(Continuação:)



— Sim, claro… Um Nerd que “passou em revista” dois terços do elenco feminino da universidade. Não banque o tonto, isso não combina com você.

Ele continuava a sentir-se contagiado pela beleza e o glamour da jovem, pois ela continuara sorrindo enquanto falava. Mas, de repente, a “ficha caiu”.

“Ela falou isso na frente da mãe dela! Ai, ai, onde é que eu enfio a minha cara agora?”

Ele ficou rubro de imediato, mas logo percebeu que a menção de Gimely às conquistas amorosas dele não havia causado a esperável má impressão em Margit, pois, afinal de contas, ela ainda sorria amavelmente. E compreendeu que esse assunto não deveria — ou melhor, com tanto Gimely quanto Amanda convivendo diariamente naquela casa, não poderia — de forma alguma ser novidade para ela. E essa constatação elementar serviu para aumentar ainda mais seu constrangimento, até que Margit falou:

— Ora, minha filha, não há nada de surpreendente na atitude do jovem. Não existem tantas jóias raras entre dois terços da população da sua universidade. É natural que fique impressionado quando encontre uma.

Ambas continuavam sorrindo, e seus sorrisos agora pareciam a ele, acima de tudo, condescendentes. Mas, por algum motivo, a situação deixou de lhe parecer constrangedora. Talvez estivesse começando a se afinar com os costumes da família, pensou ele. Gimely terminava de aprontar-se e pegava uma pequena bolsa naquele momento, e, procurando parecer espontâneo, resolveu puxar assunto.

— Pela desenvoltura com que você se movimentou da porta até aqui, imaginei que estivesse usando lentes. Enganei-me, pelo que você disse.

— Sim… Em casa não tenho problema algum, conheço de cor cada caminho. Infelizmente, na rua as coisas não são tão simples. Mas eu nunca consegui me adaptar com lentes de contato. E de forma alguma iria a um evento social usando óculos… Eu seria o comentário de todas, por um ano inteiro, a menos que um meteoro caísse no local no mesmo dia.

Ela continuava sorrindo, e ele mais uma vez sentiu-se impressionado. Parando para pensar, percebeu que nunca antes imaginara Gimely como uma mulher vaidosa. Mais uma surpresa, e incrivelmente mais um motivo para ele se encantar por ela.

— Mas… Isso não é muito desagradável? Quer dizer, você não se sente mal em andar sem enxergar as coisas direito?

— Ora, eu não sou míope, Demian, eu sou quase cega. Minha visão não é normal nem mesmo usando óculos, na prática não usá-los não faz tanta diferença assim. O maior problema são as mudanças de nível no terreno, mas para isso, basta que nosso motorista estacione bem próximo do meio-fio e que eu segure bem firme no seu braço. Os degraus do teatro eu conheço tão bem quanto a minha casa, e uma vez lá dentro, também. Não haverá problema algum, eu lhe garanto.

Como Mathews estava bobo, parecia um garoto na puberdade! A simples menção de Gimely a respeito de segurar seu braço foi o bastante para deixar seus hormônios à flor da pele. — se é que vocês me entendem — E, para completar, Gimely prosseguiu:

— Além do mais, o que eu poderia temer, se eu estou acompanhada por tão valente cavaleiro, que correu em minha guarda quando eu nem mesmo estava sob sua tutela? E estando acompanhada pelo jovem mais belo de toda Londres, por que devo me preocupar em ver quem quer que esteja à minha volta?

“Deus… Ela disse mesmo isso?”

Aquelas palavras o levaram definitivamente às alturas, mas ele sentiu que já havia passado da hora de deixar de agir feito um imbecil. Imediatamente se recompôs o melhor que pôde, procurou afastar da mente as mirabolâncias em que havia se perdido e decidiu começar a se portar como Demian Mathews.

— Não acho que mereça tamanha deferência. Mas fico grato pelos elogios… E bastante vaidoso com eles, pode acreditar.

— Eu não rasgo seda, Demian, nunca digo uma coisa que não pense de verdade.

