Pelo que se foi... - Capítulo 14 - Carmen Parte 01

03 de Novembro de 2011 TFJ Contos 858

Catorze


Carmen



Às dezenove horas em ponto, como cabe a qualquer bom cidadão britânico, Mathews perfilava-se empertigado junto à porta da residência Szabó. Não conseguia deixar de sentir-se um tanto ridículo naquele momento, coisa que sempre acontecia quando era obrigado a usar tuxedo, pois odiava vestir qualquer roupa que não fosse azul e pré-desbotada. O requintado capote de lã cinza pesava uma tonelada sobre seus ombros, o colarinho duro da camisa ridiculamente alva coçava seu pescoço, os sapatos novos, pretos e reluzentes de tão polidos, apertavam seus pés, e a gravata… Bem, era melhor não pensar na gravata. Só o fato de usar uma já o fazia sentir-se um imbecil. E quando pensava no roteiro programado para a noite, então, daí sim seu desconsolo atingia o clímax. A que ponto essa mulher conseguia fazê-lo chegar! Foi emburrado, com pensamentos desse tipo, que tocou a campainha ao lado da porta, não conseguindo evitar uma última lembrança nas vinte mil libras que aquela noite já lhe custara.

“E tudo isso por uma mulher que eu nem comi!”

Estava pasmo consigo mesmo pela forma como fora conduzido mansamente por esse caminho, primeiro pelas insinuações de Gimely, depois pelas instruções de Amanda. Sentia-se um idiota pela maneira como vinha agindo nas últimas semanas, desde que aquela garota esquisita atravessara-se na sua vida. A primeira vista se irritara com a sua arrogância e empáfia. Depois, começara lentamente a perceber alguns traços interessantes na dondoca. Mais adiante, acabou por se convencer até mesmo de que ela era bonita, coisa que nunca reparara antes. Até que chegara ao ponto de cometer o extremo absurdo dessa tarde… Esse era o estado de espírito em que se encontrava Demian Mathews, flutuando entre a amargura, a autopiedade e o desconsolo, prestes a virar as costas e sair correndo chorar suas mágoas para uma caneca de cerveja, quando repentinamente ele foi trazido de volta à realidade pela porta que se abria em resposta ao seu chamado. E toda a sua autocomiseração então desapareceu como por mágica, pois somente pela visão que agora tinha, pagaria alegremente não apenas vinte, mas duzentas mil libras.

— Hã… Boa noite… Você está… Está… Tão… Tão…

Mathews já havia se surpreendido antes, mas nada que pudesse se comparar com a sensação que sentia agora. Gimely atendera a porta, e o que ele vislumbrava lhe parecia algo como a primeira prova irrefutável da existência de Deus. Ela vestia um longo preto de tecido acetinado, que se colava ao seu corpo exibindo curvas que ele jamais imaginara que ele possuísse.

Seus longos cabelos louro-cinzentos estavam presos sobre a cabeça, de alguma maneira que ele não conseguia adivinhar qual fosse, deixando uma mecha caída sobre uma de suas faces. Sua cor realçava o tom da sua pele branca e de seus olhos, que pareciam surpreendentemente castanhos uma vez libertos da habitual barreira que costumavam representar aqueles seus pesados óculos. E, em volta do pescoço, ela exibia a delicada peça que Mathews com tanto sofrimento lhe presenteara. E ele então se esqueceu do dinheiro gasto, arrependeu-se por ter lamentado tão mesquinhamente o presente que se vira “obrigado” a lhe dar, e agradeceu à humanidade por ela haver descoberto o ouro, os diamantes, e por ter criado os ourives e a forma de combinar tais preciosidades em algo como aquele colar. E teve a firme convicção de que nenhum outro pescoço sobre a face da Terra, além daquele, mereceria tê-lo a lhe adornar suas formas.

Contudo, apesar daquele breve momento de enlevo, os protagonistas de tal cena ainda eram Demian Mathews e Gimely Szabó, o que significava necessariamente que o encanto teria que se quebrar a qualquer momento. E foi Gimely quem tomou a dianteira no processo, pois ainda não respondera aos cumprimentos do embasbacado Mathews.

— Tão… Espantosamente bela? Tão… Inacreditavelmente encantadora?

Perguntou ela, já então com uma leve insinuação de ironia no seu tom de voz. Ela jogou a isca e Mathews, ainda sedado pelo choque que sofrera, inocentemente a abocanhou. E com toda força.

— Sim… Era em algo assim que eu pensava… O que foi que você fez?

