vez sua frase foi interrompida pelo homem-cobra.

Slaszassar não conseguiu aguentar as palavras de Olderim. Uma animosidade incontrolável aqueceu seu sangue frio. O escamado ergueu-se e sua voz saia num vocífero. Foulsxiem, que até agora também estava no meio da conversa, sem falar qualquer coisa, espantou-se, e temeu pela vida de Slaszassar. - *(Além de abandonar-nos queres destruir-nos?! ... Estás insano se pensas que partirei daqui sem meus irmãos... E ainda por cima na companhia de um humano, na companhia de um assassino!... Na companhia de um covarde! Se queres que eu morra... Que seja pelas tuas mãos... Não temo a morte... Nunca hei de temê-la... Nada pode ser pior do que o inferno que minha vida tornara-se! ... Tudo porque tentei trazê-lo de volta... Se queres minha morte, ao menos dê-me a honra de ser por suas mãos!... Recuso-me a...)*

- *(Chega Slaszassar!)* - A voz de Olderim vociferou, esta era primeira vez que viam aquele ser irritar-se com alguma coisa. Uma súbita astenia atingiu as pernas do escamado, que tombou novamente contra o chão, o ar faltou-lhe nos pulmões. - *(Você não tem o direito de recusar nenhuma ordem minha... E aquilo não era um pedido... Aquilo foi uma ordem... Não levante sua voz para mim, se queres que lhe mate diga-me isso... Que o farei... Mas saibas que não quero a tua morte, ou a de qualquer de seus irmãos... Dá próxima vez que me interromper a fala eu interrompo-lhe a vida, escutai-me bem agora...)* - O réptil tornou a respirar. - *(Como já vos falei, não confio nestes mercenários de bosta... Estou mandando vocês para longe exatamente para vossa própria proteção...)*

- *(Eu não quero tua proteção... Quero apenas estar ao teu lado, meu deus... É tudo o que peço, estar ao teu lado durante a tua vingança, durante a tua conquista... Se não posso caminhar ao teu lado prefiro não caminhar)* - Mais uma vez o esverdeado interrompia Olderim, mas sua voz agora era mórbida, seca, sem qualquer valor pela vida. Carregava dentro de si apenas uma enorme decepção. Foulsxiem ficou de estômago embrulhado, sabia que Slaszassar havia cometido o maior de todos os seus erros.

