Cinco


Demian



— Mathews, essa é a situação toda, foi Wilkins que me procurou e pediu que lhe colocasse a questão dessa menina. Ela teve problemas com aqueles jovens do… Com os garotos do Reimers. Eles a molestaram… Bem, isso já é exagero. Mais propriamente eles a constrangeram na entrada da aula. Agora, tanto o professor quanto eu mesma temi pela sua segurança. Acho que você conhece melhor do que ninguém o histórico de agressividade deles, afinal vocês estão no mesmo curso…

— Hã... Não me leve a mal Southerand, mas a única coisa que eu tenho em comum com aqueles orangotangos é o fato de ambos pertencermos à mesma espécie. Em todo o restante não há termos de comparação. Qual é a relevância de saber que fazemos o mesmo curso? Na verdade, sei bem pouco deles e pretendo manter as coisas dessa forma, sabendo de preferência cada vez menos, saber de coisas desagradáveis me dá azia. Tudo o que conheço dessa sua suposta “agressividade” são boatos e especulações. E você também pelo que imagino, caso contrário já os teria chutado daqui a muito tempo.

— Nem me fale… Chutaria com todo o prazer não só os asseclas como também o guru. Mas a verdade é que nunca conseguimos provar nada contra eles. Eles são muito espertos e o Reimers lhes dá cobertura. Ele e seus amigos influentes. Começando pelos seus pais...

— Muita calma nessa hora Southerand, afirmações precipitadas e politicamente incorretas são perigosas, principalmente pra alguém na sua posição. Nunca houve evidências de crime algum contra esses sujeitos, e muito menos contra o Reimers. Cuidado com o que fala Reitora, senão acaba sobrando pro seu lado…

— E você ainda defende os cafajestes! De que lado você está afinal de contas?

— Eu sempre estou do meu lado, Southerand. Mas acredito que todos são inocentes até prova em contrário…

— Você é muito cínico, mesmo... Fica posando de defensor dos direitos humanos quando na verdade é o maior encrenqueiro de toda a história da universidade. Pare com isso, além de falso é irritante.

— Isso não é bem verdade, Reitora, não sou o aluno que mais se envolveu em incidentes desagradáveis na história – e sei que é disso que você levianamente está a me acusar. Pelo que consta nos registros da instituição, no Século XIX…

— Quer fazer o favor de parar com o deboche? Esse assunto é sério demais para que você trate dele dessa forma! E é você quem está sendo leviano!

— Será mesmo? Que motivos reais têm você e o Wilkins para ficarem tão alvoroçados? Os tontos daqueles skinheads dão um susto numa dondoca da Filosofia e vocês já querem mover Céus e Terras? Só por isso? Pra começo de conversa, será que não foi ela que os provocou?

— Eu não acredito que você tenha essa coragem! Apelar para a conduta da vítima? Você não seria tão baixo! Mas, espere um momento... Acho que estou começando a entender o que acontece aqui, parece que finalmente estou vendo a luz! É esse o seu problema… Vocês continuam com essa picuinha de Sociologia x Filosofia, não é? Tenho certeza de que se a menina estudasse matemática ou farmacologia em vez de filosofia você não ficaria se esquivando desse jeito!

— Essa afirmação não é exata, pois a verdadeira “picuinha” não é Sociologia x Filosofia. O correto seria dizer Filosofia x Todos-Os-Demais… Eles são um bando de pretensiosos, lá só tem mauricinho e patricinha!

— Enquanto que vocês calçam as sandálias da humildade, suponho… Poupe-me! Eu vou fingir não ter ouvido essa bobagem. Os alunos de filosofia estão entre os melhores dessa universidade, por mais difícil que o seja para você admitir. E parece também que a sua memória anda falhando um pouco no que se refere a determinados assuntos, seu sabe-tudo. Mas talvez eu possa refrescá-la um pouco e então você compreenderá que eu e Wilkins não estamos nos preocupando a toa. Por acaso Vossa Sapiência esqueceu-se do que aconteceu com a garota Shooster? Ela sim era do seu curso, não estou certa? Há um ano era uma de nossas melhores alunas. Sabe onde ela está agora?

— Em Cambridge. — e pela primeira vez naquela reunião, Mathews parecia demonstrar alguma reação emocional.

