Pelo que se foi... - Capítulo 08 - Prelúdio

18 de Setembro de 2011 TFJ Contos 977

Oito


Prelúdio



Na segunda-feira seguinte Mathews retornava à casa de Gimely. Dois dias antes, na noite do incidente, ele conhecera sua mãe, a senhora Margit Szabó, quando percebera que as descrições que dela feitas, de forma ampla e sistemática por muitos na universidade, não lhe faziam realmente jus. Na verdade, considerou que mesmo as opiniões mais superlativas a seu respeito lhe ficavam bem aquém da sua real composição, pois ela lhe parecera muito mais impressionante ao vivo do que as opiniões que corriqueiramente a ela direcionavam lhe pudessem fazer crer.

Mesmo sem ter-se demorado muito, ficou por tempo o suficiente para ficar bastante impressionado com aquela mulher alta, com pouco mais de quarenta anos, com longos cabelos negros e de enormes olhos escuros, ainda mais amendoados que os da filha, e sua solene postura, a exalar dignidade, nobreza e imponência por todos os poros. E muito mais o impressionava o como se expressava, de uma forma e com palavras que faziam parecer que houvesse saído de um romance do Século XIX.

Ele não se lembrava de ter antes com alguém que lhe lembrasse tanto o estereótipo de uma verdadeira Matrona. Mathews nunca sentira grande atração por mulheres mais velhas — e muito menos por mulheres mais altas — do que ele, mas aquela poderia muito bem lhe fazer repensar essa postura se assim o desejasse…

Embora tivesse consigo que aquela se tratava, por diversas razões, de uma mulher bem distante do alcance de seus dedos e que provavelmente não suportaria por muito tempo todo aquele glamour palaciano que parecia lhe acompanhar, não conseguira remover de seu inconsciente certo resíduo de atração por aquela imponente figura feminina, pois, acima de tudo, ela lhe parecia ser ainda uma linda mulher…

Mas procurou afastar tais pensamentos, pois não fora até Chelsea para ficar se perdendo em fantasias a respeito da mãe de uma conhecida. Mesmo porque elas eram ciganas, e os ciganos, pelo que soubesse, eram um tanto quanto restritivos em seus relacionamentos, tanto formais quanto pessoais. E exatamente por esse motivo procurara não se demorar na outra noite, pois conhecia algo sobre a cultura dos Rom e não imaginava que fosse de bom-tom a um gadje permanecer muito tempo, à uma hora daquelas, nas suas residências, principalmente em uma primeira visita. Aliás, não sabia ao certo se era protocolarmente correto o fato de ele ter ido agora até a sua residência, independentemente de horário…

E por isso nem mesmo procurara entrar na casa naquela ocasião, e ali permanecera parado na soleira da porta enquanto se despedia da garota e falava por breves minutos com sua mãe, lhe recomendando que conversasse com sua filha, pois ela poderia lhe dar maiores informações sobre o ocorrido. Perguntou então se poderia retornar em hora mais oportuna, para falar com mais calma com ambas e ver como se daria sua recuperação, já que era visto que ela precisaria se manter afastada da universidade pelos próximos dias. E como não houve objeção de nenhuma parte, ali ele retornava então. Pensara em ligar antes, mas temeu, por alguma razão inconsciente cujo motivador lhe escapava à racionalização, ouvir algum tipo de recusa e decidiu, para bem ou para mal, ir de qualquer forma. O máximo que poderia lhe acontecer seria dar com a cara na porta…

Mas não contava realmente com essa hipótese, pois tanto sua mãe quanto a própria Gimely, apesar de todas as suas esquisitices, não lhe pareciam ser pessoas dadas a tal espécie de deselegância. Achava mais provável que, na pior das hipóteses, fosse gentilmente convidado a não mais fazer visitas inesperadas. E na melhor delas, tudo o que estivera conjeturando até agora não passaria de tolices de sua parte. Precisava falar realmente com a garota, o mais breve possível. Muitos acontecimentos estavam porvir e precisavam ser tomadas algumas atitudes, no menor intervalo de tempo possível. E a maioria dessas atitudes dependia da disposição e do assentimento de Gimely.

