Escrevo em memória de Fehnthi ab’n Acc’ruch, Fundadora da Grande Casa, Heroína de Enoch, a avó a quem nunca conheci e Senhora a quem sempre amei; da minha mãe, que teve de receber o Legado de Acc’ruch ainda criança, na pior possível das situações; e dos Trinta Heróis, sem os quais a Luz haveria deixado para sempre esse mundo.



Introdução



Outrora bela, Enoch, a Cidade dos Imortais, conhecida como a Pérola do Sul por nossos antepassados nortistas, era a grande cidade murada de granito e mármore branco fundada por Cki’hn no Período Mesolítico segundo a taxonomia dos humanos. Geralmente é aceita pela tradição ocidental quase consensualmente como sendo, senão a primeira cidade humana, pelo menos a primeira cidade de vulto. Construída sobre antigas paliçadas de um assentamento dos nossos Ancestrais às margens do primitivo lago salgado de Rurhik, erguia-se imponente nos sopés das colinas de Makur ab’n Hattl’ai, as “Montanhas do Leste”, cerca de quarenta ou sessenta milhas a oeste desta outrora grande cadeia.

A cidade localizava-se no Vale Ancestral de Eridu, muitas milhas a noroeste de onde iriam seus descendentes colonizarem, milênios depois, a região histórica da Mesopotâmia. Hoje se encontra em uma terra submersa pelas águas do Mar Negro, mas àquela época foi a mais grandiosa cidade já construída em toda a história do Oriente Próximo, não igualada nem mesmo pelas maiores capitais dos subseqüentes impérios – Sumérios, Babilônios, Assírios, Persas – entre os quais, no decorrer dos séculos, alternou-se a hegemonia daquelas terras. Nem por Nínive ou por Babilônia nos seus melhores tempos, nem mesmo pela Constantinopla de Justiniano I ou a dos Comnenos. Parando para pensar agora, não é de espantar saber que a maioria das antigas religiões humanas sempre tenha transportado a “Idade de Ouro” da Humanidade para um passado remoto... Abstrações à parte, que sigamos em frente.

Construída e governada pelos Deuses em uma fértil região de clima ameno então existente no fundo de um grande vale, a portentosa cidade, com sua arquitetura ímpar de enormes capitéis e grandes arcadas, podia ser vista a uma distância de quilômetros, através da distância alcançada por sua enorme influência e além. Com o passar do tempo, as férteis planícies a sua volta atraíram uma grande massa de seres humanos para aquela região, principalmente egrégios das regiões das geleiras minguantes ao norte, noroeste e nordeste, embora não raro alguns heróis lograssem vencer as ainda escaldantes distâncias que separavam o equador terrestre daquele ponto alguns graus acima do trópico setentrional. Eles chegavam através da pista ancestral por onde os primeiros humanos haviam alcançado o norte ainda antes do início da glaciação, lentamente redescobrindo as antigas trilhas, mapeando os oásis do caminho, redescobrindo os antigos poços e paradouros ou criando outros novos.

Somente agora o caminho começava a ser refeito, pois havia tornado-se instransponível durante toda a Era Glacial, devido ao fato das geleiras haverem transtornado o clima do planeta a ponto de ter-se tornado a região equatorial um inferno escaldante onde nenhuma forma de vida podia vicejar. “Barreira de Fogo” foi o nome que nossos antepassados deram a esse fenômeno que cortou a comunicação entre os povos humanos por milênios, gerando tristes conseqüências das quais a humanidade se ressente até nossos dias. Mas, vindos de onde viessem naqueles tempos, eles chegavam ansiosos de encontrar não só a terra fértil e amplamente disponível para o plantio existente em Eridu, como também buscavam a paz e tranqüilidade auferida e garantida pela vontade dos Deuses de Enoch, que davam àqueles povos uma situação de estabilidade e segurança inigualável em qualquer época histórica naquela região. Lá não precisavam temer a fome, a peste, aos assaltos e invasões dos povos nômades, aos ataques de caçadores de escravos das tribos do leste ou quaisquer das misérias que grassaram por aquelas paragens antes e depois daquele tempo, pois naquela época “O Poder Emanava do Céu”, e os Deuses olhavam pelos os homens. E, em Enoch, eles não se limitavam em olhar por eles – eles viviam em seu meio.

