Pelo que se foi... - Capítulo 03 - Reminiscências

18 de Setembro de 2011 TFJ Contos 899

Três


Reminiscências



A guarda de lanceiros montados avançava, subindo lentamente a encosta onde a ravina abruptamente encontrava seu fim. Eles haviam afinal vencido, após um logo dia de marcha forçada, a primeira parte do traiçoeiro percurso daquele vale acidentado, onde rochas soltas e escolhos pontiagudos escondiam-se sob a vegetação abundante à margem do riacho que o atravessava de ponta a ponta, a todo instante ameaçando tanto homens como animais de escorregões e quedas de conseqüências sérias. “Vale de Hakar”, pensei comigo “nome pomposo para uma bela de uma ratoeira”. Devia estar expressando no meu semblante a amarga ironia de que meu humor se animava naquela hora, pois, de quando em quando, percebia o olhar furtivo que um de meus homens pousava rapidamente sobre mim, para em seguida desviar-se noutra direção. Eram bravos e reservados homens aqueles, soldados experientes, veteranos de muitos combates duros, de leste a oeste e de sul a norte do grande reino. Eles eram a elite dos orgulhosos e altivos combatentes da mais orgulhosa e altiva das nossas Casas, a Casa de Rhoysh, a Casa Real.

E mesmo assim, tanto quanto eu, eles demonstravam-se apreensivos, mesmo após havermos ultrapassado aquela perigosa pista através do Vale de Hakar. Nós o chamávamos de “vale” devido aos antigos mapas de que nos servíamos durante nossa jornada, velhos e imprecisos, remontando à época da Marcha do Êxodo, e que não por poucas vezes no percurso já nos haviam deixado em má situação, referirem-se com esse nome àquele lugar. Apesar de que para mim aquele Hakar lembrasse muito mais uma ravina escarpada do que um vale propriamente dito. Fora com muito mau-humor que acedera em tomar aquele caminho por entre as montanhas no extremo norte da Trácia, visto se tratar de um lugar por demais perfeito para qualquer bando que pretendesse atacar a comitiva, de porte razoável, mas modesta para seus propósitos.

Hesitara durante uma noite com o grupo acampado ao sopé da montanha, onde travara uma acalorada discussão com as insignes damas a quem meus homens escoltavam, tentando fazê-las perceber a imprudência que seria cometida se nossa pequena força se aventurasse por aquela sinuosa passagem rasgada em meio às montanhas. Inclinadas encostas salpicadas por bosques de carvalhos ladeavam a pista estreita que deveríamos percorrer e, se tomadas de assalto, nossas forças ver-se-iam em uma situação de calamidade, já que, se atacadas por ambos os lados de um plano elevado, nossa posição tornar-se-ia indefensável. Sem espaço para manobrar os cavaleiros, nossos soldados ver-se-iam obrigados a limitar-se a uma resistência passiva da qual não haveria hipótese de sucesso nem mesmo a médio-prazo, visto que reforço algum viria em seu socorro. Apesar da excelência de nosso treinamento, das nossas couraças e ou das nossas armas, seríamos reduzidos a pouco mais do que soberbos alvos para seteiros alocados em meio aos bosques das encostas. E por maior que fosse a bravura dos soldados, eles acabariam mais cedo ou mais tarde a cair, um a um, quer fosse pelo disparo feliz de uma flecha inimiga, quer pelo frio do inverno que se aproximava, quer pela fome ou pelas pestes, que não tardam em vir ao encontro das forças sitiadas.

Sem dúvida que na verdade concebia o pior dos cenários possíveis, dificilmente a situação chegaria a esse extremo e eu mesmo repetia isso nos meus pensamentos, o tempo todo. Mas era grande o peso da minha responsabilidade, a missão que me fora dada era difícil e perigosa. Conduzir a Princesa Herdeira, com pressa e uma escolta mínima através de todo aquele belicoso território cravejado de salteadores e ainda além… Tanto eu como meus soldados não nos furtaríamos a qualquer combate, e morreríamos por nossa Princesa sem refletir por um instante, não obstante, não era o temor da morte o que me afligia. Para nós, sorte muito pior do que a morte seria a de ter de conviver com tal fracasso. Tal como sua mãe, a Princesa era adorada por nós como uma Deusa e se a perdêssemos… Não, nenhum de nós ousaria imaginar tal situação. Seria a nossa desonra e o caos do reino, e, se ela morresse, nenhum soldado quereria sobreviver, nenhum de nós suportaria viver com tal culpa a lhe atormentar. Seria preferível morrer mil vezes a ter de entregar uma notícia como essa à nossa Rainha.

Era com todas essas idéias em mente que eu argumentara na noite anterior, tendo no pensamento somente o benefício da sua segurança e também a dos meus soldados, aos quais as vidas eu também não desejaria sacrificar em vão. Mas, na verdade, argumentara por mero desencargo de consciência, pois sabia que nossa força atravessaria de qualquer forma a ravina, já que essa idéia fora expressa desde o início como sendo da vontade da Princesa. Era com ela que eu deveria argumentar, e mesmo reconhecendo tal esforço como destinado ao fracasso, decidi que era meu dever fazer uma última tentativa de demovê-la de tal idéia.

“Com todo o respeito que lhes é devido Alteza, sou obrigado a reforçar minhas ponderações anteriores. Não vejo com bons olhos uma travessia direta desse sítio. Tem ele todos os aspectos de uma armadilha.”

“Ora vejam se os bravos também não temem... Que razões concretas as têm nosso brioso Capitão para tanto afirmar? Baseia sua opinião no reconhecimento direto do inimigo, em uma análise detalhada da topografia da região? Ou te baseias em meras especulações e incertezas? Acaso teus batedores reportam algum pormenor do qual desconhecemos?”

