Edgarda

09 de Setembro de 2011 Olavo Ataide Contos 1122

Não fazia muito frio, mas Edgarda vestia seu casaquinho – como todos os dias. Era algo que já fazia parte da sua imagem. Hoje, ela vestia o seu favorito, um preto com detalhes vermelhos nos ombros. Andava lentamente pelo vasto gramado da escola, sozinha. Era cedo demais. Ela já deixara suas coisas na sala e não estava com paciência para conversar com a professora.
Embaixo da sua árvore favorita – a qual ela gravara seu nome perto de uma das ramificações da raiz –, ela sentou. Não havia nada a fazer e ela odiava ter que esperar porque não conseguia parar de pensar nem por um segundo e se tivesse alguma coisa, qualquer coisa acontecendo, ela poderia se distrair. Mas como não era o caso, ela sentou e pensou.
Pensou em Diane, sua única amiga, que havia perdido a mãe uma semana atrás. Diane não entendeu a notícia na hora que falaram a ela.
- Sua mãe... está num lugar muito especial no céu... - a professora disse entre lágrimas.
Diane começou a choramingar, mas ela fazia isso sempre que via alguém chorando e Edgarda sabia que ela não tinha entendido nada.
- Vou ficar com ela um pouco, pode ser? - Edgarda perguntou já puxando a amiguinha pelo braço e saindo da sala sem esperar resposta.
Virou-se e viu a professora em choque, chorando. Havia boatos de que a professora e mãe de Diane eram namoradas.
- Preste atenção, querida. - disse Edgarda quando já estava longe o suficiente da sala, olhando nos olhos da outra. - Sua mãe morreu.
Diane continuou como estava, fungando de seus choramingos.
- Entendeu? É uma pena, mas ela morreu. Você é uma garota... esperta e forte, vai conseguir superar.
- Mamãe...
- Exatamente, querida.
Diane caiu em pranto.
Edgarda abraçou a amiga e sentiu as lágrimas molharem sua blusinha fina por baixo do casaco azul. Ela imaginava a dor da amiga, mas se colocava a uma certa distância porque, afinal, era impossível conseguir comparar aquilo a alguma outra coisa. Mas isso era o que ela preferia pensar, a verdade é que ela não se importava tanto assim, cumpria seu papel social porque sabia que Diane ia demorar a entender e, quando entendesse, seria um choque no meio dos outros.
Hoje, sentada e com as costas doloridas pelo tronco duro da árvore, Edgarda tentava parar de pensar em outras pessoas. Lembrou-se do gato do irmão.
- Você matou meu gato, eu vou matar você! - berrava Izac.
- Não matei. - Edgarda respondia, calmíssima.
- Matou! Sua monstra, sua estranha!
- Não. Eu estou ficando cansada de discutir isso com você, seus argumentos são fraquíssimos e você não tem provas.
- Sua assassina! - Izac pulou em direção à irmã, mas ela foi mais rápida.
Ela trancou-se no primeiro quarto que viu. Era o quarto dos pais e eles não estavam em casa. Ela sentou na cama de frente para a porta e ficou calada enquanto o irmão dava chutes e gritava para que ela abrisse. Enquanto as imagens do pequeno Noel agonizando povoavam sua cabeça.
Edgarda não gostava de mentir porque sempre achou que dava trabalho demais e dependia de outros fatores que não estavam sob seus domínios, então, ela preferia não fazer. E realmente não mentira nesse caso. Ela não havia matado Noel. O gato estava deitado em frente ao portão da casa, muito machucado e gemendo de uma maneira horrorosa, ela olhou para com nojo, não sabia o que fazer e no fundo dos seus olhos era possível ver qualquer gota de felicidade na agonia daquele infeliz que já a havia machucado tantas vezes. Edgarda pegou um graveto e mexeu no gato, tocou sua cabeça e a bariga muito de leve, depois sentou a alguns metros dele. Na verdade aqueles gemidos não incomodavam tanto assim.
Izac apareceu de repente, gritando. Edgarda jogou o graveto para o lado sem tentar disfarçar que estava com ele. Izac olhou para ela quase exalando ódio pelos poros e briga começou.
- Eu não sou uma assassina e ninguém tem provas contra mim. - disse ela para si no quarto dos pais.
Deitou na cama mesmo sabendo que seus pequenos sapatos estavam sujando o lençol da mãe e fechou os olhos.
Ainda não chegara ninguém. Ela estendeu as pernas para frente, perfeitamente retas, juntando os pés protegidos pelo sapatinhos brancos em perfeita simetria sobre o gramado. Lembrou-se do pai na noite passada.
- Hm... Garda, querida... podemos conversar?
- Claro. - Ela sentou-se em sua cadeira cor-de-rosa e ficou em silêncio.
O pai parecia não saber como começar.
