Pelo que se foi... - Capítulo 12 - Casta Diva

06 de Outubro de 2011 TFJ Contos 997

Doze


Casta Diva



No dia seguinte, Mathews não conseguiu se concentrar nas aulas. Estava irritadiço, evitando ao máximo falar com quem quer que fosse, pois sabia que acabaria sendo agressivo à toa com alguém que nada tinha a ver com o assunto. E por não ter realmente certeza do quê exatamente o incomodava. Szabó não freqüentara suas aulas novamente e os boatos já começavam a circular. “A doida da Filosofia teve um piripaque!”, diziam. “Ela pirou geral, mesmo!”. E ouviu ainda outras manifestações do tipo, além, é claro, de incluírem óbvias especulações a respeito do envolvimento dele próprio com o assunto. Ele tinha alguma certeza de que a maior fonte dos murmúrios era Janet, mas com essa ele se entenderia mais tarde.

Por volta da dez horas resolveu não perder mais tempo com seus pensamentos e, decidido a agir de alguma forma, e logo, dirigiu-se ao gabinete de Southerand. Estava convencido de que falar com ele fora o único objetivo que realmente o levara à universidade naquele dia. Depois de lá chegar, aguardou na ante-sala por vinte minutos, até a secretária lhe informar que a Reitora o receberia. E foi assim, bastante mal-humorado, que se viu diante de Southerand.

— Sente-se, por favor. O que você deseja Mathews?

— Obrigado. Você sabe o que aconteceu ontem, Southerand, não sabe? É sobre isso que quero falar. Você sabe de alguma coisa de que não tenha me contado? Tem alguma coisa de muito estranha nessa história toda, Southerand, vocês protegem demais essa garota, e pelo que eu vejo, ela precisa mesmo de algum tipo de proteção. O que acontece de verdade com ela, Southerand? Nós não fazíamos idéia de que ela sofre de distúrbios neurológicos graves, isso acabou afetando a nossa eficiência. E você sabe por que nós não sabíamos? Só ontem, após o incidente, é que fui perceber: porque nós não podíamos saber; e você sabe por que não podíamos saber? Porque não possuímos seu registro médico; e você sabe por que não o possuímos? Porque ele não está no Sistema!

— Ah! E claro, como todos vocês têm o hábito de invadir nosso Sistema quando bem lhes dá na telha, necessariamente arquivos pessoais sigilosos deveriam estar em seu poder, não é mesmo? Sua atitude seria na melhor das hipóteses questionável Mathews, embora ao que me parece se trate na verdade de um ato criminoso, como até você há de convir… Mas sugiro que não se preocupe mais com tais assuntos, nada disso será mais necessário. Agradeço sinceramente seu esforço para atender ao meu pedido e prometo relevar essa sua pequena confissão. Contudo, tanto o que pudesse me interessar em relação a esse assunto, quanto o que poderia vir interessar a vocês, deixou de ser relevante, visto que Gimely Szabó em breve não será mais aluna da UCL.

— Como assim?

— Sua mãe ligou-me essa manhã, solicitando o desligamento de Gimely de nossos quadros e pedindo que se providenciasse a sua transferência da universidade.

— Mas… Por que agir dessa forma tão abrupta?

— Você conheceu Margit Szabó há pouco tempo, pelo que sei. Já eu a conheço há anos e ela é uma amiga. Deve saber que ela lecionou História da Arte aqui antes do seu tempo… Mas o que você não sabe Mathews, é que além de uma grande erudita, Margit é com sua filha como uma leoa com sua cria. Ela não vai admitir que Gimely, além de passar pelo que passou dias atrás, venha a tornar-se ainda motivo de chacota entre os alunos. E pode acreditar que eu a entendo, Mathews, ainda mais sabendo pelo que ela já passou e ainda vai passar com sua filha…

— O quê você está querendo dizer com isso Southerand? Que problemas ela tem afinal?

— Nada, não importa mais. Ela vai se desligar de nós, e talvez seja essa realmente a melhor atitude a ser tomada no caso dela.