Quem perguntara não fora a Princesa, mas sim a outra mulher que acompanhava a comitiva e o terceiro e último membro daquela pequena reunião, Marj’ha, a Bruxa. Nem eu ou algum dos meus homens a suportavam, para nós ela não passava de uma vadia pretensiosa e debochada, uma provocadora desprovida de honra ou valor. Mas era um membro da nobreza e Senhora de uma das Grandes Casas, uma das três Casas leais a Rhoysh, e uma pessoa da total confiança da Rainha. Além de se tratar da melhor amiga da Princesa. E, como se isso não bastasse, era tida entre os Heróis do Reino devido a lendários atos de bravura, e embora nem eu ou meus homens acreditássemos na veracidade de nenhum de seus ditos feitos, por todos esses motivos lhe devíamos respeito. Foi com esforço que contive o ímpeto de responder com um desaforo a sua empáfia, mas o fiz. E quando lhe falei, foi com extrema polidez:

“Os batedores nada reportaram de fato, como já informaram os relatórios preliminares os quais já tomastes conhecimento. Logo minha Senhora, vós podeis fazer pouco caso de minha argumentação o quanto quiserdes, mas o risco que apresento continuará sendo real. Não dispomos do efetivo necessário para conter um eventual ataque dentro dos limites dessa ravina. Salvo, bem entendido, que esse ataque surja de uma forma desorganizada, nossa posição tornar-se-á insustentável. E, francamente Alteza, eu não creio de maneira nenhuma que os guerreiros dessas plagas selvagens venham a mostrar-se desprovidos de habilidade. Que Sua Alteza a Princesa, permita apresentar novamente minha solução alternativa…”

“Não é necessário, já a conheço Capitão.” A Princesa inclinara-se sobre o grande mapa que estava colocado sobre a mesa de tal modo que sua face chegou a menos de um palmo do velho pergaminho. Ao contrário de outras Damas da Nobreza, ela nunca procurara esconder a sua severa limitação visual, mesmo por que a miopia parecia ser a maldição pessoal das filhas da Rainha, pois constava entre a Corte que todas elas sofreriam do mesmo mal. “Aprecio a vossa preocupação com o bem-estar da expedição, comandante…” Prosseguiu ela sem erguer os olhos do mapa. “… mas a alternativa apresentada por vossos batedores não se mostra nem ao menos aceitável. Desbordar as montanhas a leste, atravessar dois vaus e contornar praticamente todo o maciço… Isso nos faria aumentar em pelo menos duas semanas a nossa jornada. Com franqueza Capitão, esse é um tempo o qual não podemos despender.”

“Além do mais, Capitão…” Emendou a bruxa. “… como pretendeis sugerir que cinqüenta lanceiros montados não sejam suficientes para defender esse vale miserável?”

“Perdão, senhora…” Aquela mulher já começava a irritar-me, mas contive a resposta que gostaria realmente de lhe dar. “… não há meios de manobrar cavalos no ambiente confinado de um vale, lá dentro meus soldados ficariam limitados ao uso das suas lanças e escudos. Num campo aberto a História seria diferente, mas agora, acabar por ter a escolta da Princesa Herdeira reduzida a um escudo defensivo estreito, cercado por uma força alojada em terreno elevado… Si a visão de tal possibilidade me surge tão imprópria que me recuso a pensar seriamente nela.”

“Parece afinal que os bravos soldados de Rhoysh se perdem em temores em relação ao famigerado vale, o parecem ter em alta conta. E mesmo antes que o menor indício desse hipotético inimigo estarrecedor houvesse sido sequer revelado… No caso, a Guarda de Rhoysh não só teme como teme as sombras… Que fará quando o inimigo apresentar-se em pessoa?” Destilou a víbora ruiva.

Mas dessa vez a bruxa ultrapassara todos os limites. Colocar em dúvida a honra ou a coragem de um soldado era a maior ofensa que se poderia dirigir. Pela Lei, em uma situação como essas um soldado tinha direito de exigir uma retratação imediata ou provas do que se havia dito. Se isso não fosse feito, o soldado poderia desafiar a qualquer um, mesmo a Senhora de uma Casa, a provar o que dizia com o fio da sua espada. E ela não se limitara tão somente em ofender-me, mas estendera sua ofensa para todos os meus soldados, até a própria Casa!

Eu estava lívido, furioso e embaraçado. Mas, sobretudo, estava perplexo. Aquela mulher sabia muito bem do desprezo que todos os soldados, principalmente os de Rhoysh, sentiam por ela. Como pudera ser tão imprudente e pretensiosa, desafiando os brios de um soldado de uma forma onde uma resposta agressiva lhe era amparada pela Lei?

“Desde quando, Senhora, vós fostes elevada à categoria de grande estrategista? E como ousai colocar em dúvida a coragem dos soldados de Rhoysh? Não conseguis compreender que não é pela nossa própria segurança, seja minha ou dos meus homens que temo, e sim pela integridade da Princesa e mesmo da vossa? Eu deveria…”

Adiantei-me tencionando exigir uma satisfação verdadeira da bruxa, mas fui impedido pelo tom imperioso que surgiu na voz da Princesa.

“Estaca e cala-te, soldado! O sangue dos nossos não escorrerá esta noite, ao menos não pelas nossas mãos!”