Olderim tornou a falar, mas sua voz não carregava raiva, nenhuma raiva, apenas calma, uma serenidade tremenda. - *(Então o queres é morrer?)* - O escamado não respondeu a pergunta, apenas virou a face, ficando cabisbaixo, fitando o chão. De um dos olhos do homem-cobra caiu uma lágrima, que foi escorrer seu rosto e despencou até atingir seus joelhos. - *(Não entendo porque carrega dentro de si tanta dúvida.)* - Olderim começava a aproximar-se do réptil que estava ajoelhado. O coração de Foulsxiem palpitava como nunca dentro de seu abdômen, era o fim de seu irmão. - *(Pensas que não posso ouvir teus pensamentos criança? ... Pois saibas que o posso, e o faço... Sei o que passa pela tua cabeça em todos os momentos... Principalmente as dúvidas acerca minha lealdade... Acerca meu caráter... De todos aqui tu és o que mais atiça-me a curiosidade... E sabes o porquê? ... Porque dentro de ti, tu carregas a certeza de que estou apenas usando de vossas habilidades, de que vos trairei a qualquer momento... E, ainda assim, segue-me. Confia em tudo o que faço...Eu sempre pensei que punhas a tua lealdade acima do teu próprio medo... Mas descobri que estava errado... O motivo de tamanha lealdade é a tua falta de medo... Não tem medo de falar nada em minha frente... Não tem medo de opor-se a mim... E é uma qualidade verdadeiramente boa, tenho de acrescentar... Mas o quê realmente me surpreende é a coragem que vejo em ti...)* - Olderim estava exatamente a quinze passos do homem lagarto, e lá parou. - *(Se fosse qualquer outro neste acampamento sei que levantar-se-ia agora e sairia de perto de mim pedindo mil súplicas... Qualquer um... Sei inclusive que Foulsxiem reza neste exato momento pela tua alma... Admiro-lhe por tal bravura, muitos a confundem com idiotice, mas sabeis que coragem ante a morte é algo impossível para qualquer ser, esse medo a tudo supera... A tudo... Mas por incrível que pareça não vejo isso em teus pensamentos... É verdade, teme a extinção de teu povo, pode-se considerar isso como um medo, mas eu o vejo como amor, mas...)* - Olderim retornara a caminhar na direção do escamado. - *(... não temeis a morte...)* - Foulsxiem esperava o pior, mas nada aconteceu com Slaszassar. Olderim caminhou até ficar exatamente na frente do escamado, agachou-se, encostando o joelho esquerdo no chão. A mão de Olderim tocou o rosto de Slaszassar, o indicador do deus aparou-lhe uma lágrima. - *(Não chores criança. Ergue-te... Como já disseram-lhe... A tua espécie é muito rara e escassa para sacrificar de maneira tão inútil a tua vida... Jamais trair-te-ei... Jamais... Estou em dívida com vosso povo, estou em dívida contigo... Uma dívida além da vida...)* - A pele de Olderim começava adquirir um pálido tom verde, as veias de seu corpo começavam a escurecer, como se o sangue que lhes corria estivesse talhando. - *(Vós precisais partir... Quero que tu reúna o teu povo... e espalhe a notícia de que seu deus está de volta... De que seu deus dar-lhes-á vingança, devolver-lhes-á a glória... Diga-lhes que não irão mais precisar esconder-se, nunca mais... Por isso quero que faça o que lhe ordeno... Quero que reúna teus semelhantes!... Quero-o a procura de todos os lauvorianos que conseguir reunir!... Vá e espalhe a notícia:... Olderim voltou... Para erguer uma nova era... Para reescrever um novo futuro... Para liderar um novo povo... O vosso!)* - O corpo de Olderim tremia, seus músculos vibravam como se estivessem sobre o efeito do frio extremo. O senhor das trevas se reergueu e afastou-se de Slaszassar, quando ficou a mais de quinze metros seu corpo retornava ao estado anterior. As palavras anteriores rejubilavam o ego de Slaszassar, que nem sequer perguntou como havia sobrevivido a presença de seu deus. Uma nova animação atingia seu espírito. Uma verdadeira paz atingiu a sua mente. Mas logo foi interrompida pela voz de Olderim, que tornara a falar.

- *(É apenas para o teu sucesso que envio Jilgent contigo... Ninguém neste acampamento conhece mais estas terras e esse povo do que ele... E sabeis que ele caçava a teus semelhantes... Tinha muita experiência nisso e por isso acho que ele poderá ajudar-te a encontrar mais do vosso povo, certamente que sim... Ele não te fará nenhum mal... Conquanto não o faça nenhum... E quero que saibas... Ele não está indo a teu serviço... Ele não está indo sob tuas ordens... Ele está indo em sua companhia... Apenas para ajudar-lhe... Não tente se impor sobre ele... E, principalmente, não tente nada contra ele, pois ele irá revidar... E sinto dizer-te, mas acho que ele lhe derrotaria com uma enorme facilidade, você nem sabe o quão fácil seria... Sei que tua coragem é tremenda... Sei que não temeis a morte... E sei que apenas a tua raiva supera a tua coragem... Mas não seja estúpido... Ele não procura mais o teu mal... Ele, como você, procura o meu bem... Por isso peço... Não tente nada contra ele... Pois eu não quero perder um de meus filhos... Ou melhor... Eu não quero perder você, meu filho)*

Estas palavras encheram Slaszassar de animosidade, mas ele conteve-se. Não sabia como poderia ser comparado a Jilgent, e perder na comparação. “Perder para um humano? Impossível! Perder para um covarde! Conhece-me tão bem assim mestre? Acho que não! Nunca perderia para um saco de merda como aquele. Nunca! Como achais que um humano pode localizar melhor um Lauvoriano do que um lauvoriano? Se assim fosse, já estaríamos extintos, há tempos. Provar-lhe-ei que estás errado mestre... Provar-lhe-ei”. Dentro de si tinha a convicção de que provaria ser melhor que Jilgent. A qualquer custo.