— Sim, em Cambridge… Em uma cadeira de rodas… E com um trauma que vai lhe acompanhar para o resto da vida. Lembra-se do que fizeram a ela, Mathews?

— Ela foi estuprada e espancada… — sua voz quase sumia ao relembrar — Quase até a morte.

— Sim, exatamente... E você sabe tão bem quanto eu quem fez aquilo! — e levantou o tom da voz — E sabe também por que fizeram! Fizeram aquilo porque ela é negra!

— Escute aqui, Southerand, Angelica não era só uma colega, e apesar de não ser uma Zeta, ela era minha amiga! E já que você gosta tanto de me dizer o que eu sei, agora eu vou lhe falar do que você sabe… Se eu tivesse certeza de que foram eles que fizeram aquilo, eu mesmo já teria dado um jeito na cara de cada um deles! Só que Angelica ficou tão traumatizada que jamais falou qualquer coisa sobre o caso, ela nunca denunciou os responsáveis! Como eu posso defender alguém que não quer ser defendido?

— Francamente Mathews, por mim você pode pegar todo esse seu idealismo de almanaque e acondicionar... E dar a ele o destino que achar mais apropriado. Eu sei que foram eles, e não vou descansar enquanto não provar isso. E se não fizer nada, vou ver essa menina acabar tendo o mesmo destino de Angelica Shooster.

— Quanto melodrama... Agora, deixando de ser piegas e falando de forma objetiva, me diga só uma coisa. Se seu objetivo é realmente pegar a esses sujeitos, você acha que vai encontrar pra isso outra oportunidade melhor do que esta? Ponha os miolos pra funcionar! Use a bonequinha como isca, mantenha vigilância sobre ela e, já que você está tão certa de que eles vão atacá-la, apanhe-os quando derem o bote…

— Seria demais se às vezes você pelo menos fingisse que possui uma alma, Dr. House? Ela é uma garota adorável, não há quem a conheça e não goste dela. Ela é meio avoada, é certo, mas isso a torna até mais simpática. E a transforma em uma presa ainda mais fácil para eles. Eu jamais teria coragem de usá-la dessa forma, e penso que na verdade nem você teria a petulância de propor seriamente uma coisa dessas! Além do quê Mathews, eu não sou da Yard nem tenho sequer o direito de fazer uma coisa assim... Ah, mas que tola eu sou! Claro que você só está debochando de mim, e ainda me dou ao trabalho de responder-lhe. Mathews, o que estou lhe pedindo não é nenhum absurdo, pois pelo que me consta, ela tem todos os méritos para participar da Zeta. Vocês não teriam de violar nenhuma das Sagradas Leis da sua corporação para aceitá-la. Por favor Mathews, aceite a garota...

— Sinto, Reitora, mas isso é impossível.

— Com mil diabos... E por que é impossível?

— Porque ela é cigana…

Agora a Reitora estava absolutamente furiosa. Agatha Southerand era uma mulher que se encaminhava para a meia-idade, de aspecto saxão até a raiz dos cabelos. Alta e corpulenta como a família de seu pai, havia herdado o temperamento irascível dos toscanos do lado da sua mãe. “Uma combinação volátil, essa” pensou ele quando se deu conta de que não tinha certeza se gostaria de ter de trocar socos com aquela mulher… Ela levantou da sua cadeira e bateu com o punho fechado na mesa.

— Demian Mathews, você é bastardo sem-coração! É claro que ela é cigana, é exatamente por isso que nós achamos que está em perigo! O que aconteceu com os zetas, o que foi feito da mais nobre das corporações da UCL? Seus critérios de escolha agora são étnicos e preconceituosos? Estão compactuando com as idéias daquele verme do Reimers, em pleno Século XXI?

A Reitora Southerand estava totalmente encolerizada, parecia querer fulminar com os olhos o garoto sentado numa cadeira à frente de sua mesa. Já ele estava impassível como sempre, mantendo aquele seu costumeiro entediado olhar nos seus profundos olhos azuis. Parecia que nada o abalava, e foi nesse tom que retomou a conversa.