— E você vai aceitar esse estado de coisas sem reclamar? Você não pode desistir dela, Southerand, não sem tentar impedir!

— Mas que mudança de comportamento é essa Demian? Há uma semana eu precisei quase implorar para que você interviesse nesse caso e agora você se mostra indignado com o fato de que a garota vai embora… O que aconteceu de lá para cá para promover tal mudança nas suas opiniões?

— Me poupe da ironia, Southerand. Você por um acaso leu as monografias dela? Ela é brilhante, Reitora, se for embora será uma perda para a UCL como um todo!

— E por que cargas d’água você acha que estavam os nossos professores tão preocupados com ela? Nós sabíamos que sua perda seria difícil de repor, e por conhecermos a mãe dela, sabíamos que se algo de grave lhe acontecesse ela a tiraria daqui, Mathews!

— E bem que podia ter-nos avisado disso... Se você tivesse me contado isso antes, nada disso teria acontecido! E agora você quer simplesmente aceitar a situação sem reagir?

— Francamente, você pretende que se faça o que, que eu bata os pés e resmungue? Talvez eu pudesse ter sido mais franca com você desde o início, mas a intenção era justamente a de preservá-la e não a de expô-la. Além do que, se eu fizesse um pedido especial a vocês, invadindo a privacidade da garota e aconselhando-os a não submetê-la a nenhuma situação mais desgastante, como isso teria lhes soado?

— Pelo menos mais honesto, com certeza. Faltou-lhe transparência, e admitindo ou não, você nos manipulou, Southerand, nos levou a tomar a atitude que desejava com a menor quantidade de informações possível. Parece até que você não conhece nada sobre a Zeta, Southerand, ou não pensaria que deixamos vaidades, nossas ou de quem quer que seja interferirem em nossas decisões. A Zeta existe para preservar o conhecimento Reitora, não é um Clube Privé.

— Mas foram exatamente as suas vaidades que desencadearam os eventos da tarde passada, rapaz!

— Ela foi submetida ao Teste Padrão, Southerand, e sucumbiu no primeiro de uma série de três. Mas nós não sabíamos de seus problemas, e não sabíamos por que a informação nos foi omitida! Seu nome consta no rol da Corporação Zeta, Southerand, você já foi uma de nós. Por um acaso, você nunca leu O Estatuto?

— Do que você está falando Mathews?

— Tenha dó Southerand! Os Testes Padrão não se aplicam aos candidatos que possuam disfunções fisiológicas! Nós estávamos preparados para receber uma candidata com transtorno bipolar, e até essa informação mínima tivemos que levantar por nossa própria conta. Mas o problema dela não é esse, é muito pior! Em casos graves como o dela, devem ser feitas adaptações, ou mesmo os testes podem ser até suprimidos! Você não sabia disso? Você nos induziu ao erro por omissão, Southerand!

— Você está se supervalorizando, Mathews. Além do quê, você quer que eu lhe diga algo como: “Perdoe-me por não ter feito inconfidências, eu devia ter revelado a você todos os pormenores da intimidade da garota para que vocês pudessem planejar cuidadosamente cada um de seus passos. Sinto muito, Mathews, deveria ter sido mais fuxiqueira…” Tome tento, garoto!

— Não seja cretina, é só isso que lhe peço. Você não precisava fazer nenhum relatório da vida dela, só devia ter falado a verdade sobre a sua doença!

— Mesmo admitindo isso, de que valeria agora? Acabou-se, ela irá, não há nada que se possa fazer.

— Você pode ter desistido, Southerand, eu não.

— É mesmo? Havia esquecido que você é o último dos moicanos. E o que pretende fazer, “herói”, um abaixo-assinado? Vai pedir ao seu pai? Vai fazer um apelo ao Parlamento? Vai pedir uma audiência com Sua Majestade em pessoa, por acaso?

— Pare de me sacanear Southerand, eu não vou fazer nada disso. Vou simplesmente lá, para falar com a mãe dela.