-* (Então faça como desejar Slaszassar... Mas pelo menos tente não morrer... Dir-lhe-ia para não avariar muito Jilgent... Mas sei que isso não é possível.)* - Olderim falou em tom de conselho. E depois dirigiu a palavra para Foulsxiem, que estava perdido em seus pensamentos ainda com a última cena que vira. - *(Por quê, Foulsxiem? Porque eu gasto mais energia para tornar meu resplendor não letal do que ganharia enquanto me alimento de seja lá o que for... Talvez se encontrar algum arcano bastante habilidoso... Ele possa fazer com que alguns alimentos não apodreçam perto de mim... Mas não tenho esperança quanto a isso... É mais fácil encontrar o meu corpo.)* - Olderim tornou a olhar para o resto do acampamento, e depois que Slszassar retirou-se retornou a falar com Foulsxiem. -*(Foulsxiem tu é aqui o mais próximo que tenho de um ser completamente virtuoso... Sabeis respeitar a todos, e parece ter grande apreço pela vida de todos... Sejam amigos ou inimigos... Respeito-o por isso... Mas devo avisar-lhe... Não pense duas vezes quando tiver a chance de matar um inimigo mais poderoso que você, ou mesmo um amigo mais poderoso que você... Pois essa chance pode não acontecer novamente)*

-*(Agradeço suas palavras, meu senhor, mas não sou tão inocente quanto pensas que sou)*
- *(Esqueceu-se que posso ler sua mente?... Sei exatamente o que pensas que é... E digo-te.. Você não o é... Tenha certeza disso... Conheço cada um de vocês mais do que vocês próprios... Que espécie de protetor seria se não o soubesse? ... Qual deus desconhece dos sofreres de seus filhos... Sei que não sou vosso criador... Não quero tomar-lhe o lugar... Quando ele quiser retornar para vosso lado ficarei feliz de passar-lhe a vossa proteção... Mas sabemos que isso não acontecerá... Ele os abandonou... Como todos os outros... Mas deixemos de baboseiras... Caberei a você achar a localização de meu corpo... Com alguma sorte serás capaz de achar novamente aquele humano... Qual era o nome dele mesmo?)* - Olderim encarou o olhar de Foulsxiem, como se olhasse através de sua alma. -*(Isso! Jaspen... Felizmente ajudou-o a fugir, caso o contrário estaríamos perdidos... Acho que ele é a única pessoa que pode nos indicar com quem e aonde Yangris conseguiu a localização de meu corpo... Confio a ti essa missão... Escolha alguns de seus semelhantes para acompanharem-te)*

- *(Como desejar meu senhor)* - Foulsxiem começava a distanciar-se de Olderim quando a voz deste retornou a ecoar.

- Foulsxiem!

- *(Algum problema mestre?)*

- *(Lembre-se ... Fiszilis pode ter-lhe tirado o veneno que vossos semelhantes carregam ... Mas não se menospreze por isso... Ele deu algo muito, Muito melhor para você... Saibas que o teu hálito pode atingir até mesmo a um deus... E diria mais... Teu hálito é capaz de aniquilar até mesmo um imortal... Há muito tempo eu não via um mortal portador da essência do deus dragão... E digo-lhe... Nunca vi nenhum mortal portando seu hálito... Para falar a verdade...Nunca vi sequer um imortal portando este poder, a chama de um deus Primal... Creio que nunca havia conhecido ninguém puro o suficiente para carregá-lo... Tenho certeza de que tu és um dos seres mais bondosos que já devem ter nascido neste mundo... Por isso digo a ti criança... E prometo-lhe... Não vos trarei destruição em vão... Sei que é isso que temes...Devo admitir... É uma honra para mim ter alguém como você ao meu lado.)*