Até agora, a verdade dos acontecimentos fora mascarada na UCL, embora Southerand houvesse sido informada do que realmente acontecera. A versão que circulava dava conta de que ela houvera sofrido um atropelamento nas proximidades da sua casa enquanto voltava da universidade, sem conseqüências mais graves do que pequenas escoriações, e que poderia retornar à sua rotina normal em poucos dias. Entretanto, Mathews pensava que a repercussão do “acidente” pudesse ser um tanto maior do que era descrita, e por isso desejava acompanhar o caso com a maior proximidade possível. Ele não ficara em nada convencido quanto ao fato dela não ter sofrido nada de mais grave, principalmente em relação àquela pancada na cabeça. E de qualquer forma, garantira à garota que a Zeta lhe prestaria todo o auxílio possível. E, portanto, lá se encontrava ele parado na frente de sua casa novamente, tomado por certa apreensão relativa enquanto tocava a campainha. Seria bem recebido? Sua presença traria afinal alguma espécie de mal-estar ao ambiente? Logo descobriria, pois alguém se dirigia para a porta e assim que ela foi aberta, Mathews dirigiu-se à mulher que o recebia.

— Boa tarde, Senhora Szabó. Talvez se recorde de mim, sou colega da sua filha e a acompanhei até em casa há algumas noites. Não sei se lhes causo algum tipo de transtorno vindo até aqui, mas eu gostaria muito de saber como ela está passando desde então.

— Ainda não estou senil a ponto de que minha memória apagasse as lembranças a seu respeito em tão pouco tempo, jovem. Pelo que me consta, és amigo de minha filha, e logo bem-vindo em sua casa. Não são necessários tantos cuidados e apreensões quanto pareces demonstrar desde aquela noite, Senhor Mathews, pois se houvesse alguma restrição a vosso respeito, Gimely nunca o teria permitido que a acompanhasse até aqui, desde o princípio. Parece que você tem lido um pouco demais a respeito de determinados assuntos…

— Hã? Bem… Não sei o que lhe dizer. Devo estar parecendo um pateta.

— Um tanto desconsertado sim, mas não chegaria a acusá-lo de ser um pateta. Entre, jovem Mathews, minha filha encontra-se na sala de estar.

Não parecia ter começado muito bem, embora talvez tivesse se saído melhor do que poderia imaginar. De fato ele já lera e ouvira falar muita coisa a respeito dos ciganos, principalmente de como eram seletivos nas suas relações com os não-ciganos. Não desejava criar embaraços de qualquer forma, mas àquela altura já começava a se sentir ridículo, pois começava a perceber de que sabia muito pouco…

Ou então, que estava muito equivocado nos seus conhecimentos. Ele então a seguiu pela bela e moderna casa, delicadamente decorada com requinte e até certo luxo, o que era demonstrado pela cuidadosa seleção de peças que adornava o recinto. Chegaram então a uma ampla sala dividida em vários ambientes onde encontrou Gimely e Amanda sentadas em um sofá, conversando.

O que não o surpreendia em nada, uma vez que já na sexta pudera notar o quão íntimas eram, já que pouco antes de ele ter-se retirado viu Amanda chegar muito agitada naquela casa, demonstrando ter sido informada dos acontecimentos pela própria família.

Já ao deter-se com um pouco mais de atenção no aspecto de Gimely, este lhe pareceu deplorável, ela parecia ter envelhecido alguns anos em poucos dias. O hematoma no olho esquerdo estava muito inchado e roxo, seus cabelos estavam mais desgrenhados e em desalinho do que o habitual. Ela parecia fraca, encurvada e ainda mais esquelética do que era na verdade, mas sua voz destoava de todo o quadro, pois quando se aproximou das duas, Gimely lhe falou, e sua voz soou com a mesma convicção e vigor de sempre:

— Ora, que curiosa visita, Mathews. Veio certificar-se de que não tive algum ataque repentino devido àquela pancada na cabeça?

— Mais ou menos. Na verdade sim, também. De fato queria saber se você não tivera nenhuma complicação, mas esse não foi o único motivo para a minha vinda.