— Não sei se recomendo que faça isso. Ela não irá recebê-lo bem, eu a conheço de um bom tempo. Ela culpa você pelo constrangimento a que a filha passou.

— Em vez de só ficar debochando de mim, você bem que poderia me ajudar um pouco, só para variar não é? Afinal eu pretendo agir no interesse da Universidade, logo poderia ter alguma colaboração sua, pelo menos.

— Tem certeza que é em nome da Universidade que você quer agir? Aquela menina tem muitos problemas e eu gosto muito dela Demian, e você pode ter certeza de que se a magoasse, teria de arcar não só com a raiva da mãe dela como com a minha também!

— Estão todos loucos nessa universidade? Em primeiro lugar eu nunca tive de correr atrás de mulher nenhuma, por que faria isso com uma das mais esquisitas e complicadas das que já conheci? E em segundo lugar, mas não com menor importância… Por que diabos vocês tratam essa garota como se ela fosse de vidro? O que há, de verdade, com ela?

— Não posso lhe dizer isso Mathews, eu sinto muito.

— Viu só? É disso que eu falo, tem algo de muito errado com ela, é por isso que vocês agem dessa forma!

— De certa forma você tem razão, há sim algo de errado com a menina. Ela tem dezessete anos, é um verdadeiro gênio e sofre de uma doença muito grave, e você não pode imaginar o quão grave essa sua doença é Mathews. Mais do que isso eu não posso nem quero lhe dizer.

— Não me surpreende, sempre tive de fazer tudo sozinho dentro dessa universidade, mesmo.
Então ele ergueu-se da cadeira e caminhou na direção da porta. Southerand o interpelou ainda uma vez antes que saísse:

— Mathews, eu vou lhe pedir uma coisa, e agradeceria muito se você me atendesse. Por favor, esqueça dela. Nada de bom virá se prosseguir nesse caminho. Será melhor para todos, principalmente para ela, se você a deixar ir. Eu pensei que poderia mantê-la na universidade e garantir sua segurança, mas ficou claro que, tendo aqueles… Degenerados… Tomado ciência da sua presença, ela nunca mais terá paz aqui, estando ou não entre os zetas. Deixe-a Demian, será melhor assim.

— Eu não posso Southerand. É para isso que a Zeta existe, e sua mãe querendo ou não, ela é uma de nós. E os zetas nunca abandonam os seus.

— Então eu lamento Demian Mathews, por você, por ela, pelos zetas e quiçá pela UCL inteira. Pode achar fatalista o que digo, mas uma intuição me diz que se você prosseguir algo de muito ruim irá acontecer.

— Não vejo nada de fatalista na sua intuição. Antes de fatalista, ela mais me parece óbvia.


*****


Era próximo do meio-dia quando Demian Mathews chegou à bela casa das Szabó. Era uma casa elegante e moderna, sem excessos ornamentais, mas de considerável dimensão, denotando tanto o bom gosto quanto as consideráveis posses dos proprietários. Ele não hesitou ao parar à porta e tocar a campainha, apesar de sentir-se levemente angustiado ao fazê-lo. Não tinha idéia de como seria recebido e na verdade nem uma noção exata do que pretendia — ou deveria — falar. Mas em frente era a única direção que ele aceitava seguir na sua vida, e, portanto, prosseguiria. Em instantes ouviu passos na direção da porta, e não ficou surpreso ao ser atendido pela proprietária da residência, já que sabia que a casa não possuía criados. E era conseqüentemente aquela mulher impressionante quem o recebia.

— Estou surpresa em vê-lo aqui novamente, rapazinho. O quê deseja? A atitude de seus amigos não satisfez ainda as suas crueldades, deseja mais alguma oportunidade para tripudiar sobre minha filha?

