Vicente permaneceu observando o barman. Notou que o homem, após servir o cliente bem vestido, esperou calado junto ao balcão e, vendo que não havia mais ninguém esperando para ser atendido, dirigiu-se até a pia, onde lhe esperavam diversos copos sujos. Vicente teve um sobressalto e espantou-se, mas logo concluiu que isto era extremamente natural. Tratava-se de uma rotina do homem, esperar que acontecesse uma folga na clientela, para lavar os copos sujos, enquanto estivesse desocupado. Levando-se em conta que o homem trabalhava sozinho naquele bar, que não tinha nenhum ajudante, não havia nada mais normal do que aquilo acontecesse.
_ Eu não te disse? – gritou Renato, agitado, eufórico. Nem ele próprio parecia acreditar no que acabara de ver. – Espera um pouco e tu vai ver que é verdade. Tu vai ter uma prova. Um copo vai cair no chão e se quebrar. Igualzinho ao meu sonho!
_ Puta merda. – murmurou Vicente, dando um grande gole no seu vinho e procurando convencer-se de que Renato estava louco. Sim, só podia estar descontrolado. Ele parecia estar falando sério, parecia acreditar no que falava.
O homem de trás do balcão lavava os copos, alheio ao que acontecia.
_ Agora! – falou Renato, quase gritando. No mesmo instante, um dos copos resvalou da mão do barman e foi encontrar-se com o chão, espatifando-se.
_ Merda. Tu me deu um susto e me fez quebrar um copo, cara! – exclamou o barman, zangado, olhando para Renato.
_ Viu só? – dizia Renato, dirigindo-se para Vicente. – No meu sonho, ele também me culpava pelo copo quebrado.
_ Que história é essa de sonho? – disse o homem do bar, dirigindo-se para perto de Renato, com furor nos olhos. – Tu vai é pagar esse copo, senão vão descontar o prejuízo do meu salário.
_ Tá bom, eu pago. – Renato puxou, nervosamente, a carteira do bolso e tirou dez reais, que entregou nas mãos do barman. O homem guardou o dinheiro, calado e sério.
Vicente olhava a cena, pensativo e sem fazer nenhum movimento. Pensou que, obviamente, Renato não estava louco. Estava era levando às últimas conseqüências a sua teatralidade. Era mais do que evidente que ele planejava tudo. Renato tinha esperado por um momento em que o barman estivesse distraído para que gritasse: “Agora!”. A sua estratégia havia saído conforme ele esperava, pois o homem assustou-se e deixou o copo cair no chão.
Maldito babaca, pensou Vicente. O que ele tinha a lucrar inventando toda aquela besteira? Nada. Pelo contrário, havia perdido dez reais. Tudo apenas para impressionar, ou seja lá qual fosse sua maldita intenção.
_ É inacreditável. Sei que tu tá duvidando, mas é verdade. Tudo isso que eu tô te falando agora eu já tinha te falado no meu sonho. E tudo me salta da boca, te juro. Não é que eu queira repetir as palavras do meu sonho, elas pulam de dentro de mim.
_ Impressionante, Renato. Tanto que chega a ser espantoso. Mas o que tu acha da gente sair daqui e dar uma caminhada?
_ Sim, sim, vamos. Tudo que nem no meu sonho. No meu sonho, também tu me convidava para caminharmos.
_ E eu acredito piamente no que tu tá me dizendo. Chego a quase gaguejar de tanto espanto. Impossível desconfiar, depois da prova que tive diante dos meus olhos. Mas, por favor, vamos esquecer um pouco este assunto, já que não podemos explicá-lo. E além do mais, estou tão aborrecido que estes tipos de coisas estranhas me deixam nervoso. Te aconselho a procurar um especialista, um astrólogo, um psicólogo, um neurologista, um bruxo, sei lá, mas deixa pra amanhã.
_ Tu não acredita, né? Eu sei que tu deve tá achando que eu enlouqueci ou estou querendo tirar um sarro com a tua cara. Mas, tudo bem, tu tem razão, vamos sair daqui e dar uma caminhada.

Continua