— É muita gentileza a sua, mas não era necessária tanta preocupação, embora não me seja claro que outros motivos o poderiam ter trazido até aqui. Eu lhe disse que ficaria bem, deveria ter mais confiança nas minhas palavras.

— Isso não tem nada a ver com confiança, Szabó. Eu só poderia saber quando tivesse certeza de que você estaria bem, e só poderia ter essa certeza ao vê-la. E não há nada de obscuro por detrás de meus motivos. Precisamos nos acertar acerca de algumas questões que surgirão em breve…

Enquanto eles falavam, Amanda não desgrudava os olhos de Demian, que parecia hipnotizá-la com sua presença. Isso não escapava dele, porque podia notar facilmente na expressão do olhar da garota o que ele transmitia e sabia que a sua mensagem não era nada pudica. “Parece que teremos de conversar de maneira mais próxima brevemente, garota…” Pensou com seus botões enquanto lhe lançava um olhar não menos malicioso. Mas Gimely prosseguia, e ele logo lhe voltou sua atenção.

— Não era realmente necessário. Minha mãe tem aptidões médicas excelentes, eu estaria segura desde o início.

— Não conheço o bastante da sua cultura para objetar, mas me parece que uma solução médica regular é sempre preferível a uma solução “caseira”.

— Em termos da “minha cultura”, imagino que você se refere ao fato de eu ser cigana… Bem, me parece que você sabe menos ainda sobre “a minha cultura” do que imagina, Mathews. De outra forma, já teria percebido, somente pela forma como me visto, falo e principalmente pela forma como ajo, que, abstraída a minha etnia, na prática eu sou tão Rom quanto você…

— Hã… Poderia ser um pouco mais específica no que diz? Sua afirmação me deixa muito espantado, para não dizer perplexo…

— Não o culpo. As pessoas tendem sempre a ser induzidas ao erro ao nosso respeito, devido inicialmente pela nossa aparência e num segundo momento por suas próprias idéias preconcebidas. Por exemplo, até aqueles… Aqueles desgraçados… Passaram o tempo todo me chamando de eslava. Não que eu tenha algo contra os eslavos, que por sinal também pertencem a uma etnia amplamente estigmatizada, tal como a minha. Mas a realidade é que eu não tenho nada de eslavo, Mathews. Sou do Romani, eu nasci na Romênia ? o que só aumenta a confusão. Meu nome e sobrenome são húngaros, pois minha família se estabeleceu em uma região que por grande parte da sua história esteve vinculada à Hungria. Essa confusão invariavelmente ocorre.

— Mas… Sinceramente… O que importa se você é ou não eslava, latina, saxônica ou aborígine? Falando disso você não explica o que quis dizer com ser tão cigana quanto eu…

— Você não entendeu, o que falei a respeito da minha etnia era só um exemplo, de como as pessoas podem se equivocar até no óbvio. Quanto a eu ser ou não tão Romani quanto você, bem, isso já não é tão óbvio, mas com maiores conhecimentos e uma análise mais apurada, você poderia ter percebido que minhas atitudes não lembram em muita coisa as atitudes usuais dos romani. Mesmo as da minha mãe não lembram. Acho que você até sabe algo a respeito de como os romani se portam habitualmente, não é verdade?

— Bem, se puder me fiar nas informações que um gadjô pode levantar… Olha que não é fácil, viu? A maior parte das coisas que se lê e se ouve por aí cheira a pura desinformação. Por exemplo, fiquei imaginando se depois de chegar a casa na sexta você se desfaria das roupas que estava usando… Sabe, a gente ouve muito a respeito dos conceitos de pureza dos ciganos em relação a contatos físicos, relacionamentos formais e informais, e por aí vai… É claro que de fora não se pode ter certeza sobre onde termina o mito e começa a realidade.

