Pelo que se foi... - Capítulo 09 - Circunstâncias

18 de Setembro de 2011 TFJ Contos 915

Nove


Circunstâncias


O Verão que há uma semana parecia querer perdurar, agora já dava sinais de arrefecimento nas suas intenções. A manhã estava ainda agradável para aquela época do ano, embora as temperaturas já começassem a declinar e o Sol já não efetuasse uma parábola tão alta no céu no decorrer do dia. Gimely descia novamente do Tube naquela manhã de segunda feira, embora seus pensamentos já não fossem tão leves quanto os que passavam pela sua cabeça pouco mais de uma semana antes. Continuava a admirar as pessoas em sua “Simplicidade Complexa”, como gostava freqüentemente de se referir, mas a dor decorrente do acontecimento no qual se viu envolvida, mais a moral que a física, ainda calava fundo no seu espírito. Seus ferimentos estavam fechados, mas as cicatrizes cobrariam um determinado preço para desaparecerem, talvez alto demais para que pudesse ser pago.

“Dessa vez não passarei do ponto, com certeza”. Pensou com certa amargura, enquanto fitava à distância Gower Place. Nunca mais voltaria a encarar a UCL da mesma forma, não pelo que as pessoas têm a capacidade de fazer, e sim pelo fato das pessoas terem a capacidade de fazer determinadas coisas. Mas nossos demônios existem para serem enfrentados e vencidos, e não era um simples revés que a faria voltar atrás nas suas concepções a respeito da existência. “O medo não pertence ao Espírito. Ele existe para que nos mantenhamos vivos, não para regrar a forma como vivemos”. E como se recitar tais palavras como um mantra lhe aumentasse a convicção, tomou o caminho em direção ao Campus.


*****


Em outra parte da universidade, Demian Mathews chegava ao prédio da Sociologia, particularmente mal-humorado naquele dia, até mesmo para os seus padrões. Na porta foi alcançado por Jason Ruby e ambos prosseguiram juntos ao seu destino, já que não se encontravam há alguns dias. Ruby notara que Mathews andava evitando os zetas na última semana, e não perderia tal oportunidade para interpelá-lo.

— Ora, vejam quem dá o ar da sua graça… Anda meio sumido, amigo. Que é, alguma namoradinha nova?

— Boatos se espalham rápido nessa comunidade de costureiras, hein? Entendi sua alusão maldosa Ruby, mas deixe seu sarcasmo para os tontos. Eu não devo satisfações da minha vida para ninguém, e não é com uma isca artificial que você vai fisgar esse peixe.

— Cortês como uma britadeira, para variar. Você passa uma semana sem falar com os amigos e depois age como se os amigos não passassem de inquisidores. Qual é, Mathews, que mistério todo é esse?

— Não há mistério algum, Ruby. Agora por que ando longe das suas vistas devo fazer um relatório de por onde ando? Isso é ridículo, não perca seu tempo tentando se meter onde não é chamado, ou vai acabar fazendo papel de tolo.

— Tolo eu seria se acreditasse na sua conversa fiada. Pensa que nós não sabemos que alguma coisa aconteceu a duas sextas-feiras, e que depois disso, aquela sua amiguinha, a pirada da Filosofia, aquela que você está fazendo uma força danada para trazer para a Zeta, passou uma semana sem aparecer na universidade, e que desde então seus caminhos têm seguido com freqüência na direção de Chelsea? Com tantos segredinhos em que você anda metido, acho bem difícil que no futuro ela encontre boa-vontade para com suas pretensões dentro da Zeta, pelo menos de minha parte, e sei que falo também em nome da McAllister…

— Em primeiro lugar, ela não é pirada. Em segundo, se você dedicasse aos estudos uma fração do tempo que dedica à fofoca, já teria terminado a sua pós há pelo menos seis meses, Ruby. E em terceiro: — Ainda por cima você está interessado em fazer intriga? Francamente, estou me lixando pra uma eventual boa ou má vontade, tanto sua ou da McAllister, de algum outro zeta ou de quem quer que seja. Quando eu vier apresentar alguma proposição aos zetas, elas serão fundamentadas com argumentos, sendo irrelevantes suas eventuais opiniões pessoais, suas subjetividades ou seus emocionalismos, Ruby.

— Não deboche de nós Mathews, você precisa de nós tanto quanto precisamos de você. E não é criando animosidades à toa que você vai chegar a algum lugar. Você não é o Maior dos Zetas, é somente mais um, rapaz.

