Pelo que se foi... - Capítulo 13 - Ambições

08 de Outubro de 2011 TFJ Contos 916

Treze


Ambições



Marie Anne teve de interromper seu serviço para atender ao celular que tocava. Muito mau-humorada, deixou a quadra e caminhou apressadamente até o aparelho. “Telefone cretino... Quem será numa hora dessas? Todos sabem que odeio ser interrompida quando estou jogando!” Como se todos que pretendessem lhe ligar tivessem a obrigação de saber o que estava fazendo no momento, sempre que desejassem falar com ela, apanhou o telefone com raiva e olhou para o identificador. A chamada vinha pela linha reservada, e logo só poderia ser originada por umas poucas pessoas.

— Alô, quem fala?

— O quê você está fazendo, sua louca! – berrava a voz de Guilherme do outro lado – Você disse que não iria interferir! O que andou aprontando?

— Louco é você, seu desmiolado! Que idéia é nessa de falar comigo desse jeito?

— Eu pensei que tivéssemos um acordo, que você não ia se meter com o meu agente no Caso Lombard!

— Do que você está falando? Meu pessoal não se meteu com o seu precioso agente coisa nenhuma! Enlouqueceu de vez, homem?

— Pois sim... Pois saiba que meu agente está inutilizável, totalmente fora de combate. E tem um dedo seu nessa história, disso eu tenho certeza! O que você fez, colocou também alguém lá, não é mesmo? Vamos, admita logo!

— Do que está falando, seu doido? Lá aonde?

— Na UCL, é claro, é lá que o meu agente está! Vai me dizer que não sabia disso desde o início? Não caçoe da minha inteligência, Marie Anne! Por que foi fazer isso? E quem colocou lá? Ah, não, isso você não precisa me dizer... Foi ela, não foi? Você mandou aquela pervertida da Lammermoor, não foi isso? Quem mais seria!

— Dobre sua língua quando falar de Lammermoor, seu anão megalomaníaco! Ela é uma das Grandes Senhoras e não é nenhuma pervertida! E além de ser um dos Arcanos e Senhora de Acc’ruch, o que por si só já exigiria para ela um pouco mais de respeito da sua parte, ela é minha amiga Guilherme, eu não vou admitir que a insulte na minha presença!

— É uma pervertida sim, uma bruxa maquiavélica e depredadora! E anão megalomaníaco é o seu intelecto, se acha que vai resolver alguma coisa soltando um tubarão num aquário de peixes!

— É melhor que paremos com essas ofensas e conversemos como duas pessoas civilizadas, Guilherme, pois do contrário... Do contrário eu vou acabar te matando, seu velho miserável! O que você está pensando, que pode fazer o que quiser às escondidas, sem dar explicações a ninguém, e ainda ter o desplante de querer me interrogar a respeito das minhas ações? Você enlouqueceu de vez, Guilherme!

— O fato é que nós tínhamos um acordo, você não ia se meter com o meu agente, mas na primeira oportunidade soltou aquele monstrinho na cola dele! Não adianta você negar, só pode ser ela Marie Anne, ninguém mais ia conseguir confundir o meu agente da forma que aconteceu e continuar oculto! Por que você fez isso?

— Mas do quê você está falando, homem... Guilherme, eu até desconfiava que seu agente estivesse lá, mas o fato de ter mandado Marcia não teve nada a ver com ele... Aquilo lá é um antro da Ordem Branca, suspeitávamos disso e agora temos a confirmação. Eu a mandei para tirar três dos nossos de lá, não teve nada a ver com esse seu agente...

— Eu imaginava isso, Marie Anne, é esse exatamente o problema. Você a mandou tirar de lá o meu agente!

— Você está usando uma Criança, Guilherme? Não posso acreditar nisso...

— Não uma Criança, um Adolescente. E não um Adolescente qualquer, mas um Adolescente que é também um Arcano.

— O Arcano Zero... Mas agora tudo ficou claro! Foi você quem mandou a Princesa, era esse o motivo de ela se recusar a falar conosco! Ela é o seu agente! Eu nunca imaginei que você tivesse tanta coragem... Mas por quê? Então o que se passa lá é muito maior do que você queria fazer parecer! Você está maquinando isso tudo a muito mais tempo do que disse a princípio, pois ela está em recesso há mais de quatro anos...