— Suas especulações não estariam de todo erradas em muitos casos, Mathews, principalmente sobre como os nossos conceitos particulares de pureza — mas em se tratando de um conceito de pureza numa condição fundamentalmente sanitária, deixemos bem claro isso — são tratados com muito zelo à Lei na maioria das nossas famílias, com variados graus de severidade, concomitantemente ao grau de conservadorismo de cada família. Mas, falando francamente, a minha família não é nada conservadora, Mathews. De tal forma, que muitos dos nossos parentes vivem nos torcendo o nariz, principalmente os mais velhos. E para a maioria desses sim, eu, minha mãe e minha irmã somos tão romani quanto qualquer gadjô. Mas esses são os ultraconservadores, é claro.

— Bem que eu poderia ter sabido disso antes… Mas como eu ia saber que vocês eram tão liberais?

— Alto lá! Em nenhum momento eu disse que minha família é liberal, pelo menos não numa acepção gadje do termo… Essa é a opinião de alguns de meus parentes. Eu lhe disse que minha condição é um fato na prática, mas não para todos os efeitos!

— Mas o quê você está tentando fazer, me deixar louco? Primeiro diz que é igual a mim e depois contraria? Qual é a sua, afinal?

— “A minha” é que sou de fato uma cigana, e você, Mathews, não é. Não há como lhe explicar isso em pormenores, até por que não vou contar nenhum segredo pra um gadje, mas eu posso fazer a maioria das coisas que você pode… E posso fazer muitas outras coisas que você não pode… E não posso fazer muitas coisas que você faz.

— Ah, esqueça! Já deixei a muito de tentar entender as mulheres e não vou recomeçar a tentar agora. Além de que, não estou tentando realmente desvendar nenhum Mistério Arcano da sua cultura, Senhorita Szabó. E o fato então é que você está melhor e não preciso mais me preocupar com você, não é mesmo?

— Ah, claro… Seria transtorno demais para alguém tão atarefado ficar se preocupando por muito tempo com a primeira magricela quatro-olhos que ficasse toda hora se “incidentando” próximo de si…

Enquanto ela dizia isso seus olhos faziam uma expressão muito grave por detrás das lentes de seus “óculos de reserva”, mas ele notou também que seus lábios juntavam-se numa espécie de “biquinho”, na mais pura expressão de legítimo amuo. Naquele momento, tudo o que ela lembrava-lhe não era nada, além disso: — Uma garotinha mimada contrariada em algum desejo. Parecia que toda sua anterior estoicidade perante a situação desaparecera quando lhe ficou evidente certo “pouco caso” de sua parte em relação com sua atual condição, e ao que se via isso de repente lhe parecera extremamente ofensivo. De fato, ele já desistira de tentar entender as mulheres…

— Ai, você quer me enlouquecer mesmo! Ainda a pouco você frisava que eu não deveria me preocupar…

— Na verdade não o culpo, pois sensibilidade é um Dom e não uma Opção, meu caro.
Notando o rumo que a conversa tomava, Amanda decidiu que já era hora de ela se intrometer.

— O que Gimely quer dizer, Mathews, é que… Bem… Nós mulheres somos muito sensíveis, certas palavras caem em nossos ouvidos com um impacto que a maioria dos homens não poderia sequer cogitar…

— Não acredite em nada do que Amanda está dizendo, pois na verdade eu quis realmente dizer que você é simplesmente um grosso, Demian Mathews.

“Agora ela está parecendo uma criança birrenta!” Ele não conhecia esse lado “ultra-sensível” de Gimely, e na verdade ele não estava nem um pouco interessado em conhecê-lo. Aquilo já estava começando a lhe parecer uma tremenda palhaçada.

— Olhe aqui, eu não vou entrar em um joguinho desse tipo. Tudo o que eu pretendia dizer é que, e você deveria saber bem disso, eu estava realmente preocupado com seu estado de saúde, mas, como você mesma colocou a pouco que já está bem, não pretendia mais ficar lhe importunando com alusões inoportunas.

— Eu nunca disse que estava bem, somente que estava melhor. Acha que me sinto realmente bem usando um par de óculos três graus abaixo da minha necessidade? Acha que alguém pode se sentir bem estando com um olho fechado depois de ter sido espancada? Não existe um único músculo de meu corpo que não doa, e minha cabeça ainda parece que vai explodir! Eu nunca iria lhe dizer, na atual situação, que estou bem, simplesmente porque eu nunca minto, Demian Mathews!

