Conversas com uma santidade

05 de Novembro de 2011 Gisela Cardoso Contos 1101

Nasci em uma família fervorosamente católica. Sendo assim, fui batizada, frequentei catequeses e fiz a chamada Primeira Comunhão. Boa época essa da minha infância.
Na adolescência, frequentei novamente a catequese. Mas, desta vez para a chamada Crisma.
Meus primos, mais velhos do que eu, crismavam e a família inteira entrava em festa. Festa mesmo. Festa como aquelas de debutantes que sonham a fios pelos sagrados 15 anos.
Não entendi o porquê desta comemoração toda só por um ato religioso em pelo século XXI. Na verdade, crismei meio que forçada. Não queria ter que ir toda tarde dos sábados frequentar uma hora de catequese e ir em todos os domingos à missa. Mas, por preguiça mesmo. Na realidade, no meio da minha adolescência, não quiz mais saber de igreja. Nem de Deus. Nem de Cristo. Nem de nenhuma santidade. Uma rebeldia sem causa mesmo.
O padre da minha cidade, na época, não era visto com bons olhos. Ele era rígido. Ordenou que em todas as missas teria que haver uma lista de chamada.Logo, quem faltasse mais de 7 vezes nas missas e nas catequeses, o sonho de crismar ou comungar um dia iria dizer adeus.
Minha família fez com que eu andasse na linha. Confesso que sempre que apego à alguma coisa, eu começo a levar sério. Fui pontual. Ainda mais que a minha catequista era a minha tia avó. Sempre ia com ela. Sempre eu era a primeira a chegar.
Minha turma era pequena. Pelo que eu me lembre, não se passava de meia dúzia de pessoas. E obviamente, todos estavam lá contra a própria vontade, seguindo às ordens de mamãe e papai. Ou seja, descompromisso na certa.
Passaram-se um ano e meio. Finalmente, chegamos às vésperas da Crisma.
Todo bom católico bem sabe que antes de crismar ou comungar pela primeira vez, o indivíduo teria primeiro que confessar para o padre. Então, chegou o dia da confissão. Minha segunda e última confissão que eu fizera na vida. A primeira foi antes da minha Primeira Comunhão. A segunda e última, essa da Crisma.
Confesso que eu estava com medo devido à famosa rigidez do padre. Não via a hora de confessar e acabar logo com aquilo de uma vez. Obviamente, me preparei em casa. Já sabia o que eu ia falar. Minha avó, como boa católica medieva, me passou todas as orações.
Não me lembro se eu fui a primeira ou a segunda das pessoas que estavam ali presentes para confessar. Só sei que fui uma das primeiras.
Indo diretamente ao ponto, entrei na sala onde estava o padre à minha espera. Sentei em sua frente. Não me lembro de suas primeiras palavras, mas lembro do que eu confessei: não respeitava meus pais e ninguém, egoísta, adoradora de música satânica e apaixonada por Hitler.
Ele apenas sorriu para mim. Como boa adoradora do Heavy Metal, fui vestida ao meu caráter como eu sempre me vesti. Ele me perguntou:
" - Por que que você só se veste de preto assim?"
"- Aah...é Rock'n'Roll, né!?", disse eu.
Mais uma vez ele me observou e disse:
"-Pelo visto, você é daquelas pessoas bem certinhas. Daquele tipo que coloca o chinelo bem abaixo da cama para que quando levantar é só calçar de uma vez, não é?"
" - Ah, isso eu não faço não. Mas, eu sou meio perfeccionista sim. Mas, a minha irmã é mais."
" - Você tem irmãos? Quantos?"
"- Só uma. Ela é mais nova do que eu."
E ficamos nesse diálogo sobre a minha vida. Contei sobre a minha dura infância. O alcoolismo de meu pai, as tentativas de suicídio da minha mãe,minha anorexia,minha depressão, minha solidão,meu desejo de morrer.
Mal sabia eu que ele sofria o mesmo que eu. Pelo que eu soube muito depois, ele sofria depressão. Sofria muito mesmo. Se tornou padre devido a uma promessa que a sua mãe fez. Ele apenas queria viver como uma pessoa normal, mas não podia. Era a sua sina.
Ele me perguntou se eu frequentava algum psicólogo. Disse que frenquentava um psiquiátra. Na verdade, desde os meus 6 anos de idade.
Logo, ele me disse que o meu problema não poderia ser apenas resolvido pela psiquiatria científica, mas também pela espiritual. Meu espírito estava ferido. Na verdade, ele ainda está...
O padre me disse que me passaria um contato que poderia resolver o meu caso. Até hoje ele não me passou. Infelizmente, nunca mais será possível esse padre me passar esse contato...
Agora digo as palavras que eu nunca vou esquecer na minha vida sobre o que ele me falou:
"- Deus te colocou no mundo não foi por acaso. Ele te ama. Ele te ama como se você fosse o único ser que existesse nesse mundo!"
Nunca me esquecerei dessas palavras. Nunca esquecerei a face dessa santidade. Não sei o porquê que essas palavras me tocaram tão profundamente. Só sei que quando eu me lembro delas, meu coração aperta. Nem sei se é um aperto. Mas, me comove. Meus olhos enxem de lágrimas. Geralmente, essas palavras veem à minha cabeça quando a minha maldita depressão me atormenta nos meus dias de recaídas. Contudo, mesmo elas me causando um certo aperto, elas me confortam de alguma maneira.
Voltando ao dia, como ele não podia ficar jogando conversa fora por muito tempo comigo, ele pediu para que eu rezasse três Ave-Marias e três Pai-Nossos embaixo do cruzeiro que havia em frente da igreja.
Perguntou se eu sabia rezar o ato de contrição. Disse que sim e rezei. Segundo ele, Deus perdoou meus pecados e que podia ir embora.
Saindo da sala, passei em frente à sala onde estavam os outros crismandos. Despedi de todos e fui em direção do cruzeiro fazer o que ele me pediu.
Me sentia envergonhada quando o via na rua. Toda vez que ele passava perto de mim, ele me cumprimentava com um besliscão de leve. Pensava eu se eu era uma pecadora tão má assim. Logicamente, estava eu vestida de preto. Pensava então se era para mudar isso. Mas, eu apenas sorria timidamente com aquela carinha de sem vergonha.
Não sei onde este padre está. Mas, rezo por ele. Mal sabia ele como a minha vida estaria agora...

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