— Agatha, será que você poderia interromper esse chilique sem propósito e me ouvir por um instante, sem me interromper? Os critérios de escolha dos membros da Corporação Zeta continuam sendo os mesmos há mais de cento e sessenta anos, todos absolutamente técnicos. Para nós pouco importa que o sujeito seja caucasiano, ou aborígine, ou marciano ou mesmo que seja um chimpanzé; se preencher nossos requisitos, ele será convidado a participar.

— E o que então você quer me dizer com isso, que lhes é impossível convidá-la porque a garota não preenche seus refinados pré-requisitos?

— Se ela preenche? Vamos ver aqui…
Ele tirou um palm da sua jaqueta e prosseguiu:

— Muito bem, vejamos… Sim, aqui está:

— Nome: Szabó, Gimely;

— Nascimento: fevereiro, 1990…

A reitora ficou muito espantada, para não dizer chocada, e não procurou esconder tais sentimentos.

— Mathews, você tem um dossiê sobre ela?

— Claro, fazemos um de cada candidato em potencial. Mas agora, por favor, posso continuar? Obrigado. Bem os dados pessoais não são relevantes. Ah sim, aqui está:

— Avaliação Final: Apta com distinção em todos os critérios de avaliação prévia;

— Encaminhamento: Convite efetuado com êxito;

— Status Atualizado: Convite declinado de forma contumaz.

A Reitora estava atônita. Após alguns segundos perguntou:

— O que você quer dizer com “declinado de forma contumaz”?

— Reitora, por favor… Você acha que nós dormimos em serviço? Estamos falando de uma garota com cento e setenta e cinco de QI. Ela só estudou em classes avançadas a vida toda, chegou aqui aos treze anos! A Zeta está de olho nessa garota há três anos, Southerand, e todos os anos nós lhe mandamos um convite. Ela recusou os três. Ela não quer ser uma Zeta.

Aquelas palavras acabaram com o ânimo de Agatha Southerand. Com isso ela não podia contar. Caiu sentada na cadeira.

— Mas o que isso tem a ver com o fato de ela ser cigana ou não?

— Não parece óbvio, Reitora? Ela é Romani, e os Romani não sociabilizam com os gadje, ou seja, qualquer um que não seja Romani…

— Hum… Você está certo de que é este o motivo? Nunca houve um cigano entre vocês?

— Segundo os registros não.

— Não terá ela algum outro motivo? Você já perguntou a ela pessoalmente?

— Nem eu nem qualquer outro da Zeta. Seria contra o protocolo um contato direto antes da aceitação do convite por escrito. Mas é esse com certeza o seu motivo. Que mais poderia ser?

— Talvez ela não goste de vocês… A, não, essa hipótese é impensável, não é mesmo? Quem em sã consciência poderia não simpatizar com a Veneranda e Excelsa Corporação Zeta? Mas agora, francamente… Protocolo? Você é um anarquista inveterado, só dá importância para normas ou convenções quando isso lhe convém! O conheço não é de hoje. Mas, espere um momento…Quantas pessoas até hoje já recusaram um convite da Zeta?

— Vejamos, puxando um pouco pela memória, posso lhe dizer que nos cento e sessenta anos da Corporação, levando em consideração o fato de só convidarmos nerds e de nerds adorarem pertencer a agremiações de todo tipo, o número de recusas foi de aproximadamente… Um.

— Há, eu sabia! Chegamos à verdade afinal! Foi demais para seu orgulho ter seu convite recusado por uma patricinha da Filosofia! Que ainda por cima é mais inteligente do que você! Vamos, confesse que esse é o motivo pelo qual você não quer convidá-la novamente!

— Você me superestima. Não vou discutir com você essa opinião de que sou um anarquista, mas a Zeta com certeza é uma Corporação anárquica. Não temos líderes, sou apenas seu porta-voz. Também tem razão quando diz que essa patricinha feriu nosso orgulho, mas não foi o meu, foi o da Corporação. Quem não nos quer não nos merece, Southerand.

— Por favor, não seja tão inflexível, eu lhe peço encarecidamente... Essa menina está em perigo, Demian, eu sei que está, eu lhe juro. A única coisa que pode impedir que uma nova tragédia ocorra são vocês. Ninguém toca em um Zeta. Eles têm medo de vocês.