A situação agora o espantava. Enquanto ela ia falando, aumentava cada vez mais seu tom de voz, até o ponto em que terminou quase por gritar as últimas palavras. “Mas o que está acontecendo aqui? Será que o mundo vira de cabeça para baixo toda vez que essa garota está por perto? E o que é isso agora… Ela está começando a chorar…?” E então Amanda voltou a intervir, mas dessa vez de uma forma mais incisiva.

— Vamos, Jim, não se altere dessa forma! — disse enquanto a puxava pelo braço — Você está exagerando, já passou da conta! Vamos, acalme-se!

— Desculpe… Desculpe-me, Mathews, — disse ela um pouco depois, aparentemente voltando a si — não pretendia agir dessa forma… Eu sinto muito, sei que você se preocupou sim… Ai, que droga, mas o quê é que eu estou falando…

— Acalme-se, sei que você passou por uma situação muito difícil… Eu estava lá, lembra? Devem ter vindo muitas coisas à sua mente de uma só vez, sensações e lembranças muito fortes. Em situações como essas, é fácil que fiquemos confusos… E descontrolados.

— Você agora está parecendo ser muito compreensivo Mathews. Mas suas palavras demonstram que está usando eufemismos para dizer que na verdade pensa que eu não passo de uma doida varrida.

— Não vamos começar com isso de novo, está bem? Estou vendo que você não está totalmente recuperada, ainda está muito abalada emocionalmente. Talvez seja melhor que você descanse por um período maior do que pretendia inicialmente.

— Talvez você tenha razão, mas isso só o tempo dirá com certeza. Acho que vou aceitar sua prescrição, “Doutor” Mathews. Mas você disse que tinha também outros assuntos a tratar comigo. Quais seriam?

— Tem certeza de que está tudo bem agora, certo? A última coisa que desejo é dizer algo que venha a provocar mais conflitos. Pois bem. Um dos assuntos que precisamos tratar é sobre a sua Entrevista na Zeta. É uma parte importante do procedimento de seleção e deve ser feita com a maior brevidade possível, na atual circunstância…

— Agora sou eu quem diz “vamos começar de novo com essa história…” Mathews, eu não sei de onde você tira essa idéia de que todos os meus problemas estarão resolvidos com meu ingresso na sua Corporação. Não, não me interrompa… Não vou voltar atrás no que lhe disse antes, mas não acredito que isso vá resolver qualquer coisa, só isso. E entendo muito menos o porquê de tanta pressa nesse assunto.

— Você pode não acreditar, menina, mas assim que for uma de nós, você se tornará intocável. Espere e verá.

— Pois bem… Acho que não tenho nada a perder com isso, não é mesmo? E o que você deseja combinar comigo?

— A data, para ser franco. Tem idéia de quando retornará?

— Pretendia voltar em um ou dois dias… Mas agora, refletindo melhor a respeito, e atendendo a sua sugestão, acho que retornarei somente na próxima semana…

— Acho melhor que seja assim. E isso me dá um tempo adicional para preparar o terreno.

— O quê você quer dizer com preparar o terreno? O quê você está pretendendo fazer, exatamente?

— Você sabe muito bem. O que aqueles animais fizeram não vai ficar assim, Szabó. Esse foi o outro assunto me trouxe aqui, informá-la de que pretendo… Entender-me pessoalmente com aquela escória. Eles vão saber por que ninguém se mete conosco.

— Não faça isso, eu lhe peço! Você me garantiu que não faria nada contra eles, Mathews!

— Está enganada. Por você ter-me pedido, eu permiti que eles se fossem sem prestar contas às autoridades naquele dia, mas nunca lhe dei garantia alguma de que não faria nada por meus próprios meios.

— Mas então agora eu lhe peço, deixe-os ir! Nada de bom poderá vir de uma vingança desse tipo!