Era esse então o jogo da bruxa. Sabia que poderia ser tão despudorada quanto quisesse, pois seria escudada pela princesa. Tive de engolir a seco minha raiva, pois nenhum membro da Casa de Rhoysh ousaria desobedecer a uma ordem direta da Princesa Herdeira, mesmo que essa ordem lhe privasse de um direito. Via agora o escárnio estampado nos olhos da bruxa, mas precisava conter minha raiva. Raiva essa que diminuiu quando olhei para a face da Princesa e percebi que o comentário da mulher também a atingira, pois seus olhos faiscavam. Afinal, ela ofendera a toda a nossa Casa, e naquele momento tive a certeza de que a bruxa não sairia totalmente impune, pois a Princesa agora se voltava para ela.

“E tu, Marj’ha, retrata-te, agora!”

“A Vossa Alteza não podeis estar a falar sério…

“Agora!”

Os olhos da ruiva dardejaram os meus com um imenso ódio. Até aquele momento, ela somente se divertira com a situação, mantendo um olhar escarnecedor mesmo quando eu lhe respondera com rudeza e a ameaçara acintosamente. Mas agora a situação mudara, pois ao exigir que ela se retratasse diante de uma pessoa de nível tão inferior quanto um reles Capitão de Guarda, a Princesa lhe impunha uma grande humilhação, e seus olhos verdes me diziam que tal afronta não ficaria impune. Eu não lhe devotava nenhum medo, nem a ela nem à sua Casa de Acc’ruch, pouco me importando se todas as suas bruxas unissem-se para lançar-me seus malefícios.

Eu era um guerreiro de Rhoysh, e, ao contrário dos bárbaros ignorantes de além fronteiras aos quais enfrentávamos dia após dia, àquela altura da minha vida eu não temia nada que não me pudesse brandir uma espada, tentasse achatar meu elmo com uma maça ou desejasse transpassar meu corpo com uma lança. Eu ainda era jovem, muito jovem para conhecer tudo aquilo de que o mundo é feito, e por isso não levei a sério a ameaça que aqueles pequenos olhos verdes me lançavam. Hoje eu sei do que aquela mulher era capaz bem como o tanto de raiva que angariara junto a ela naquela noite, mas então tais idéias jamais passariam pela minha cabeça. E naquela hora, não desejando indispor-se mais com a Princesa, ela se dera então por vencida.

“Talvez…” Hesitou ela por instantes. “Talvez eu tenha escolhido uma combinação infeliz de palavras ao me referir aos guerreiros de Rhoysh. Com certeza não seria por medo que tais valorosos tenderiam a desejar evadir-se a um determinado sítio sem nem ao menos conhecê-lo em profundidade.”

“Ótimo.” Falou a Princesa. “Já que a quizília foi desfeita, podemos voltar ao que realmente importa.”

Até hoje não tenho certeza se às palavras de Marj’ha poder-se-ia verdadeiramente atribuir o título de retratação, mas a Princesa assim as tomara e, se um soberano se curva, todos os seus súditos devem acompanhá-lo. Logo, procurei afastar da mente a pequena rusga, dando por minha parte finda a questão, não sem antes olhar mais uma vez, e demoradamente, para aquela mulher que, só em tempos vim saber, desde então me considerava um inimigo.

Nunca dera atenção para as bruxas em geral, que desde tempos remotos não angariavam a mínima simpatia dos soldados de Rhoysh. Para nós, nada mais eram do que símbolos vivos de toda a parvoíce, devassidão e malignidade que a alma humana é capaz de atingir. Muito menos para a Senhora da sua Casa, que nada mais era do que a representação máxima de tais atributos.

Fútil, arrogante, pretensiosa e degenerada, era a perfeita manifestação do oposto de tudo aquilo que eu acreditava — ou que então pensava acreditar. Com o tempo, vim descobrir que ela era de fato tudo isso que eu dela imaginava… Tudo isso e muito mais, pois também era irascível, impiedosa, mal-intencionada e uma das três mulheres mais corajosas que já conheci. Naquele momento nada disso eu ainda sabia, mas sim acabara de descobrir nela algo novo, algo que me estarreceu. Pela primeira vez, eu dera-me conta de que ela era realmente uma mulher!
Para aqueles que não viveram aqueles tempos e não conviveram com nenhuma das nossas Grandes Senhoras do passado, minhas palavras soarão ridículas. Mas o fato é que, da mesma forma que um irmão — pelo menos o irmão abençoado pela decência — tem dificuldade de perceber a feminilidade de sua irmã, eu e a maioria de nós também não a conseguíamos perceber sem dificuldades naquelas Damas. Pela primeira vez eu a notava em Marj’ha ab’n Acc’ruch, e, para meu espanto, notava não somente que se tratava de uma fêmea bem como de um lindo exemplar do seu gênero. Como em todas as Senhoras, sua idade era indefinível, algumas vezes aparentando ter visto mais de trinta primaveras e em outras tantas parecendo ter presenciado pouco menos de vinte. Naquele momento, mesmo reconhecendo tal como impossível, poderia jurar que era ainda mais jovem do que isso.

Ela era uma mulher pequena, menor do que a média das nossas mulheres, o que por si só denunciava sua alta linhagem, oriunda do Povo Antigo, mais velho do que o Êxodo, anterior à mistura do nosso sangue com a dos sangues bárbaros. Seu cabelo era vasto, encaracolado e volumoso, e, como todas as ruivas, possuía a tez clara e salpicada pelas sardas, embora essas fossem as únicas características que o sangue dos bárbaros do norte que corria em suas veias deixara em seu aspecto, pois todos os seus outros traços eram os da Antiga Linhagem.