— O Plano é mais antigo do que isso. Por favor, agora que já sabe quem é meu agente, talvez você dê-se por satisfeita em sua sanha de saber e tire a desvairada da Lammermoor de lá. Ela não vai sair de lá, Marie Anne, não sairá por que não pode sair até que sua missão esteja concluída. Nesse ritmo elas vão acabar colidindo, e se isso acontecer, vão causar ainda mais danos do que a Ordem Branca poderia nos fazer.

— Você tem idéia do que fez? Mandou uma cigana investigar nazistas... Num covil da Ordem Branca. Ela é da Linhagem Antiga, Guilherme, ela é a nossa Princesa Herdeira e uma das Grandes Senhoras; você devia ter demonstrado mais respeito por ela! Além do mais... Ela é esquizofrênica! Guilherme, como você pretende controlá-la? E se algo de ruim se der a ela, nos veremos diante da Guerra Civil!

— Não acredito em lendas antigas, Marie Anne. A incumbência que eu precisava passar era de tal importância que só havia duas pessoas realmente aptas a executá-la. Uma era O Louco, a outra O Demônio. E tendo de escolher entre ambas, bem ao contrário de você, ao que vejo, sou mil vezes Nossa Princesa do que a destrambelhada da Lammermoor. Além do mais, Marie Anne... Você acha realmente que mesmo eu seria capaz de obrigar Jih’ehmn ab’n Rhoysh a fazer alguma coisa contra a sua vontade?

— Você é louco se pensa assim. E mesmo que não acredite em “lendas antigas”, saiba que a maioria de nós acredita nelas. Eu estava lá, Guilherme, não se esqueça disso, e eu sei que haverá guerra sim, caso a última filha de nossa Rainha morra. Ela é o nosso bibelô, Guilherme, e me espanta sua aparente ignorância do quanto a Ordem Negra a ama. Você não tem um pingo de lealdade para com a Casa Real, e isso me dá náuseas. E você expôs a Herdeira de Rhoysh. Não tardará até que a sua irmã apareça.

— Isso é uma fábula, Marie Anne. Além do fato de ela não estar correndo risco algum exceto o de Lammermoor, é claro. Tire-a de lá.

— A situação não é tão simples quanto você quer fazer parecer. Preciso pensar melhor no caso e depois lhe digo qual foi minha decisão.

— O tempo urge, não o deixe escorrer igual areia entre os dedos. Até breve.

Depois de desligar o telefone, Marie Anne ficou ali parada refletindo, pois seu ânimo para a partida desaparecera. Uma névoa encobria as ações de Guilherme. Ela sabia que ele não lhe contara tudo, e muito menos lhe dissera quais eram as suas verdadeiras intenções. E tinha consciência de que uma tempestade se avizinhava.

*****

No outro lado da linha, a situação se desenrolava de forma um pouco diferente.

— E então, Guilherme, como se desenrolou a conversa? – perguntava a jovem loura sentada- à frente do computador.

— Tudo se desenvolve dentro das estimativas, Catherine. A mensagem foi passada, e de qualquer forma que Marie aja agora, será em nosso proveito. Como vão as projeções?

— Conforme o esperado. Se os dois Arcanos continuarem próximos, há oitenta e nove por cento de chances de um confronto direto, e cem por cento de chances de conflitos em menor escala. Se O Demônio se retirar, as chances caem para vinte e dois por cento, mas nesse caso a probabilidade de confronto do Louco com a Ordem Branca sobe para mais de noventa por cento. De qualquer forma você vence.

— Por certo, querida. O confronto que desejamos é inevitável... De qualquer lado que venha. Marie Anne quase pôs tudo a perder quando não comprou a briga que propus e decidiu jogar em vez disso. Felizmente estávamos preparados para Lammermoor, pois possuíamos um plano de contingência.

— Teria sido bem mais fácil para você se ela tivesse simplesmente o atacado, não?

— Sim... Ela me atacaria e então... Eu a mataria. E já estaríamos em guerra agora. Mas como ela foi esperta demais, agora precisei entregar o nome da Szabó para ela.

— O problema é que se você a tivesse realmente matado, eu não lhe daria vinte e quatro horas como expectativa de vida...