-*(Agradeço os elogios mestre, mas devo discordar acerca de minha pureza e bondade, nunca fui ou serei tão inocente)*

-*(Só porque teu passado é de destruição não quer dizer que teu futuro tenha que ser... Sabeis que não és tua culpa a morte daqueles seres...)*

-*(Sim, sei... Mas também sei que não é culpa de Jiocaril a morte de Elien, entretanto ele sofre eternamente com o sangue dela em suas mãos... Da mesma forma que lembro todos os dias daqueles rostos que desfaziam-se nas chamas, daqueles gritos que perdiam-se na fumaça, inimigos, semelhantes, tudo agonizava...)*

-*(Jovem... Precisas saber... O hálito pode ser uma arma de enorme destruição, de fato... Mas saibas que teu sopro pode carregar de vida qualquer coisa... Qualquer coisa!... Sei que qualquer um com tal dom já teria dominado um continente inteiro, senão um mundo... É por isso que digo a ti, tal poder não cairia nas mãos de ninguém com o mínimo de maldade)*

Foulsxiem apenas baixou a cabeça e retirou-se da presença de seu deus. Olderim virou-se e começou a sentir o vento. E pôde escutar a boa notícia que ele trazia com os ecos do acampamento. Os ‘comerciantes’ de Blanc haviam retornado com mais frutos, ao que tudo indicava eram mais trinta no mínimo. Claro que não conseguiria nutrir todas as necessidades daquele corpo, mas indicava que ele teria que desprender menos magia para restaurar-se.

***

O sol ainda estava longe de esconder-se por detrás do horizonte. Os grupos enfim partiriam rumo ao deserto, rumo as suas missões. Os homens-lagarto separar-se-iam em pequenos grupos. Foulsxiem fora com Zuztszel, Utresiez e mais um humano, Godrius, que seria aquele quem obteria as informações que precisasse de contato com outros humanos, foram em direção à Filjor, pois Jaspen vivia em uma tribo próxima da cidade mercante. Iacoz, Osziliauz e Giacof seguiam com outro pequeno grupo de homens, que conseguiram a confiança de Olderim, eles iriam em busca de mais lauvorianos, para o lado norte dos Callfígeos. Jilgent Toflles e Slaszassar foram para o lado sul dos Callfígeos, também em busca de mais lauvorianos.

O sol já se escondia atrás das dunas, Jilgent e Slaszassar seguiam seu caminho. Não trocaram uma palavra desde que saíram do acampamento, ou mesmo antes de sair. Jilgent não demonstrava nada, seu cavalo andava vagarosamente, apenas um pouco a frente do camelo que levava o homem-lagarto. Slaszassar mostrava certa impaciência, não conseguia tirar os olhos de Toflles. “Então faça como desejar Slaszassar... Mas pelo menos tente não morrer... Dir-lhe-ia para não avariar muito Jilgent... Mas sei que isso não é possível”. Essas palavras ecoavam constantemente em seus pensamentos, sua raiva estava a ponto de explodir. Qualquer desaforo, por mínimo que fosse, vindo de Jilgent, o homem-cobra atacaria-o.

- Então... Não é melhor procurarmos logo algum lugar onde possamos acampar esta noite? – A voz de Jilgent rompeu o silêncio que era dominado apenas pelo vento que surgia com a noite.

- Maszs por quê? O verme já eszstá canzsado? – Respondeu o homem-cobra, com um azedo tom de deboche.

- Não... Estou apenas sugerindo escolhermos um lugar para acender logo uma fogueira.

- Para que szseuszs amigoszs zsaibam a noszsa poszisção?

- Nossa você ainda está nessa de assassino.

- É ... Ou achxas que é fáscil ezsquescer quando uma pezszsoa casça zseuss szemelhantesz para ganhar trocadosz e no dia szseguinte ter que contar com ele para zsalvar zsua pele?

