Apenas um sonho - Parte final

03 de Outubro de 2011 EDUARDO NEGS CASTRO Contos 1002

Então, os dois saíram do bar. Era uma noite quente e agradável. Diversas pessoas caminhavam pelas calçadas, carros iam e vinham, ciclistas pedalavam sem pressa ou destino.
_ Continua trabalhando no mesmo lugar? – perguntou Vicente.
_ Sim. Continuo naquele bosta daquele depósito de merda, carregando e descarregando aquelas porcarias daquelas caixas, sem ter nenhum tipo de aumento, a não ser de serviço.
Continuaram conversando e logo Renato pareceu ter esquecido daquela história de sonho. Vicente concluiu que finalmente o outro havia se dado conta do papel ridículo que fizera e, envergonhado, percebera que o seu continho do vigário não colara. Mas, Vicente, agora estava determinado a fazer aquilo que a sua mente tinha decido ainda há pouco.
_ Pelo menos, tu tem um emprego. E eu, que fui despedido ontem.
Tão logo, Vicente concluiu a frase, sentiu que a sua raiva aumentava de tamanho. A vida vinha lhe sendo hostil, traiçoeira. Semana passada, havia flagrado a sua mulher aos beijos com um sujeito estranho, dentro de um carro caro, enquanto ele dirigia-se a um restaurante, no intervalo do serviço destinado ao seu almoço. Foi o fim de um casamento de sete anos, felizmente sem filhos. E como se tudo não bastasse, ontem ele tinha sido despedido do emprego, onde já estava a quase dois anos. Seu chefe, secamente, lhe informou que já não precisavam dos seus serviços, afinal, nos últimos tempos ele estava deixando muito a desejar.
“Como assim?”, disse ele para o chefe, apavorado diante da notícia.
“ Só na última semana, o senhor faltou dois dias ao serviço”, respondeu o sujeito, sem nenhuma demonstração de piedade.
“ É que eu tenho passado por uns problemas. Eu trouxe o atestado médico”, tentava justificar-se Vicente, esperançoso de salvar o emprego. Bem sabia do fantasmagórico mundo de desemprego que assombrava toda a nação.
“ Não importa. Nós precisamos de funcionários saudáveis e dedicados.”
“ Mas durante todo o tempo que venho trabalhando aqui, jamais faltei um único dia. Tenho sido pontual e dedicado como se esta fosse minha própria empresa”.
“ Talvez esteja aí o problema. O fato de o senhor achar-se dono da empresa, lhe deu a sensação de que não devia satisfações a ninguém e que lhe daria o direito de ausentar-se quando bem entendesse”, respondeu o ex-chefe, zombeteiramente.
Sentiu vontade de segurar o sujeito pelo colarinho e arrebentar-lhe todos os dentes daquela boca estúpida e indiferente. Mas, achou melhor conter-se, afinal estava diante de um poderoso empresário. Um semi-homem, fedendo à ganância, mesquinho, esnobe e cruel, mas dono dos super-poderes originados pelo dinheiro. Calou-se e partiu, com o rabo entre as pernas trêmulas.
Agora estava profundamente humilhado e definitivamente desempregado. Não conseguia conformar-se, achava-se uma vítima atropelada por um destino injusto. Não aceitava, ou melhor, abominava a idéia de que era com as situações difíceis que se conseguia conquistar a experiência que, no futuro, lhe seria proveitosa para que não fossem cometidos os mesmos erros. Não podia entender qual erro ele havia cometido. Sempre havia sido fiel e carinhoso para com a esposa. Tinha trabalhado feito um escravo para a empresa milionária. Não havia nada que o fizesse entender o que tinha sido lhe destinado.
E, ainda por cima, no auge do seu sofrimento monstruoso, quando tudo o que queria era ficar entregue à sua indignação, taciturno e bêbado, surgia diante de si, como que enviado pelo demoníaco destino, aquela figura estúpida do Renato, trazendo uma história sem nenhum fundamento, inventada exclusivamente para transtorná-lo ainda mais. Era demais para a sua mente, que estava infinitamente confusa e nublada naquele momento.
_ Vamos até o Topázio? – disse Vicente, convidando o outro para irem até outro bar. Renato concordou.
Passaram por uma ruazinha quase completamente escura. Pouquíssimos postes tinham as lâmpadas acesas, a maioria os pivetes haviam quebrado a pedradas, outras lâmpadas haviam esgotado o seu tempo de vida, e a prefeitura, prestativa como em quase todos os lugares, ainda não tivera tempo de trocá-las. Apenas uma fraca penumbra os dava noção de onde pisavam. Nenhuma alma passava, naquele momento, pela negra ruazinha, provavelmente por medo de prováveis assaltos.
Então, subitamente, Vicente sentiu uma dor profunda, no mesmo instante em que ouvia o ruído de algo afiado penetrando em suas costas. Espantado, mas ainda bem consciente, pôs a mão direita nas costas e ao voltá-la diante de seus olhos, conseguiu perceber, mesmo na penumbra, que a mão estava coberta por um líquido escuro, que contrastou-se com a sua mão branquíssima. Percebeu, imediatamente, que tratava-se de sangue. Ele estava sangrando. Pôde distinguir o vulto de Renato, com uma grande faca em uma das mãos, o olhando com os olhos arregalados e uma expressão maníaca. A dor aumentava com uma intensidade brutal.
_ No meu sonho, era tu quem me apunhalava pelas costas, desgraçado. Eu sei que tu tinha essa intenção, mas me antecipei. – disse Renato, segurando a faca ensangüentada e rindo descontrolado, como que apossado por estranhas forças malignas. Com a faca em punho, foi aproximando-se mais de Vicente que, ainda de pé, havia recuado. – Agora vou acabar o serviço!
Vicente, sem pensar duas vezes, puxou um revolver e atirou duas vezes contra Renato. Um tiro acertou em cheio a testa, o outro entrou pela boca.
_ Pois então, o teu sonho era falso, meu amigo. A minha intenção não era de esfaquear e sim te dar dois tiros na cara.
Renato tombou, como uma saco de areia. Agonizou por breves segundos no chão, banhado em sangue, mas logo ficou extático como uma pedra.
Vicente olhou, sem fúria ou pena, para o morto. Enfiou o cano do revolver dentro de sua própria boca e atirou.


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