Pelo que se foi... - Capítulo 01 - Prólogo

13 de Setembro de 2011 TFJ Contos 949

Um


Prólogo



Falava então, aquele homem. Dirigia-se ao grupo reunido em torno da solitária mesa circular, objeto dominante naquele amplo ambiente envolto em penumbra. Por iluminação dispunha-se uma série de archotes ao longo das paredes da sala, que por sua arquitetura, eram concêntricas a essa mesa. Nenhum outro utensílio, objeto, móvel ou instrumento constava no amplo e melancólico ambiente, com seu chão úmido adornado pelas frias paredes de pedra, exceto a voz d’aquele homem. E envoltas em trajes negros, pairavam a volta d’aquele tais figuras, de diáfana conformação, vagamente humanas na difusão da meia-luz. E pelo ambiente soava a voz d’aquele, calma, conciliadora, embora não desprovida de um evidente traço de liderança em seu timbre, perceptível mesmo ao mais desavisado dos observadores.

— São estas as informações a se colocar sobre o caso? É muito pouco. As suas considerações iniciais são um tanto alarmistas, Irmã. Encaro com ceticismo a maior parte dos seus prognósticos.

Era sem dúvida um estranho grupo, aquele. Uma dezena de seres cobertos por mantos negros, tão idênticos na penumbra, tão sombrios,... E tão caricatos. Nada podia se identificar de seus corpos senão um breve olhar ou um lento mover de lábios. Expressavam-se por murmúrios, mas um eventual observador particularmente atento (ou louco?), poderia ser capaz de jurar que naquele grupo as palavras eram de pouca relevância. Ele poderia estar certo de que, apesar da atmosfera obscura lhes turvar o sentido da visão, as verdadeiras informações eram trocadas de outra forma que não entre a fala e a audição daquelas pessoas. Quem se lembrou do enclave de sensitivos em “A Segunda Fundação” não passou muito longe de conceber a cena. Só que, ao contrário do que se dava na história de Asimov, ali as pessoas falavam, e entre aquele murmúrio, em determinado momento destacou-se uma voz feminina.

— Superestimada? Não se pode superestimar um inimigo. A cautela sempre rende frutos, pois quem se prepara para o pior evento sempre está apto a enfrentar qualquer situação, por mais adversa e surpreendente que seja a forma com que ela venha a se apresentar...

— Concordo convosco em gênero, Irmã-Conselheira, mas não em número. Mobilizar recursos excessivos em uma situação que não se apresenta como um perigo real e tangível, ao invés de nos acautelar só nos enfraquecerá no médio prazo. Os tempos são outros, o inimigo está poderoso agora, como nunca o fora antes, e nós enfraquecemos nas últimas décadas. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar nossos carentes recursos somente por um garoto ter dito avistar um lobo. É quase certo que o garoto esteja a mentir.

— Com todo o respeito Irmão — fala a Conselheira, mas insisto que nos encontramos em tal situação exatamente por havermos ignorado indícios como esse no passado. Tal foco é um perigo real, tão tangível quanto esta mesa à nossa frente. Não lhe podemos simplesmente ignorar. Sua influência na sociedade dos homens é deveras grande, principalmente entre os jovens. E não precisamos mobilizar uma quantidade grande de recursos na operação, um único experimentado apenas deve ser o bastante para avaliar a situação “in loco”.

— Que pensam — diz o Primeiro — os restantes distintos Irmãos e Irmãs? Que nos dizem as Informações?

— O mesmo que a Irmã-Conselheira coloca. — fala uma segunda mulher — Mas, da minha posição de encarregada das Informações, acrescento o seguinte agravante: — A ameaça não é mera conjectura ou indício a ser investigado — é iminente. Se esse sujeito não for parado logo, poderemos nos encontrar frente a uma ameaça com poucos paralelos. Relatos de meus agentes de campo, como podem ver nos relatórios que lhes foram repassados, revelam que ele possui seguidores proeminentes em muitos círculos influentes da sociedade. Seu discurso xenofóbico está causando grande impacto, se torna cada vez mais popular, principalmente nos meios intelectuais e acadêmicos. E ele sabe como poucos manipular as emoções das massas, capitalizando o desconforto dos humildes, direcionando através da mídia sua revolta contra minorias selecionadas. Colocado isto, se fizermos então uma análise da estagnação econômica na maioria dos grandes centros produtivos, e adicionarmos o efeito polarizante de suas teses racistas, perceberemos imediatamente a formação de um caldo potencialmente explosivo, e veremos que estamos testemunhando ele dar um verdadeiro “murro” no Psiquismo Coletivo. A ameaça de ruptura social é evidente, Primeiro-Irmão. E isso sem ele nem mesmo ter-se envolvido diretamente com a política! Na atual projeção, em breve nos veremos frente a uma catástrofe... Real e tangível.