Tinha os malares salientes, sua face angulosa projetava-se delicadamente em direção a um queixo fino e levemente pronunciado. Seu nariz era arrebitado e de linhas suaves, por sinal, como o da maioria das Grandes Senhoras. E sua boca… Penso ter corado na primeira vez em que pensei dessa forma, mas a melhor descrição que poderia dar, mesmo hoje, tendo tanto tempo passado e sendo eu um velho, é que seus lábios eram um verdadeiro convite ao desejo.
Penso que minha descrição, mesmo sendo tacanha a veia poética de que disponho, sendo minha criatividade totalmente incapaz de traduzir em palavras a verdadeira beleza daquela mulher, é o bastante para demonstrar — pobremente, é claro — que todos esses traços físicos e de personalidade deixavam uma aura de mistério e desafio naquela fêmea, possuidora de uma beleza exótica e singular. E, como sei hoje, ímpar, pois jamais conheci nessa minha longa vida, nem antes nem depois, nenhuma mulher mais bela. Pois não era linda somente por seus traços magníficos, nem mesmo por aqueles seus olhos profundos e amendoados, da cor da esmeralda e de um brilho difuso, que pareciam contar histórias incompreensíveis para meros mortais ao mesmo tempo em que aparentavam ser capazes de perscrutar a nossa alma. Era linda por tudo aquilo ao mesmo tempo, pelo conjunto de todos aqueles traços marcantes, que lhe conferiam uma personalidade forte, desafiadora, enigmática e auto-suficiente. Talvez toda essa força e energia que exalava dela, uma simples mulher, e de aspecto tão frágil, fosse o verdadeiro motivo pelo qual os soldados não lhe simpatizavam…

E talvez também minha mente pudesse ter continuado perdida naquelas divagações por tempo indefinido se a realidade não houvesse requisitado novamente a sua presença. Durante todo o tempo que eu ficara a analisar a bruxa, ela permanecera com os olhos vidrados, fixados em mim, apesar de que seu olhar expressasse pouco mais do que nada. Nenhuma mensagem aqueles olhos enviavam, sua postura era completamente neutra; era como se, durante todo o tempo, ela também estivesse a submeter-me a alguma espécie de avaliação, avaliação esta da qual agora se dava por satisfeita. Repentinamente, alegando alguma súbita indisposição, escusou-se e pediu licença à Princesa para se retirar. A Princesa concedeu sua licença com uma vênia e ela se retirou da tenda da Princesa onde se dava a reunião, não sem antes usar da nossa saudação habitual “Que a Deusa vos acompanhe.”, ao que nós respondemos da mesma forma.

E ela se foi, perdendo-se na escuridão da noite iluminada somente pelas fogueiras dos soldados e a vi, andando com sua capa púrpura bordada com os Arcanos Maiores e debruada em dourado cintilando sob o brilho das chamas, até a perder desaparecer entre as sombras das barracas. Eu acompanhara involuntariamente todos os seus passos e só me dei conta disso quando finalmente voltei meus olhos para a Princesa e deparei-me com o olhar severo que ela me dirigia. Embaraçado, apenas engoli em seco, ficando sem saber o que dizer, pois não fazia idéia de quanto tempo ela estivera me observando daquela forma. Com as duas mãos apoiadas sobre o mapa, ela me olhava de forma penetrante com seus grandes olhos de safira, e um calafrio percorreu minha espinha. Como em muitas outras ocasiões, tive certeza de que, apesar de possuir a vista ruim, naquela hora ela me via e compreendia perfeitamente, como se seus olhos fossem capazes de ler meu coração.

Essa era uma parte da magia das Grandes Senhoras, nunca era possível saber se uma de suas fraquezas não se reverteria subitamente em uma grande força. Embora muitos hoje em dia digam que essas opiniões fantásticas não passam de superstições dos velhos, sei bem eu que eram um fato. As Grandes Senhoras, para nós que vivemos aquele tempo, não eram meramente mulheres altivas e poderosas, eram verdadeiras deusas vivas. Deusas que de muito já não caminham em nosso meio. E, vendo o olhar frio que aquela mulher me dirigia, tive certeza de que seria severamente repreendido pelo modo como me absorvera em pensamentos, a ponto de esquece-me der tudo o mais à minha volta. Mas o que a ouvi afinal dizer-me, chocou-me muito mais do que qualquer repreensão seria capaz. O que ela me deu na verdade foi um conselho, e, por algum motivo suas palavras gelaram-me o sangue.

“Cuidado, meu Capitão. Tu és um homem nobre e valoroso, odiaria que te perdesses entre as teias de Marj’ha. Nada irás tirar de tal envolvimento que não a ruína.”

Refletindo em retrospecto, é fácil compreender que qualquer pessoa moderadamente observadora seria capaz de me dar tal conselho naquele momento, de tão extravagantes haverem sido meus gestos. Mas já então eu sabia que suas palavras não se referiam somente à maneira pueril como me perdera em encantamento pela outra mulher de forma tão acintosa. E inoportuna. E, pensando bem, totalmente despropositada, pois um momento antes eu a odiava... Ela vira muito além das aparências e eu compreendi num sorriso amargo que embora não tendo captado, havia ali algo a captar-se e que esse meu lapso de percepção provavelmente viria a mostrar mais tarde suas graves conseqüências. Mas seu olhar rapidamente mudou de foco, o que decretava o final das suas considerações a meu respeito, e imediatamente procurei afastar tais reminiscências do meu pensamento, procurando voltar novamente minha atenção para o real motivo daquela reunião. A Princesa voltara mais uma vez seu olhar para o grande mapa à sua frente, e retomava a discussão do ponto onde ela se havia interrompido.