Só então ele percebeu o tamanho do erro que cometera, mas aí já era tarde demais. Pois as faces dela se enrubesceram e ele viu surgir aquela sua costumeira cara torcida, quando ela apertava os olhos e fazia aquele seu biquinho pirracento característico com os lábios. — traço que Mathews não saberia dizer se mais o irritava ou encantava — E ela então, munida de sua usual verborragia, lhe disparou, completamente irritada:

— Oh, nada demais, na verdade. Só que depois da sua visita de hoje à tarde, eu voltei ao útero de minha mãe, ela gestou mais uma vez e eu nasci de novo! Só assim para que eu pusesse ficar bonita!

E assim, tendo sido devidamente dissipado qualquer vestígio de magia ainda presente no ar, Mathews pôde enfim se recompor, e ambos puderam então prosseguir seu diálogo no seu tom costumeiro.

— Hunpf! Começamos bem. De novo.

— Não sei onde ando com a cabeça pra sair com você, seu… Seu… Seu troglodita!

— Ei! Alto lá, você não precisa me insultar desse jeito! Você tem a sensibilidade da nitroglicerina, Gimely!

— E você a de um camelo, Demian!

“Ei, ela me chamou de Demian, não de Mathews!”

Ele ficava cada vez mais estupidificado com a maneira que começara de um tempo para cá a se importar com aquela garota. Mesmo depois da forma como ela o tratara, de toda a cena ele só conseguira apreender isso: Ela o chamara somente pelo primeiro nome! Era a primeira vez que isso acontecia. Parecia que ela havia caprichado tanto só para agradá-lo, e ele…

“Ah, Inferno! E essa agora… Eu comecei a me sentir culpado! Não tem explicação pra isso. Ela me desanca e eu ainda me mortifico pelo destempero dela. Isso só pode ser paixão, mesmo!”

E ficou ele algum tempo assim, sem saber como agir, somente observando a esguia figura parada poucos passos diante dele. As expressões de seu rosto demonstravam uma convulsão de pensamentos em seu íntimo, mas, aos poucos, ela pareceu então acalmar-se. O rubor em suas faces diminuiu e Mathews, decidido a desfazer o constrangimento que pairava então no ar, falou com a expressão mais sincera que conseguiu:

— Vamos começar de novo, está bem? Boa noite Gimely, você está… Linda, deslumbrante. A mais bela mulher que já vi, com toda certeza.

O rosto da garota voltou a ficar vermelho, mas agora pelo que parecia ser um súbito acanhamento. Depois de algum tempo do que pareceu serem instantes de hesitação, ela o respondeu, com certa dose de constrangimento em suas palavras.

— Boa noite… Demian. Você também está muito elegante, muito… Charmoso, poderia dizer. Quer entrar por alguns instantes? Ainda tenho algumas coisas para preparar…

— Hã… Eu adoraria. Mas, será que assim não vamos acabar nos atrasando?

— Acredito que não. Entre, por favor.

Um tanto contrariado ele acedeu ao convite e entrou na casa, não sem antes lançar um olhar na direção da limusine que os aguardava. Se é que ele conhecia algo sobre as mulheres — e ele tinha boas razões para crer que sim — podia jurar que estavam agora correndo o sério risco de acabarem, sim, atrasados. Mas no final das contas tanto fazia para ele, afinal, nunca estivera muito empolgado com a idéia de perder uma noite indo à Ópera. Embora tanto os ingressos quanto as torturantes reservas que fizera para o restaurante houvessem lhe custado uma boa dose de paciência para consegui-las… Mas logo se esqueceu também dessas considerações, pois admirar Gimely enquanto seguia os seus passos através da mansão acabou por se revelar uma atividade bem mais interessante. Ela lhe pareceu extremamente graciosa enquanto seguia pelos corredores e salas da casa, e naquela hora lhe pareceu que ela lembrava uma de suas tias. Ele estava cada vez mais surpreso com suas reações — que Diabo de comparação é essa? Mas na verdade sua comparação fazia todo o sentido, e logo ele compreendeu o porquê de tal. Ela caminhava como uma modelo… Não, não como uma modelo, pois não rebolava ao caminhar. Como uma de suas tias — com o rosto altivo e a postura rigidamente serena e ereta, típica das mulheres que aprenderam desde meninas a descer escadas equilibrando um volume da Enciclopédia Britânica sobre a cabeça. Ela caminhava como uma aristocrata, e uma da escola antiga.