— Agatha, eu não sou tão desumano como você imagina. Vou falar com toda franqueza, quem sabe assim você consegue me entender. Angelica era… É minha amiga. Eu a visito em Cambridge quando posso e lhe juro que se fosse para evitar que algo como aquilo voltasse a ocorrer, eu seria o primeiro a tomar uma iniciativa. Conhecendo meu histórico, acho que você entende bem o que eu quero dizer com isso. Mas… Veja, eu não sou o dono da corporação, não posso tomar esse tipo de atitude pela minha conta. E além do mais, seja pelo motivo que for, a garota não nos quer, Southerand!

— Mathews, o que você quer que eu diga? “Sinto tanto, gostaria de fazer alguma coisa pela menina, mas, veja você, estou de mãos atadas…” Não, não posso fazer isso Demian. Por favor, me ajude… Tente convencer seus amigos. Tente convencê-la!

— Tudo bem Agatha, você venceu. Você quer que eu vá lá falar com ela pessoalmente? Ok, eu irei. Quer que eu lhe implore? Tudo bem, eu posso engolir meu orgulho de vez em quando. Eu sei que lhe devo isso, você já cobriu muito dos meus “furos” no passado. Mas, entenda… Não posso lhe dar garantia alguma nem de que ela vá aceitar e nem mesmo de que os outros zetas a aceitem também!

— E o que mais você poderia fazer além de tentar?

— Além de tentar eu poderia conseguir, mas disso eu não estou certo. Tem mais uma coisa. Você sabe que ela sofre de Transtorno de Personalidade Bipolar, não sabe? Isso é um agravante na situação.

— Eu desconfiava de algo nesse sentido, apesar de nunca ter analisado a situação detidamente. Sou Psiquiatra por formação, lembra-se? Mas como vocês descobrem essas coisas? Já pensaram em entrar para a Yard?

— Os zetas nunca dormem, Lady Ashley…

— Mas sobre o caso Shooster vocês não conseguiram descobrir nada…

— Não conseguimos provar nada, Agatha, e um zeta não insinua ou afirma, ele demonstra. Há muito mais do que se imagina por trás desse caso. Gente muito grande. Não somos fortes o bastante para batermos de frente com eles.

— Você está me assustando.

— Não se preocupe Southerand, nós não somos fortes o suficiente para atacá-los, mas sim para nos defendermos. Se ela nos aceitar estará segura.

— Não me preocupo somente com a Szabó, Demian, mas com todos vocês. De nada adianta desvestir um santo para vestir outro.

— Isso é algum tipo de ditado católico?

— Não seja impertinente, Demian Mathews. Agora, por favor, vá, tenho outros assuntos a tratar, sim?

— Você também não precisava me enxotar da sala… Mas tem razão, também tenho um compromisso. Se não me apressar vou acabar perdendo meu encontro com a patricinha da Filosofia…

— Como é? Você vai se encontrar com a Szabó?

— Claro, nós lhe enviamos um quarto convite hoje pela manhã, assim que soubemos do que havia ocorrido. Com a diferença que dessa vez marcamos um encontro formal entre ela e o porta-voz da Corporação, por acaso eu mesmo, quando estivesse por sair. Sua última aula termina às quatro horas, e só faltam dez minutos. Mas o que foi, por que essa cara? Depois do que aconteceu com a Angelica Shooster, você não pensou que nós permitiríamos que aqueles mamutes imolassem outra das nossas sem que fizéssemos alguma coisa a respeito, pensou? Não esqueça, os zetas nunca dormem!

— Seu… Seu… Seu cretino! Descarado! Eu aqui, me corroendo de preocupação, procurando encontrar um meio de tentar demovê-lo, e você… Você me fez implorar! E o tempo todo só estava me fazendo de palhaça, já tinha tudo resolvido… E ria de mim esse tempo todo, não é? Há, mas você me paga… Ponha esse seu traseiro insolente para fora da minha sala nesse instante, seu moleque atrevido!

— Calma Reitora, eu… Ei, o quê você vai fazer com isso? Até mais ver, senhora!

E saiu quase correndo da sala, bem a tempo de ouvir o choque do peso de papéis contra a porta às suas costas. “Por que diabos as mulheres têm essa mania de jogar coisas em mim?” E Demian Mathews deixou o prédio da Reitoria, quase atrasado para seu encontro.