Pelo que se foi... - Capítulo 11 - Como Esfolar Um

28 de Setembro de 2011 TFJ Contos 1105

Onze


Como Esfolar Um Gato



Pouco antes das três horas, Gimely chegava à Biblioteca. Acompanhada, naturalmente, da sua mais nova e fiel “escudeira”, pois estava realmente impossível convencer Amanda de deixá-la só. Ainda mais agora, que ia a um encontro tão “excitante”, nas palavras dela própria. A única dúvida de Gimely era se o que mais chamava a atenção da amiga era a sua segurança, a Corporação e a mística em torno dela, a presença de Mathews no local ou simplesmente bisbilhotar na sua vida. Mas logo se cansou de tais especulações, pois se aproximavam de uma mesa um pouco deslocada das demais, próxima da grande escrivaninha da Sra. Mullins, a bibliotecária cuja identidade para Gimely parecia confundir-se com a da própria Biblioteca, onde os cinco zetas reunidos a aguardavam. Ao vê-la passar, a Sra. Mullins dirigiu-se até ela, daquele jeito fraternal que bem a caracterizava.

— Oh, menina, quanto tempo! O quê houve com você? Ao que me lembre já faz mais de uma semana que não aparece por aqui… Fiquei sabendo que você sofreu algum tipo de acidente… Oh querida, o quê foi isso no seu olho? Você já está bem, mesmo?

A Sra. Mullins falava aos borbotões, como sempre, às vezes era difícil até mesmo se raciocinar quando se estava próximo a ela. Um pouco à sua esquerda, ela pôde notar que os zetas percebiam seu embaraço e sorriam entre si de forma não muito inocente. E nada discreta. Ali começava a surgir certa antipatia de Gimely em relação a todos eles. Finalmente, após ser obrigada a dar mais algumas explicações e juras de que tudo estava bem com ela, conseguiu desvencilhar-se da bibliotecária e aproximar-se da mesa onde eles estavam. Enquanto isso, Amanda perambulava ali por perto, passeando entre as estantes, até se deter em um terminal que, aparentemente, parecera-lhe particularmente interessante. Quando Gimely alcançou a mesa, todos se levantaram e a saudaram, iniciando assim a burocracia das apresentações. A maioria deles ela já conhecia, se não pessoalmente pelo menos de vista. O primeiro a tomar o assunto foi Jason Ruby:

— Já nos conhecemos a algum tempo, na realidade, através da minha irmã. Embora não tenha certeza de que já tenhamos nos falado. Doroty parece gostar muito de você. Eu a saúdo em nome de todos. Sente-se, por favor — e indicou uma cadeira.

— Agora nos fale um pouco de você — falou Jimmy Fulton, indo direto ao ponto. Não a respeito de seu curriculum, esse nós conhecemos. Fale, por exemplo, das suas expectativas em relação ao seu futuro. O quê você busca na UCL? Quais são seus objetivos profissionais? Têm alguma razão em particular para desejar pertencer a uma Corporação como a Zeta?

— Ora, ora, muito objetivos, vocês... Normalmente me sentiria ofendida com uma atitude desse tipo, não costumo responder bem interrogatórios... Mas me garantiram que era por uma boa causa, entretanto. Então, e só por isso, vou responder as suas perguntas ? falou todas essas frases marcando claramente todas as pausas e ênfases. Por partes, então… O que eu busco? Pergunta curiosa... Não saberia responder exatamente a essa pergunta, principalmente por não saber qual é a resposta que vocês desejam ouvir. O que busco na UCL é o que busco em qualquer momento da minha vida, só o conhecimento. Nada mais. Nunca pensei em seguir qualquer carreira profissional, a única coisa em que penso é em concluir meus cursos. E a razão que poderia me fazer desejar ser membro de uma Corporação como a Zeta? Coação é a primeira palavra que me vem à cabeça... Ah, mas acho que esse tipo de resposta não é considerado politicamente correto... Deixe-me ver uma resposta mais bonitinha... Sim, claro. Conviver num ambiente como o seu me daria a possibilidade de conviver mais diretamente com pessoas de um nível intelectual diferenciado, e essa seria uma fonte interessante de aprendizado, sem dúvida.

“Se era pra fazer essa palhaçada, por que ela aceitou vir aqui? Beleza, agora eu entendi. Eu a irritei e agora ela quer me envergonhar.” Pensou Mathews, cruzando os braços e baixando a cabeça, desejando que lhe fosse possível desaparecer dentro da cadeira onde estava sentado.

