Ele vinha andando pela calçada, experimentando uma série de tormentos psicológicos. Raiva, rancor, impotência, medo e sentimento de perda misturavam-se em sua mente, deixando-o tonto. Pegou um cigarro da carteira que guardava no bolso e, depois de acendê-lo, procurou se distrair, observando a noite com suas luzes artificiais, os jovens conversando alto, os carros rompendo o ar, velozes.
Entrou e disse um olá aos que lá estavam. Era um antigo bar, reduto de boêmios, doentes de amor e velhos amigos, todos alcoólatras. Dirigiu-se ao balcão e pediu um copo de vinho. Bebeu um gole longo, sôfrego, sedento. Dezenas de mesas, com cadeiras ao redor, espalhavam-se por todo o bar, sendo que em cada uma delas, grupos de homens conversavam alto, gargalhavam, contavam causos e, principalmente, embebedavam-se.
Avistou em um dos grupos um conhecido, que também tendo o visto, foi em sua direção, alegremente. Era o Renato, um sujeito ao qual Vicente, embora tratasse com respeito e educação, não estimava muito. Achava-o por demais fanfarrão, debochado, contador de vantagens. Um típico malandro, metido a conquistador e cheio de autoconfiança.
_ E aí, Vicente, como é que tá essa força?
_ Tô bem. – respondeu, secamente.
Normalmente, Vicente não era o tipo de sujeito frio e, embora fosse um homem de poucas palavras, não era grosseiro, procurava tratar a todos com educação e urbanidade. Mas, naquele dia, ele estava bastante aborrecido, muito angustiado. Tudo o que desejava era ficar sozinho, entregue às suas preocupações.
_ Tu não morre cedo, hein? – disse Renato. – Sonhei contigo ontem.
_ Comigo?! – manifestou-se Vicente, num misto sutil de curiosidade e indiferença. – O que tu poderia ter sonhado comigo?
_ Até parece mentira, mas eu sonhei que te encontrava aqui neste bar, bebendo vinho, igualzinho a hoje. Sonhei que fui falar contigo, assim do mesmo jeito que hoje e ...
Vicente sentiu o sangue ferver em suas veias. Procurou conter-se para não mandar Renato pro diabo que o carregasse, ou melhor, esmurrá-lo violentamente, encaminhando-o para o diabo, sem que o mesmo o carregasse. Vicente estava impaciente, sem possibilidades de tolerar aquele maldito chato, desprezível. Tudo o que ele menos queria naquele momento era ser importunado por um papo furado. Sentia-se incapaz de manter um diálogo com quem quer que fosse, por mais sensata que a conversa fosse, por mais necessária que fosse. Só desejava ficar só, bebericando o seu vinho, silenciosamente. Desgraçadamente, agora vinha aquele imbecil, inventando uma história sem nenhum fundamento, com o único propósito de iniciar uma conversa inútil.
_ Não vai me dizer que tu sonhou que sonhou comigo? – falou Vicente, zombeteiro. Pensou que, talvez assim, Renato percebesse que ele não estava com vontade de conversar, muito menos de ouvir idiotices.
_ Sim, sim, foi isso mesmo! E no meu sonho a tua reação foi exatamente esta, inclusive com as mesmas palavras e esta mesma cara de deboche.
Vicente pousou, calmamente, os olhos na direção do rosto de Renato. Só havia uma explicação para aquela ladainha: Renato estava querendo o fazer de otário. Aquele papo idiota não tinha sentido algum. Ele conhecia Renato, sabia de sua vocação para julgar a si mesmo como esperto. Decidiu entrar em seu jogo e agir como se acreditasse no que o outro lhe dizia.
_ Mas é mesmo? Tu tá falando sério? Isto é incrível! Tu deve ter poderes paranormais.
_ É incrível mesmo! – Renato estava excitado, falava rápido, alto, fazia gestos desenfreados com as mãos. – Tudo tá acontecendo igualzinho no meu sonho. Olha só o barman! – apontou o dedo para o homem de trás do balcão, que naquele momento servia uma dose para um bêbado bem vestido. – Depois que ele servir essa bebida, ele vai ir até a pia, vai lavar uns copos e um dos copos vai cair no chão e se quebrar.
Vicente olhou para o barman, fingindo interesse. Pensou que talvez Renato estivesse enlouquecendo. Parecia que, realmente, que ele estava levando a sério aquela lorota. Ficou confuso. Ou Renato estava louco ou era um tremendo dum filho da puta mentiroso, que representava muito bem. O mais provável, tratando-se dele, seria a segunda alternativa.

Continua