“Que mulher. Acho que quem inventou a expressão aura de dignidade estava pensando nela… Eu me sinto retraído perto dela. E tenho essa compulsão estranha de falar desse jeito meio parnasiano que ela usa… E parece que me sinto também impelido a terminar qualquer sentença com um pronome de tratamento…”

— Cruéis são as suas palavras, Senhora, uma vez que em momento algum ninguém entre nós pretendeu tripudiar de qualquer forma sobre sua filha. Tudo não passou de um grande e doloroso mal-entendido, Senhora Szabó.

— Maior do que imaginas e mais doloroso do que possas crer, jovem. Minha filha sofre, e em ela sofrendo, sofro eu. O que queres de nós?

— A Reitora Southerand disse-me que… Gimely pretende deixar a universidade. Creio que isso constituiria em um erro, Senhora.

— Crês, então? Diga-me, qual seria a sugestão que poderias dar em vez da que descreves? Sugeres que a mande de volta aos lobos? Não penses que eu ou minha filha somos ingratas, não esqueceremos jamais o que fizeste por ela, mas está visto jovem Mathews que não podes garantir seu bem-estar nem entre os que são teus. Ou me engano?

— Senhora, ouça-me, por favor. Sua filha é muito importante para nós, para a UCL inteira. O que aconteceu ontem não resultou de um ato de maldade, e sim de um engano. Não havíamos sido informados a respeito de determinados pormenores da personalidade de Gimely, a entrevista foi conduzida de forma equivocada devido a essa omissão nos nossos conhecimentos. Tente entender, não houve má-fé da parte de ninguém.

— Está perdendo seu tempo, jovem, já que não sou eu a pessoa a quem precisarias prestar tais esclarecimentos, pois a decisão de deixar a universidade não foi minha e sim de minha filha. Eu apenas sugeri, mas é Gimely quem toma as suas próprias decisões.

— Mas então eu não poderia lhe falar, por alguns instantes que fosse?

— Não entendestes corretamente a situação. És bem-vindo nessa casa, podes falar com minha filha sempre que ela assim o deseje, sou sua mãe e não sua dona. Todavia lhe digo que provavelmente não terás sucesso, pois se conheço bem os meus, eles dificilmente voltam atrás em suas posições. A menos que um valor mais alto venha a levantar-se, suponho… Queira entrar, jovem Mathews.

Aquelas palavras o intrigavam profundamente enquanto seguia aquela deslumbrante mulher por aquela deslumbrante casa, repleta de tapeçarias e obras de arte. E mesmo assim espaçosa, arejada e iluminada por enormes janelas de vidro por quase todos os lados, até encontrar-se nos sopés da escada que levava ao segundo andar. Era um ambiente que parecia extremamente agradável para seu gosto, onde a arte do passado encontrava-se com a tecnologia moderna, presente em praticamente todos os seus aposentos. Tão diferente da mansão vitoriana em que vivia sua família, onde tudo era desmesuradamente grande e pouco funcional, e entulhado por séculos de quinquilharias por todos os cantos… Mathews não era do tipo de pessoa que cospe no prato em que come, nem procurava fingir não saber que nascera em uma família privilegiada. Mas também achava que poderia ser um pouco mais feliz se vivesse em condições mais modestas. Embora não tivesse bem certeza se sua família possuiria realmente mais posses do que as Szabó… Ele se perguntava quantos milhares de libras deveriam valer todas aquelas obras de arte… Mas, como já foi dito, haviam chegado à escada e Margit apontava na direção do segundo andar.

— Ela está em seu quarto, na última porta do corredor, à esquerda.

— Posso subir ou ela descerá?

— Sobe. O pior que poderá ocorrer será ela mandar-te embora, muito embora eu não aposte nessa possibilidade. Antes que subas, entretanto, preciso dizer-te algo, jovem Mathews, e espero que não me tomes por uma tola supersticiosa pelo que vou te dizer. Com franqueza, desde a primeira vez que o vi, soube que ou tu serias a ruína da minha filha, ou a sua salvação. E há muito aprendi a não tentar intervir nas sendas do Destino, rapaz. Vai agora, jovem, que o Destino siga seu curso. Tens a minha bênção.

