O Invisível II: Insólito

01 de Outubro de 2011 TFJ Contos 1095

O Invisível II:


Insólito



Ele abriu os olhos. Ah, como seu corpo doía! Essa foi sua primeira sensação após haver despertado. A segunda não foi menos desagradável, embora resultasse de uma conclusão óbvia. Estava em um hospital, bastava olhar para os lados para perceber isso sem a menor dificuldade, mesmo tendo ele a visão levemente embaçada ao acordar. Sua perna direita estava imobilizada por gesso sintético e suspensa, bem como seu braço direito, apesar desse não estar suspendido. Seu tórax também se encontrava imobilizado, bem como bandagens envolviam a sua cabeça, que justamente era o ponto de onde se originavam suas maiores dores. Conseguia facilmente reconhecer aquele ambiente hospitalar, era uma enfermaria, muitas camas com feridos espalhavam-se pelo ambiente amplo, bem iluminado e de odor tão peculiar, tinha certeza que não era a primeira vez que se encontrava num lugar assim. No entanto suas memórias estavam confusas. Lembrava-se claramente do acidente, vagamente dos eventos que ocorreram alguns momentos antes e nada anteriormente a isso, não de maneira coesa. Não lembrava mesmo do seu nome.

Sentia todo o corpo pesado, era difícil mover-se e não somente por causa das suas imobilizações. Ele devia estar sedado, aquela sensação também era familiar. Uma mulher de uns trinta anos, vestida com um uniforme verde e um jaleco cor-de-rosa entrou na sala e dirigiu-se até a sua cama e consultou a planilha colocada nos seus pés, logo se aproximando dele pela sua esquerda. Ela era baixa, de pele branca, seus cabelos eram curtos e escuros, bem como os seus olhos, e era algo rechonchuda. Ela pegou então uma pequena lanterna no seu bolso e verificou com sua luz os dois olhos dele, para em seguida anotar qualquer coisa na planilha. Ele tentou dizer alguma coisa, mas percebeu que isso não seria fácil. Sentia-se grogue e sua voz não saía mais do que um sussurro. A mulher procurou acalmá-lo, contudo suas palavras na verdade não lhe soaram nada animadoras.

— Tenha calma senhor... — começou ela lendo a planilha que carregava — Senhor John Doe... Sua situação ainda inspira cuidados, mas o pior já passou. Agora o senhor precisa somente descansar, nada mais.

E a mulher então pegou uma seringa e, enchendo-a com o líquido de um frasco de vidro, aplicou seu conteúdo ao butterfly da fina mangueira transparente que ligava a sacola com soro fisiológico, suspensa em uma haste ao lado da cama, ao seu antebraço esquerdo. “John Doe, ela falou?” Pensou o homem, cujos pensamentos ficavam cada vez mais nebulosos. “Esse é o meu nome? Não... Esse é um nome que se dá a quem não é identificado... Mas eu tenho uma carteira de motorista... Eu sei que tenho... Estava na minha pasta... Onde está minha pasta? Eu tinha uma pasta, não tinha?” E ali se encerraram suas divagações desencontradas, pois adormecera novamente.

Quando voltou a despertar foi em meio a um sobressalto, ainda maior do que o primeiro. Ele não estava mais no hospital, estava... Caído em uma travessa escura? Escorado a uma parede ao lado de um container de lixo? O que era aquilo, um sonho? Só podia ser... Lentamente a consciência voltava, e logo estava certo de que não sonhava. Talvez a parte do acidente e do hospital que fossem um sonho afinal de contas, porém naquele exato instante tinha certeza de estar acordado. Entretanto, seu corpo realmente doía e a lembrança do acidente era viva demais, não se parecia em nada com o sonho. Notou que não usava mais os gessos, tanto na perna como no braço, ou mesmo no tórax. Tateou-se apressadamente, e pôde observar que usava novamente a mesma jaqueta e os sapatos que usava durante o acidente, embora todas as outras peças do seu vestuário houvessem sido substituídas por outras, semelhantes, porém novas. E debaixo da sua camisa, sobre seu abdômen viu o que lhe deu a certeza de que nada daquilo de que se lembrava havia sido um sonho: uma cicatriz circular, que aparentava desenhar muitos símbolos estranhos era visível, ainda como marcas avermelhadas sobre a sua pele. Seu joelho e seu antebraço ainda doíam, contudo a única evidência que encontrava de haver realmente estado no hospital era a bandagem, que continuava na sua cabeça, e era a parte do seu corpo que mais lhe doía até àquela hora.

E além de tudo, continuava sem conseguir recordar-se de quase nada de antes do acidente... Que horas seriam aquelas? Em que dia ele se encontrava? Que lugar era aquele? Não tinha um relógio ou mesmo um telefone, muito menos a sua pasta. Ele tinha certeza de possuir uma pasta, ao que parece ela nunca fora levada para o hospital. Levantou-se esperando encontrar dificuldades para fazê-lo, contudo foi surpreendido também nesse aspecto. Do seu joelho partia uma dor incômoda, que, entretanto, não lhe reduzia em muito sua mobilidade. E esse era o fato que mais lhe incomodava. Lembrava claramente a dor que sentira quando o carro colidira contra a sua perna, teve naquela hora a nítida sensação de que ela dobrara-se mais de noventa graus para o lado de dentro. Para que já estivesse recuperado, deveria haver se passado muito tempo... Teria ele ficado em coma durante meses? Talvez fosse essa uma das explicações para aqueles acontecimentos tão estranhos.

Porém, como ele viera parar ali? Naquelas condições? Procurou concentrar-se e encontrar uma solução. Na sua cabeça, outra sensação além de dor também perpassava. Era uma sensação estranha, incômoda, que lhe dizia que algo ainda mais desagradável do que as coisas pelas quais passara ainda estava por acontecer. Era uma sensação de medo, de perigo. Olhou à sua volta, e percebeu que aquele lugar não lhe era totalmente estranho. Ele sabia que estava próximo da estação da Rua 145, o último lugar onde se lembrava de ter estado antes de tudo isso começar, com o encontrão besta com aquela garota. Ele deveria passar por aquele lugar com alguma freqüência, imaginou. Sem mais nenhum recurso, decidiu dirigir-se para a estação do subway, talvez o lugar lhe sugerisse mais alguma recordação. Enquanto ele caminhava, não notou o personagem soturno, um homem usando roupas escuras, que o seguia com os olhos, a duas centenas de jardas de distância. Logo ele acompanhava seus passos no caminho para a estação, sem nunca diminuir essa distância, sem nunca ser percebido.



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Continua...

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