Há poucos vestígios de fonte humana a respeito dessa época, pois, se eles utilizaram amplamente alguma espécie de escrita, hoje seus exemplares literários repousam no fundo do mar e a sua arqueologia só há muito pouco tempo começou a deter seus olhos naquela região. Demorariam ainda pelo menos mais seis mil anos até que os sumérios legassem à Humanidade seu cuneiforme escrito em tábuas de argila e naquela altura a tradição oral já havia alterado os fatos a ponto deles tornarem-se irreconhecíveis – e incompreensíveis, na maioria das vezes. Portanto, tudo o que nos restou como registro daquele tempo foram os lamentos de nossos bardos. Inspirados em grande parte no depoimento de uns poucos sobreviventes – embora essa questão não seja ponto-pacífico, como veremos adiante – seus poemas compostos de modo informal, apaixonado e pouquíssimo imparciais são a única fonte reconhecidamente contemporânea dos fatos que se têm notícias a respeito do assunto. E mesmo eles só começaram a ser guardados em texto pela época da cisão das Ordens, no nosso lado já em Epona, pelo menos trezentos anos depois.

É frustrante para uma estudiosa interessada, como eu, acabar descobrindo que nossos registros são muito mais precisos quando tratam da época em que nos alimentávamos de carne de mamute do que dessa época onde a civilização já florescera... Apesar de nossos Anais remontarem ao início da última glaciação, da história de Enoch propriamente só restaram lendas e poemas míticos, relegados a pequenas referências e a um modesto apêndice em nossas “Crônicas”. Mas nada há de incompreensível nesse fato, sem dúvida. Conhecendo a história de nossa cultura e a dor imensa provocada pela queda da Grande Cidade em nosso povo, é muito fácil se compreender por que nossos Escolásticos preferiram calar a esse respeito. É uma história que a maioria preferiria esquecer. Mas há entre nós os que não esqueceram, e outros – como eu – que desejam saber o que realmente houve. É para esses que escrevo essa história.

Somente umas poucas menções sobre sua organização social restaram nos nossos dias, pois nossos poemas não fazem menção direta sobre ela. Ecos na narrativa parecem indicar que o Matriarcado original já não era a estrutura vigente na sociedade, embora ainda as mulheres ocupassem lugar de destaque, pelo menos em algumas posições. Nos escritos antigos Enoch aparece, principalmente na narrativa do “Lamento por Enoch”, como uma espécie de capital de Eridu (não confundir a Eridu suméria, muito posterior e localizada em região muito diversa, com a Eridu Ancestral a qual invariavelmente me refiro no texto), embora não se possa entender qual seria a conformação real de Eridu a partir dessas fontes. O fato de comumente Enoch ser chamada de “A Grande Cidade” parece indicar que ela não seria a única cidade, mas não podemos tirar a partir daí conclusões mais apuradas sobre a natureza dessas outras cidades especulativas. Possuía preponderância indubitável na região, mas nunca se poderá (a menos que os antigos remanescentes dignem-se a nos falar a respeito disso algum dia) ter detalhes apurados sobre as bases em que se assentava essa preponderância. Aceitá-la como uma espécie de reino em uma organização de padrão feudal talvez seja a melhor alternativa para sua compreensão, embora essa comparação me pareça claramente insatisfatória.

