_ Vou embora para Porto Alegre. Aqui não dá mais! – disse ela, embaixo da figueira; e o meu coração quis ter força de raiz de figueira e a revolta envolta no tronco, no caule e nas folhas.
_ E me deixar para trás? – falei, sem me dar conta do quão patético estava sendo.
_ Acho que somos jovens demais para termos alguma obrigação um com o outro. – ela falava com uma segurança secular, embora se auto-intitulasse jovem. Já a minha insegurança era a de alguém que acabara de cair na Terra. Meus olhos ficaram úmidos, mas eu estanquei as lágrimas, com a força do guerreiro que nunca fui.
Calei-me, pois não saberia o que dizer.
_ Não gostaria que você ficasse triste.
_ Eu poderia te visitar nos fins de semana e às vezes você viria pra cá. – falei, com a mesma esperança do afogado que encontra um pedaço minúsculo de madeira num oceano infinito. Mas já havia lido a expressão do seu rosto.
_ Não iria dar certo. Lá eu terei uma outra vida bem diferente. Quero me dedicar aos estudos e procurar um emprego. – ela me falava como quem fala a uma criança que não poderia ter o brinquedo que tanto queria. – Mas você pode me ligar sempre que quiser, ou me escrever. Quero ser sempre sua amiga.
A figueira parecia ter crescido e se tornado um imenso monstro cheio de braços, que agora zombava da minha insignificante existência. Desejei que aquele dinossáurico tronco, por algum capricho da natureza, desabasse sobre mim, me esmagasse e me tornasse tão só uma pasta gosmenta e sem lembranças.
_ Fale alguma coisa. Não quero que você fique com esta cara de velório. – disse ela, com um sorriso lindo, que me fez pensar em tudo o que se perde na vida sem ter a força suficiente para recuperar.
_ É você quem sabe. – falei com um fio de voz. Eu não queria demonstrar que estava sofrendo. No entanto todo o meu ser estava despencando num abismo escuro. – Então, tchau. Preciso ajudar o meu pai num serviço lá em casa. – menti, pois não suportaria ficar ali diante dela sem demonstrar a minha profunda tristeza.
_ Não vai nem me dar um beijo? Semana que vem já estou indo.
_ Melhor não. – falei, cabisbaixo. Eu sabia que um beijo de despedida me traria ainda mais transtornos.
Afastei-me da figueira e fui andando pela rua, como se estivesse num sonho terrível e convictamente consciente, do qual sentia que não havia a menor possibilidade de acordar.