O Invisível I:


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Manhattan, 19 de dezembro de 2003. São nove horas da manhã um belo sol se mostra e ajuda a derreter os resíduos dos dias anteriores, pois somente hoje no final da madrugada havia parado de nevar, após três dias ininterruptos. Apesar das ruas já estarem suficientemente desimpedidas àquelas horas devido à ação das equipes removedoras e de limpeza, neve ainda se acumulava em muitos pontos nas beiradas das calçadas, bem como congelara em alguns lugares, criando pequenas e traiçoeiras armadilhas prontas a derrubar o primeiro incauto. Ele precisava tomar cuidado se pretendia percorrer a distância desde a estação da Rua 145 até o escritório sem levar um belo de um tombo... No caminho ele pegou o jornal na mesma banca onde ele o pegava todos os dias e prosseguiu seu caminho com atenção maior do que a usual. Com cuidado, procurando não correr o risco de uma constrangedora queda no verdadeiro lamaçal que a calçada se tornara, chegava à esquina aonde deveria dobrar à direita, e onde repentinamente todo seu cuidado tornou-se vão.

Uma garota vinha correndo pela calçada perpendicular e trombou com ele assim que dobrava a esquina, com tanta força que ambos acabaram caídos no chão, restando ela por cima dele após a queda. A garota era loura, tinha cabelos curtos e olhos azuis. Não era nada alta, provavelmente batia no peito dele, usava uma pesada jaqueta de nylon acolchoado e não podia ter mais de vinte anos. Por um breve momento ambos trocaram olhares, e ele não pôde deixar de perceber que ela carregava na mão direita uma pistola... Aquele fato fez com que toda a sua atenção passasse imediatamente a concentrar-se na arma, e por isso mal percebeu o que ela trazia na outra mão, não até que ela pressionar sua mão esquerda espalmada sobre o abdômen dele. Foi quando, por um relance, pensou ter visto que ela carregava uma espécie de largo medalhão, que agora, sem dizer palavra, pressionava contra o seu corpo, por sobre a sua jaqueta. Contudo ele não teve tempo para prestar muita atenção no que ela fazia diretamente. Pois a altura do ponto onde fora tocado pela mão da garota por sobre a roupa começou a queimar-lhe intensamente, e ela imediatamente levantou-se e correu. Instantes depois dois policiais passavam por ele vindos da mesma direção que a ela viera, seguidos de perto por um terceiro, que parou e ajoelho-se ao seu lado, já que ainda estava caído. Não precisava ser gênio para deduzir a quem eles perseguiam.

O policial perguntou-lhe se estava bem, se sofrera algum ferimento, e é claro que ele não iria se queixar para o policial a respeito de sua queimação no estômago ou do seu orgulho ferido por cair no barro. Após certificar-se de que ele não precisava de uma ambulância, aquele policial também partiu correndo e ele tratou de levantar-se, com as costas totalmente molhadas. Que merda de dia era aquele que começava... Sentiu uma tontura súbita e viu-se obrigado a segurar-se a um poste de iluminação, bem à beira do meio-fio da calçada, para que não caísse novamente. Então uma forte fisgada na sua barriga e a sensação de algo molhado no seu abdômen o fez abrir a jaqueta de couro marrom que usava para ver o que ocorria. Seu suéter de algodão escuro apresentava uma grande mancha ainda molhada e percebeu, após erguer o blusão e a camisa, que sobre sua pele havia um ferimento circular que sangrava. Nessa hora sua confusão aumentou, pois ouviu, à distância, o som de vários disparos. Uma nova vertigem o atingiu e tentou equilibra-se novamente segurando-se ao poste, porém um trecho de neve congelada fez com que seu pé direito escorregasse e com que ele cambaleasse três passos para trás, na direção da rua. A última coisa que viu foi o táxi que o colheu, arremessando-o para o alto, e as últimas coisas que sentiu foram uma dor terrível em seu joelho direito e a forte pancada quando sua cabeça chocou-se contra o pára-brisa do carro.



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Continua...