O fato de não haver escravidão naquelas terras, por exemplo, nos é subentendido pelos autores em diversas passagens do “Aszuch b’n Enoch”, principalmente em suas constantes referências aos “homens-livres” que compuseram a resistência na cidade. Mas não somos capazes, por essas passagens, de compreender qual seria exatamente o significado que uma expressão como “homem-livre” poderia ter naquela época. Nem mesmo se tal status valeria para todos os homens que lá viviam. Podemos entender, talvez, a definição de “homem-livre” como representando simplesmente um homem que não estava preso a laços de votos ou juramentos, por exemplo, pois também não seria razoável supor que um termo como “Liberdade” possuísse naqueles tempos seu mesmo significado do nosso tempo pós-iluminista, já que naquela época "Escravidão" e "Cultura" eram conceitos que se confundiam. E, em se tratando realmente do fato de seus “cidadãos” estarem isentos de prestar juramentos a seus senhores, seria difícil enquadrar Eridu em um modelo feudal clássico... (Haveria realmente alguma relação de cidadania em Enoch? Seria uma espécie de protonação, por acaso? Isso também deporia contra a hipótese da não-existência de escravidão em Eridu, a princípio. O que é improvável, pois esse conceito de civitas só parece surgir com a cultura Greco-Romana, já no último milênio E.C.).

Talvez, como pode parecer óbvio, Eridu fosse regido em um sistema de base teocrática. Essa idéia fica de certa forma implícita no comportamento reverente que os humanos demonstram para com os Senhores de Enoch no “Lamento”. Para eles tais senhores se tratavam de Deuses, sem dúvida alguma. Seria natural supor que os homens fossem regidos por tais senhores divinos através de alguma espécie de monarquia teocrática... Se esse método não fosse sobremaneira excêntrico para nossos padrões. Nunca houve tal tipo de organização mantida sob nossa tutela, nem mesmo após o Cisma. Logo, não tenho motivo algum para crer que tal possa ter ocorrido na Primeira Cidade, mesmo que seu idealizador tenha sido aquele que viria a se tornar o fundador da Ordem Branca.

Sei que esse assunto é delicado, mas serei obrigada a fazer aqui um parêntese e um desabafo. Um dos maiores fatores de complicação em que esbarrei durante minha pesquisa, foi justamente esse tabu que persegue nossa cultura desde o Cisma de nosso povo nas duas Ordens. É constrangedor falar ou escrever a respeito desse assunto, e bem sei que o simples fato de comentar sobre isso no texto será o suficiente para que muitos me "virem a cara" depois. Mas não posso brigar com os fatos, e essa postura arcaica de nossa sociedade prejudica o aprendizado de nossa história. Os Tabus ridiculamente me impedem de utilizar material proveniente de autores da Ordem Branca – na verdade me impedem mesmo de ter contato com eles – o que prejudicou em muito o meu trabalho. Na verdade, se o teor Dos Tabus ainda fosse seguido à risca hoje em dia, eu não poderia nem mesmo comentar a existência dos “outros”, muito menos citar seus nomes, como desaforadamente farei a seguir. Sim, os conservadores que parem de ler agora ou que tomem as providências que acharem cabíveis, pois já perdi toda a (pouca) paciência que algum dia eu tive com sua ignorância.

Pois não é verdade o que dizem nossos elderes a respeito da omissão dos Escolásticos em narrar o que se deu em Enoch. Pelo menos não quando se trata da Ordem Branca. Eles possuem em seus Anais uma descrição completa, e extensa, de tudo o que ocorreu naqueles dias. E isso de fato não é nada surpreendente, já que Chathryn é uma deles e não só a maior Escolástica viva como uma testemunha da Queda. É decepcionante jamais ter podido ler seus escritos, fora pequenas citações em trabalhos de autores da minha geração e só ter obtido conhecimento das poucas informações que disponho a respeito através de fontes que jamais as confirmariam oficialmente. Não pretendo mudar o mundo, mas me revolto com o pensamento atrasado de nossos anciãos. Portanto, não pensem vocês que farei o habitual e omitirei a vital participação da anciã da Ordem Branca durante a batalha na minha narrativa, em uma vírgula que seja. Sem a sua intervenção, provavelmente... Bem, veremos isso adiante.