— Er… Hã… Bem, se estiver pronta, acho que podemos ir, imagino. A menos que ainda precise de algo… Ei! Mas, me diga uma coisa… Você não terá problemas pra acompanhar o espetáculo? Quer dizer, sem os óculos…

— Não se preocupe você não precisará ficar descrevendo para mim o que acontece no palco, se é isso que o aflige. — brincou ela — Mesmo por que isso não seria nada elegante, devo dizer. Mas nós vamos assistir Carmen e não uma apresentação do Cirque Du Soleil… Meus ouvidos são absolutamente normais, sem contar que conheço a peça de cor.

— E mesmo assim vai conseguir se divertir? — perguntou ele, com uma ponta de frustração em sua voz; que graça tinha em se levar uma garota a uma apresentação que ela “conhece de cor”?

— Mas é claro que vou — falou ela no meio de um sorriso, enquanto enfiava seu braço no dele — pois estamos indo apresentar a Ópera a você, e não a mim. O simples fato de saber que vamos expandir seus horizontes já é para mim satisfação o bastante por uma noite.

— Hein? Mas o que lhe dá tanta certeza assim de que eu vou gostar?

— Por uma razão muito simples… Carmen é um divisor de águas, ela separa os adultos das crianças. Se uma pessoa que nunca assistiu uma Ópera não gostar de Carmen, significa que ela nunca terá ouvido para assistir uma. E eu sinceramente não acredito que você seja uma dessas pessoas, Demian.

O fascínio tomou mais uma vez conta dele. Daquela distância de menos de um palmo que se encontravam seus rostos, admirando seu sorriso e a profundidade daqueles olhos castanhos, ele teve uma revelação. Não sabia ainda definir o que sentia por ela, mas uma coisa lhe pareceu absurdamente clara. Por mais estranho que isso pudesse parecer, naquela hora ele percebeu que ela se importava com ele. Que ela esperava uma opinião dele. Que a ela interessava o que ele pensava. Que ela queria que ele estivesse ao seu lado. Que ela o amava. E, como se tivesse ouvido algo que ele dissera, ela pousou a cabeça sobre seu ombro e falou meigamente.

— Sem contar que é uma Ópera Cult. Vamos, então…?

E de novo, vinda ele não sabia de onde, ele teve a certeza de que ela refreara as suas palavras. Ele praticamente pudera ouvi-la terminar a frase com um adjetivo — “Querido”. Margit então se levantou, visivelmente no intuito de acompanhá-los até a porta. Demian, cavalheirescamente, ajudou Gimely a vestir o seu mantô e eles já começavam a se deslocar em direção da saída quando Margit perguntou, de forma a aparentar displicência:

— Minha filha, não está esquecendo-se de levar seus óculos, está?

— Claro que não, mamãe, eu…

Mas ficou nítida que não era realmente direcionada a ela a pergunta, pois agora as duas olhavam interrogativamente para um atônito Mathews.

— Hã… Como devo entender essa pergunta?

— Como isso — falou Gimely, tirando da bolsa algo semelhante a um pequeno binóculo suspenso por uma haste. Esse é o principal motivo — continuou ela — pelo qual não me preocupo em usar meus óculos normais hoje. São óculos de ópera… E imagino que você não os tenha…

— De fato… Mas eles são indispensáveis?

— Bem, para mim sim, já que os meus são especiais, muitas vezes mais potentes que um comum. E se, como eu imagino, foi Amanda quem providenciou os ingressos, tenho certeza de que ela comprou lugares nas frisas… E nesse caso, dependendo da posição, talvez até você tenha dificuldade para acompanhar a peça… Mamãe, você poderia me emprestar os seus?

— Sem dúvida, querida.

Margit então saiu da sala, voltando logo em seguida com um exemplar bastante requintado do artefato que lhe fora apresentado por Gimely, armazenado em uma pequena e elegante caixa de madeira. Ela o entregou a ele, dizendo:

— Cuida bem dele, jovem Mathews. É uma relíquia de valor inestimável, está na família a gerações.