“É necessário que atravessemos o vale, Capitão, não há alternativa viável. Se tentarmos nos furtar de nossa rota toda vez em que existir a perspectiva de um combate, será melhor que levantemos o acampamento já e que tornemos a casa sem demora. Toda a Trácia é um caldeirão borbulhante, simplesmente não há qualquer trajeto realmente seguro.”

“Mas há uns tantos mais perigosos do que outros…” Arrisquei.

“O caminho inverso foi o percorrido por nossos ancestrais durante o Êxodo, Capitão. Por que não poderíamos nós refazê-lo agora, tanto tempo depois?”

“Nossos ancestrais lutavam por suas vidas e contavam ao seu lado os lanceiros de Maarin…”

Imediatamente percebi a estupidez das minhas palavras, mas era tarde para voltar atrás. A Princesa me fitou com muita seriedade por longos momentos, momentos nos quais, acho que também pela primeira vez, detive-me a olhar para ela. Como era diferente da bruxa, e ao mesmo tempo, tão semelhante, pois, como todas as Senhoras, possuía uma aura de solene dignidade a envolvê-la. Mas, ao contrário da Senhora de Acc’ruch, a Princesa Dalita ab’n Rhoysh, Princesa Herdeira da Casa Real, no aspecto pouco lembrava o Povo Antigo. Muito pelo contrário, parecia quase só possuir em si sangue bárbaro. Era extremamente branca, contando entre as mulheres mais claras que já vi, mas àquela altura não possuía nenhuma sarda. Seu cabelo era extremamente liso e de um louro claro quase ao branco, possuía grandes olhos de um azul da cor da safira escura e todos os seus restantes traços eram rigorosamente nórdicos.

A única exceção cabia ao seu nariz, pequeno e arrebitado como o da sua mãe e de todas as Senhoras. E claro, como é do conhecimento de todos nós, o outro traço que a identificava com a antiga linhagem era a sua pequena estatura. Mas até nesse ponto era uma pessoa impressionante, pois que ela era na verdade extremamente pequena, ela era ainda menor do que Marj’ha ou quaisquer das outras Senhoras. Tinha menos de cinco pés de altura, e, apesar de ser dotada de todos os atributos que se espera reconhecer em uma mulher adulta, no reino inteiro não se poderia encontrar uma menina de doze anos que lhe fosse menor em tamanho. Esse fato peculiar não parecia lhe perturbar sobremaneira, e com certeza nunca a impediu de afirmar sua liderança por mérito próprio. Sinto hoje que essa era a maior parte do seu encanto, aquela sua eterna aparência de menina linda e sábia. Sempre pronta a ouvir, se justa, a interpelação mesmo do mais modesto dos palafreneiros com benevolência comparável a de uma mãe, ao mesmo tempo em que era capaz de repreender, se necessário, mesmo o mais vistoso dos generais com a dureza digna de um verdugo. E que, em meio a um combate… Bem, haverá tempo de descrever qual era a sua atitude durante uma peleja.

À sua nobreza e dignidade natural, somava-se um semblante austero e reservado, e um olhar indecifrável de emoções indefiníveis. Penso que seria impossível a qualquer mortal contrariá-la enquanto olhava nos seus olhos, seja o que fosse que ela estivesse a dizer. Parecia-me uma figura magnífica e impressionante, e tudo o que passou dali em diante só veio sempre reafirmar essa minha primitiva opinião.

Por todos esses motivos nós amávamos a nossa Princesa, éramos verdadeiramente apaixonados por aquela mulher que possuía as formas de uma menina e os olhos de um predador. Por ela todos nós sabíamos que seríamos capazes de dar as nossas vidas, e, de fato, muitos de nós, mais cedo ou mais tarde, vieram a assim fazê-lo. Nunca uma ordem sua foi desobedecida por nenhum de nós, por mais insignificante ou perigosa que ela parecesse. Não por temor de represálias, mas por que logo cedo todos acabavam percebendo que sua visão alcançava onde outros não conseguiam ver, e que as suas determinações sempre acabavam demonstrando-se as mais adequadas. Mas haverá tempo e lugar para contar também essas histórias, e, por hora, devo me ater àquela noite em que acampáramos na entrada do Vale de Hakar, na fronteira norte da Trácia. E ela então, após uma longa pausa onde estivera a me olhar indagativamente, afinal me dizia irônica:

“Bem sei… Naturalmente, um punhado de lanceiros da grande Casa de Maarin, estropiados, fatigados, combalidos por três anos de recuo forçado, travando uma batalha a cada légua da retirada, excede tremendamente em valor cinqüenta bem treinados, descansados e altivos cavaleiros de Rhoysh, sem dúvida. Como poderiam nossos pobres soldados pensar em sequer igualar os feitos dos lendários guerreiros de Mengi?”

Ela fora ácida no seu sarcasmo, mas ele não atingia a um soldado de Rhoysh da forma que poderia sugerir a um eventual observador incauto. Os lanceiros de Maarin eram de fato guerreiros lendários, enquanto os Defensores do Êxodo contavam entre os mais honrados e gloriosos entre esses lendários. Nenhuma das Casas sentir-se-ia ofendida se acaso tivesse a bravura de seus guerreiros comparada a dos Paladinos de Maarin e perdesse na comparação, nem mesmo entre as Casas Traidoras. Nem mesmo entre a Casa de Rhoysh, e foi sem o menor pudor que eu lhe respondi.

“Sim, Senhora, tal comparação seria em si absurda.”