— Você diz que não tem nenhuma perspectiva profissional? — perguntou Carlisle Hoffman aparentemente ignorando o sarcasmo de Gimely e se atendo a um ponto específico. Você pretende permanecer na universidade pra sempre?

— Talvez. Nunca pensei nisso antes... Mas agora que você falou isso me parece uma ótima idéia!

— Pretende trabalhar com pesquisa? — perguntou Ruby, sem se mostrar irritado.

— Dificilmente. Pesquisa é pra quem não tem criatividade.

Mathews permanecia calado, pois como Avaliador Inicial, não lhe cabia indagar naquela fase dos procedimentos, mas alguma coisa começava a o incomodar. Ele sabia que Szabó não era uma pessoa exatamente amável, mas, se continuasse reticente e debochada daquela forma, a situação poderia acabar se tornando deveras constrangedora. Ela estava sendo deliberadamente hostil, estava deixando a todos desconfortáveis. Mas ele não podia interferir no andamento da entrevista, fazia parte das normas. Tudo o que podia fazer era permanecer calado e observar o espetáculo, sabendo de antemão aonde aquilo tudo ia acabar. O próximo tijolo na parede foi sentado por McAllister:

— Nós temos uma curiosidade a seu respeito, Szabó. Como acabou de nos comprovar nossa amável bibliotecária, parece que você vive em estado de graça com o corpo docente inteiro da universidade. Alguma razão em especial para isso? ? perguntou ela fria como sempre, mas com um sorriso se insinuando levemente no canto dos lábios.

— Não tenho certeza, talvez seja pelo meu bronzeado ou pelo meu porte atlético. Mas pensando bem, provavelmente é por eu ser um gênio ? debochou novamente.

— Ou talvez tenha algo a ver com o fato de sua família ser uma Grande Benemérita da instituição, ou se deva ao fato de a sua mãe haver lecionado aqui ? retrucou a outra no mesmo tom.

— Sottises. Acha que eu tenho regalias por que minha mãe foi professora aqui? Ou pelo dinheiro que a minha família deu à universidade? Isso pode até ser verdade, mas e daí? Seu pai está no Parlamento, McAllister. É por isso que você é uma zeta? Qual a influência da opinião dos professores na corporação?

“Essa é minha garota…” Pensou Mathews, e depois olhou depressa em volta, parecendo temer que alguém pudesse ter “lido” seus pensamentos, subitamente sentindo-se constrangido por ter pensado de tal forma em relação à Szabó. Mas, retomando sua linha de raciocínio, percebeu que compreendia agora as intenções da garota. “Ela era de fato muito inteligente, queria provocar um confronto direto. O raciocínio dos zetas é tortuoso e ela sabe disso, é por isso que está sendo tão agressiva. Ela está jogando xadrez com eles. Está de branco, mas não é Alekhine, é Anderssen. E ela fez uma daquelas aberturas malucas do século XIX, não avançou o peão do Rei, e saiu logo oferecendo um gambito. Só espero que como Anderssen ela saiba o que está fazendo...” Pensava Demian.

— Você se engana, a opinião dos professores influi sim, nos nossos critérios. — falou Ruby. Alunos que transitam livremente na cúpula da universidade não costumam ser vistos com bons olhos por nós. A Zeta não é uma entidade oficialista, tende pelo ao contrário a afirmar-se como oposicionista.

— E o que tenho eu com isso? Só pelo fato de os professores gostarem de mim, isso me torna automaticamente uma representante deles? Não vejo lógica na sua insinuação.

— E você, o que pensa deles? — perguntou Fulton. Acha que conseguiria colocar-se contra eles em uma eventual dissensão conosco?

— Não imagino que motivo pudesse me levar a uma circunstância como essa... Em todo caso, numa situação como a descreveu, é claro que minha posição seria a favor da Corporação.

— Você estudou canto? — perguntou McAllister, de forma aparentemente casual, enquanto remexia em alguns papéis sobre a mesa.

— Não… Não entendi essa pergunta… — falou Gimely, surpreendendo Mathews com a inusitada hesitação nas suas palavras.

— Canto. Você estudou Canto? Percebo que você possui uma impostação particular na voz… — reiterou McAllister. Mathews percebeu com certo receio um brilho nos olhos da zeta, aquela viborazinha estava tramando alguma coisa, sabia de alguma fragilidade de Gimely e iria explorá-la. Mas do que se tratava? Do que McAllister sabia e ele não?