- Eu estive conversando com sua mãe... na verdade já falamos sobre isso algumas vezes e nós esperamos que você concorde...
Ele não conseguia continuar, olhava para os lados, para baixo.
- Pai, por favor, seja objetivo. Por mais complicado que seja, eu sou forte.
- É isso, minha filha...
- Não estou entendendo.
- Você, meu bem, você é muito... adulta.
- Hm.
- E nós achamos que não precisa ser assim.
- Isso é tudo?
- Não, nós queremos que você veja... que você vá a um médico, não é nada demais, só para conversar, querida.
- Não quero, papai.
- Mas querida... Nós realmente achamos que seria ótimo pra você, queremos ver você bem, minha filha.
- Mas eu estou bem.
- Não é isso...
- É exatamente isso, pai. Se vocês querem que eu esteja bem, agradeço muito a preocupação, mas não é necessária. Estou muito bem.
- Você não brinca, você não tem amiguinhas...
- Eu tenho.
- Nunca trouxe nenhuma aqui.
- Não quero nenhuma amiga perto de Izac, ele é perigoso. E eu não gosto do tipo de brincadeira que os outros fazem, eu gosto de pintar e escrever.
- Eu sei, meu bem, mas você tem 8 anos!
- Eu sei, papai.
- Nós achamos que pode ser ótimo para você, achamos que você é superdotada.
- Eu sou.
- O quê?
- Eu sou.
- Eu ouvi.
- Mas perguntou “o que”. Enfim... já fiz 17 testes de QI diferentes, todos deram muito acima da média.
O pai estava completamente atônito. No manual de pais nunca ensinaram a lidar com uma menina como ela.
- Ok, querida. Boa noite.
- Boa noite, pai.
Edgarda já havia se acostumado a olhares estranhos para ela e quase não se importava mais – até porque estava 2 anos adiantada na escola.
As pessoas começavam a chegar na escola, mas ela não tinha vontade de levantar. Sabia que se se levantasse e fosse para a sala agora teria que fingir interesse para conversar com alguém e ela estava cansada disso. Só gostava mesmo de conversar com o professor de química do ensino médio, ele era inteligente e entendia o que ela queria dizer sempre, pena que só vinha à escola duas vezes por semana e hoje não era desses dias.
Deitou-se no gramado – a dor nas costas começava a incomodar de verdade. Ficou olhando para os galhos e as folhas verde-escuras. A natureza era uma coisa maravilhosa... ela teve uma ideia para um quadro nesse momento.
- GARDA!
Ela se assustou e levantou rápido. Era téo.
- Olá.
- Sozinha aqui de novo, garota...
- É tranquilo, eu gosto de ficar aqui.
Ele sentou ao lado sem perguntar se podia, mas ela se incomodou só porque era ele.
- Você chegou tão cedo. - Comentou ela quase sorrindo.
- Meu pai... teve que ir mais cedo pro trabalho, hoje.
Edgarda não sabia porquê gostava dele. Ele não era inteligente e nem era tão bonito. Tinha os cabelos castanhos cada vez maiores já caindo sobre os olhos, desgrenhados. O corpo não tão magro, de um garoto normal com 9 anos. Ela simplesmente não se entendia nesse caso.
- O que você fica fazendo quando tá aqui sozinha?
- Eu penso.
- Só pensa? O tempo todo?
- Eu não consigo fazer nada diferente.
- Nunca?! - ele virou para ela.
- Não. - Sorriu – Agora não estou só pensando... porque você está aqui.
- Então você não pensa quando tem alguém por perto.
- Não é isso. Às vezes, eu penso mesmo que esteja falando com alguém, mas com algumas pessoas é diferente. Com você, por exemplo.
Téo deu um sorriso rápido.
- Adorei aquele quadro.
- Como?
- Seu quadro. - Téo tirou a mochila das costas. - Você trouxe um quadro outro dia...
- Ah, claro. A professora de artes pediu e... Obrigada.
- Era lindo. Meu irmão também pinta, mas o seu é muito melhor que o dele.
Ela sorriu, envergonhada.
Os dois ficaram em silêncios por segundos que pareceram eternos. Edgarda pensava desesperadamente em algum assunto para dizer a ele, mas só conseguia pensar no filme de Almodóvar que assistira ontem a tarde, agora, e provavelmente ele não saberia do que ela estava falando.
- Posso pedir uma coisa? - Téo perguntou, de repente.
- Sim.
- Feche os olhos.
Edgarda odiava a ideia de não saber o que estava acontecendo. Fechou, porque era ele quem pedia.
Foram segundos torturantes os que ela passou de olhos fechados e nada aconteceu. Até que, finalmente, ela não aguentou mais esperar e foi abrindo os olhos disfarçadamente no momento exato em que Téo encostou os seus lábios nos dela. Durou um instante, mas nesse instante ela não pensou em nada. Absolutamente nada.

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