“Tu sabes disso e eu também sei, Capitão, e isso não se traduz em vergonha para Rhoysh.” Não havia mais ironia na sua voz. “Acompanhe-me.” Disse ela, saindo da tenda e dirigindo-se para uma elevação oblonga próxima, cujo topo nos ofereceu uma visão ampla do vale à nossa frente.

Uma Lua cheia erguera-se no leste, e, em meio a um céu limpo e estrelado os seus raios, ainda amarelecidos, banhavam a face oeste do penedo, bem como o planalto que se estendia ao sul, acima da escarpa que interrompia abruptamente o estreito vale. Eu olhei para a Princesa que, também banhada pela luz da Lua, lembrava muito mais um ser fantástico do que uma pessoa real. Seu liso e louro cabelo bem como sua capa e vestido brancos pareciam banhados em prata, pois praticamente cintilavam em meio à escuridão. Lembrei-me de uma das muitas lendas existentes a seu respeito, a que rezava que seu aspecto tão peculiar se devia ao fato de seu pai ser na verdade um membro do Povo das Fadas. Naquele momento, vendo-a com aquele aspecto tão belo e místico, não me parecia nada difícil acreditar nesse mito. Mas, uma vez mais, fui obrigado a fugir das minhas divagações, pois a Princesa agora voltava a falar.

“Eu não posso ver, mas tua vista boa há de enxergar o que a minha não alcança. No final desse vale…” E ela apontou em direção à escuridão que se projetava do final do caminho. “… há uma via, pouco mais do que uma trilha de cabritos, que sobe a escarpa inclinando-se para oeste e depois virando de repente para leste até alcançar o planalto acima do penedo. Os mapas dão conta disso e teus batedores já o devem ter-te confirmado.”

“Sim, Alteza, a informação procede.”

“Lá no alto, Capitão, no cimo das montanhas, foi o lugar onde se deu a última batalha do doloroso Êxodo dos nossos ancestrais. Ali, há sete mil e trezentos anos, o outrora grandioso Reino de Eridu era definitivamente extinto, quando se bateram seus últimos remanescentes com seus derradeiros perseguidores, pela última vez.”

“Mais de sete mil anos… Tanto tempo assim? Nunca imaginei que tivesse sido há tanto. Não é de surpreender a precariedade na precisão dos nossos mapas.”

“A imprecisão de nossos mapas não se deve à passagem do tempo e sim à pressa.” Havia uma grande amargura nas suas palavras. “Nossos mapas não são tão velhos quanto o Êxodo, eles foram confeccionados muito tempo depois, a partir de lembranças. Durante a jornada, não havia tempo ou mão-de-obra qualificada para fazê-lo.”

Ela parou de falar e ergueu seu olhar na direção da Lua que já subira o bastante para iluminar quase toda a região do vale com seu resplendor agora já totalmente prateado. Podia-se já distinguir perfeitamente, pela luz da Lua refletida em suas marolas, o estreito riacho formado por diversas nascentes mais a norte que penetrava pelo vale e perdia-se dentro da terra em algum lugar no sopé do paredão que o delimitava, somente para ressurgir, já como rio caudaloso, algumas léguas ao sul da muralha rochosa. Eu tinha certeza que da paisagem pouco a Princesa observava realmente, embora me parecesse que uma imagem do lugar ela construía na sua mente, com outros recursos que não o da visão. Depois de uns bons momentos em silêncio, ela voltou a falar.

“Percebo cada vez mais que não dominais satisfatoriamente a História do teu povo. Não recebestes uma educação formal?”

Por onde andaria a sua mente àquelas horas, par fazer de repente tal afirmação que me parecia tão fora do contexto? E aquelas palavras deixaram-me embaraçado. Não sabia como responder-lhe satisfatoriamente, mas via que precisava dar-lhe alguma resposta, e sem demora.

“Alteza, creio ter recebido a educação de um soldado, não a de um erudito.”

“Desde quando ambas diferem tanto assim?”

Agora, me sentia realmente constrangido.

“A bem da verdade, eu não vos saberíeis dizer, minha Senhora.”

“O quê tuas palavras querem realmente dizer, homem? Que não é mais dada aos soldados uma educação adequada, o que duvido, ou que simplesmente vós, os soldados, não dão mais a devida importância a vossa História?”

“Alteza… Devo ser honesto consigo. Não posso falar por todos os soldados, mas no meu caso, de fato, a uma grande parte da História que nos é ensinada sempre atribuí às lendas e realmente nunca lhe prestei grande atenção ou zelo. Vejo agora que perante vossa opinião incorri em erro.”

“Tu e grande parte dos teus homens, senão a totalidade deles, ao que me parece. Isso explica muita coisa, começando pelo desagrado que demonstrais pela nobre Casa de Acc’ruch.” E havia certa irritação no meio das suas palavras amargas.

“Alteza… É certo que nossos soldados, e logo me incluo entre esses homens, não topamos muito bem com a Casa das feiticeiras, mas nossa animosidade vem desde a Batalha do Canal, há cento e cinqüenta anos…”

“Ah, sim, a Grande Batalha Que Não Houve! A batalha que deveria ter erradicado a coalizão das Casas Traidoras, trazendo assim de volta a nossa Era de Ouro! Julgam até hoje os Senhores da Guerra que se Acc’ruch não houvesse recusado seu apoio àquela luta insensata, o objetivo teria sido alcançado e as forças conjuntas de nossos maiores inimigos teriam sido afogadas no canal do oeste. Disparate! Foi somente o bom-senso demonstrado pelas filhas de Fehnthi, quando se recusaram a entrar naquela armadilha óbvia, que impediu que não se desse uma verdadeira catástrofe… Para nós, e não para nossos inimigos!” Sua irritação aumentara visivelmente, mas mesmo assim não ousei reconsiderar minha posição.