— Tive aulas… Isso faz alguma diferença para a Corporação? E você, pelo que vejo, entende de música… Também tem a voz impostada…

— Está no sangue, sou filha de Ellen Downing.

— Meus cumprimentos, eu não tinha conhecimento disso. Sua mãe é uma grande intérprete. Uma família de grandes intérpretes há várias gerações pelo que me consta…

— Você é muito amável. E vejo que não só entende de música como de história da música também. Agora, me diga uma coisa… Esse seu timbre, pelo menos no registro falado ele é tão… Diferente… Quando você canta, ele soa da mesma forma? — ela fez questão de enfatizar as últimas palavras.

— O quê… O quê você está querendo dizer com isso?

Mathews agora sim estava preocupado. Ele não entendia nada do que as duas estavam falando, não fazia a menor idéia do que estava ocorrendo ali, mas podia perceber a reação adversa de Szabó e sentir o veneno destilando dos lábios de McAllister. E pelo brilho cada vez maior em seus olhos, via que a colega pensava que tinha ali um ponto contra o qual investir. E parecia se divertir muito com isso, afinal. Encontrar desculpas para desqualificar candidatos à zetas era seu passatempo preferido...

— Sim querida, pois com certeza você sabe que possui um timbre incomum. Ele muda de cor quando você canta?

— Imagino que… De certa forma… Depende da escala… Mas por que todas essas perguntas? O quê você está insinuando? — Gimely parecia estar ficando definitivamente irritada, seus olhos amarelados pareciam os de uma gata zangada.

— Mas não parece óbvio para você, minha querida? Você tem uma voz estranha… Pelo menos quando fala. Não sei definir exatamente seu timbre, parece ser ficar algo entre o contralto e o mezzo lírico… Hás vezes soa quase com uma cor baritonal…

Mathews não entendia nada de teoria musical, não tinha a vaga noção do que fosse um contralto, mas sabia exatamente o significado da palavra “estranha”, e tinha quase certeza de que “baritonal” dizia respeito a uma classificação de voz masculina. E pela reação cada vez mais exacerbada de Szabó, percebia que os comentários de McAllister não soavam nada elogiosos aos seus ouvidos. Parecia que ela desejava fulminar McAllister com os olhos, e pela primeira vez desde que conhecera Szabó, lhe parecia ver um brilho, uma faísca por trás daquelas grossas lentes. Uma centelha de ódio cintilava naqueles olhos mortos, como se McAllister houvesse lhe tocado um nervo exposto, e sua intuição começou de novo a tilintar ao ver as duas garotas encarando-se por trás de seus respectivos óculos. Só poderia interpretar como raiva o que via nos olhos de Szabó, embora não entendesse o porquê de tal reação negativa. Por outro lado, parecia uma satisfação muito grande e contida o que via nos olhos de McAllister, como se ela estivesse ainda preparando seu melhor golpe. A zeta havia fisgado seu peixe afinal, encontrara a sua desculpa… E a permanência ou não de Szabó na Corporação Zeta estava por um fio.

-- Se você diz isso provavelmente nunca ouviu um contralto ou um barítono. E se julga um livro pela capa, então você não entende nada de literatura… — falava Gimely quase num murmúrio.

— Ora, não seja tão sensível, nem todas nós podemos ter belas vozes. Principalmente quando sibilamos as palavras… ? retrucou com desdém.

— De fato querida, nem todas nós podemos ter o belo timbre ou a cor da voz de um soprano lírico obesa! ? e dessa vez Gimely quase gritou.

Agora o Demian não tinha entendido nada. “McAllister está dizendo que a voz da Szabó não é bonita? Acho que entendo menos de música do que imaginava. A voz dela sempre me pareceu tão bela, tão sensual, com aquela leve rouquidão… A única coisa interessante nela. E a voz da McAllister é bonita? Eu vejo outros dotes nela, mas sua voz sempre me soou tão alta e estridente…” E não era só pela dele que os pensamentos fluíam, embora os de McAllister fossem muito mais concatenados do que os dele. “Essa garota é bicuda”. Pensou ela. “E na verdade tem uma extensão vocal muito grande, só com ela falando já se pode adivinhar isso. Caraca, só naquele grito ela subiu três oitavas, meu ouvido até doeu... Todos os meus palpites até agora deram resultado, e tendo esse vozeirão todo, posso apostar que ela é fã da La Divina. Vou jogar a última isca, e se ela abocanhar acabou-se suas chances de ser uma Zeta. Se não... Bem, então bem-vinda ao time, colega. Mas, antes preciso dizer ainda uma coisinha ou outra pra essa desaforada. Obesa, eu?”