Feito o parêntese e recuperada um pouco da minha calma, continuarei com minhas pequenas elucubrações. Da mesma forma vaga que conhecemos os demais fatos, sabemos que os habitantes de Eridu conheciam a roda e que utilizavam algum tipo de moeda (não se sabe se cunhada ou não, não se conhece seu material ou seu formato). Não há informações claras a respeito de suas crenças religiosas, embora seja conhecido o fato que os homens prestavam adoração aos imortais de Enoch como divindades. Mas não é claro se, além desses, eles cultuavam ou não algum panteão de seres exteriores, que talvez os acompanhassem desde sua antiga vida nômade. Sabe-se também que, durante o reinado de Cki’hn, foi desenvolvida uma intensa rota de comércio de leste a oeste e de norte a sul. Suas caravanas partiam das pradarias de Eridu carregadas de cereais e especiarias e, quando retornavam, traziam ébano e cedro do Líbano, carvalho do Élan, bem como pedras, metais e jóias das montanhas do leste e do norte da Pérsia (para facilidade de entendimento, uso aqui os nomes pelos quais as regiões ficaram conhecidas no seu período clássico). De outra forma seria impossível construir Enoch em seu fausto lendário, embora não se saiba se a matéria-prima para a construção da cidade tenha sido adquirida por meio de negociação ou através da guerra.

É de supor que seus vizinhos fossem ciumentos ao negociar seus bens preciosos, mas, infelizmente, hoje em dia não há meios de se averiguar a dimensão atribuída por eles naquele tempo à envergadura dos Deuses do Oeste. Não há como dimensionar o quanto a imagem mítica dos imortais de Enoch poderia ter influenciado a boa-vontade dos povos vizinhos. Mas imaginamos nós que devam ter ocorrido guerras, mesmo que poucas (fato testemunhado pela existência das lendárias muralhas da cidade que não teriam razão de existir senão para garantir proteção) e em algum momento convergentes em soluções pacíficas. Essa hipótese parece ser reforçada pelo fato da cidade e das vizinhanças estarem militarmente armadas de maneira tão deficiente durante o início da batalha, embora a existência e atividade da Guarda Real ateste o fato de haver sim alguma espécie de belicosidade na região.

Nem mesmo se sabe ao certo em qual período histórico sua civilização se encontrava. No terceiro canto do “Lamento por Enoch”, o narrador diz que: “... então as forjas reluziram e por toda Eridu puderam-se ouvir o retinir apressado de um compasso marcado por braços vigorosos manejando seus martelos, de modo a tornar correntes em malhas, arados em maças e carvalho em escudos..." E mais adiante, prossegue: - “... E então, a partir do alvorecer do quinto dia, vindos de todo os cantos do Paraíso Terreno, homens-livres, há muito esquecidos da guerra, buscaram seu destino através dos Portões de Ébano...”. Por essa passagem, temos a nítida impressão de que eles já dominavam a metalurgia, embora não seja possível saber em que estágio. O “Lamento” faz muitas referências a armas e armaduras no decorrer de seu texto, bem como a objetos e utensílios nitidamente metálicos, até mesmo em algumas situações atribuindo-lhes capacidades incomuns. Mas nunca cita objetivamente os materiais de que eram compostos os artefatos metálicos, excetuando-se apenas um.

Colocada essa breve ambientação, acho que estamos prontos a iniciar nosso relato, não sem antes uma última ressalva. Na busca pelo material necessário para a confecção dessa narrativa, após vencer as dificuldades iniciais as quais já tive oportunidade de comentar, acabei, por assim dizer, “esbarrando” em duas fontes principais diferentes, que não concordam em diversos pontos e em alguns são francamente discordantes. A primeira e óbvia fonte, como eu já venho me referindo desde o início, eu fui buscar nas próprias “Crônicas”, a nossa enciclopédia por excelência, compilada por nossos maiores eruditos e de aprendizado curricular para quaisquer de nossas crianças, como está descrita em seu primeiro Apêndice. Mas essa é a “versão oficial” da história, por assim dizer, atribuída pela tradição como da autoria de um humano. Um então jovem lavrador transformado repentinamente em Capitão, a quem a tradição também atribui não somente o feito da “Retirada pelos Portões Negros” bem como a posterior “Passagem do Vau” e a condução da Casa Real durante o “Melancólico Regresso”.

