Num guardanapo, rabisco com uma canete azul. Palavras, montagens, da minha mente vaga. Tantos dias na estrada, sozinho. Não tinha companhia sequer nos bares que cheiravam à cerveija barata, onde a amizade é tão corriqueira e comum. Interior do estado. Coisa de gente simples. Esquecendo das coisas mais comuns da vida. Antes que me esquecesse e me tornasse só mais um, repetidamente, angariava com a mente coisas mais altas. Como...:

"Tão pouco, como uma esmola
Renasce a esperança vã
Tão simplicito, em segundos
Como o sorriso da criança

Inédito, feito a brisa da tarde
Inesperado, fonte de vida
A causa maior dos sorrisos
E dos teus largos desagrados"

E solto a xícara de café na mesa e olhando para fora, de jeans e um casaco de couro preto. Meus cabelos soltos, e vadios refletiam no vidro empoeirado "vintage". Clima seco, 30° lá fora, céu com poucas nuvens. Lanço o dinheiro da conta pra garçonete, que me encarava com ar de desconfio. "Gateway Car", ligo o rádio, e é isso que tocava. Em frente, mais um episódio, as notas da guitarra soavam na cabeça. Olhos fixos na estrada, cada faixa parecia compassar com a música.