— É, parece que a “obesidade”, já que assim você quer colocar, pode afinal ter lá suas vantagens sobre a magreza… Enfim, voltando ao assunto central, você me disse que a cor do seu timbre varia quando canta, e acho que consigo imaginar como soa. Diga-me uma coisa, esse seu timbre feio, deve-se a uma professora ruim, ou se origina no fato dela haver partido de um material genético realmente pobre?

— Professora ruim… Material… — sua voz agora sibilava ainda mais. Minha professora foi um grande soprano coloratura, se quer saber, e era uma ótima professora! E apesar dessas suas afirmações maldosas, o timbre da minha voz não é estranho, diferente e muito menos feio. Ele é único!

“Ela é muito orgulhosa de sua voz, e por isso uma presa fácil… Uma mezzo de grande extensão, com um timbre único e uma professora soprano coloratura. Já vi isso em algum lugar e era só o que eu precisava confirmar. Agora basta acertar onde tenho certeza de que vai doer. Gotcha! Te peguei garota!” Pensou a zeta.

— Concordo… Único, variável… E feio. Mesmo sem tê-la ouvido, eu até consigo imaginar você cantando, deve soar algo parecido com a Callas… — soltou McAllister.

— O quê você está dizendo sua insana, que a voz da Maria Callas era feia?

Agora Gimely estava realmente gritando dentro da biblioteca, o que chamou imediatamente a atenção tanto da Senhora Mullins, a alguns passos de distância, quanto de Amanda, que estava quase no meio do recinto, observando à distância, e começou a se aproximar. Mathews lamentava-se intimamente, pois saiba que esse destempero que Szabó havia já lhe tinha desclassificado da seleção para a Corporação. Mas essa era a menor das suas preocupações no momento, pois que a visão da face de Szabó o preocupava ainda mais. O lado esquerdo do seu rosto se agitava em espasmos, e seus olhos falavam da sua vontade aparente de saltar por cima da mesa no pescoço de McAllister, que por sua vez parecia divertir-se muito com a situação. “Que loucura, como alguém pode se irritar dessa forma por tão pouco?” Lamentava-se ele.

Sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha, como se a temperatura da sala houvesse caído rapidamente, e certo constrangimento lhe tomou conta, pois mesmo no meio daquela situação, percebeu que lhe parecia nunca ter visto Szabó tão bela quanto naquele momento, mesmo estando ela com suas feições deformadas pela ira. Seus cabelos nunca lhe pareceram tão cacheados e seus olhos nunca haviam lhe parecido ter tanta vida. E espanto seria a definição mais adequada para se usar ao descrever o sentimento que percorria a face dos outros zetas. Decidiu intervir afinal, antes que as duas acabassem agarrando-se pelos cabelos, mas já era tarde demais. Pois com nítida satisfação nos olhos por detrás das suas lentes e saboreando cada palavra, Mathews viu a zeta disparar sua última flecha venenosa, aquela que guardara com tanto carinho e que para o lançamento preparara todo o palco até então:

— Não, não chegaria a tanto! Ela foi um grande mezzo, sem dúvida, nessas peças era quase inigualável. Pra quem gostava do estilo dela, pelo menos, algo leve pra um mezzo “real”. Já nos papéis de soprano… Sua voz soava mais como a de um barítono cantando em falsete, principalmente nas árias do Bel Canto… Algo realmente bizarro de se ouvir!

— Blasfêmia! Sua desgraçada, como tem coragem de falar uma coisa dessas?

Gimely levantara-se de um salto da cadeira, e parecia efetivamente decidia a lançar-se sobre a outra garota por cima da mesa, a sua face vermelha de ódio e os olhos estalados por detrás das lentes. Imediatamente a bibliotecária aproximou-se com pressa, Amanda correu na direção da mesa gritando um: “Jim, não faça isso!” E todos os zetas levantaram-se de suas cadeiras. Todos, exceto uma. E Gimely prosseguia, agora sibilando as palavras novamente.

— Você está me provocando desde que eu cheguei aqui, McAllister, e… Você não sabe o que está fazendo, sua imbecil!

— Sei exatamente o que estou fazendo. Eu a estou reprovando em um dos testes de admissão, Szabó, devido ao seu descontrole emocional!