Aquela situação pareceu constrangedora a Mathews. A mulher falava de tal forma que ele via-se inclinado, por alguma obscura razão subconsciente, a concordar com ela e aceitar como verdade o que ela dizia, por mais estapafúrdias que parecessem suas palavras para sua mente racional e materialista. Foi subindo as escadas lentamente, sentindo a cada degrau que subisse que uma linha a mais era entrelaçada ao tecido da realidade. Sentiu um calafrio por pensar dessa forma, devia ser toda a atmosfera daquela casa, somada àquela imponente figura parada nos pés da escada com os olhos fixos nele, e aquelas suas palavras metafísicas…

Decidira pensar em outra coisa, quando ouviu que a certa distância uma música era tocada. Ao chegar ao topo da escada, identificou sua origem no final do corredor, e quanto mais se aproximava do lugar ao qual fora indicado, mais certeza tinha de que era de lá que a música vinha. Já podia dizer que era algum tipo de música clássica, provavelmente ópera, embora não estivesse bem certo de que óperas fossem as únicas músicas clássicas a possuírem letras. Quando chegou ao fim do corredor encontrou a última porta à esquerda aberta, e deparou-se com uma cena que jamais deixaria as suas lembranças. No fundo do amplo quarto, à sua esquerda, de costas para a porta e de frente para um enorme painel, estava ela. A música vinha do potente sistema instalado em um dos cantos, mas era ela quem cantava, pois o home-theater emitia somente a melodia. Parecia que encenava uma representação para aquela fotografia estampada na parede, a enorme figura de uma mulher vestida numa caracterização oriental estilizada, e onde se via próximo do topo a inscrição “La Divina”. Ficou ali parado ouvindo aquela canção, inebriado pelo momento, contagiado por aquele som, por toda aquela cena. Nunca imaginara que uma mulher fosse capaz de emitir sons tão belos… Nem tão altos. Seu italiano era muito fraco, mas bom o bastante para que pudesse entender algumas das palavras que ela cantava:


“Tempra, ó Diva,
Tempra tu de' cori ardenti,
Tempra ancora lo zello audace…
Spargi in terra quella pace
Che regnar tu fai nel ciel...”.


“Acalma oh Deusa/ Acalma tu, os espíritos ardentes/ Acalma ainda, seu zelo audaz/ Espalha pela Terra aquela paz/ Que tu fazes reinar no Céu”. O restante lhe parecia uma sucessão de monossílabos e dissílabos, mas deixou-se ficar ali, fascinado. Ela estava descalça sobre o alto carpete claro, com seus cabelos, muito cacheados agora, soltos. Vestida com um cardigan cinza e uma calça de jogging da mesma cor num tom mais claro, a garota lhe parecia linda naquele momento, de uma beleza ao mesmo tempo coloquial e sublime. Então ele soube por que razão viera até ali, contra toda a prudência e mesmo sabendo que talvez o melhor para ela, depois de tudo o que acontecera, fosse realmente permanecer longe da UCL. Ele soube então que a amava… E que olhava para aquela que seria a mãe dos seus filhos.

“O que estou pensando…”

Ele sentia-se estranho, pois apesar da presença habitual de sua perspectiva racional, aquela que conduzia todos os seus atos e única que aceitara como existente até então, ele sentia outra perspectiva atuando sobre seu raciocínio. Muito mais aguda e dominante, a tudo suplantava e enchia seu peito de um calor estranho, mas agradável, e lhe garantia uma convicção inabalável nessa certeza insana. Nesse ponto percebeu que a música parara, e que ela, ainda sem voltar-se para a porta, lhe indagava:

— O que você quer aqui, Mathews? Será que ainda temos algo a nos falar?

