Azambuja .... sacristão aposentado parte 2

10 de Setembro de 2014 professor Contos 457

Parte 2-
Uma tarde de sábado, meados de dezembro.

Na venda do Jango Torto estavam proseando o Gaudêncio Terres, o Raul Silveira, o Azambuja e mais meia dúzia de companheiros, mas os assuntos se arrastavam com inusitada frouxidão.

Até que alguém tomou coragem e referiu-se ao problema que a todos vinha preocupando: a estiagem. Temiam que se repetisse, agora, aquela terrível seca de dois anos antes. Açudes transmudados em torrões estéreis.

Capinzal amarelado e ralo tentando em vão amparar as reses trôpegas que vagueavam na busca contínua de alimento.

O sol torrando os pés de milho, que a vida abandonava nos cercados. E o sol torrando as assadas que a morte ia semeando junto aos banhados enxutos.

E o sol alongando, pela estrada poeirenta, a sombra do gaúcho pobre que - com um filho nos braços e a mulher ao lado - fugia para campear serviço (procurar emprego) na cidade.

Quase seis meses a terra sofrera até que as chuvas chegassem copiosamente. E tanta história triste se contou, daquela feita, que o povo sentia um arrepio de terror só em imaginar a vinda de outra Seca Braba.

- Quando eu vinha vindo para cá - disse o Gaudêncio - estive olhando, ali na beira do açude, os ninhos de quero-quero (uma ave pernalta).

Nada melhor que esse bicho para anunciar bom ou mau tempo. Ele não arrisca filhote na enchente. Ninho feito no alto, longe do banhado (Pãntano, terreno alagadiço), é aguaceiro se espalhando no baixio.

E ninho na beira d'água... como eu vi... Nem precisou completar a frase.

- A minha última esperança estava na mudança de lua acrescentou o Raul Silveira.

- Não hai quem não saiba que lua nova trovejada, todos quartos são molhados. Pois agora, nos dias da nova, trovejou como turco caloteado e, no fim, não deu em nada. Quando o tempo não quer chover, mesmo, não tem sinal que dê certo.

Outros foram dando um talho nessa prosa, mas sem nenhum otimismo. Dois anos passados, parece que iriam novamente comer o pão que o diabo amassou.

Caiu pesado silêncio. E foi aí que o Azambuja entrou, de mansinho:

- Por falar em diabo... Eu lá com Deus chego com a confiança de peão antigo, que conhece as manhas do patrão. Se a chuva já está fazendo tanta falta assim, eu posso entrar com as rezas, o vizindário contribui com os competentes óbolos, e Nosso Senhor se encarrega da água.

- Como é mesmo?!

- A gente faz uma baital procissão até a igreja matriz.

Um lampejo de esperança percorreu o grupo. E o Azambuja, dono da situação, foi escolhendo os termos mais empolados do seu vocabulário:

- Eu me encarregarei das preces. Se alguém tiver retrato de santo é bom levar; sempre ajuda.

Quem souber rezar, me auxiliará nesse mister. E quem não souber, basta recolher-se em piedade, contrito, de quando em vez erguendo o olhar aos céus para clamar proteção à Divina Providência.


continua....

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