Dança do Ventre- final - conto

20 de Setembro de 2014 professor Contos 742

Senti pena do Wellington. Ele havia saído da estrada.

Procurei por ele na missa, mas não o encontrei. O negro não ia às missas. E não ouviu o sermão.

Talvez o Deus dos negros fosse diferente, eu pensava. Talvez não fosse um Deus tão bom.

Não o salvou da sua morte horrível: dias após a missa e do discurso do Reverendo Gomes, foi encontrado com a garganta cortada e jogado à beira da rodovia.

A cidade logo o esqueceu. Mas algumas noites mais tarde, mataram um
alcoólatra.
O velho Josias. Um pobre diabo, ex-palhaço de circo. Vivia de esmolas e de pequenos serviços.

Um sujeito inofensivo. Ainda me lembro de vê-lo caído na praça, quase todas as manhãs, quando eu ia para a escola.

As pessoas olhavam para ele com desprezo. Eu o olhava com curiosidade. Um dia, o encontrei, não caído, mas gritando coisas confusas.

Parecia estar alegre. Minha mãe segurou o meu braço e disse: "não olhe para este pobre homem, ele saiu da estrada. Você já se esqueceu do sermão do reverendo?" Não compreendi o que havia de errado com o Josias. Ele parecia estar feliz.

Os crimes abalaram o sossego da cidade. E nosso tormento estava longe de terminar.

Na semana seguinte, mataram um viciado em drogas.

Foi o André, o encrenqueiro, filho de um fazendeiro da região. Como outros rapazes ricos e infelizes, era conhecido pelas brigas e as arruaças que aprontava. Muitos o odiavam, mas o suportavam, assim como são suportados a maioria dos arruaceiros ricos e poderosos.

Alguns o viam até como o possível culpado pelos crimes. Por isso, fiquei surpreso ao ouvir minha mãe dizer que deveríamos ter pena da sua alma, pois ele havia saído da estrada.

Foi neste dia, então, que compreendi que deveria haver alguma coisa que nos afastava do caminho que nos leva ao senhor. E deveria ser algo muito forte, a ponto de alguém se arriscar a receber a ira dos céus e do Reverendo Gomes.

Em meio a tudo isso, a polícia não encontrava nenhuma pista para desvendar os assassinatos e eu sofria ao ver o padecimento do xerife Anderson.
Uma noite, ele apareceu em nossa casa.

Fazia o calor seco de março e fomos conversar no varandão. Ele tinha um ar cansado, havia olheiras sob seus olhos, e parecia mais magro. Minha mãe lhe serviu um copo de suco e ele me colocou em seu colo.

Então, quase chorando, nos confidenciou a sua intenção de deixar o cargo, devido ao desgaste causado pelos crimes. Falou das dificuldades. Da falta de pessoal, de recursos.

E ao ver aquele homem ali, diante de mim, tão frágil, senti algo parecido com dor e decepção. Recusei-me a acreditar tratar-se do meu herói. O meu xerife Anderson.

A conversa foi interrompida por um telefonema inesperado.

Haviam matado um homossexual.

O Ezequiel, um rapaz solitário que trabalhava no único salão de cabeleireiro da cidade. Havia sido visto usando roupas de mulher em um baile, na capital. Virou motivo de piadas na região. Ria-se quando passava.

Evitava-se falar com ele e seu comportamento era vez ou outra comentado nos sermões.

Na véspera da noite em que foi encontrado estrangulado e com a cabeça enfiada no vaso sanitário do casebre onde morava, ainda cheguei a vê-lo chorando, ao ser humilhado por alguns rapazes, na praça.

Não sei como suportava. Não entendia por que não voltava para estrada e acabava com todo aquele sofrimento.

Mas os crimes não pararam por aí.

No dia seguinte, mataram uma prostituta.

Em nossa cidade não havia mulheres deste tipo. A Marlene era vista apenas como uma mãe-solteira que, para sobreviver, trabalhava como garçonete em um bar de estrada.

Mas descobriu-se que ela também dançava numa boate ordinária em uma cidade próxima. Lá, nas horas vagas, se vendia para homens.

Seu filho era meu colega na escola. Ainda me lembro da sua solidão no recreio e da bronca que recebi por tê-lo incluído na lista de convidados do meu aniversário. Nunca entendi bem por quê.

Será que ele também havia saído da estrada?

Mas o pior estava apenas começando.

Duas noites depois de Marlene ser encontrada morta, o xerife foi jantar conosco. Eu gostava de recebê-lo.

E permiti que assássemos um dos meus coelhos para servirmos na ceia. Mas ele chegou nervoso e quase não tocou na comida.

A sua tristeza me fazia sofrer e, após a refeição, fui caçar vaga-lumes por entre a plantação. Não suportava vê-lo assim.

A noite era de estrelas e uma lua cheia iluminava os campos.

Também iluminou os rostos do Reverendo Gomes e do prefeito, quando chegaram. E vi algo terrível neles. Entraram em minha casa e, logo depois, voltaram a sair, com o xerife. Escondi-me por entre as folhagens e ouvi tudo:

"Não adianta, Anderson, já sabemos de tudo.", o primeiro a falar foi o Reverendo.

A palidez no rosto do meu herói era realçada pela luz da lua.

"Como?", perguntou.

"Não importa.", disse o prefeito, "Já sabíamos dos seus crimes desde o início."

"Eu tentei me controlar, mas não consegui, não consegui.", Anderson, num fiapo de voz.