Aquela pergunta o deixou ainda mais surpreso. Como ela sabia que ele estava ali? E… Desde quando sabia? Foi só então que notou a penteadeira e o seu espelho no canto da parede, voltado para a porta, e seus olhos o observando através deles. Isso explicava aparentemente sua primeira questão, apesar dela não estar usando óculos e com certeza não ser capaz de identificar da porta nada além de um vulto, pois ela poderia ter deduzido que era ele que estava ali por meio de lógica elementar. Já para a segunda, ainda não havia resposta, e talvez nunca viesse a existir uma. Mesmo confuso, ainda, deixou seus questionamentos de lado por um instante e lhe respondeu, tomado por uma estranha necessidade de ser absolutamente sincero:

— Olha, não sei o que lhe dizer exatamente. Mas quando soube que você sairia da universidade… Com mil diabos! Acho que fiquei meio doido… Eu tinha que vir aqui. Será que você entende? Eu precisava falar com você… Eu precisava ver você… Droga! Não me peça, por favor, para explicar melhor, pois… Eu não sei. Mas… Diga-me para ir embora, fale que nunca mais deseja me ver… E eu juro para você que eu vou obedecer, e você nunca mais terá notícias minhas… Ai, meu deus, o que estou dizendo…

Ela voltou-se então para ele. A luz espalhava-se de forma difusa pelo quarto, vinda de uma janela que dava para o sul, e aquela iluminação indireta emprestava uma coloração verde-escura a seus olhos que, e tinha essa certeza mesmo à distância, o fitavam de forma aguda e com um perceptível brilho, mas sem que ele fosse capaz de definir quais emoções transmitiam. Todo o seu semblante parecia sugerir que um turbilhão de pensamentos se avolumava dentro dela. Ele não fazia idéia do que dizer a ela, e ela nada lhe dizia. E nesse impasse, redundando somente no confronto entre os dois olhares, se passaram vários minutos… Até o momento em que ele abdicou da disputa, e começou, lentamente, passo a passo, a aproximar-se cada vez mais dela.

Após seu primeiro passo, ela começou também a mover-se na sua direção, e a cada um de seus passos, a ele parecia que seus olhos iam mudando de cor, primeiro para o castanho-escuro, até chegarem ao seu usual castanho claríssimo, quase amarelo, quando os dois se encontraram finalmente. Àquela distância seus olhos já lhe falavam muitas coisas, e o que eles diziam era algo que no fundo ele não gostaria de ser capaz de entender. Eles falavam de tristeza, dor, medo e lamento. Ele não conseguia compreender tudo aquilo, como fora apanhado daquela forma violenta por algo tão subitamente intenso, e muito menos compreendia aquela tristeza no semblante dela. Ela falou, e quando o fez nada aumentou na sua alegria.

— É a nossa sina… Sempre foi… Por mais que sempre tentássemos fugir dela.

E não disse mais nada, apenas recostou a cabeça entre o peito e o ombro dele… E chorou. Menos de tudo cada vez mais ele entendia, mas, como desistira já a algum tempo de tentar lutar contra a confusão que o tomava, ele simplesmente a envolveu em seus braços e ali se deixou ficar, também sufocado por um inexplicável desejo de chorar. Pois, naquele momento, abraçado a ela daquela forma, soube que a partir de então a sua vida nunca mais seria a mesma.


*****


Cerca de quarenta minutos depois ele descia as escadas, olhando uma vez mais para o segundo andar ao chegar ao último degrau, e encontrava Margit à sua espera, sentada em um conjunto de estofados que ficava à volta de uma mesa de centro de aço e vidro. Ao vê-la, sentiu-se um pouco acanhado, como se de alguma forma estivesse em dívida com ela, sensação essa que sempre sentia na sua presença.

— Sente-se, jovem Mathews, não te sintas desconfortável. Como já me referi, és bem-vindo nessa casa.

— O quê se passa comigo, Senhora? Por que, na sua presença, me sinto tão compelido a laivos de sinceridade? Por que me porto dessa forma submissa? Por que me sinto tão envergonhado… E por que raios eu estou lhe perguntando tudo isso?

— Porque estás em minha casa, jovem Mathews, e sob meu teto não há espaço para mentiras ou dissimulações, pois essa é a minha determinação. E porque me deves e sabes disso em seu íntimo, Demian Mathews. Tu me deves, e deves muito.