“Rhoysh perdeu centenas de soldados naquela batalha, Alteza, bem como Maarin e Sank’harath. Se Acc’ruch houvesse intervindo…”

Quando ela falou então, a irritação contida no tom amargo da sua voz aumentou gradualmente para um tom raivoso conforme ela falava, e progrediu até se tornar praticamente colérico.

“Maarin só foi à guerra por Rhoysh haver ido, e Rhoysh somente foi por não haver sido possível convencer seus Generais de que a batalha era inviável! Evadir-se da luta foi o único meio encontrado pela Casa de Fehnthi de impedir um total massacre. Se Acc’ruch tivesse ido à luta, nosso inimigo teria lançado sobre nós todo o peso de sua força, coisa que ele não fez em momento algum! E sabes por que, Capitão? Por que eles não temeram nem os paladinos de Maarin, os cavaleiros de Rhoysh ou os sacerdotes de Sank’harath, mas sim as bruxas encasteladas em Epona! Eles sabiam que de nada valeria destruir as forças das outras três Casas se as bruxas continuassem incólumes! A não intervenção de Acc’ruch não nos privou de uma vitória decisiva sobre a Ordem Branca, Capitão — pelo contrário, ela salvou a própria Ordem Negra da aniquilação completa!”

Já ouvira muitas vezes antes aquela justificativa para a atitude das bruxas naquela batalha, que, aliás, era a versão oficial do caso. E, como em todas as outras vezes, apesar da apresentação dramática e apaixonada da Princesa, ela não me comoveu. Ela percebeu isso no meu olhar, e senti que lhe devia uma satisfação.

“Perdoais-me, Alteza, mas tudo o que sei é que muitos de nossos soldados mais valorosos morreram naquela batalha, e que o auxílio de Acc’ruch não lhes foi prestado.”

“Não crês na História, então.” E a cólera havia deixado tanto seus olhos quanto seus gestos, para ceder lugar novamente à amargura. “Nem tu nem o restante dos soldados. Vós possuís uma versão própria dos acontecimentos, ou, pelo menos, de alguns dos acontecimentos. Acreditais, por outro lado, no valor inigualável de Maarin, mesmo quando isso implica em desabono da vossa própria Casa, como já pude comprovar anteriormente…”

“Alteza, nós já lutamos em diversas ocasiões ao lado de Maarin, conhecemos plenamente o seu valor. O mesmo não pode ser dito da Casa de Acc’ruch.”

Ela afastou-se alguns passos, cruzou os braços e admirou novamente a Lua, que já estava alta então. No leste, podia ser vista uma formação de nuvens aproximando-se lentamente e a temperatura caíra bastante, prenunciando o inverno que não tardava a chegar. Quando ela falou novamente, a princípio imaginei que divagava, pois não desviara seu olhar da Lua. Mas logo compreendi que suas palavras dirigiam-se a mim, e eram de uma objetividade cortante.

“Poderia me responder, Capitão, quais são os outros trechos da nossa História nos quais os soldados ‘escolheram’ não acreditar?”

A pergunta parecia fortuita e casual, mas escondia um perigo verdadeiro. Dependendo da minha resposta e da disposição da Princesa em interpretá-la, eu poderia ser acusado até mesmo de traição. Pela primeira e única vez em toda a minha vida, tive medo de dar uma resposta para a minha Princesa, e, portanto, hesitei.

“Eu… Alteza…”

Ela voltou-se rapidamente para mim, ainda com os braços cruzados, e seus grandes olhos penetraram-me como adagas. Naquele momento, diante daquela pequena mulher prateada que muito mais lembrava uma fada do que uma humana, eu temi pela minha vida como jamais temera frente ao inimigo. Pois, se havia partes da nossa História das quais em momento algum eu duvidara eram aquelas que diziam respeito à Família Real. Um calafrio percorreu novamente a minha espinha, mas meu pânico teve uma vida breve, pois quando ela falou suas palavras dissiparam meu medo, embora não tenham deixado de ferir o meu orgulho.

“Aquietas-te, homem! Se eu quisesse o teu mal, não despenderia tanto do meu tempo simplesmente para provar-te que estás errado. Em momento algum pensei que duvidasses da Deusa, caso contrário jamais teria me empenhado em fazer-te compreender que para nós não há caminho de retorno que não sobre as pegadas dos nossos antepassados. Não até o Planalto de Hakar, pelo menos. As respostas que precisas, tanto tu quanto os teus homens, para acreditar no que as histórias te contam, em lá chegando provavelmente as obterás. Mas uma parte delas eu posso te dar agora, e foi para isso que aqui te trouxe. Dá-me tua mão.”

Sem dizer palavra aquiesci, mesmo sem compreender o motivo daquilo. O tom da sua voz fora imperioso, e tomei na pequena mão da Princesa Dalita sem pensar duas vezes. Só depois percebi a magnitude do gesto que executara sem raciocinar, mas eis que eu tocava na Princesa Herdeira de Rhoysh. Mais do que isso, mantinha sua mão envolvida, ato que seria impensável para qualquer plebeu em sã consciência. Jamais imaginara ter tamanho contato com uma mulher da sua estirpe, e em uma situação normal, para qualquer soldado, até mesmo um pensamento como esse pareceria de algum modo indecente. Hoje eu sei que idéias estapafúrdias como essa não possuíam qualquer procedência, eram mitos e dogmas criados por nós mesmos e que, se as Grandes Senhoras lhes conheciam, não lhes davam a menor importância. Mas, como já me referi antes, eu ainda era muito jovem naquela época. Jovem demais e ingênuo demais. Duvidava de fatos e acreditava em superstições, mas uma parte da minha ingenuidade, a maior parte dela, morreu naquele dia.