— Escute as suas próprias palavras, Ruby. Estou criando animosidades à toa? Tem certeza de que sou eu quem está fazendo isso? Vocês estão fazendo uma tempestade num copo d’água. Ou melhor, até prova em contrário, você está. Pegue essas suas insinuações e as acomode, Ruby. Eu não me justifico e não me desculpo. Não a quem não tem o direito nem o mérito.

— “Não tem o direito nem o mérito…” Quer dizer então que não vai esclarecer essa questão ao grupo? Quer dizer que essa menina não é uma zeta em potencial? Quer dizer que não devemos indagar a respeito de circunstâncias obscuras em que se envolvem nossos membros aspirantes? Quer dizer que a única motivação por trás de nossas perguntas só pode, necessariamente, ser classificada como “mera curiosidade?” Pois bem homem-ilha, eu espero que siga bem nesse seu caminho solitário, e que jamais precise dar satisfações a meros mortais como nós. E tem mais, garotão, parece que não somos nós que estamos nos deixando levar por “emocionalismos”, pois na verdade é você que aparenta estar envolvido demais com a situação.

Eles haviam chegado à classe de seu destino e cada um tomou seu lugar. Aquelas últimas palavras de Ruby o incomodavam, ele sabia que havia um fundo de verdade nelas. Ele havia exagerado, discutira de forma amarga com um amigo por uma razão banal, mas era orgulhoso demais para admitir isso. Mas por que também aquele cabeça-dura tinha de ter iniciado a conversa daquela forma tão imperativa? Aquela semana não havia sido fácil.

Desde que deixara Gimely em sua casa naquela sexta à noite, ele se empenhara em cuidar de assuntos paralelos à questão. O presságio da garota não se mostrara de todo infundado afinal de contas, pois muitas vezes durante aquela semana, ele sentira-se como um verdadeiro Dom Quixote, movendo uma Cruzada contra moinhos de vento.

A única pessoa que ficara sabendo do que realmente acontecera fora Southerand, pois ele sentira-se na obrigação de lhe contar a verdade, mesmo temendo que a destrambelhada resolve-se tirar a palmatória do museu e corresse ela mesma atrás daqueles “moleques”, nas suas próprias palavras. E desde então se empenhara em sua própria vendetta, procurando cercar aqueles “animais” (nas palavras dele) o mais que pudesse. Mas eles eram espertos, provavelmente coordenados exteriormente, e o andavam evitando desde então. Para Mathews isso não fazia muita diferença, pois quando pretendesse realmente acertá-los, faria isso de qualquer forma, mesmo que para isso precisasse entrar na sua própria classe. Não era isso que o incomodava, e sim a segunda parte do “presságio” de Gimely. Por algum motivo, ele agora se sentia responsável por ela.

Essa havia sido a parte das palavras de Ruby que mais o irritara, a menção a respeito de suas freqüentes jornadas a Chelsea na última semana. Ele nunca precisara correr atrás de uma “namoradinha” dessa forma, e mesmo que fosse verdade, ninguém tinha nada com isso. Mas a alusão maldosa de Ruby o irritara de tal forma não pela insinuação em si, mas por seu despropósito. Pessoalmente, ele a considerava bem pouco interessante. Vestia-se mal, era magra em excesso, usava óculos, era mais alta do que ele e neoplatônica demais para seu gosto. Sem contar que tinha o irritante hábito de ter sempre uma resposta na ponta da língua para tudo o que ele dissesse, invariavelmente com uma opinião contrária à sua. E mesmo assim… Ele sentia-se responsável por ela.

Hoje era o dia em que ela retornaria para a universidade, e era essa a razão de seu mau humor. Ele sabia que os skinheads não tentariam nada estúpido, pelo menos por enquanto, mas sua intuição lhe dizia que eles não eram o único fator a ser considerado. Sentia que havia ali qualquer coisa de obscuro que seu inconsciente captara, mas o consciente não podia racionalizar. Algum ponto de importância capital lhe escapara nas suas considerações a respeito do caso, havia alguma ponta solta, mas ele não conseguia identificar o que era. Esse era o verdadeiro motivo da sua irritação.

“Estou dramatizando? Duvido, não sou de romanticismos”. Havia um perigo real no ar, ele “sentia” isso, mas não conseguia distingui-lo com exatidão. Mas já perdera tempo demais com tais considerações, era necessário voltar ao “mundo real”, pois a rotina extraclasse não era coisa que devesse atravessar a porta da sala de aula.