- Entendo como você pensa... Também estou passando pela mesma situação nesse exato momento... De qualquer forma, sei que tu tens o sangue frio e que não se dá bem com a noite fria do deserto... Então eu queria saber se não é melhor começar a descansar agora que está de corpo quente ainda? ... Realmente não sei o quão fraco vocês ficam ante o frio... Mas sei que é o melhor momento para atacá-los... Por isso lhe aconselho a escolhermos logo um lugar onde a areia não seja tão fofa para acendermos uma fogueira.

Slaszassar continuou sem falar uma palavra, apenas continuou a andar em seu camelo, ultrapassando o cavalo de Jilgent, que havia parado.

- Tá bom, se não quer responder não responde então... Mas...

- Poderia-me faszer o favor de calar-te a boca! ... Ou não... Tenho uma idéia melhor... Pegue o ouro e tudo o que presciszar e vá embora... Vá para alguma vilaszinha qualquer dazs prósximidadezs depoisz que achar e reunir o meu povo eu pazszo lá para te buzscar e todozs ficamozs feliszezs.

- É tentadora a sua oferta, mas eu costumo seguir as ordens de meus superiores a risca, então não irei contra as ordens de Olderim.

- Não achxaizs que zsou um zsuperior teu?

- Certamente que não.

- Inzsinuasz que és superior a mim?

- Não falei isso em momento algum... Mas se esse for o ponto... Sim, sei que sou superior a você.

O coração de Slaszassar acelerou de raiva. Fez o camelo parar os passos. Jilgent aproximava-se com seu cavalo. A cauda do escamado, num movimento extremamente rápido dirigi-se contra a face de Toflles, que apenas vira o rosto levemente para a direita, fazendo o réptil errar o golpe.

- Calma calma... Para alguém de sangue frio és muito esquentadinho Slaszassar.

Num salto confuso e desleixado, o homem-cobra salta para cima de Jilgent. Acertando-o, por pura sorte. Os dois caem do cavalo de Jilgent, rolando duna abaixo. Numa luta confusa, desordenada e rolante os dois seguravam-se enquanto caiam o morro de areia. Incrivelmente nem o camelo nem o cavalo moveram-se depois que os dois caíram.

Ambos estavam com muita areia em seus olhos e boca. A esclerótica de Toflles estava bastante vermelha, lutando para ficar aberta. Os olhos de Slaszassar nada sofreram recobertos por uma fina pele, que também funcionava como as pálpebras, mas eram para ser usadas sob a água, entretanto também protegiam muito bem da areia do deserto.

Quando os dois terminaram de rolar. O homem escamado estava sentado em cima da cintura do humano, com a mão esquerda segurando o pescoço de Jilgent e o cotovelo direito estava curvado para trás, sustentando a mão destra, a qual estava aberta, com a palma da mão a mostra, mas com os dedos encurvados, como se ele fosse desferir um golpe com as garras.

- Não deveriazs ter inzsultado-me Jilgent... Muito menozs zsubezstimar-me. – O olhar do réptil era o de quem havia acaba do de provar algo muito importante para si mesmo. Com um orgulho imbatível.

- Eu não subestimei-lhe caro lagarto. – Um enorme sorriso abriu-se na face de Jilgent. Inicialmente Slaszassar não entendeu o porquê. Mas logo sentiu uma pequena fisgada em sua barriga. Algo muito frio e pontiagudo estava encostado em sua barriga, exatamente onde seria seu coração. O escamado olhou mais para baixo e viu o braço do humano segurando a cimitarra que ele sempre carregava atada à cintura. Não sabia como ele havia conseguido desembainhá-la durante a queda, muito menos sem que ele tivesse percebido. A lâmina de Toflles estava enfiada de leve na barriga do réptil de modo que ela apenas perfurou a veste do homem-cobra e entrou alguns milímetros em sua barriga. Um filete azul de sangue escorreu pela lâmina, que reluzia o fulgor do pôr-do-sol.