Aquela parecia ter sido a gota d’água para Szabó, pois ela fez menção de agredir de alguma forma McAllister, pois ergueu sua mão e avançou para a garota, mas... Alguma coisa de ruim parecia estar acontecendo com ela, pois colocou a mão na sua fronte e desabou sobre a cadeira, no momento em que a bibliotecária chegava ao seu lado e a apoiava com as mãos, bem a tempo de evitar que ela caísse diretamente no chão. Mathews deixou seu lugar e contornou rapidamente a mesa, enquanto McAllister permanecia em seu lugar, olhando atônita para a outra garota, pois ao que parecia, Szabó estava sofrendo algum tipo de ataque… A Senhora Mullins voltou-se para os zetas e os repreendeu:

— Garotos, o que vocês fizeram com ela? Vocês não sabem que a coitadinha tem problemas?

— Seus... Seus... Sem-noção! — berrou Amanda quando afinal chegava até Gimely. Mathews me ajude a deitá-la no chão… Ela está começando a ter convulsões!

Passaram-se alguns minutos angustiantes até que o ataque fosse controlado, e então Mathews carregou-a até um sofá próximo, onde Amanda colocou-se à sua cabeceira e Gimely permaneceu ali por alguns instantes, dormindo. Várias pessoas, entre curiosos, preocupados, despreocupados e afins se aglomeraram à volta, mas acabaram logo dispensados por uma diligente Senhora Mullins. Falou Mathews, quebrando o silêncio que passara a imperar por alguns instantes:

— Eu não sei o que dizer… Não havia nada em seus registros a indicar que ela seja epilética, não tínhamos como saber… Não acha melhor que a levemos para a Enfermaria?

— Ela não sofria um ataque desses há anos, deve ter sido submetida a uma situação de stress muito grande hoje. Obrigada por seu interesse Mathews, mas acho que vocês já fizeram o bastante por um dia — respondeu Amanda de uma forma azeda.

— Então me deixe acompanhar vocês até em casa…

— É muita bondade sua, mas isso também não será necessário. Assim que Gimely se recupere, nós tomaremos um táxi, Mathews.

— Se precisarem de algo então, entrem em contato comigo…

— Você é muito amável, Mathews, nós agradecemos a sua preocupação — e assim Amanda encerrava o assunto.

Sentindo-se estranho, Mathews deixou as duas garotas e retornou à mesa dos zetas, onde a perplexidade ainda transparecia nos seus semblantes. Falou a eles então:

— Acho melhor declararmos um recesso na reunião. Esses novos acontecimentos mudam um pouco a situação, precisamos de mais dados a respeito do caso.

Todos concordaram, marcando o prosseguimento da reunião para dali a dois dias. Despediram-se então e cada um seguiu seu rumo, na saída Mathews ainda parando uma vez próximo das duas garotas, despedindo-se com um aceno de cabeça de Amanda, que o respondeu da mesma forma, e retirou-se, refletindo sobre a situação. “Preciso investigar melhor isso tudo. No final das contas, parece que essa superproteção que alguns direcionam para essa garota não é de todo infundada…”


*****


Naquela noite, em um velho casarão vitoriano em um subúrbio de Londres, uma mulher vestida com um manto de seda bordô drapejado de arabescos dourados, colocava o capuz sobre a cabeça e olhava atentamente para uma tigela de prata com água pela metade de seu volume, para depois começar a falar ao enorme e peludo gato persa que trazia no colo:

— O quê você achou da briguinha das duas garotinhas, hein Göthfried? As duas são das nossas, não é meu bem? Até a raiz da alma, sem dúvida nenhuma, embora a moreninha não saiba disso… Pelo menos ainda. E elas não se bateram desde o primeiro momento que se viram, não é mesmo? Ah, se eu não tivesse interferido queridinho… Acho que a lourinha teria feito a outra lindinha engolir seus próprios óculos! Eu sei, é claro também que a moreninha não teria irritado a lourinha de forma tão rápida sem as dicas que lhe passei, mas isso é outra história, gatinho… Veja só, o que duas fêmeas não são capazes de fazer na disputa por um macho… Será que devo continuar interferindo nesse assunto, amorzinho? Sim, queridinho, tem razão, acho que preciso interferir sim… A ceguinha é poderosa, se nós deixarmos, ela vai acabar transformando a fofinha em fricassê de nerd… Tem razão benzinho, essa rusga das duas franguinhas não nos diz respeito diretamente. Mas me pareceu tão divertido esse clima… Ah, Göthfried, na verdade toda essa situação me parece cada vez mais divertida!

E ainda rindo consigo mesma ao refletir sobre o caso, a mulher foi tratar de outros afazeres.

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