*****


As aulas até o almoço haviam transcorrido sem problemas, e com exceção feita às muitas explicações que precisara dar a diversas amigas solícitas, a respeito de seu “sumiço” de uma semana (sofrera um pequeno acidente automobilístico, como podiam ainda notar pela mancha roxa residual sob seu olho), tudo ocorrera como normalmente. Exceção feita à atitude superprotetora de Amanda, que não desgrudava de seu pé desde que entrara na classe. Era uma amiga de longa data a quem a própria mãe de Gimely chamava de filha, e ela era a única que conhecia a verdade sobre o caso. Seria demais pedir para ela que tentasse agir com naturalidade diante daquela situação, pois seu caráter irrequieto e compulsivo a fazia parecer uma segunda mãe de Gimely, uma mãe obsessiva e sufocante. Ela falava de forma desatada enquanto se dirigiam para o restaurante:

— Você não vai mais ficar um instante longe da gente, viu mocinha? E depois a gente estava exagerando, né? Se ele não tivesse aparecido naquela hora… Esta hora não sei se eu teria mais a minha amiga! Não, Dona Gimely, você não sai mais de perto de mim, nem que ele esteja por perto!

— Muito bem, Amanda, pois saiba que vou fazer uma petição ao Parlamento para que se retire a Coluna de Nelson de Trafalgar e que coloque em seu lugar uma nova, com a estátua do seu novo herói favorito, o Onipotente Demian Mathews. Embora pelo que me conste, se Sir Mathews não houvesse interrompido seu percurso para bancar Sir Tristão e jogar seu charme para a bela Lady Isolda, talvez nada disso tivesse realmente acontecido…

— Ai, Jim, eu já tô me sentindo um lixo… Precisava me chutar desse jeito?

— Mandy… Deixe de ser boboca! — falou enquanto colocava o braço sobre seu ombro e a encarava fixamente — Aquilo que aconteceu iria ocorrer de qualquer modo, tanto faz se fosse naquele momento ou se fosse depois. Não se recrimine pelo que não está ao seu alcance interferir.

— Mas eu poderia ter feito algo, Jim,… Não fiz por que não pude prever…

— Não vou mais discutir isso Mandy. E lhe peço que pare de se recriminar pelo que você não tem responsabilidade. Ah, é mesmo, já ia me esquecendo… — interveio Gimely repentinamente

— Por falar em responsabilidade, você sabia que a Doroty veio me contar uma história muito confusa a seu respeito, mocinha? Só que ela não disse coisa com coisa, se atrapalhou toda e eu acabei não entendendo nada. O que a senhorita andou aprontando, dona Amanda?

— Ai, Jim, não foi nada! — resmungou Amanda lançando em pensamento uma pequena praga para Doroty — A Dorie que é muito linguaruda, não era nada demais…

— Você terá de me contar essa história direito mais cedo ou mais tarde. — sentenciou Gimely, nada convencida com o argumento da garota.

— Como se eu precisasse contar… — falou Amanda emburrada.

— Claro que você precisa Amanda, nós não fazemos as coisas desse jeito, se é o que você está pretendendo insinuar… — respondeu uma Gimely misteriosa. Pare de se martirizar pelo inexorável.

— Prometo que vou tentar, Jim. Mas depois do que lhe aconteceu, pelo menos uma coisa resultou de bom amiga… O Mathews não sai mais da sua casa, agora…

— Mas é claro, você também não sai mais de lá… Os dois eventos precisam necessariamente estar temporalmente relacionados, Mandy.

— O quê você está querendo dizer? Que eu estou me jogando pra cima dele?

— Pensa que eu não reparei nos olhares que aquele tarado lança para você? E você parece bem feliz com isso… Só não sei como vocês dois ainda não se agarraram.

— E por um acaso você acha que eu sou tão fácil assim? Mas você acha que é por minha causa que ele vai até a sua casa… Não seria necessário tanto transtorno. O lugar onde moro fica muito mais próximo da casa dele do que a sua.

— Quer dizer que você já sabe até onde ele mora? As coisas estão muito mais adiantadas do que eu supunha…

— Jim, eu sei em qual zona da cidade ele mora. E sei também que ele não vai até a sua casa por minha causa, ele vai lá por um motivo um pouco mais residente, eu imagino…

— Deve então ser por causa de mamãe. Eu notei que ele ficou bastante impressionado com ela, também. Talvez nosso herói tenha um fraco por mulheres mais velhas.

