Vinte e oito de setembro de 2011.
Faziam exatamente oito anos daquele fatídico dia, que continuava bastante nítido na memória do Pastor Abel.
Vinte e oito de setembro de 2003. O dia em que, finalmente, Abel havia decidido colocar em prática aquilo que já vinha se desenvolvendo em sua mente a quase um mês: entrar no maior shoping center da cidade, carregando uma pistola, e atirar a esmo, procurando atingir o maior número possível de pessoas.
Abel passou a relembrar os pormenores daquele dia:
Estava vestindo o velho terno preto que herdara de seu falecido pai. A pistola estava sob a mesa da cozinha, aguardando suas instruções. Estava pronto. Em dez minutos pegaria o ônibus que o levaria até o shoping.
Foi quando na tevê surgiu um sujeito, usando também um terno preto, porém bem mais novo que o dele. E, inesperadamente, aquelas palavras que saíram da boca do sujeito, invadiram os seus ouvidos com uma força que lhe impossibilitou a recusa:
“ Você aí, que está em sua casa ou em qualquer outra parte. Você aí! Sim, você mesmo. É contigo que estou falando! Eu sei exatamente pelo que você está passando! Eu sei exatamente os tormentos que te afligem. Eu sei tudo sobre o peso desgraçado que você está carregando sozinho. Eu sei, eu sei, sei ...”
Conforme ia falando, cada vez mais o sujeito se empolgava. Já estava gritando, enlouquentemente. Abel sentiu que o homem falava diretamente com ele. Mas como? Como poderia saber?
“... Mas você não está sozinho.! Você não precisa continuar carregando toda essa carga sozinho. Vem cá, meu irmão, segura aqui na minha mão que eu vou te acompanhar até aquele que vai levantar todas essas toneladas que estão em tuas costas, te aliviando, te ajudando, te acompanhando. Vem, meu querido! Vem comigo e iremos juntos até o Senhor. Ninguém está sozinho se assim não quiser. E muitos que agora, como tu, encontram-se abandonados são porque não tiveram a oportunidade que agora a ti está sendo dada ...”
Abel tremia de excitação. Sim, era com ele que o sujeito falava. Já não lhe interessava como ele podia saber sobre sua vida. O fato era que sabia.
“... Até agora quem vinha te acompanhando, ou melhor, te importunando, era o inimigo, o maligno, o demônio. Mesmo que você acreditasse estar só, você não estava, porque o desgramado estava colado a ti. E a voz que tu ouvia, a voz desgraçada e agourenta que tua ouvia era a voz dele, do capeta, do desvirtuador de caminhos, o diabo. Sim, era o diabo, o diabo, o diabo, satanás ...”
Abel estava chorando. O corpo todo tremia. Sim, sim, agora tudo fazia sentido. Aquele sujeito sabia de tudo porque era um enviado de Senhor, que se apresentava a ele para lhe mostrar a luz. Sim, sim, agora tudo se tornava claro. Era óbvio que, até então, fora mesmo o diabo quem vinha lhe ditando ordens.
“... Portando, vem cá, irmão! Chega mais, não tenha medo! Tudo o que encontrarás aqui será uma vida nova, uma nova jornada, um renascimento ...”
Abel não quis ouvir mais. Imediatamente correu para pegar o ônibus, nem se lembrando mais da pistola que ainda a pouco o esperava na mesa.
Foi direto até a igreja. Queria ver pessoalmente aquele homem que lhe salvara. Informaram-lhe que o Bispo Alencar não encontrava-se no momento, pois tratava-se de um homem muito ocupado em sua missão de espalhar a salvação pelo mundo. Abel entendeu a ausência e excitadíssimo informou que tinha sido abençoado pelas palavras do bispo e que gostaria de batizar-se.
Seu batismo foi uma semana depois e quem mergulhou sua cabeça nas águas do rio foi o próprio Bispo Alencar, o mais digno funcionário do Senhor no mundo.
Menos de três anos depois, Abel tornava-se pastor. Depois de muito estudo da bíblia, muita dedicação aos ensinamentos cristãos, muitos louvores, privações, infinitas orações. Foi com grande felicidade que Abel viu-se preparado para espalhar a palavra do Senhor. Acreditava cegamente na sua vocação. Não era do tipo de pastor que está nessa apenas pelo dinheiro dos fiéis. Muito pelo contrário, entregava mais da metade do seu próprio ordenado para a igreja. Tornou-se um pregador tão fervoroso que era visto com receio até pelos seus colegas pastores menos entusiasmados.
Voltou ao presente. 28 de outubro de 2011. Algo havia mudado. Ou melhor, algo havia retornado. E agora era com uma força ainda maior que aquela de oito anos atrás. Já ao acordar-se, sentiu-se como se fosse outro. Mas não era um outro novo. Não, ele conhecia bem aquele outro. Sim, conhecia muitíssimo bem. Era exatamente aquele mesmo de oito anos atrás, antes de ser invadido pelas palavras do Bispo Alencar.
Ligou a tevê, sintonizando no canal evangélico da sua igreja, na tentativa de que mais uma vez fosse salvo pelas palavras divinas. Mas, estranhamente, a tevê, que estava ainda no dia anterior funcionando perfeitamente, não deu nenhum sinal de vida. Então ele soube que era tarde, nada mais adiantaria. Então ele soube que desta vez não conseguiria evitar. Na verdade, ele nem queria evitar. Agradeceu por não ter sido salvo outra vez. Agradeceu por ter de volta aquela mesma missão de oito anos atrás.
Apanhou a pistola, da qual nunca tinha conseguido se desfazer, por um motivo que não podia entender enquanto estava na igreja, mas que agora lhe era bastante claro, e dirigiu-se, apressado, até a parada de ônibus.
Desta vez a festa no shoping não seria adiada.



“Ao som de Nick Cave and The Bad Seeds: Foi na cruz”