Se isso é verdade, tratar-se-ia esse homem (chamado nas lendas de Eniad ou Eniod) simplesmente do mais glorioso humano a ter ombreado conosco durante uma luta em qualquer época da história. Mas há um problema elementar para que se possa definir com exatidão a veracidade desses mitos: - O próprio autor da narrativa relega Eniad ao segundo plano durante toda a campanha, dando em vez disso todos os créditos a Mengi, a Grande Capitã, justamente reconhecida como a maior guerreira da história de nossos antepassados. E essa questão sempre me intrigou. Se um humano contou a história, ou pelo menos compilou as histórias de nossos bardos, como querem alguns, por que ele diminuiria tanto seu papel? E, se não foi, por que as lendas o insistem tão categoricamente que foi ele quem o fez? Não se sabe exatamente quanto tempo depois ela foi escrita, mas supõe-se que haja uma larga distância entre o momento que começou a circular a versão oral da primeira narrativa até sua final transcrição literária, provavelmente três séculos, o que por si já excluiria a possibilidade de ter sido escrita por esse homem...

Infelizmente, nunca pude investigar essa questão a fundo, pois poucos restaram como testemunhas daqueles dias. Sei que muitos engraçadinhos devem estar se perguntando desde o início: “Por que não pergunta pra sua mãe, mulher?” Talvez isso não seja claro para alguns, portanto vou dar-me ao trabalho de explicar o que é explícito. Minha mãe não é uma boa fonte por três motivos: primeiro, por que Marj’ha não estava presente na “Batalha dos Portões”; segundo, por que ela não os acompanhou no caminho de volta; terceiro e mais importante: ela era uma criança na época (muitas pessoas parecem não se dar conta desse fato), logo ela não pode falar de coisas das quais não sabia ou não compreendia. Está claro agora? Pois bem, vejamos as outras possibilidades: Ma’uhry é a Guardiã das Lendas e Protetora Dos Tabus (“Inventora” seria um nome mais apropriado, entretanto), daquela freira CDF é que eu nunca iria arrancar nada, mesmo (nada pessoal, Marie). Infelizmente, não posso tomar depoimentos dos representantes da Ordem Branca, como a Escolástica ou – embora desse não fizesse a menor questão – do próprio Cki’hn. E quanto a Mengi... Bem, na única vez em que a vi, digamos que ela não estava muito disposta para entrevistas. ?

Embora todos os antigos com quem eu conversasse sempre haverem me garantido que o papel de Eniad foi de fato relevante para a história e que ele era sim o autor do “Lamento”, nenhum deles se tratava de uma testemunha ocular. A questão parecia insolúvel, principalmente por que até então eu hesitava em buscar depoimentos em uma fonte que já deve ter parecido evidente a qualquer leitor atento desse texto. Pois, no decorrer desses cento e oitenta anos em que tenho me empenhado nesse trabalho arqueológico, não foi uma, mas sim várias as vezes em que ouvi a sugestão de procurar um depoimento da própria Rainha sobre o assunto. É nessa parte que entra minha segunda fonte, minha fonte exclusiva.

No princípio tal proposição me pareceu absurda, pois eu não era imune ao mal que acomete a todos nossos historiadores. Como poderia eu, uma então jovem pesquisadora – jovem demais até mesmo para o padrão dos estudiosos humanos – pretender encontrar nossa Grande Rainha para uma reles entrevista? E logo sobre esse assunto tão trágico e por um motivo tão banal? Com certeza Nossa Senhora se sentiria ofendida por tal ousadia vinda dessa bruxinha inconseqüente. Mas isso era o que eu pensava quando jovem, e o tempo passou, eu cresci e comigo cresceu a compreensão do que Ela é e do que Ela significa. Compreendi com o passar dos anos que Lilith não é somente nossa Soberana e Senhora, a Rainha Descalça a quem todos na Ordem Negra devotaram suas vidas imortais à restituição de seu lugar de direito. É, sobretudo, nossa Grande Mãe, uma mãe afetuosa e sempre disposta a revestir em seu cálido abraço mesmo o mais humilde de seus filhos. Ela é nossa Deusa Viva, seu amor incondicional a todos seus filhos acompanha mesmo nos momentos mais difíceis. E Ela nunca se ressentiria com a dúvida de uma de Suas filhas, por mais impertinente que esta pudesse parecer.