— Estais a delirar, todas vós! Não entendo tais aflições apocalípticas! A mim esse homem não passa de um indivíduo menor, pequeno de alma e espírito, que por ventura é a Personagem da Semana dos tablóides. Além de quê, como você mesmo disse esse homem não está envolvido com a política. Parece-me , ao contrário do que você fala que ele não alcança verdadeiramente “as massas”, mas tão somente umas poucas pessoas em determinados nichos da sociedade. Parecem-me infundados seus receios. Trata-se tão somente de uma figura efêmera, que voltará à sua obscuridade natural com velocidade igual à de seu surgimento.

Aquela a que o homem nomeado “Primeiro-Irmão” referia-se como “Guardiã” se mostrava visivelmente contrariada. Na verdade, certo constrangimento pairava no ar, como se muitos, mesmo desejando falar algo, tivessem algo lhes prender as palavras em suas gargantas. Mas, se não era fácil contrariar o Primeiro, à Guardiã também não o era...

— Perdoe-me Primeiro-Irmão se discordo, mas sua visão parece-me um tanto parcial. É óbvio que este... “Ser”... Não é uma ameaça imediata e tal fato é irrelevante, pelo menos para a nossa Ordem, ou assim o deveria ser. Seu veneno é de ação lenta, só fará sentir seu efeito em duas décadas ou mais. O que são afinal duas décadas para nós? Não é porventura nosso dever prever e prevenir? Vinte e poucos anos à frente por nós deveriam ser vistos como o agora! Além do mais, se você Irmão, está familiarizado com os registros de nossas Crônicas, sabe que um de seus antecessores emitiu parecer semelhante no final do século XIX quando do princípio da ascensão da Sociedade Thule... E todos nós sabemos a que ponto levou tal negligência!
Tais palavras eram fortes, e calaram fundo nas almas e todos os presentes. A história da aparente inação da Ordem durante o século XIX é considerada até hoje a passagem mais triste em suas Crônicas. Uma história de apatia injustificada e complacência suspeita, uma lembrança de uma época que acabou lançando a Ordem – paralelamente aos mais sangrentos conflitos já testemunhados pela humanidade – em uma guerra contra a própria Thule. Guerra esta cujas batalhas ainda ecoam nas paredes dos Monastérios da Ordem assim como nos corações de seus integrantes, do mais humilde neófito até o mais distinto Conselheiro. Na verdade para muitos a guerra ainda não acabou, nem acabará até que o último dos Thule baixe à sepultura. O assunto Sociedade Thule é Tabu dentro da Ordem, sua simples menção é em si um foco de mal-estar. Colocado de forma tão agressiva (pelo menos para os altos padrões do protocolo da Ordem) tornava-se um insulto. Mas o Primeiro não era de intimidar-se por qualquer coisa, nem o poderia ser qualquer um na sua posição que pretendesse ser digno de ocupá-la. Sua resposta não tardou, e veio na mesma altura.

— “Sociedade Thule”... — havia um tom mordaz na voz do Primeiro ao se dirigir à Guardi — A Irmã bem sabe que estou tão a par de nossos registros como qualquer outro nesse recinto, não há necessidade de tal afronta. Mas sei também que tal Ordem não foi à responsável exclusiva pelos fatos lamentáveis decorridos na primeira metade do século XX. O turbilhão sociológico que culminou nas duas guerras nasceu muito antes, vem desde a Antiguidade e só foi alimentado pelo fulgor das revoluções sociais e científicas da segunda metade do século XIX. A Sociedade Thule não foi um agente criador e sim agregador, o efeito inevitável da falta de bom-senso de homens e Estados. Entretanto Irmã, você acredita realmente que a situação nos coloca atualmente em uma posição semelhante à que nossos antecessores se depararam naquela época? Esse pulha é um indivíduo isolado, não a representação de uma força viva e concentrada de uma manifestação cultural. Você acredita realmente que os paradigmas que geraram e alimentaram aquela tragédia ainda estão presentes nos dias de hoje, na profusão necessária para que uma nova catástrofe ocorra? E os outros Irmãos e Irmãs, também concordam com isso?
Um homem que permanecera calado até então se manifesta:

— Acho que se nós dermos uma olhada na direção do Oriente Médio poderemos responder sua pergunta a respeito de haver ou não sintomas de ruptura “no ar” rapidamente... Não vejo porque não investigar o caso com mais profundidade – respondeu o homem. Já erramos demais no passado ao ignorarmos certos sinais evidentes, por não vermos implicações explícitas ou imediatas. Talvez não seja tão pessimista em minhas projeções para o futuro quanto nossa Irmã mais velha, mas concordo que devamos mandar alguém a campo para maiores averiguações.

— Todos concordam, então?

Um menear de cabeça, solene e unânime. Foi esta a resposta que obteve dos ali presentes.

— Pois bem... Saibam então qual a verdadeira razão de tê-los convocado de forma extraordinária nesse dia de hoje. Muitos rumores vêm correndo entre nossas fileiras nos últimos tempos, rumores esses que têm me inquietado bastante. Sei bem o que muitos de vocês andam dizendo aqui e acolá, sei da sua insatisfação com a atual atitude “passiva” que este Conselho – mais propriamente, eu mesmo – vem adotando perante o Inimigo. Sei bem do seu particular desconforto, eminente Donzela-Guardiã, e foi por isso que encetei o assunto, dessa forma aparentemente despreocupada. Exatamente para obter um posicionamento mais claro por parte dos descontentes.

— O quê você quer dizer com isso, Irmão? Que estava fazendo algum tipo de... Teste?

— Não, Conselheira, não abordaria a questão nesse pé. Não pretenderia encenar nenhum tipo de “jogo de gato e rato”, isso seria um acinte tanto às suas lealdades para com a Ordem quanto às suas inteligências. Mas o fato é que dificilmente ouviria as colocações que ouvi aqui hoje, se não os houvesse instigado a falar com clareza e objetividade, quando adotei uma postura cética em relação aos acontecimentos. Minto?

Seu olhar (pelo menos a sua cabeça) dirigia-se para a Guardiã. A eventual contrariedade na mulher parecia haver desaparecido, para deixar em seu lugar... Nada! Seu semblante (pelo menos a parte visível por debaixo do capuz) parecia transmitir tanta emoção quanto um animal empalhado. E a sua resposta, acompanhando o estado de sua alma, foi um lacônico:

— Não.

— Pois bem. Vou lhes dizer então qual é minha real opinião sobre o assunto. Na verdade, acompanho seus temores, Senhora. Exatamente por isso não só concordo em expedir um agente para acompanhar o caso de perto... Como já o fiz. Nesse momento ele já está se posicionando, e em breve deverá enviar seu primeiro relatório.

Haveria naquele momento espanto, revolta, auto-estima ferida... Algum tipo de emoção reprimida entre aquelas figuras soturnas, envolvidas em um ambiente tão mórbido? Não o saberia dizer. E como suas emoções não poderiam ser facilmente identificadas, fiquemos por hora somente com as suas palavras. Foi a Guardiã quem quebrou o breve período de silêncio que então se instalara. E, entrecortadas, suas palavras sibilavam pela sala, visivelmente contidas perante uma emoção muito forte:

— Com certeza é sua a prerrogativa, nobre Primeiro-Irmão, enquanto representante executivo perante nossa legislação, tomar medidas como esta a nível administrativo, sem consultar o Quorum, embora, e Vossa Excelência há de convir, tal atitude não seja de todo simpática para conosco. Todavia, saúdo vossa atitude. Mil vezes se fazer por uma via torta a não se fazer, afinal de contas. Mas, por gentileza prestimoso Líder, poderia brindar-nos com uma parcela de vossa magnânima sapiência e informar-nos quem seria esse tal agente? Ou seria essa informação vedada aos nossos meros ouvidos mortais?

Não parecia ter o Primeiro-Irmão assimilado bem o tom de deboche nas palavras da mulher. Mesmo assim prosseguiu:

— Poupe-me de seu cinismo, Irmã. Não era meu objetivo constranger O Conselho, e você, que já esteve na minha posição, sabe disso melhor do que ninguém. E melhor do que ninguém sabe que tenho de pisar em ovos a cada passo que dou. Portanto, não me dê demonstrações de orgulho ferido. E perdoe-me se não revelo, por hora, o nome do “tal agente”.