— Por algumas coisas vale a pena se morrer, Catherine. Afinal, quem quer viver para sempre? Escute, você está levando em consideração nas suas projeções o Fator Mathews? O que sabemos dele até agora?

— É uma incógnita, tenho de admitir. O sistema dá sessenta e três por cento de chances de se tratar de um Híbrido, mas o total da sua capacidade potencial de interferência no “horizonte de acontecimentos” é ainda uma abstração não quantificável... É um elemento isolado de um grupo, Guilherme, não serve como parâmetro estatístico até que sua interação seja cognoscível.

— “Horizonte de acontecimentos?” Quer dizer então que nosso jovem amigo é na verdade um Buraco Negro?

— Ele é uma Singularidade sim, Guilherme, não faça troça disso. É o único fator incongruente nos meus cálculos. Não creio realmente que possa interferir de forma decisiva no processo, mas o simples fato de não poder fazer projeções a seu respeito me incomoda. E se não for apenas um Híbrido Não-Desperto? E se for um agente da Ordem Branca? Ou pior... E se for uma ferramenta dos Fatores Externos?

— Não creio nessa última hipótese. Quando a Matemática falha, nós devemos apelar para outros recursos, e meu instinto diz que ele não é Externo, pelo menos não de forma direta. Mas ele pode sim mudar alguma coisa.

— Por que não o eliminamos logo, então? Acho que seria bem mais simples assim.

— Algo me diz que isso demoliria com o Plano. Não, por hora pelo menos, devemos apenas monitorá-lo.

— Não duvido de suas habilidades únicas, mas tem algo que preciso lhe mostrar. Veja esse cenário que terminei hoje. No curto-prazo, nada interfere. Mas veja aqui essa curva... Há treze por cento de chances de um fator imprevisto reduzir nossas probabilidades de sucesso, no final, de noventa e oito por cento para apenas sete. Acho que o fator imprevisto é a Singularidade que detectei. Acho melhor que você o mate, Guilherme.

— Seus cálculos não estão errados, Cat, mas seus pressupostos sim. Você calcula nesse cenário como prerrogativa final, por exemplo, a derrota da Terceira, e aponta para tanto probabilidades de algo abaixo de quatro por cento, correto?

— Exato. Impraticável de fato.

— Mas o resultado desse cálculo somente surge por que seu programa não pode levar em consideração o imponderável. Eu posso fazer isso, Cat, e digo que na verdade a probabilidade de derrotarmos A Terceira é igual a zero. Não pode ser feito.

— Mas o que você está dizendo? Qual é a finalidade disso tudo, se não a de derrotarmos Ela?

— Cat, quatro por cento seria a probabilidade inicial que eu possuiria de matar Marie Anne. Eu poderia tornar essa probabilidade em cem por cento devido às minhas habilidades especiais, ao fator surpresa, ao conhecimento prévio de suas vulnerabilidades e contando com uma boa dose de Sorte, que com certeza não me faltaria. Mas a Terceira não possui vulnerabilidades, Cat, derrotá-la é impossível e nunca foi nosso objetivo.

— Você fala do imponderável como fator preponderante. Não sei para quê precisa de mim, Guilherme, pois com esse tipo de fatores eu não trabalho. Odeio paradoxos.

— A Terceira é um Paradoxo Vivo, já devia ter se acostumado com isso. Você estava lá não estava? No Bósforo? Você já a viu em ação.

— Vi, e fui uma das poucas que sobreviveram. Eu, Lammermoor, Marie Anne e alguns poucos mais. Aquilo me dá arrepios até hoje, Guilherme, ainda tenho pesadelos. Ela não é mesmo um ser humano, é uma Força da Natureza... E sempre pensei que a derrubaríamos, no final.

— Seria inútil tentar. Sugiro que não pense mais nisso.

— Tudo bem para mim então. O Plano prossegue sem maiores alterações, pois as projeções mostram ser indiferente o fato de Marie Anne saber ou não que Szabó é o seu agente no Caso Lombard. Seu raio de ação é muito estreito, assim como o de todos os envolvidos. A partir de agora uma interrupção só poderia partir de uma fonte imponderável.

— O Imponderável é exatamente o que me preocupa Catherine, pois estamos cercados por ele a toda a nossa volta. E eu sou a prova viva de que ele pode ocorrer no próximo minuto...

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