Segundos de felicidade

06 de Novembro de 2011 Caroline França Contos 910

Despertou-se com o leve toque dos lábios da mulher. Abriu os olhos lentamente e sorriu preguiçoso. Sua mulher transitava pelo quarto, apressada para o trabalho. Suspirou lentamente e observou o céu cinzento pela janela. Lá fora, as pessoas andavam com pressa, os carros formavam um trânsito enorme, os comerciantes abriam suas lojas, os ônibus circulavam trazendo e levando passageiros... A vida agitada de sempre. A vida que inúmeros brasileiros levavam, inclusive a mulher. Menos ele.
- Estou saindo, amor! O café está na mesa. – A mulher de cabelos negros e longos disse e depositou um beijo molhado em sua bochecha.
Não respondeu. Apenas a observou saindo pela porta e sentiu o beijo, ainda estalando. Enquanto ela saía para trabalhar todos os dias, ele ficava trancado no apartamento pequeno e velho. A única companhia que tinha, era a dos móveis de mogno herdados da avó.
Levantou-se e andou pelo quarto à procura do maço de cigarros. Encontrou-o escondido no bolso da calça, mas só havia o maço, cigarro não tinha. Arremessou a calça no outro canto do quarto, irritado. Foi até à cozinha, em passos lentos, olhou a garrafa de café sobre a mesa pequena e sentiu uma enorme vontade de destruí-la. Mas não o fez. Ao invés disso, pegou um copo e serviu-se da bebida quente e negra. Tomou um gole, mas cuspiu logo em seguida. A bebida estava amarga e não havia nada para adoçá-la. Sua vida era amarga como o café. Sentia-se medíocre por não ter nada, por não ser nada na vida. Não podia dar melhores condições à mulher, não tinha emprego, nem um apartamento maior e melhor. Não tinha dinheiro para comprar açúcar e cigarro. Sua mulher trabalhava muito e ganhava pouco. Ela era inteligente, amável, graciosa e era capaz de conseguir um emprego. E ele, o que era?
A raiva e a frustração borbulhavam. Apertou o copo com força e acabou quebrando-o. O café misturou-se com o sangue que jorrava de sua mão. Não sentiu dor, sentiu certo prazer em se machucar. Podia descontar seus problemas em si mesmo. Era ele que precisava sentir a dor que agiria como um castigo. Castigo por ser uma pessoa que atraía a pena, não só de sua mulher, mas de todos a sua volta.
Saiu da cozinha e voltou ao quarto. Abriu a janela e respirou o ar puro da manhã. Inclinou o corpo para frente e tirou os pés do chão. O barulho ensurdecedor da cidade, de repente, desapareceu e ele estava voando. Toda a felicidade que não aparecera nesses anos, apareceu nesses segundos e ele estava livre. Livre de todo o fracasso e de toda mágoa. Livre de si mesmo.


Leia também
CIDADE DOS PATOS (cordel infantil) há 17 horas

Vivia na bela cidade dos patos Um velho pato que contava fatos De uma fam...
madalao Infantil 5


"Feliz...dia...de...São João" ... há 1 dia

Quem dera ir mais além, cantar mais alto Sobre esse chão salgado onde na...
joaodasneves Poesias 5


No Vento da Literatura há 1 dia

Gosto da poesia quando chega de surpresa... Pode não ter beleza, mas q...
a_j_cardiais Poesias 37


Bendito Amor Eterno há 2 dias

Quando pensamos que Jesus disse que todo aquele que lhe foi dado pelo Pai, ...
kuryos Artigos 14


"Vendo" há 2 dias

Hoje vendo um corpo sem alma, e um extrovertido coração partido, uma ...
joaodasneves Acrósticos 9


"Te amo vinho tinto" há 2 dias

Tu meu querido vinho tinto, és e serás a minha inspiração, Ter o cop...
joaodasneves Poesias 11