— É comovente a sua piedade em relação com o que possa vir a acontecer aos sujeitos que lhe fizeram essa barbaridade, Szabó, mas essa decisão não é assunto só seu. Em primeiro lugar eu me envolvi com o caso, e tenho razões pessoais para procurar uma desforra. E em segundo lugar, a Corporação Zeta inteira está envolvida com o caso, e ela também tem razões pessoais para procurar uma desforra. A Zeta cairá sobre eles com todos os seus recursos Szabó, eles no futuro vão pensar duas vezes antes de… Maltratarem garotas indefesas.

— Ela… Ela era sua namorada, não era? Angelica Shooster…?

— Sim, Szabó. E apesar dela não ser uma zeta, ela era uma amiga da corporação. Se não quer que se aja em seu nome, tudo bem, garota, pode manter a sua consciência tranqüila. Mas você não pode tentar nos impedir de agir em nome de outros. Na verdade não poderia tentar nos impedir de agir nem mesmo em seu nome, uma vez que fosse efetivamente uma de nós, pois algumas coisas estão acima de nossas vontades pessoais. E os princípios da Corporação Zeta são um exemplo disso. Se o fato de você ficar sabendo disso lhe incomoda a ponto de não desejar mais se unir a nós, você tem todo o direito de desistir a qualquer momento. Mas você não tem o direito de nos dizer o que podemos ou não fazer.

— Tudo bem Mathews, eu nunca tentaria regrá-los de qualquer forma. Façam o que e como acharem melhor. E o conhecimento de tal idealismo por parte de vocês, e se você me conhecesse melhor saberia disso de antemão, em vez de me afastar de sua corporação me aproxima ainda mais dela.

— Não estou surpreso com essa sua opinião, na verdade. Se duvidasse de que você entenderia nossa posição jamais lhe teria contado nosso propósito em relação àqueles sujeitos, já que isso só serviria para afastá-la de nós.

— É comovente o interesse que demonstra em querer trazer-me para as suas fileiras, Mathews… E você também… Julga-se o maior calculista do mundo, não? Acha que sempre sabe qual será o próximo movimento do seu adversário e tem sempre um contragolpe preparado…

— Eu nunca me consideraria o maior calculista do mundo. Somente o maior calculista que conheço. E sempre procuro realmente antecipar o que as pessoas podem vir a me dizer, sim. E quanto ao meu esforço em trazer você para a Zeta… Francamente, Szabó, eu sei que você é uma pessoa muito inteligente, por isso, não se faça de tola. O quê afinal você imagina que possa ser a Corporação? Um Country Club para os esnobes? Ou um tipo de Clubinho da Barbie onde tudo é lindo e maravilhoso? A maioria de nós não suporta a simples presença de outro no mesmo ambiente! Somos zetas por um propósito e com um objetivo, não por status ou qualquer benesse que seja. E não escolhemos nossos integrantes por simpatia ou agrado pessoal, mas por seu valor intrínseco. Veja bem: — Você precisa ser uma zeta, Szabó, e a Zeta precisa de você, pois ter em seus quadros pessoas como você é a razão de existir da Zeta. Eu li seus trabalhos na universidade, sei do que estou falando. Você tem o mérito e o direito, garota. E a Zeta o dever de tentar integrá-la. Mais do que isso eu não posso lhe contar ou estaria comprometendo o próprio processo de seleção, pois certo sentimento de dúvida é necessário em um aspirante durante o andamento desse estágio. Mas pode ter certeza de que, uma vez integrada, você compreenderá exatamente o que estou querendo lhe dizer.

— Talvez eu já compreenda isso, Mathews, e seja exatamente por isso que me disponho a participar. Eu sei para quê a Zeta existe, e se não concordasse com seus propósitos jamais teria lhe dado conversa.

— Melhor, então. Parece que começamos a nos entender. Mas acho que já me demorei demais, vou agora. Eu entrarei em contato com você durante a semana, Ok?

Ele então levantou da poltrona e se despediu de ambas, só então percebendo que Amanda mal falara durante todo o tempo… Mas ele teria oportunidade para lhe falar em outras ocasiões, com toda certeza. Gimely também se levantou e o acompanhou até a porta. No caminho, Mathews lembrou-se de algo que passara batido por ele, mas que por algum motivo agora o chamava a atenção.