E foi com essa firme certeza que me decidi então a tentar encontrá-La, afinal. Nunca cheguei a ter com Ela propriamente, embora pudesse sempre sentir Sua presença a orientar meus passos. E sei que foi senão por Sua Graça que afinal atingi meu objetivo. Mas, sem falsa modéstia, vou frisar que a fonte que por fim resolveu falar me custou ainda uma boa dose de paciência para convencê-la e que, sem muita insistência minha, seu relato talvez jamais estivesse à disposição do grande público. Trata-se do relato, em primeira mão, feito a mim pela última representante da Casa de Rhoysh na Ordem Negra. Teoricamente, essa não se trata de uma testemunha ocular dos acontecimentos, embora os fatos acabem por desmentir essa tese.

Embora todos saibam que ela nasceu muito tempo depois da Queda, já se compreende de antemão que seu testemunho é equivalente ao de um contemporâneo aos fatos, pois, sendo representante da Linhagem Real e irmã da própria Malikh (ninguém vai me perguntar depois se não pensei em entrevistar a própria, né? ?), ela pode, por direito de nascença, re-visitar através do Nexo a cena de qualquer evento histórico onde quaisquer de seus antepassados estejam envolvidos. Qualquer uma das nossas crianças sabe que todos nós podemos, pelo menos teoricamente, voltar no tempo em projeção e ver qualquer momento do passado, embora as complicações relativas a conseguir-se encontrar um determinado instante através do continuum espaço-tempo tornem tais “viagens” impraticáveis de fato, a menos que ocorram por algum ato fortuito. Elas se tornam somente possíveis por acaso... Ou se quem se transporta possuir uma âncora. Logo se vê a relevância de tal depoimento. Sendo da Linhagem Real e tendo vínculos muito fortes com diversas pessoas diretamente envolvidas nos acontecimentos, essa pessoa possui tal âncora. E o que seria impossível para qualquer um de nós para ela se torna desconcertantemente simples. E não, eu não posso fazer o Retorno através memórias da minha mãe. E não, não vou dizer o porquê do meu silêncio.

Todos sabem que me refiro à Princesa Jih’ehmn ab’n Rhoysh, terceira filha da Senhora de Todos nós e nossa Regente – sim, pois nesse aspecto não me distancio dos conservadores da nossa Ordem em um milímetro; jamais qualquer um de nós reconhecerá um Rhoysh que não descenda da Própria Deusa e mesmo os ditos “Rhoysh” da Ordem Branca compreendem que não merecem esse nome sagrado – e por Graça de Lilith minha grande amiga. Nas muitas conversas que tivemos, soube que minha ela visitou aquele momento não somente uma, mas várias vezes no decorrer dos séculos. E, além de me fazer um extenso relato de tudo o que viu – garantiu-me, inclusive, que certa vez acompanhou todos os acontecimentos ocorridos, o que mesmo os leitores menos instruídos no assunto certamente acabarão por achar impressionante – não se limitou simplesmente a falar, ela me levou até aquele instante.

Eu mesma, após tantas décadas de busca, pude ver com meus próprios olhos nada menos do que “A Batalha Sem Testemunhas”. E testemunhei o último ato da Queda, onde uma impassível Malikh e a jovem e desesperada Marj’ha ab’n Acc’ruch (minha mãe e então uma menina de doze anos, o ser vivo a quem mais todos nós devemos), confrontaram-se durante longos e terríveis sete dias sobre ruínas da Grande Cidade. E com o resultado de... Bem, acho que a história fala por si mesma. Minha mãe é a única pessoa que enfrentou a princesa louca e vive. De todos os poderes da Terra, os dela foram os únicos capazes de barrar a força irresistível de Malikh. Nem Mengi o pôde. Não o fosse por minha mãe, nem o sacrifício de Fehnthi ou a coragem dos humanos teria qualquer valor. A Deusa estaria morta e nenhum de nós viveria hoje. E como lhe retribuímos tudo o que fez por nós? Sem comentários...