"Nunca o impedimos porque todas as vítimas eram pessoas das quais gostaríamos mesmo de nos livrar.", revelou o prefeito.

Então é isso? Meu herói havia livrado a cidade de todos os que haviam saído da estrada? O que mais eles queriam?

Anderson parecia ter envelhecido uns dez anos.

"Depois, descobrimos sobre você e a Marlene.", disse o pastor, "Santo Deus, você é casado!"

"Mas...foi apenas uma aventura..."

"É o fim, xerife. Está tudo acabado", sentenciou o prefeito.

"Não pode haver outro caminho, você se esqueceu? Um homem casado não pode ter olhos para outra mulher.", completou o Reverendo.

Anderson parecia sem forças.

"Vocês devem me perdoar...."

"Venha. Vamos dar uma volta", disse o prefeito tomando-lhe o braço.

Enquanto eles partiam, corri para casa e, aos gritos, contei aos meus pais o que havia visto. Sentia que algo terrível iria acontecer. Precisava salvar o meu herói.

Não consegui dormir. Ardi em agonia durante toda a noite.

Na manhã seguinte, a notícia: haviam matado um adúltero. O xerife Anderson.

Fora encontrado, em um matagal, com um tiro na cabeça e com os olhos arrancados.

Um clima pesado encobriu a cidade. Havia tristeza e medo nas ruas.

Não me lembro de ter chorado tanto em minha vida.

Após o enterro, o Reverendo foi até a nossa casa e procurou o meu pai. Caía a primeira chuva de outono e enfrentei o lamaçal para segui-los, secretamente, até o celeiro, onde eles tiveram uma conversa terrível.

"Então foi mesmo ele?", perguntou meu pai, abatido.

O pastor, que eu havia visto fazendo um discurso emocionado ao pé da sepultura e consolando a viúva e seus filhos com palavras de carinho, agora respondia com seu sorriso gelado:

"Sim, foi ele. Matou Marlene porque descobriu que ela continuava a sair com outros homens. Anderson estava apaixonado e lhe dava dinheiro para que ela não se prostituísse.

Mas você sabe como são as mulheres deste tipo. E nós o matamos por ter sujado o nome da sua família com uma vadia repulsiva."

"E quanto aos outros? Por que ele matou todos?"

O Reverendo Gomes falou como se estivesse fazendo o seu sermão:

"Um homem que toma a estrada errada, muitas vezes se sente tão mal, por ser obrigado a se igualar aos outros perdidos, que ao invés de mudar o seu caminho, prefere livrar-se deles. É mais fácil."

"E como vocês descobriram sobre ele e Marlene?".

Gomes sorriu um sorriso cínico, para responder:

"Você já se esqueceu de que é para mim que as pessoas se abrem no confessionário?"

"Meu Deus, Anderson era meu amigo!", meu pai levou as mãos ao rosto, num desalento total, "E os seus olhos arrancados! Como vocês puderam fazer isto? Que horror!"

As mãos do pastor, seguravam o enorme crucifixo pontiagudo, em seu peito. Ainda estava manchado de sangue e senti um arrepio.

"Um homem casado não poderia ter olhos para outra mulher.", disse.

Então, Gomes pousou suas mãos no ombro do meu pai e a sua voz gelou o ar:

"Esqueça, filho. Você será o nosso segundo homem forte, a partir de agora, entende? A vida é assim. Tem que ser assim. Não há outro caminho."

E mexe, remexe, rebola, sacode, ginga, encolhe e solta. A saia colorida é a asa de morcego ou o olho de sapo que completa o seu feitiço de bruxa.

Ao ver aquela vagabunda sobre o palco, compreendo bem a força terrível que pode fazer um homem abandonar a estrada. Mas não podia ter acontecido com ele. O xerife Anderson, meu herói.

O mais forte e corajoso. Aquele por quem fiz e faria tudo o que quisesse. E que foi destruído por uma ordinária como esta que dança a minha frente agora.

O show termina e a vejo aproximar-se da minha mesa. Deve ter recebido o recado do garçom. Senta-se sorrindo, profissionalmente.

Se fosse eu o Corcunda de Notre Dame, ela ainda apostaria nesta sedução barata.

Deus é testemunha do quanto me esforcei para não ceder como o pobre Anderson. Ah, todos esses anos, tive que lutar contra um inimigo monstruoso dentro de mim, para não vir a lugares como este.

Sabe lá o que se passa em minha mente e me faz desejar rastejar atrás de mulheres imorais.

Me agradaria ser humilhado e humilhá-las; ser maltratado e maltratá-las. E na intimidade, sempre desejei sofrer e fazê-las sofrer dores terríveis.

Tão terríveis, que seriam marcadas a ferro em nossas mentes para jamais esquecermos de tal horror. Como o fim de um sonho, a desilusão, a perda da inocência.

Mas não deixarei que a sua magia surta efeito.

Penso em lhe oferecer uma bebida, mas ela mesma chama o garçom. Precisa aumentar o faturamento da casa, se quiser continuar a dançar aqui.

Exibo um sorriso falso, enquanto o garçom nos serve. Depois, brindamos.

autor:

JULIO CESAR GONÇALVES CORRÊA nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1959. Em 1990, fez oficina com a escritora Sonia Coutinho. Em 1992, participou de uma antologia de novos escritores chamada Trajetórias, com um conto intitulado Meu Bar. Em 1998, foi contemplado com uma bolsa da Biblioteca Nacional para terminar o romance policial A Arte de Odiar. Também tem um livro de contos intitulado Crimes e Perversões.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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