O Invisível III: Avassalador

03 de Outubro de 2011 TFJ Contos 957

O Invisível III:


Avassalador



Ele estava parado na estreita plataforma da estação, escorado a uma das colunas de ladrilhos brancos. Aquele lugar realmente lhe era familiar, embora não sugerisse nenhuma memória específica. Além dele um casal de namorados aguardava também o trem, entretanto se encontravam ocupados demais consigo mesmos para repararem em qualquer coisa mais à sua volta, não deveriam mesmo saber que ele se encontrava ali. O trem se aproximava, e esse ele decidira tomar. Já deixara outros dois chegarem e irem, procurando encontrar alguma lembrança, mas de nada isso valera. Não tinha a menor idéia de para onde ir, entretanto qualquer coisa que pudesse fazer parado ali poderia fazer também dentro do trem. Sem contar que a desagradável sensação de desconforto que sentira antes continuava presente, e até aumentara nos últimos minutos. Ali já estava claro que nenhuma memória lhe retornaria, quem sabe a bordo de um vagão?

Após o trem haver parado, uma porta se abria praticamente na sua frente. Parece que estava realmente habituado a pegar o trem ali, supunha que, de alguma maneira subconsciente, já sabia que uma porta se abriria nas proximidades daquele local. Ia entrar pela porta que se oferecia a ele, porém algo lhe fez dar um passo atrás. Tomou a direção da frente do trem e dirigiu-se ao vagão seguinte, casualmente um compartimento mais lotado do que o anterior, e foi ali que ele adentrou. Havia ali umas quinze pessoas e nesse vagão foi que o casal também embarcou. Ele estava semivazio, a bem da verdade, embora tal número de pessoas ocupando o mesmo carro, aquele horário adiantado, lhe surpreendesse de alguma maneira. Não esperava que tanta gente usasse o trem já de madrugada. Ele nada percebeu, mas, a alguns vagões de distância, às suas costas, o homem que o seguira desde a travessa sem seu conhecimento também tomara o trem. Ele nem mesmo percebera que ele também estivera todo aquele tempo parado na estação, aguardando assim como ele.

Mesmo existindo uma porção de lugares vagos, ele hesitou alguns instantes, segurado em uma das barras verticais que ficavam logo à frente da porta. Pois de repente teve o que parecia um déjà-vu, a cena que presenciava não era nova para ele. Todas aquelas pessoas que se encontravam no vagão lhe eram familiares, mas uma em particular lhe chamava mais a atenção. Era uma jovem de cabelos pretos cortados à moda Chanel, e estava sentada em um dos bancos amarelos do vagão, num dos que davam as costas para a parede, bem ao lado da porta oposta à qual ele entrara. “A Garota do Village...” Pensou ele surpreso, enquanto as portas se fechavam e o trem começava a se deslocar. Sentia que sabia bastantes coisas sobre a garota, embora não soubesse o que fosse exatamente. Será que ele a conhecia? Alguns fragmentos de lembranças vinham à sua mente. Lembrava vagamente de algumas cenas envolvendo aquela jovem, todas elas no trem. Tinha certeza que ela desceria em Washington Square, no Greenwich Village. Por essas horas, esse trajeto correspondia a quinze estações. Nossa, até isso ele sabia de cor... Ela devia lhe impressionar bastante, mesmo.

Contudo, ele ainda hesitava sobre o que fazer. Sua primeira intenção seria puxar assunto com a garota, afinal, fora para recordar memórias que tomara aquele trem sem ter destino, e ela era a primeira coisa anterior ao acidente da qual conseguia se lembrar com alguma clareza. No entanto, algo lhe dizia que essa não seria uma idéia muito boa. Não tinha certeza do porque, mas estava certo de não conhecê-la pessoalmente e sua aparência... Bem, era muito estranha. Ela não devia ter mais de vinte anos, vestia uma jaqueta de couro preto, bastante surrada, uma calça jeans azul-clara em condições iguais, e calçava um par de Chucks floridos, que não pareciam estar em melhor estado. No seu colo carregava uma mochila de nylon cinza e preta, e lia um livro, de cabeça baixa. Ele podia ver um strass azul brilhando abaixo do seu lábio inferior e um piercing na sua narina esquerda. Na sua mão esquerda, que segurava o livro e era a única que podia ver de onde se encontrava, via várias tatuagens nos seus dedos, elas se estendiam pelo dorso da sua mão e sumiam sob a manga da jaqueta. Perguntou a si mesmo se aquela garota estaria habituada a tomar banho, e logo se ela usaria depilar-se...

