Muitas pessoas carregam, injustamente, um rótulo que lhes acompanha pela vida afora: O maconheiro, a fofoqueira, a namoradeira, o vagabundo, o ladrão, o viado, o galinha, o louco, o espertalhão, o ingênuo, a romântica. São visões estereotipadas, surgidas muitas vezes de acontecimentos que foram marcados pela maledicência da sociedade.
Não era o caso de Benício.
De qualquer ângulo que se olhasse Benício, seja sob o ponto de vista de um psicólogo ou de um servente de pedreiro, podia-se afirmar, sem a menor sombra de dúvida: ele era um rabugento.
Funcionário público, trabalhando em um banco já há trinta anos, não se poderia dizer que foram a burocracia e a rotina que lhe haviam transformado naquele homem mal humorado. Benício sabia que desde criança era aquele sujeito predestinado a não ver muita alegria na vida. Sentia que a vida era só um grandessíssimo espaço entre dois vazios. Sentia que deus era uma imensa farsa criada para diversos fins, todos eles cheios de segundas intenções e terceiras dúvidas. Sentia que a felicidade era só invenção humana novelesca; era uma ilusão que durava, no máximo, quinze minutos de fumaça.
Na agência bancária, todos os seus colegas procuravam o evitar e diziam, à boca pequena, que ele era tão misterioso que deveria ser, no fundo, algum potencial assassino, pedófilo ou homossexual enrustido. Mas, a verdade, talvez fosse bem mais simples: Benício era o mais sensível e realista dos seres, por isso a rabugice. Tudo o que ele desejava era a solidão. Tudo o que queria era que o evitassem, que o deixassem quieto, trabalhando, sem ter que conversar com ninguém. Por isso, quando alguém procurava se aproximar dele com alguma conversa, era sempre alvejado por alguma grosseria que fazia o sujeito evitá-lo para o resto da vida.
_ A burrice até é compreensível, mas querer espalhá-la é outra forma de burrice: a que se pressupõe socialmente inteligente, encoberta por uma camada de cinismo bem comportado. – disse ele, certa vez, a um imbecil gerente novato, que não conhecia sua peculiar personalidade.
Mas aconteceu então, de uma hora para outra, o inesperado. Benício se transformou em outra pessoa. Aos cinqüenta e dois anos, Benício descobria que haviam outros personagens ao seu redor e que eles mereciam respeito e atenção. Incrivelmente e inexplicavelmente, Benício se tornara um novo homem. Chegava ao serviço cumprimentando, alegremente, os colegas e atendia o público com uma urbanidade que soava natural e sincera. Tinha ele uma disposição feliz, que parecia sempre ter feito parte de sua personalidade. Mostrava-se solícito às dificuldades que os funcionários novos tinham e solícito às dificuldades e dúvidas que os clientes lhe apresentavam. Até as incoerentes determinações vindas dos superiores lhe pareciam mais lógicas e, ao menos, dignas de serem ouvidas. Chegava a contar piadas que, por incrível que pareça, soavam engraçadas.
É lógico que os seus colegas de serviço mais antigos e atentos não acharam essa mudança uma coisa natural e comentavam, à boca pequena, que uma esclerose precoce era a culpada. Ou uma esquizofrenia latente, que agora se tornava evidente, depois de tanto tempo negligenciada, por falta de medicação.
Alguns diziam que Benício, finalmente, saíra do armário, assumindo sua homossexualidade. Vários tinham certeza de um amor antigo jamais esquecido, talvez com uma mulher já casada ou um negão vizinho. Alguns diziam o ter visto de mãos dadas, passeando, com uma menina de treze anos. Outros, mais espirituais, afirmavam que ele, finalmente, havia descoberto deus e agora freqüentava uma igreja. A religião variava sempre a cada novo comentário, mas sempre todas eram cristãs e dolorosas.
Então, numa segunda feira, Benício não apareceu no banco. Todos estranharam aquela ausência, pois ele sempre fora o mais assíduo de todos os funcionários da agência 1592-6. Foi então que, na terça feira, o gerente, pançudo e fã de Dire Straits e Phil Collins, convocou uma reunião com todos os funcionários.
_ Pessoal, eu estou apavorado e não sei o que fazer, por isso convoquei esta reunião. Recebi há trinta minutos esta carta, cujo destinatário é o Sr. Benício Soares e, antes de qualquer atitude, quero a ler para vocês:

Meirelles Cunha tinha a camisa ensopada de suor. Sempre que se encontrava em uma situação de confronto sentia que o líquido, quase fedorento, se derramava impiedosamente. Meirelles Cunha era um velho de 29 anos, determinado a ser um cadáver de 35, porém bem sucedido.



Rio Grande, 15 de outubro de 1982.


Ilustres senhores,


Antes de tudo, gostaria de esclarecer aos colegas, que vocês não têm a exclusividade de minha atenção. Também enviei cartas, obviamente com outro conteúdo, para outras pessoas. Antes que a curiosidade mórbida de vossas senhorias grite, digo a quem: minhas duas irmãs que moram em Blumenau.
Eu tentei. Eu tentei, juro que tentei. Desde que me conheço por gente, tento me adequar ao convívio social. Sempre invejei a forma natural com que vocês se relacionavam uns com os outros. A forma com que as palavras saltavam, naturalmente, de suas bocas. Sempre que eu tentava imitá-los, as minhas frases eram incoerentes, covardes, gagas. Depois eu olhava para o chão, envergonhado.
Então eu os odiava. Eu tinha raiva e inveja da capacidade que vocês tinham para fingir. Eu queria ser como vocês, mas nunca pude; sempre a minha consciência gritava e a minha timidez, rastejante, murmurava. Eu queria esquecer, mas ao mesmo tempo queria fazer parte da rotina que os endinheirados impuseram no mundo e que parece tão natural a vocês, ou melhor, a nós. Principalmente, nós os bancários.
Eu nunca soube como bajular o gerente, como me divertir com piadas racistas e machistas, como aceitar os convites para as comemorações que vocês inventavam para esquecerem a inutilidade dos seus dias. Eu ficava calado e aborrecido e, então, obviamente, os indicadores de todos vocês me apontavam. E cada um devia ter uma teoria para justificar meu comportamento recluso.
Mas agora, senhores, depois de um esforço sobre-humano para me adequar ao reflexo de vossos espelhos, decido, com uma quase paixão, quebrar estes espelhos e assassinar todas as imagens nele refletidas, inclusive a minha.
Deixo este chão, empestado por doenças sem nomes e hipocrisias senis, com a certeza de uma já tardia necessidade. Á vocês, que ficarão, no recôndito de seus esquecimentos, convivendo com a desgraça e a injustiça, desejo, com uma sinceridade latejante:
_ Vão para o diabo que vos carregue!


O gerente concluiu a leitura, com uma expressão triste e uma pequena lágrima no olho esquerdo. Mas, quem pudesse ver por baixo daquela respeitosa carapaça jovem e esmeradamente vestida, teria diante de si um boneco que lutava com todas as suas forças para aparentar um luto forçado, um preto desbotado e burocrático.
De quarta até sexta-feira, os comentários variaram. Uns diziam que Benício havia, também, enviado uma carta para aquela sua velha paixão, que permanecia casada. Outros diziam que ele havia, também, remetido uma carta para o seu caso homossexual que, sendo casado e pai de família, achara melhor desistir de tão proibido amor. Outros tinham informações certas de que ele se suicidara por saber que o pai de uma menor de idade prometera o matar com requintes de tortura.
Outros, mais espirituais, lamentavam seu infeliz destino, sua derrota para o demônio; e rezavam para aquela pútrida alma, que já podiam ver adentrando os portões do inferno.