— Szabó, você disse mais cedo que tem uma irmã?

— Sim, por quê?

— Sei lá, é a sua personalidade… Você parece o verdadeiro estereótipo da filha única, tão… Voluntariosa, apegada, soberba…

— Eu sou a filha caçula, minha irmã é bem mais velha que eu. Talvez isso possa explicar essa “minha personalidade”. Mas — sua voz ia quase embargando enquanto prosseguia - quer saber de uma coisa, Mathews? Eu não sou exatamente o tipo de garota que possa dizer que esteja acostumada a ouvir galanteios o tempo todo. Mas… Você é o cúmulo do desprezo! Ao seu lado eu me sinto o Patinho Feio!

— Hã… Desculpe-me, Szabó, mas você é tão decidida e demonstra tanta convicção e energia no que diz… Que acho que ás vezes eu esqueço que você é uma garota.

— Pois saiba que você não é assim tão diferente de mim. Com a agravante de ser totalmente desprovido de qualquer tato, Demian Mathews! E você também não tem a desculpa de ser filho único, não é mesmo? Tenha uma boa tarde!

Eles haviam chegado à entrada, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, Mathews viu a porta bater na sua cara.

Dentro da casa, Amanda viu Gimely vir pelo hall espraguejando numa daquelas línguas que só ela e sua mãe entendiam, quase arrancando os cabelos de raiva. Ficou feliz ao ver a amiga nesse estado, pois enquanto ela estivesse sentindo vontade de quebrar alguma coisa estaria em seu estado normal… Principalmente se o que quisesse quebrar fosse a cabeça de Mathews, pois depois do final de semana e principalmente daquela tarde, e ainda mais além do que ela vinha dizendo… Amanda não tinha mais dúvidas de coisa alguma.

— Ai, Amanda, que garoto insuportável! Quanta empáfia, quanta arrogância! Mas que cretino! Que imbecil! Que…

—… gracinha…

— Do quê é que você está falando, sua desmiolada? E daí se ele é bonitinho? Chute uma árvore e vão cair dez iguais a ele! Ele é um estúpido, um insensível e um… Um narcisista, só para começar!

— Como cem de cada cem homens, minha amiga. Mas o único jeito de escapar desses defeitos é desistindo da mercadoria…

— Você não tem mais nada na cabeça?

— Devo ter um neurônio ou dois, no fundo de alguma gaveta… Ora, Jim, pare com toda essa encenação, por favor! Pra cima mim? Eu te conheço muito bem, viu? Você tá gamadinha nele, isso sim!

— Você perdeu o juízo! De onde tirou uma idéia maluca dessas?

— Jim, eu farejo essas coisas a uma milha de distância. E nesse caso nem seria preciso nenhuma dedução… Vai dizer que você não viu desde o início quem…

— Pare, Amanda, pare agora mesmo, nesse instante! Não fale isso o que você ia dizer, pelo amor da Deusa!

— Você não pode fugir disso, Gimely! É um fato! Se eu vi quem ele é, você também tem que ter percebido isso. E muito antes de mim!

— Não, não, não, não posso… Não posso… Não de novo, Amanda! Não importa o que eu tenha percebido ou não… Não posso aceitar isso… Nem por mim… E nem por ele…

— Você está sendo tola. Toda vez que se tenta fugir do destino ele vem atrás de nós, de um jeito ou de outro… Você pode ficar aí se sublimando e abnegando o quanto queira. Mas deixa só a Olhos Castanhos botar, literalmente, os olhos em cima dele…

— É tarde… Amanda, ela já o notou… Há muito tempo, até mesmo antes de mim. Foi por isso que eu sempre o evitei.

— E o que você está esperando? Vai deixar ela fazer a festa? E sozinha?

— Ela não faz nada sozinha, Amanda. Todas nós agimos em conjunto.

— E o que você vai fazer então?

— Resistir, o quanto eu possa. Não há mais nada a se fazer sobre isso, Amanda. E que a Deusa tenha misericórdia… De nós todos, amiga.

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