Que idéias! Desconfiava de que não seria a primeira vez que ele pensava essas coisas. Todavia, ela lhe parecia atraente, e muito. Principalmente por que ela era muito bonita. Decidiu parar de bancar o otário e ir logo falar com ela. Afinal de contas, o que de pior poderia acontecer? Sem cerimônia, sentou-se ao seu lado e a analisou mais detidamente, com alguma discrição. A primeira coisa que pôde notar foi que as suas roupas “surradas” na verdade nada tinham de velhas. Era tudo encenação, as roupas que ela usava eram caras, simulavam aspecto de desgastadas. E com certeza não falavam inglês... Assustou-se por um instante com esse pensamento. “Como é que eu sei disso? Será que eu sou algum tipo de estilista?” Por algum motivo aquela idéia o perturbou, mas... Vai saber? E também notou que sem dúvida nenhuma ela tomava banho, sim, pois, mesmo àquela hora da madrugada, podia-se ainda sentir o odor do seu perfume, e ele era bastante agradável. “Que fajuta, uma patricinha punk de butique.” Notou então no livro que ela lia, era uma grande brochura de capa amarelo-clara, e soube que conhecia aquele livro. Era Ulysses. Por algum motivo aquele pensamento o tranqüilizou, fazendo com que se decidisse logo a falar com ela.

— Se quer ler Joyce, compre o seu. — falou a garota sem tirar os olhos do livro, mas certamente havendo notado os olhares dele.

— Ouch... Essa doeu! Não estou tentando roubar a sua leitura, fique calma... — disse ele com simpatia, de maneira automática, percebendo com isso que falar com garotas não era para ele um grande problema — Nós começamos do jeito errado, acho melhor que me apresente. Olá, eu meu nome é... — e só daí deu-se conta de que não fazia idéia de qual fosse seu nome; contudo, repentinamente, na sua cabeça surgiu um que não lhe soou nada estranho — Henry... Henry Donovan.

— Bom pra você. — respondeu a garota, ainda sem tirar os olhos do livro.

Bem, agora sim as coisas começavam a ficar embaraçosas. Mais imagens vinham à sua mente, e ele começava a entender porque hesitara em falar com ela. Era provável que, por algum motivo, os dois não se dessem bem. Contudo, a hostilidade da garota na verdade o atraía ainda mais... O sotaque na voz dela era muito carregado, e, percebendo e aproveitando-se disso, voltou à carga.

— Você não é daqui é? É... Inglesa, talvez?

Pela primeira vez ela tirou os olhos do livro, primeiro olhou para frente por alguns instantes e depois se voltou para ele, olhando-o nos olhos. Nossa, foi daí que ele viu por que se sentira tão atraído por ela, pois a garota não era somente bonita. Ela era linda. Parecia uma jovem Lara Flynn Boyle. Usava também um piercing no supercílio esquerdo, muitos em ambas as orelhas. E seus olhos eram violeta. Mas seu olhar era de perplexidade, e aquilo o deixou desconfortável.

— Me desculpe, eu sei que pra maioria dos ianques isso é um defeito imperdoável... Mas fazer o que? No meu caso é um mal de nascença...

— Ei! Pra que tanta pedrada? Só fiz uma pergunta!

— Você é muito, muito estranho... — falou ela encarando-o por alguns momentos e depois voltando a ler seu livro, após sacudir a cabeça com impaciência.

— Você é sempre assim ou é só agora, Garota do Village?

— Garota do Village... — falou ela olhando para o livro — É assim que você me chama?

— Sim, já que não sei o seu nome. — arriscou ele.

— Mas agora eu sei o seu Harry. E continuo preferindo chamá-lo de Nerd do Harlem.

— Meu nome é Henry! E eu não sou um nerd! E quer dizer que você também sabe onde eu embarco né?

— Grande coisa...

— Qual é o seu problema, afinal de contas?

— O meu problema? — ela voltou-se novamente para ele, e agora parecia realmente zangada — Cara, o meu problema é um sujeito ficar me comendo com os olhos todos os dias, por três anos, sem nunca me dirigir uma palavra e daí, numa bela madrugada ele resolver se sentar justo do meu lado no trem, quando tem uma porrada de assentos vazios e puxar um assunto totalmente sem-noção, sem mais nem menos! Isso é assustador pra caralho! Sabe o que eu acho? Acho que mexeram na sua cabeça, e fizeram uma lobotomia! Qualé, você quer ser apresentado pro meu amigo, o spray de pimenta? — falou ela quase gritando, colocando a mão dentro da mochila.

Só daí ele lembrou-se da bandagem na sua cabeça. Devia estar realmente parecendo ridículo. Olhou para a mão esquerda dela e viu o que estava tatuado nos seus dedos. Uma letra em cada uma das suas falanges levava uma letra da palavra “RAGE”, em caixa-alta, começando pelo indicador. E aquela visão o fez recordar-se de outras coisas bastante esclarecedoras que já tinha visto e lhe mostraram o quão estúpido ele havia sido. E também qual era o verdadeiro motivo de tanta irritação por parte da garota.

— Ok... Você tem razão... Andei meio esquecido de algumas coisas mesmo, mas agora me lembrei de tudo. Não vou mais lhe importunar.