A princípio, tudo que senti foi o seu toque. Ele era cálido e suave, mas sua mão em nada lembrava a de uma cortesã. Pelo contrário, lembrava mais a de uma camponesa, acostumada mais às lidas do campo e da casa do que ao luxo e o conforto. Era uma pequena mão áspera e calejada, mais lembrando a textura da minha própria mão do que mesmo a da mais rude das camponesas, pois aquela não era a mão nem de uma cortezã e tampouco a de uma aldeã endurecida; era a mão de uma lanceira. Ela nada falava, limitando-se a olhar fixamente na direção do distante planalto.

Eu não sabia o que deveria esperar daquela situação, mas meu espírito então se dividia entre emoções conflitantes. De um lado, sentia algo que poderia definir como uma contida satisfação por eu, um modesto soldado, manter naqueles instantes contato tão próximo de uma figura tão insigne quanto à da Princesa. De outro, permanecia em mim uma grande inquietação, como se houvesse algo de impróprio naquele simples gesto. Mas nada falei, permanecendo os dois assim calados por vários instantes ouvindo somente o farfalhar do vento sobre o capim alto que cobria ambas as margens do riacho.

Das árvores próximas de nós, nalguns salgueiros, nuns poucos cedros e outros tantos carvalhos já a demonstrarem os sinais deixados pelo outono mortiço, dançavam suas folhas ao embalo do vento originado no leste que a pouco nos alcançara, seu som misturando-se ao dos insetos noturnos que saudavam a vanguarda das ameaçadoras nuvens que se podia divisar no horizonte.
Ela chamou minha atenção com um gesto de cabeça, sugerindo que olhasse para o espaço do horizonte sul, logo acima da nossa linha de visão, onde a Lua agora estava quase a pino na parábola estreita que desenhava quase ao extremo sul do céu naquela época do ano, e pelo canto do olho percebi que a Princesa para a Lua também olhava. A Lua então atingiu o seu zênite, e, quando baixei meus olhos na direção do vale e do planalto distante, tudo estava mudado. E enquanto mudava o aspecto do panorama que via, iam mudando com ele também os meus conceitos, pois eu via, por algum ato mágico, com meus próprios olhos tudo o que se passara naquele lugar, havia tanto tempo.

Como se o tempo tivesse voltado para trás, eu assistia a todo o drama representado sobre aquela campina elevada de uma posição privilegiada, em cada cruel minúcia. Quando olhava à minha volta, não podia ver minha Princesa, embora soubesse de alguma forma, que o tempo todo ela me acompanhava naquela estranha viagem onírica. Não faço idéia de quanto tempo terei ficado perdido naquela visão, mas quando dei por mim a Lua já se adiantara bastante no seu caminho para o oeste, fazendo notar que já ia alta a madrugada. A Princesa Dalita me olhava com um sorriso afável, e depois de alguns instantes, eu soltei gentilmente a sua mão. Sem termos de trocar qualquer palavra, tal o nível de cumplicidade que havíamos atingido naquela noite, nos dirigimos calmamente para nossas respectivas tendas.

Depois de tanto tempo entregue a angústias as quais agora eu considerava totalmente desprovidas de propósito, minha alma estava leve. Todas as minhas dúvidas haviam desaparecido, pois eu afinal compreendera que a afirmação da Princesa havia sido a mais pura expressão da verdade. Não era somente necessário como fundamental que atravessássemos aquele vale, ato esse que poderia vir a definir o destino de todo o nosso povo. Era necessário que regressássemos ao lugar das nossas origens, e, bem como já dissera a Princesa, para nós não haveria outro caminho de regresso que senão sobre os passos dos nossos antepassados.

Partimos junto com a alvorada e acabamos por atravessar as três léguas do vale com dificuldades, avançando lentamente. Havíamos seguido a pé, conduzindo com cuidado pelas rédeas nossos cavalos, sempre atentos a uma eventual hostilidade oriunda dos inúmeros bosques de carvalhos, salgueiros e bétulas que cobriam tanto as encostas da ravina quanto ambas as margens do pequeno rio. Nada se verificara nesse sentido, entretanto, e nossos batedores retornavam invariavelmente reportando as mesmas notícias — nada à frente ou à volta. Agora, ao final do dia, seguíamos a última parte de nosso percurso, seguindo a alameda que subia estreita e sinuosa, ladeando a escarpa que se terminava no planalto onde deveríamos montar nosso acampamento naquela noite…

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

Leia também
O PERDÃO DE DEUS há 15 horas

Todos estão afastados de Deus por causa do pecado, Deus sempre buscou u...
denilson Mensagens 15


A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO A IGREJA há 15 horas

Habita na igreja como seu templo, É derramado como chuva sobre a igreja...
denilson Mensagens 13


Tribulações dos Santos e os Livramentos Divinos 2 há 15 horas

As Tribulações dos Santos e os Livramentos Divinos – P2 Por Charles H....
kuryos Artigos 14


Tribulações dos Santos e os Livramentos Divinos 1 há 15 horas

As Tribulações dos Santos e os Livramentos Divinos – P1 Por Charles H....
kuryos Artigos 16


A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO AO CRISTÃO há 15 horas

Habita em todo verdadeiro cristão e convence o pecador do seu pecado, R...
denilson Mensagens 12


MEMBROS DO REINO DE SATANÁS há 15 horas

As características dos membros do reino de Satanás, Adotam a increduli...
denilson Mensagens 16