Assassinato na Rua Aurora

24 de Setembro de 2014 Helena A. Contos 650

Noite de sexta-feira,luzes de neon acesas na entrada do hotel.A noite estava apenas começando,ainda tinha muitos clientes para chegar.Márcia em seu quarto terminando de se arrumar para enfrentar mais uma noite.Mais uma noite com clientes que ela ia para a cama apenas por necessidade,para garantir seu sustento,morava sozinha,tinha que se virar como podia.
Não teve apoio,estrutura familiar.Sua mãe foi embora de casa quando ela ainda era uma menina, e assim foi criada pela avó,que fazia questão de dizer o quanto ela era uma cruz para carregar.Tentou trabalhar de outras formas,mas com o pouco estudo que tinha,não conseguiu nada.Vendeu doces nos faróis,entregou panfletos mas nada o suficiente para ir embora da casa da avó.Até o dia em que recebeu a proposta para ser garçonete.Chegou no hotel,já sabendo o que acontecia por lá e na esperança de ficar apenas alguns meses até conseguir um outro emprego,começou a fazer programas.”Só por um tempo.”-pensou.Recebia todos os tipos de clientes: velhos,jovens...mas a maioria não passava de homens porcos e nojentos que deixavam suas esposas e filhos em casa para um momento de prazer.Ela proporcionava isso a eles.Por mais que tudo tenha virado rotina para ela,sempre que eles iam embora ela tomava vários banhos,esfregava seu corpo com força,na tentativa de se limpar da sua sujidade moral.Se sentia suja,imunda e revoltada com tudo aquilo que tinha que passar.Mas aguentava tudo calada,já devia um bom dinheiro para o dono do hotel,e teria que pagar.Levaria talvez até um ano para que conseguisse pagar tudo o que devia.
Mas havia um cliente que Márcia realmente odiava.Um homem atarracado,aparentando cinquenta e poucos anos.Toda sexta-feira ele estava lá.Provavelmente saía do trabalho e ia direto para o hotel.Usava sempre uma camisa branca amarelada e cheirava mal.Pedia coisa absurdas e repugnantes,a mais aceitável que ele pedia,era ser amarrado com as cordas que ele mesmo trazia dentro de uma maleta,entre outras coisas. Márcia era obrigada a fazer tudo,como um teatrinho,mas os personagens eram reais.Sempre que ele ia embora,Márcia pensava: “preciso dar um jeito,não aguento mais.”E tudo ficava apenas em palavras.
Mais uma semana se passou,e o homem atarracado voltou.Em seu rosto suado,expressava a ansiedade em estar ali.Márcia já estava à sua espera.Abriu a maleta e entregou os objetos e as cordas nas mãos dela,sem dizer uma palavra.Ela assentiu,já sabia o que fazer.Amarrou primeiro as mãos,mais forte do que costumava fazer.Estava transtornada naquele dia,estava por um fio.Dentro dela uma grande revolta por tudo,não apenas pelo homem atarracado.Flashes de memória vinham em sua mente,como em um filme.Se viu pequenina e ingênua,sozinha.Viu tudo o que um dia teve vontade de gritar e chorar,mas havia sufocado tudo aquilo,tentando ser forte o suficiente para manter a cabeça erguida.Viu tudo o que estava fazendo naquele homem inocente,como se fizesse com a própria vida,com as suas próprias angústias.Amarrou o homem mais forte,agora nas pernas,que não demonstrou qualquer resistência,confiando nela.Pegou a fita prateada de dentro da maleta e tapou a boca dele.Naquele momento,Márcia tapou todas as mágoas e palavras duras que recebera na vida.E num derradeiro e impetuoso movimento ,estrangulou o homem atarracado,estrangulou um inocente,que não tinha culpa pela vida que ela levava.Mas estava disposta a sufocar mais uma vez,suas mágoas e tristezas,não tinha mais nada a perder,nunca teve.Foi embora dali sem dizer nada,pegou o pouco dinheiro do velho que havia na carteira e sumiu,foi tentar a vida novamente em outra cidade,era aterrorizante para ela mesma admitir,mas sentiu um enorme prazer depois de ter feito tudo aquilo.


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