Ele então se levantou do assento e ficou em pé no meio do corredor. Tudo fazia sentido agora e ele sabia que havia pagado o maior vale. Ele se lembrava agora de ter visto ela várias vezes acompanhada antes... E sempre por outras mulheres! Que babaca... Mesmo assim ele estava irritado, e já que mais não podia fazer, decidiu que iria pelo menos irritá-la também. Havia mais algumas coisas das quais se recordara.

— Mas quer saber de uma coisa? Vocês ingleses adoram Joyce, mas ele não era um erudito de verdade, não passava de um pernóstico!

— O que foi que você disse? — falou a garota erguendo os olhos com uma expressão incrédula e atônita — Repita!

— James Joyce não era nada além de um pernóstico! — falou ele com convicção, aproximando-se mais dela.

Ele não sabia qual seria sua reação, contudo a que presenciou era a última das que poderia imaginar. Pois a garota, lentamente, começava a rir! Primeiro ela tentava conter-se, porém logo em seguida seu riso corria solto.

— Ah, mas e essa agora? O que eu falei de tão engraçado? Você é doida por um acaso?

— Sou... Completamente... — e ela ria cada vez mais, mal conseguindo falar — Mas não é disso que estou rindo... É de você... Seu... Seu... Seu nerd!

— Eu não sou nerd! — agora ele estava furioso e se aproximou ainda mais — De onde você tirou essa idéia?

— E quem mais além de um nerd ia ter uma opinião dessas? — e ela morria de rir — Nerd, nerd, nerd!

— Garota você está me tirando do sério! Pára de me chamar assim, eu não sou nerd! — ele havia se aproximado tanto que seus rostos estavam quase colados.

— É sim... Nerd! — e ela ria ainda mais.

— Pára com isso! — e ele a agarrou pelos ombros e a sacudiu — Eu não sou nenhum nerd!

— Então prova! — ela havia parado instantaneamente de rir e o encarava direto nos olhos, com ar de desafio.

“Mas que... Mas que...” Pensou ele, subitamente confuso. Ela estava brincando com ele... O tempo todo? Não saberia dizer, achava que não, mas isso não importava. Ah, mas ela ia lhe pagar! Sem pensar mais duas vezes, sentou-se de novo no banco e a puxou para si. E no instante seguinte beijava-a vorazmente. Seu perfume lhe inebriava, e por um momento cogitou se ela não iria começar a socá-lo e a gritar. Porém, ao invés disso, desde o primeiro instante e cada vez mais, ela correspondia aos seus beijos. E logo seus braços estavam em volta de seu pescoço, e suas mãos na sua nuca, e ambos devoravam-se, ardentemente, insanamente. Mesmo sem conseguir lembrar-se com certeza de como sabia isso, sabia que nunca havia beijado daquela forma antes. Ela parecia alucinada, parecia querer arrancar todo o ar dos seus pulmões, e ele o dos pulmões dela. Suas línguas percorriam cada recôndito das bocas um do outro, e o piercing na língua da garota só potencializava todas as agradáveis sensações que ele experimentava. Ele não tinha mais noção de tempo, contudo estava decidido a soltá-la somente se fosse obrigado a fazer isso. E o tempo passou, por várias vezes viu as portas abrirem-se e voltarem a fechar-se, sem contar todas as vezes que ele nem percebeu isso, perdido como estava naquela loucura apaixonada. Só que, como tudo, aquele momento também precisava ter um fim. O trem parara em West Fourth Street e ela então o interrompeu, desvencilhando-se dele e levantando-se apressada.

— Minha estação! — disse ela, correndo para a porta.

Ele estava agora triste, olhava para ela com olhar desolado, quando a garota voltou-se uma vez mais na sua direção. A jaqueta dela estava aberta, agora. Então fora assim que ele acabara percebendo que ela não usava sutiã... Onde teriam ido parar os dois se a viajem fosse mais longa? Mas acabara, e agora ele não sabia nem mesmo para onde ir. Não queria somente segui-la por sua conta, daí já se sentiria um perseguidor... Ela olhava para ele como se várias idéias conflitantes passassem pela sua cabeça. E então ela decidiu-se, indo até ele e o pegando pela mão.

— Vem!

Ela não precisava dizer mais nada. Os dois saíram correndo do trem, quando as portas já se fechavam. Do lado de fora, ele a envolveu novamente em seus braços e ambos voltaram ao que haviam interrompido. Ela era baixinha e ele bastante alto, porém esse não era um empecilho tão grande assim. Ele a pressionou contra uma das colunas verdes da estação e ali continuaram devorando-se por um bom tempo. Foi ela quem novamente interrompeu a atividade, numa altura onde já não se via mais ninguém nos arredores.

— Calma... Você é muito guloso... — falava ela sorrindo com ar malicioso, o tomando pela mão uma vez mais — Vem, não moro muito longe daqui. Amanhã é sábado, temos bastante tempo ainda...

— Ouço e obedeço, minha dama...

E ambos saíram abraçados, tomando a direção de Waverly Place. Novamente, Henry não percebeu que o homem de roupa escura continuava à espreita e agora seguia o casal, de uma distância segura.


*****
Continua...

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