— Duvido muito, e não se faça de desentendida. É impossível não se impressionar com a Margit, Jim, eu acho que se a sua mãe desse em cima de mim, eu não conseguiria resistir… Força de expressão é claro. Mas não o Mathews, com certeza. Ele provavelmente tem medo dela, ela é mulher demais pra ele. Ele não me parece ser o tipo de carinha que aceita ficar “por baixo”…

— Mais um motivo para eu não gostar dele. Ele é um ególatra, um convencido e um abusado.

— Ah, quer dizer que você já está procurando motivos para não gostar dele?

— Amanda! Onde você está querendo chegar? Acha realmente que ele está interessado em mim? Nem se o Sol nascesse no Oeste ao meio-dia! E mesmo que ele quisesse, eu é que não quereria aquele baixinho metido a besta!

— Ele é só um pouquinho mais baixo do que você. E em determinadas condições todos têm a mesma altura…

— Mas isso é o cúmulo! Já que você não aceita meus argumentos, seja então realista, pelo menos! Que homem em sã consciência, em podendo escolher entre você ou eu, optaria pela segunda alternativa? Hein? Tem uma resposta, espertinha?

— Você não quer realmente que eu responda isso, né?

— Bem… Ora, é melhor não falarmos mais nisso… — e havia certo constrangimento na sua voz.

— Tudo bem, Jim. Só acho melhor eu me apressar se ainda quiser tirar a minha lasquinha…

— Amanda! Vamos logo almoçar, antes que você me faça perder a fome!


*****


Os zetas estavam reunidos no restaurante onde habitualmente se encontravam na hora do almoço. Até Mathews, que ali não comparecera na última semana, lá se encontrava. E ele expunha a situação ao grupo, uma situação não de todo nova, embora não houvesse ainda sido abordada por todos.

— Sei que todos vocês estão a par do que vou dizer, por isso não vou me alongar no discurso. Vocês sabem que me encarreguei de entrar em contato com uma aspirante a membro da Zeta. Pois bem, como encarregado da avaliação, eu considero a candidata apta após o final do processo de pré-seleção, e agora encaminho, segundo as normas, o caso para ser votado no pleno da Corporação. Se consultarem suas caixas de e-mail, vão encontrar lá meu relatório final e penso que já podemos avançar à próxima etapa.

— Não tão rápido coelho! — falava Jason Ruby. Talvez você pense que tudo já está definido, amigo, mas o restante do grupo não tem tanta certeza. Em primeiro lugar, que mistério todo é esse o da última semana?

— Sim Mathews nos parece que você está agindo sem muita transparência nos últimos tempos — disse Carlisle Fulton. Você está tratando a Corporação com descaso, não pode andar por aí bancando o Cavaleiro Solitário e manter-nos no escuro como tem feito. Sabemos alguma coisa a respeito de um determinado incidente acerca de dez dias, mas não ouvimos uma única palavra vinda de você, que pelo que consta estava envolvido diretamente com o caso…

— Sim — era a vez de Jimmy Hoffman — sabemos muito mais do caso pelo que não nos foi dito e acabamos por deduzir a partir dos fatos e menos pelo que nos foi dito, ou seja, quase nada.

— Você está nos evitando, evadindo-se de nos dar maiores explicações. — dizia agora Elizabeth McAllister, a única mulher do grupo — O que está havendo, Demian? Você disse à maioria de nós que era necessário um novo contato com a garota, devido a um obscuro pedido da Southerand, motivado por um obscuro perigo originado de uma obscura fonte, ou algo assim; em seguida você vai encontrá-la e a garota então some por mais de uma semana; um dos encrenqueiros de carteirinha da UCL também desaparece misteriosamente e você, se não some como eles, também não dá mais as caras, não manda notícias e nem relata coisa alguma. E agora, Demian, o quê mais você quer? Que passemos por todo esse protocolo de forma sumária, sem termos detalhe algum? Deseja que somente sigamos as suas instruções, sem ponderar ou refletir? Não gostaria você também, por acaso, de receber agora um cheque em branco de cada um de nós? Tenha dó, Mathews, a realidade não funciona desse jeito!

