Os três jantavam, calados, na pequena cozinha. Pai, mãe e filho único. Apenas se ouviam os ruídos saídos da boca do pai. Comia sem mastigar direito. Na mão, uma costela de porco assado. Na parede, um quadro vagabundo com a imagem da Santa Ceia. Uma pequena mesa, com uma toalha xadrez e três cabeças de pensamentos conflituosos.
- Paguei a conta de luz hoje. – disse o pai, cortando o silêncio, com a voz pouco amistosa, a boca cheia e o bigode grisalho engraxado. – Um absurdo, quase deixei que cortassem. Isso é coisa do Caio, sempre ouvindo essa merda desse rádio.
A mãe serviu mais arroz para o pai. Caio, treze anos, empurrava o purê de batatas, sofregamente: os olhos perdidos na parede da cozinha.
- Como está o colégio? – quis saber o pai, cheio de olhos e gritos contidos. Grãos de arroz saltavam de sua boca.
Caio desviou os olhos da parede e tentou impor uma voz máscula, afirmativa, imponente.
- Bem. – falou como uma moça tímida.
O pai conteve-se. O sangue saltando pelos olhos, a vergonha lhe envolvendo como uma roupa sem conforto, a raiva socando sua pré-úlcera. Olhou fixamente para Caio, que baixou o rosto. Sentiu ânsias quase incontroláveis de agarrar o filho pelo pescoço e socar sua cabeça contra a parede até que tomasse rumo. Empurrou o prato para o lado, ainda com comida, e disse, esbravejando, que iria dormir.
Caio ajudou a mãe a lavar a louça. Depois lhe deu um beijo de boa noite e disse que iria se deitar. Sintonizou o rádio em uma estação onde tocava uma música da moda e deitou-se na cama, pensando no dia em que mataria seu pai e sairia pela porta da frente, usando mini-saia e botas de salto alto.