— Eu lhe devo? Não faço a menor idéia do que esteja falando, Senhora Szabó!

— Claro jovem Mathews, eu não esperaria nada diferente, já que existe muito do que não saibas e mais ainda do que não compreendas. Contudo ajudar-te-ei a que conheças um pouco mais a respeito da verdade. Toma, aí está o que desejavas saber a respeito de minha filha. Espero que tu e teus companheiros façais bom uso do que encontrarão.

Ela lhe indicava com a mão uma pasta sobre a mesa de centro. Depois de abri-la, constatou que se tratava de nada mais nada menos do que o Histórico Médico de Gimely.

— Acho que compreendo ainda menos do que imaginava. Há poucas horas a Senhora estava disposta a retirar Gimely da UCL e agora me entrega de mão-beijada algo que se constituía até então em um segredo bem-guardado. Por que isso, Senhora?

— Na minha idade já aprendi a perceber quando as Teias do Destino roçam meus calcanhares, rapaz. E estou velha demais para tentar rompê-las, jovem Mathews, ainda mais quando elas roçam os meus calcanhares pela quinta vez.

— Como… O quê você está dizendo? Quê quinta vez? Isso não faz sentido nenhum! Nunca tinha entrado em contato com a Senhora ou sua filha antes!

— Jovem… Talvez tu venhas a compreender mais de toda essa situação no futuro, talvez não. Em todo caso, não é essa a hora nem esse o lugar para maiores explicações. Contenta-te do que tens e dá tempo ao tempo.

— Suas palavras ofendem minha razão, mas despertam meus instintos. Algo me diz que o que me diz não é sandice, por mais estapafúrdio que me pareça.

— Tu não és um tolo, jovem Mathews. Sabes que ainda tens muito a aprender. Sê paciente e persevera, pois minha filha não é um ser de manufatura vulgar, ela é feita de uma cepa reservada a poucas, portanto é extremamente rara… E exige cuidados que outras não exigiriam. Ela não é uma margarida comum e sim uma rara bromélia, jovem Mathews. Já antevistes isso e sabes que não é proselitismo maternal o que dita as minhas palavras, mas a mais pura expressão da verdade. Agora vai jovem Mathews, sei que deves ter outros afazeres em lugares diferentes e não deves mais perder teu tempo. Vai.

— Gimely… Ela ficou dormindo, em seu quarto. Eu… Bem, Senhora, eu lhe garanto que, no tempo em que estivemos lá em cima, nós… Bem, que ela… Ela apenas chorou no meu ombro por um bom tempo e… Adormeceu. Garanto-lhe que não aconteceu nada, Senhora.

— “Não aconteceu nada…” Talvez eu tenha me enganado. Parece que tu és sim um tolo no final das contas, jovem Mathews.

— Hã… Claro… Não foi isso que eu quis dizer… Houve sim muita emoção, como não consigo explicar… Mas, Senhora, e agora, como ficam as coisas? Será que ela vai desejar me ver de novo? E se ela desejar… Poderei vir até aqui, com a sua permissão?

— Estás te portando como uma criança, coisa que não és. Ela é quem deverá decidir a respeito disso, jovem Mathews, entretanto não vejo por que razão ela não o quisesse receber novamente, já que foi ela quem te convocou aqui hoje. Agora vai, e volta em breve.

E assim ela o despediu. Já na rua, deu uma última olhada na direção da casa que, apesar das estranhezas que ali dentro haviam ocorrido, ainda lhe parecia bela nas suas linhas perfeitas e de dimensões adequadas. E que agora lhe parecia ter o adicional de ser envolvida por aura solene, majestosa… E misteriosa. “E essa de Gimely me haver ‘convocado’? Que diabos ela quis dizer com isso?” Perguntou-se ele. E perguntou-se também, e com muita franqueza, talvez ainda contaminado pelo “espírito” do lugar, por que razão obscura estaria ele fazendo tamanho esforço para vir a se tornar o mais novo integrante da Família Addams…

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