Mathews gostava de dar explicações tanto quanto gostava de grão-de-bico ou de óleo de rícino, mas sabia que até para seus caprichos havia um limite, principalmente quando se tratava com os zetas. Ele havia ganhado tempo na última semana, mas continuar omitindo informações deles seria inútil, visto que eles acabariam por descobrir tudo e isso só serviria para diminuir o prestígio de Mathews junto deles. Era necessário recuar. Mas tinha de fazer isso com elegância, é claro, afinal de contas ele tinha um nome a zelar e não podia simplesmente sair por aí cedendo à mínima pressão psicológica.

— Pois, bem ouvi seus termos e considero-os justos. Talvez eu realmente tenha passado um tanto do limite, mas lhes garanto que havia bons motivos para que eu agisse com cautela. Só não concordo que haja sonegado informações a vocês, penso pelo contrário que os privei tão somente de dados desencontrados e parciais, já que minha avaliação não estava completa. Agora que está concluída, vamos ao que tenho a lhes informar…

— Que mudança de atitude desde a manhã… Quer dizer que agora você não pensa mais que indagar a respeito de suas atividades pouco claras seja uma espécie de invasão à sua privacidade? — perguntou Ruby, com visível ironia.

— Você me abordou com insinuações e deboche, Ruby, não com clareza e objetividade. Não retiro uma vírgula do que lhe disse. Se você houvesse tido mais tato, minhas respostas teriam sido outras.

— Pois bem… Vamos ao que tem a dizer então, senhor avaliador. — disse Ruby.

E seguiu Mathews em um relato completo dos acontecimentos desde aquela fatídica tarde de sexta-feira, omitindo uma informação ou outra. Disse por exemplo que impedira os skinheads em seu intento, embora não explicasse exatamente como. Tirando um pormenor aqui ou ali, contou como na última semana passara seu tempo livre levantando informações tanto a respeito da postulante a zeta quanto das atividades de seus agressores. Passara realmente um tempo considerável em Chelsea, tanto para manter-se informado a respeito das condições de Szabó como por que alguns de seus atacantes também residiam naquela região, e aproveitara para colher informações a seu respeito. E assim ele relatou a todos eles os pontos mais relevantes de suas atividades recentes, conseguindo aparentemente satisfazer a maior parte da sede de informações daqueles ávidos. A maior parte, mas não toda. Logo o interpelou McAllister:

— Mathews, seu relato satisfaz a todas as nossas dúvidas, menos uma… Por que todo esse “mistério”? Isso não faz sentido, nada o impedia de fazer relatórios, mesmo que parciais, das suas atividades na semana passada. Você nos deixou a ver navios por quê? Charme?

— Eu tinha meus motivos, como já disse. Não via razão para falar de algo que precisasse retificar depois, então achei melhor fazer um detalhamento completo somente após ter concluído toda a minha avaliação.

— Essa é sua posição final sobre o assunto, então? Simplesmente queria entregar tudo pronto quando a tarefa estivesse concluída. É esse o argumento que você mantém? — perguntou McAllister.

— Sem dúvida, é a mais cristalina expressão da verdade.

— Então acho que devemos aceitá-la. — continuava Ruby — Pelo que vejo não resultará nada de produtivo se mantivermos esse impasse.

— Aliás, sem necessidade alguma — falou Mathews — uma vez que não é necessário todo esse alarmismo só por que passei alguns dias sem falar com vocês.

— As coisas não são tão simples assim Mathews — disse Fulton — tem alguma coisa de errado nessa história toda. Se a garota tem méritos para ser uma zeta? A princípio sim. Mas há algo de incompreensível nisso tudo, e você vai concordar comigo nisso amigo, quando paramos para considerar a situação de uma forma ampla. A Southerand chama, você vai, ela lhe pede para acolhermos a menina por que Wilkins tem medo de que alguma coisa de ruim lhe aconteça e logo em seguida algo ruim de fato lhe acontece… Não acha isso estranho?

— De que você suspeita, Fulton, de a Southerand ter “armado” tudo, com a cumplicidade dos filhotes do Reimers, inimigo declarado dela, só para que… Para quê mesmo, Fulton? Para a Southerand poder “plantar” uma pessoa da confiança dela dentro da Zeta? E que vantagem ela poderia tirar disso? Não faz o menor sentido.

— Você está considerando a situação de uma perspectiva parcial — disse McAllister. Há de convir que essa garota tem muitos privilégios na UCL, e não é de hoje. Parece que o corpo docente inteiro da universidade vive um caso de amor com ela… E agora ela pode ser uma das nossas. Não acha isso intrigante?