Dessa vez houve uma reação perceptível nos componentes daquela estranha confraria. Pelo menos um zunido, semelhante a um murmúrio, correu por instantes à volta da grande mesa. A assim chamada “Irmã-Conselheira”, algum tempo depois, falou dirigindo-se ao Primeiro:

— E qual o motivo de tal reserva? Além da velada insinuação de que dissemina boatos, está também esse Quorum sob suspeita de alguma atitude mais grave, tais como conspiração ou traição?

— Tal suposição me ofende, Irmã. De forma alguma recai qualquer suspeita em relação a qualquer dos veneráveis membros desse Conselho. Outrossim, afirmo que a necessidade de sigilo momentâneo é pungente para o bom termo da empreitada. Tenho motivos, e sérios motivos, para manter esse segredo, mas somente até o recebimento do primeiro relatório de nosso agente. Até lá, peço que me seja dado um voto de confiança em relação a esse assunto em particular. Mostrar-se-á, na devida oportunidade, que essa atitude era evidentemente necessária.

Todos pareciam assentir com os argumentos do Primeiro. Menos ela, a “Donzela-Guardiã”, que não parecia se sentir de todo conforme com tal disposição das coisas. Mesmo assim, ao que se supõe por lhe parecer já ter forçado por demais as paredes da hierarquia da Ordem para uma noite apenas, condescendeu. E prosseguiu dizendo:

— Primeiro-Irmão, eu não duvido da sua sagacidade, ou da sua competência e muito menos da sua lealdade para com a Ordem Negra. Como todos aqui, naturalmente que lhe dou o Voto de Confiança que nos pede. Entretanto, não espere que se bata palmas à sua atitude, Irmão, pois ela diminui a posição desse Conselho de uma forma humilhante... Mas ora! É claro que você tem a noção exata desse fato, não é mesmo? Mas pode ter a certeza de que o Quorum não teria com você atitude semelhante, em um caso semelhante. E isso seria tudo, Primeiro-Irmão? Acho que não temos muito mais a dizer-nos...

— Sim Irmã. Irmãos, não há motivo para mais demora. Encontraremos-nos novamente na reunião ordinária da próxima semana, ou assim que nosso agente se reporte, seja o que ocorrer primeiro. Isso é tudo.

Reuniram-se então no que se assemelhava a uma espécie de curta celebração de despedida. Voltaram-se então cada um deles para seu lado, e pelo seu lado se foi. Todos se foram menos ele, o Primeiro, que por um tempo ainda ali ficou. Não seria fácil penetrar em sua mente e ver com clareza o que nela se passava, mas ao que parece ele refletia sobre a envergadura da ação a que se propusera. A Guardiã não procurara esconder seu desgosto com a sua atitude perante O Conselho, e, dependendo de como a situação se desenvolvesse, ele sabia que isso poderia significar um confronto direto com ela, e tão logo ela, uma das Antigas, a última a caminhar ainda entre os mais novos. Essa idéia não o agradava (na verdade tal idéia gelaria o sangue de qualquer outro entre que não ele próprio), mas reconhecia a situação não só como previsível como também inevitável. As apostas estavam altas e as cartas estavam na mesa. Se ele estivesse certo, os ganhos seriam imensos. Se, por outro lado, se mostrasse errado e ainda por cima ele atraísse para si sua ira (algo também previsível e inevitável caso sua tese não viesse a se confirmar)... Bem, era certo que a sua vida passaria a valer pouco mais do que um vintém. Mesmo assim o homem não demonstrava medo ou receio, nem mesmo satisfação ou autoconfiança. Simplesmente seus olhos fitavam com firmeza algum ponto distante, fora do tempo e do espaço, inalcançável a olhos comuns, e a sua alma parecia leve. Nada mais havia a ser feito, só o tempo mostraria seus resultados. E o tempo de que dispunha, para o bem ou para o mal era aquele entre o agora e a chegada do primeiro relatório de seu agente de campo. Absorto em seus pensamentos deixou o recinto e, ao passar pelas janelas que ladeavam um comprido corredor, viu as estrelas cintilando no céu e os raios de luz da Lua cheia que emprestavam seu tom prateado aos antigos ladrilhos do corredor escuro. Parando abaixo de uma das amplas janelas, fitou o céu e como que recitando para a Lua, sussurrou:

— A Sorte está lançada Senhora! Dê-me sua Graça, para que eu não falhe nesse momento!

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