— Sem dúvida, senhora Szabó. A senhora os terá logo de volta intactos, lhe garanto.

Chegaram então até a porta, onde, durante as despedidas Margit fez a Mathews suas últimas recomendações. Ele ouviu-a, calado e pacientemente, embora soubesse muito bem aonde a conversa iria chegar.

— E não esqueças jovem… A jóia mais preciosa que estás levando consigo não é a que te emprestei… É a minha pequena princesa, a minha menina — e deu uma nítida ênfase à palavra “menina” —, a única jóia realmente insubstituível na minha vida. Portanto, cuida bem dela, e traga-a sã e salva de volta.

— Garanto isso ao preço da minha vida, senhora.

Mathews não fazia a menor idéia de por que dissera algo tão piegas, mas, dentre tantas coisas que já desistira nos últimos tempos, uma delas fora tentar entender por que sentia a necessidade de agir de forma quixotesca na presença da mãe de Gimely. E enquanto ele pensava assim, Margit então prosseguiu:

— Traga-a sã e salva jovem. Até a meia-noite.

Aquelas palavras tiveram o efeito de uma ducha de água fria em Mathews. E ele não precisava ser um místico para perceber que tiveram efeito semelhante em sua acompanhante, pois esse tipo de química passa por osmose, qualquer pessoa a sente no ar.

— Mamãe! Meia-noite…?

— Sim, querida, esteja em casa à meia-noite, como a boa Cinderela que sei que você é. — falou a mãe, com um sorriso levemente zombeteiro nos lábios — Agora vão, e divirtam-se.

— Está bem mamãe… — falou a filha, emburrada, enquanto ela e Mathews se despediam de Margit.

Enquanto os dois se dirigiam para a limusine estacionada à frente da casa, Gimely apertou o braço sob o de Mathews e seguiu pelo caminho ao seu lado, falando pausadamente, de um jeito sinistro e pirracento:

— Parece até que a dona Margit anda lendo meus pensamentos…

Mas, incrivelmente, naquele momento ele sentia-se bastante tranqüilo. Pela primeira vez em muito tempo, lhe pareceu que andava por caminhos conhecidos, pois no atual estado de espírito de Gimely, ela em nada se diferenciava de todas as mulheres que já conhecera. Sabia muito bem como tratar as mulheres — “comuns”. E vê-la se comportar como uma delas lhe trouxe um enorme alívio, embora sinceramente não desejasse permitir-se abusar da posição vantajosa que esse novo equilíbrio de forças lhe garantira. No duelo travado entre os dois desde o princípio, fora ele afinal quem vencera o primeiro round — pois fora ela a fazer a primeira confidência, mesmo que indireta e de conotação subjetiva. Ele tanto sabia que ela era uma pessoa extremamente inteligente quanto já pudera perceber que não se tratava de forma alguma de uma menina ingênua, e isso significava que seu aparente pequeno desabafo tinha o peso de uma verdadeira declaração. Era nesse momento que ele poderia colocar tudo a perder, pois chegara a hora em que também deveria dividir algo de seu com ela, caso contrário a colocaria em posição desconfortável, em evidente inferioridade de condições. Em muitas de suas relações ele mantivera esse desequilíbrio deliberadamente ao seu proveito, mas não era esse o caso de agora. Ele gostava muito daquela garota estranha, mais do que pensava ser possível, e não desejaria por nada que ela fosse magoada. Pretendia mesmo não decepcioná-la em qualquer das suas expectativas. Preferia ser sincero e lhe dizer exatamente o que pensava, mesmo que isso lhe retirasse a sua vantagem moral.

— Acho que é melhor assim, Gimely.

— Não acredito no que estou ouvindo…

— Não interprete mal minhas palavras, não a estou desprezando de qualquer forma. — ele sorria enquanto falava — Não deixei de notar que você tinha outros planos para o final de noite.

— Pretendia terminá-la de algum modo especial…



(Continua...)