Mas juro que, se há alguma justiça nesse mundo, eu a trarei para aqueles que a merecem, começando pela minha mãe. Quanto aos motivos? Bem... Não pretendo, nem poderia focar meu texto nesse aspecto, fazer considerações a respeito dos motivos que levaram a Princesa Malikh ab’n Rhoysh, “A Primavera do Mundo” e a mais amada entre as filhas de Cki’hn à brutal condição de Destruidora do Reino, Devoradora de Sonhos e Martelo dos Imortais. Tudo o que pretendo é fazer um relato o mais coeso possível desde o instante que a Grande Batalha começou até o momento onde pretende a Tradição que Eniad tenha plantado a Árvore do Lamento em uma colina nas estepes do norte, encerrando assim o “Melancólico Regresso”, como descrito no último verso do “Lamento por Enoch”.

O leitor poderá acompanhar o apanhado que fiz e notará que em dados momentos me reporto ao “Lamento”, em outros ao depoimento de Jiehn e em outros tantos ao que eu mesma vi. Sinto não poder dar como testemunho da veracidade de meus escritos mais do que lendas, uma única testemunha e minha própria palavra, mas espero, mesmo assim, que no mínimo o benefício da dúvida me seja concedido. Se o que escrevi ao menos chegar a ser considerado como uma mera hipótese plausível e lançar alguma luz aos olhos de outros jovens como eu que sempre desejaram conhecer um pouco melhor a história de nossos antepassados, já me sentirei plenamente satisfeita.

E se, além disso, ainda conseguir dar o merecido destaque àqueles que sempre me pareceram os verdadeiros heróis de toda a história, os relegados ao esquecimento nos livros, então me sentirei recompensada como que pelo feito de toda uma vida. Rekhyh e Mengi sempre tiveram seu valor reconhecido e Marj’ha ainda vive e não carece de apologias, apenas de tratamento justo. Os verdadeiramente pouco valorizados são dois, um homem e uma mulher. Ele era um simples camponês humano que, mesmo jogado repentinamente do Paraíso ao Inferno, tendo perdido suas terras, sua esposa, seus filhos e um de seus braços, não abandonou seus Deuses nem mesmo enquanto os via tombar mortos ao seu lado. Ela, a maior feiticeira de todos os tempos, deixou seu confortável recanto no norte gelado para lutar uma guerra que não lhe pertencia, nos limites do tórrido trópico, por pura lealdade e devoção, acabando por tombar diante dos Portões de Enoch para que meros mortais pudessem ser os portadores da esperança.

Um homem que, mesmo diante dos horrores infernais de Malikh, não vacilou e, com seus lendários trinta lanceiros, possibilitou a passagem de Lilith sob os Portões de Ébano, garantindo assim a sobrevivência da Linhagem Real e a possibilidade de termos esperança de um dia vermos a Luz brilhar novamente. E a uma mulher que, sacrificando sua existência imortal, deu aos homens a oportunidade de salvarem o futuro.

É em memória desses que já não mais se encontram entre nós que escrevo essas linhas. A esse homem, que foi humilde demais para permitir menções à sua gloriosa contribuição à história e devoto demais para sentir-se digno de aparecer ao lado de seus Deuses nos anais do tempo; e à dessa mulher, a Sagrada Fundadora da minha Casa; a eles que dedico esses escritos. A Eniad, esse humilde lavrador humano salvador de Deuses e a Fehnthi ab’n Acc’ruch, minha Grande Senhora, que vivam eternamente em nossos corações, pois são as pessoas a quem toda a Ordem Negra deve a existência.


Que a Graça da Deusa Viva a todos nós sempre acompanhe;
Com toda dedicação da mais devota serva de Lilith,


Ahnmanad ab’n Acc’ruch,
Filha de Marj’ha, filha de Fehnthi
Bruxa, Filha da Lua, Serva da Deusa e Pitonisa da Casa de Acc’ruch