Algo girava na sua cabeça, algo de surreal estava acontecendo e ele não compreendia bem o que era. A cada momento ele descobria algo de novo sobre a garota, e isso por si já era desconfortável para ele. Demian Mathews não estava acostumado a ser surpreendido por fatos imprevistos, muito menos a que isso acontecesse repetidamente. Estaria ele ficando louco? Como podia ter-se transformado aquela garota desengonçada que estava acostumado a ver na universidade, quatro-olhos e “riponga”, dessa forma, praticamente diante dos seus olhos? Essa Deusa esteve sempre lá, era só ele que, por alguma razão obscura não conseguia vê-la? O fato de ela ter implicado tanto com ele desde o princípio o fizera enxergá-la de forma errada? Ele não podia acreditar em tal hipótese, nunca deixara impressões negativas influenciarem seu senso crítico. Mas não conseguia reconhecer a garota alta, magra, levemente encurvada e de cabelos desgrenhados que estava acostumado a ver naquele… Naquele monumento que desfilava à sua frente! O que houve, ela era uma lagarta e agora se tornou numa borboleta?

“Ai, de mim! Se aquela menina esquisita, que me contrariava em tudo e me tratava quase com desprezo conseguiu que eu lhe desse um colar de diamantes e a convidasse para a Ópera… Veja só, A Ópera! Então… Então o que ‘essa’ vai conseguir fazer comigo?”

Eles haviam chegado à sala de estar, e foi com alguma infelicidade que ele se viu forçado a parar de seguir a garota. Na sala eles encontraram a mãe de Gimely a… O que ela estava fazendo, mesmo? Mathews custou um pouco a acreditar no que via, mas Margit estava de fato… Tricotando! Ele tentou conter sua surpresa — mais uma… —, temendo por algum motivo que sua expressão denunciasse seu espanto, e o que menos desejava era enfrentar outro atrito com aquela família tão prendada e de ânimo tão sensível. Mas Margit lhe dirigiu um sorriso bondoso e lhe deu um suave “Boa noite, jovem Mathews.” E então um calafrio percorreu sua espinha, pois quando olhou para Gimely percebeu que ela lhe falou sorrindo.

— Demian… Na verdade acho que lhe devo desculpas. Eu exagerei agora a pouco, não precisava ter sido tão ríspida com você.
“Ela está sorrindo! É a primeira vez que ela sorri para mim? Não, não é… É a segunda, a primeira vez foi naquela noite, no táxi…”

E ele não se preocupava mais com a infantilidade visível nas suas atitudes, aquele sorriso aniquilara de uma vez por todas as últimas das suas resistências. Agora não lhe importaria mais se precisasse tornar-se dali para frente em seu escravo, contanto que pudesse continua a ver aquele sorriso. Sua estupefação deveria estar visível em seu rosto, pois foi quase como se ela houvesse “lido” seus pensamentos. Seu sorriso para ele alargou-se de forma agradável e encantadora, e ela falou naquele tom melódico que fora a primeira característica fascinante que percebera nela, tempos depois de conhecê-la.

— Oh, Demian… Preciso ser sincera com você. Tenho certeza de que só estou sorrindo por que tudo o que vejo do seu rosto é um borrão pálido. Caso contrário, eu estou certa de que me irritaria se visse a sua expressão, se ela estiver parecendo tão pateta quanto imagino… Não seja tão bobo Demian, está parecendo que você nunca viu uma mulher antes. Você está parecendo… Um nerd!

— Humm… Tecnicamente acho que posso ser considerado como um.



(Continua...)

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

Leia também
" Amar é" há 2 horas

Amar e como voar, no mais azul dos céus. É sentir a sensaçao de estar n...
joaodasneves Poesias 4


PAU DE FITAS há 7 horas

PAU DE FITAS Dançam as raparigas cá em roda D'um mastro d'onde fitas ...
ricardoc Sonetos 4


PAU DE FITAS há 7 horas

PAU DE FITAS Dançam as raparigas cá em roda D'um mastro d'onde fitas ...
ricardoc Sonetos 3


Falta de Amor ao Próximo há 11 horas

A razão de viver é amar... Mas a maioria das pessoas vive o amor ao din...
a_j_cardiais Poesias 32


Amor a Deus x Amor ao Mundo há 12 horas

Nos dias do autor não havia automóveis como os luxuosos que existem em no...
kuryos Artigos 8


A Origem e a Razão de Ser de Tudo há 17 horas

Deus não criou todas as coisas para depois intentar formar uma Igreja. Ao...
kuryos Artigos 16