— Com vocês pondo as coisas dessa forma, sim, com certeza parece intrigante. Parece uma sucessão de “acasos”, alguns mais ou menos dirigidos, que nos precipitam a tomar uma decisão alheia a nossa vontade. Mas essa tese tem pelo menos um ponto fraco: — Qual seria a motivação de todo esse esforço? Não vejo uma resposta satisfatória para essa pergunta.

— E é exatamente por isso que a situação se torna incômoda — falou Ruby. Não temos muita escolha, como você mesmo colocou. A garota está, pelo menos a meu ver, de fato pré-selecionada, e agora devemos seguir os restantes procedimentos. Mas veja… Não a escolhemos, ela nos foi imposta pelas circunstâncias. Essa situação me deixa desconfortável.

— E não podemos ignorar que ela já nos recusou antes, por três vezes. O que a teria feito mudar de idéia? — perguntou Hoffman.

— Falando com sinceridade — disse Mathews — acho que ela está com medo. Convivi na última semana, por força das circunstâncias, um tempo considerável com a garota. Acho que posso afirmar com certeza que é ela uma pessoa orgulhosa e forte… Mas não tão forte quanto tenta demonstrar.

— “Por força das circunstâncias”. Parece que estamos tomando muitas decisões por esse motivo nos últimos tempos… — comentou McAllister. Mas não temos escolha, devemos prosseguir com o processo, já que ela passou na pré-seleção. Só uma última questão: você comentou a respeito de ela ser bipolar. Acha que isso vai interferir de alguma forma no seu relacionamento conosco?

— Não tenho treinamento ou conhecimento de causa nessa área, McAllister, por isso não faço idéia de como ela se comporta em um ambiente como o nosso. Mas, pelo que tenho notado de sua personalidade, ela me pareceu ser teimosa e arrogante, não muito diferente de nenhum de nós, aliás, mas parece também ser uma pessoa sensata e de temperamento até bem razoável. Mas essa é só uma impressão, mais só o tempo poderá dizer.

— Está bem então. — voltou Hoffman. Vamos prosseguir com o protocolo e entrevistá-la pessoalmente. Você disse que ela retornou hoje. Sugiro que falemos com ela em alguns dias, vamos lhe dar algum tempo para se readaptar.

— Também concordo. — disse Fulton. Sugiro quarta às três horas, no Templo, então. Diga, Mathews… Ela faz alguma idéia sobre as provas a seguir?

— Não por minha parte. — falou Mathews — Concordo com você Fulton, e quanto a vocês? Todos concordam, então? Muito bem, como Analista de Primeira Instância, vou então lhe entregar a Convocação, segundo as normas. Todos de acordo? Parece que sim. Bem, senhores e senhora, eu agora acho melhor que comamos logo. Eu pelo menos estou morrendo de fome.


*****


Após o almoço, Gimely deslocava-se para sua classe daquele horário na (perpétua) companhia de Amanda. “Pelo menos ela parou de me aborrecer com esse assunto do Mathews… Desde o início do almoço ela não falou mais nele…” Pensou. Qual não foi sua surpresa quando sentiu que ela a cutucava com o cotovelo e apontava com a cabeça para o próprio vindo em sua direção.

— Boa-tarde garotas — disse ele. Como têm passado?

— Melhor agora… — disse Amanda, sorrindo de um jeito levado e recebendo do rapaz um sorriso semelhante em resposta.

— Essa é a parte onde eu deveria dizer algo parecido? — falou Gimely num ar desesperançado.

— Perdi alguma coisa? — perguntou Mathews.

— Nada, não… — disse Gimely no mesmo tom. Mas que bons ventos o trazem?

— Isso. — ele então lhe estendeu um envelope pequeno onde ela encontrou um convite. É A Convocação. Você deve ir encontrar os zetas no Templo no horário marcado, caso ainda pretenda ser uma de nós, é claro.

— Quanta pompa... Por “Templo” você está se referindo à Biblioteca, suponho — disse Gimely.

— É assim que nos referimos a ela. Quarta feira às três horas, Ok? Agora preciso ir, até mais — e despediu-se das duas, endereçando um sorriso todo especial para Amanda.

— Ok Amanda, o que significou essa sua atitude?

— Eu falei, Jim. Vou tirar a minha lasquinha o mais rápido possível…

E Gimely não respondeu nada. Já havia desistido de tentar colocar juízo na cabeça da outra garota.

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