Pronta para ir

01 de Novembro de 2011 Caroline França Contos 1003

A rua estava deserta, afinal era madrugada. A chuva caía forte, o chão ficava cada vez mais escorregadiço e, para a moça vestida em trajes de gala, era extremamente difícil andar com seus sapatos de salto alto. Seu guarda-chuva era empurrado pelo vento e tinha a sensação de que, a qualquer momento, o perderia. Levantou os ombros com descaso e o soltou, molhando-se imediatamente.

Pensou no quanto sua situação era medíocre: não tinha companhia e, muito menos, um veículo que pudesse levá-la até sua casa. Dinheiro? Não tinha nem para comprar um mísero cigarro. Ficara tão atordoada, que esquecera sua bolsa sob a mesa do baile. Ah... o baile! Não sabia o porquê de ainda frequentar esse tipo de evento. Tinha que fingir sorrisos, se comportar como uma verdadeira dama da alta sociedade e suportar a falsidade de todas aquelas pessoas. Sentia-se vazia, pois não tinha em quem confiar, nem com quem conversar. Todos, de alguma forma, a julgavam o tempo todo simplesmente por ter uma opinião diferenciada. Seu marido olhava-a com desprezo todas as vezes que expunha o seu ponto de vista e, no mesmo instante, calava-se. Realmente era desprovida de conteúdo ou eram as pessoas que não a compreendiam?

Fingir ser uma pessoa que não era, deixava-a extremamente frustrada. Por quê tinha que submeter-se aos caprichos do próximo e esquecer de si mesma? “É insano!”, pensou. Ninguém mudava o modo de agir para atendê-la e, Deus, como seria bom se o fizessem! Seria maravilhoso ver o quanto as pessoas se sentiriam incomodadas por terem de agir de uma maneira que não condiz com suas personalidades. Finalmente entenderiam o quão desagradável é a situação.
Seus pés já estavam cansados e retirou seus sapatos. Seu cabelo estava despenteado e sua maquiagem, borrada. Sentou-se no passeio e pôs se a relembrar os acontecimentos da noite.

Todos se divertiam e conversavam sobre assuntos que não lhe interessavam e, assim, contentava-se em sorrir quando necessário. Bebia seu whisky vagarosamente enquanto observava o marido conversando com outra mulher. Ele jogava a cabeça para trás e, o som das suas gargalhadas, só era abafado por conta da música alta. O assunto parecia interessante, pois estava compenetrado no que a outra lhe dizia. A moça perguntou-se quando fora a última vez que conversaram assim e, se deu conta, de que nem se lembrava mais, tamanha a distância que existia entre eles. Levantou-se sem pestanejar, deixando tudo para trás – lembrando-se somente de seu guarda-chuva – e saiu pela madrugada.

Ali, sentada na calçada imunda, chegara à conclusão de que nada naquela cidade fétida, lhe atraía. Precisava conhecer pessoas, viajar, espairecer... Precisava encontrar algum lugar em que não precisaria fingir ter uma personalidade que não tinha. Possuía a necessidade de livrar-se de toda a pressão e de ser livre para decidir que caminho seguir. Mesmo com tantas pessoas ao seu redor, sentia-se sozinha. Estava exausta. Levantou-se e, antes de dar um passo, fitou a pequena e delicada aliança em sua mão esquerda. Sem pensar duas vezes, retirou-a de seu dedo anelar e a jogou na pequena correnteza que se formara no canto do asfalto. Sua vida estava sendo levada pela enxurrada, mas não se importou. Seguiu em frente e foi atrás do que realmente queria para si.


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